O ritual japonês do Hyaku Monogatari

Hoje falamos de uma curiosidade que, apesar de pequena, nos pareceu muito interessante. Os Japoneses têm um ritual, ou uma espécie de jogo, conhecido como Hyaku Monogatari. Traduzido à letra significa algo tão simples como “cem histórias”, mas a ideia-base passa por algo que a simplicidade destas duas palavras não consegue captar.

As velas para um Hyaku Monogatari

Essencialmente, a ideia do Hyaku Monogatari é ir para um local de completa escuridão e juntar algumas pessoas no interior de um círculo. Contam-se até 100 histórias assustadoras – daí o nome – e à medida que cada história vai terminando, a pessoa que a contou levanta-se, apaga uma das velas, e volta depois ao seu lugar. 99. 98. 97. 96… 50… 25… 10… 6… 5… e à medida que as velas vão sendo apagadas, e que a maior escuridão toma o palco, as coisas vão-se tornando mais e mais assustadoras, numa espécie de estranho teste de coragem para todos os envolvidos. E depois, quando a última vela for apagada, conta-se que a realidade dos participantes será invadida por uma estranha criatura de outro mundo…

 

Fica esse convite, para que convidem alguns amigos e, um dia destes, tentem esta curiosa ideia japonesa do Hyaku Monogatari, que até já tem vários séculos. Não importa se a história é a de Teresa Fidalgo, A Casa do Medo, a do castelinho do Estoril, a de Okiku ou as muitas histórias que aparecem em livros japoneses criados para este mesmo efeito… basta contarem as vossas próprias histórias assustadoras e verem onde isso vos vai levando… fica o convite!

Porque Lois Lane não gosta do Clark Kent?

É talvez um dos mais famosos triângulos amorosos da ficção dos nossos dias, o que une estas duas figuras ficcionais ao famoso Super-Homem. Mas, afinal, se a repórter do Daily Planet parece ter as maiores paixões pelo herói, porque é que Lois Lane não gosta do Clark Kent? Encontrámos a resposta por mero acaso, numa cópia de Action Comics No.1, de Junho de 1938, que adquirimos há alguns dias.

 

Nesta primeira de todas as suas aventuras, o Super-Homem ainda era uma figura muito simples. Em vez de combater seres interplanetários, desviar o curso de meteoros ou tornar-se bissexual, o herói salva um inocente condenado à morte, combate a violência doméstica e defronta políticos corruptos. Nesse contexto, o que esta primeira aventura também tem de especial é o facto de Clark Kent convidar Lois Lane para sair à noite – e, muito inesperadamente, ela aceitar! Vão dançar, e tudo parecia correr bem, até que…

Porque Lois Lane não gosta do Clark Kent?

Essencialmente, um mafioso abordou-os de forma muito rude, porque queria dançar com a Lois Lane, mas Clark Kent recusou-se a intervir, e mesmo depois de Lois Lane dar uma chapada no bandido o “herói” não ficou do lado dela, levando-a até a chamar-lhe um “spineless, unbearable coward“, um covarde da pior espécie. Convém adicionar que depois ela é raptada pelos tais mafiosos e acaba por ser salva pelo Super-Homem, o que ainda terá contribuído mais para a ideia de que este último era tudo aquilo que ela sentia faltar ao seu colega de redacção.

 

Face a estes acontecimentos, é fácil notar que a ideia de que Lois Lane não gosta do Clark Kent vem dos inícios de toda a sua história comum, já no primeiro volume das suas aventuras…

Anneliese Michel, um estranho exorcismo (com vídeo)

Hoje recordamos o estranho exorcismo de Anneliese Michel, uma jovem alemã que nasceu em 1952. Já faleceu, em 1976, mas são precisamente as razões por detrás dessa morte, completamente evitável, que motivam esta nossa publicação de hoje.

Anneliese Michel, jovem que passou por este exorcismo

Conta-se que Anneliese Michel, nascida sob o nome de Anna Elisabeth Michel, era uma boa jovem. Era uma excelente estudante, religiosa, ia muito à missa, até que um dia, por volta dos seus 16 anos, teve um ataque de alguma espécie e foi-lhe diagnosticada epilepsia. Foi sendo tratada para esse problema, mas continuou a sofrer essa espécie de ataques. Até que um dia – e é aqui que as coisas se tornam estranhas – na sequência de um desses episódios, supostamente epilépticos, começou a ter sintomas progressivamente mais estranhos – começou a ouvir vozes ameaçadoras, a ver faces demoníacas nas paredes, mostrou-se intolerante a quaisquer ícones religiões cristãos, e outras coisas que tais.

A solução, para os pais desta pobre Anneliese Michel, passou por recorrer a um exorcismo. Com a autorização do bispo local, dois padres lá aceitaram fazer esse ritual… e então os pais da jovem decidiram deixar de a levar a qualquer espécie de especialista médico e suspenderam a medicação que ela andava a tomar. O que aconteceu? Passadas semanas e semanas de rituais de exorcismo (por parte dos padres), de ausência de medicação (por opção paterna), e de ausência de comida (por opção pessoal da afectada), a 1 de Julho de 1976 esta rapariga faleceu.

 

Agora, a verdadeira questão é – será que Anneliese Michel estava verdadeiramente possuída por demónios? Será que necessitava de passar por um exorcismo real? Claro que optámos por omitir alguns dos episódios mais chocantes de toda esta história (real), até para não traumatizar os mais novos, mas face o que estudámos de outros rituais de exorcismo não é credível que esta jovem estivesse verdadeiramente possuída por seres demoníacos, mas com graves problemas de ordem psicológica. Ela morreu, isso sim, por aquilo a que poderíamos chamar uma enorme e completamente absurda loucura colectiva de todos os envolvidos – e, na verdade, todos os vivos foram culpados de negligência num tribunal alemão! Mas, ainda assim, esta história continua a inspirar muitos livros e filmes nos nossos dias (e.g. O Exorcismo de Emily Rose), como se de uma possessão totalmente real se tivesse tratado, quase que esquecendo que por detrás de todo o caso estava uma mulher real, com problemas reais, cuja ausência de um tratamento mais real acabou por levar a uma morte completamente evitável…

 

Mas, se alguém quiser deixar de lado a parte real de toda esta questão e apenas tiver vindo aqui para se assustar um pouco, pode sempre ouvir este audio, em que podem ser escutados os (falsos) demónios que supostamente atormentavam esta infeliz jovem. Não é, de todo, recomendado aos mais sensíveis, considerem-se avisados!

A verdadeira história da Bela e o Monstro

Quando pensamos numa verdadeira história da Bela e o Monstro, hoje tendemos a pensar na versão da Disney, que se baseia num conto de Jeanne-Marie Leprince de Beaumont datado de 1756. Contudo, essa agora-famosa versão também é, por sua vez, uma adaptação de um outro conto, escrito por Gabrielle-Suzanne de Villeneuve na sua obra La Jeune Américaine ou les Contes marins (de 1740), que na verdade é a primeira versão literária de toda esta história (não temos provas concretas de que se tenha baseado em fontes orais). E é sobre esta trama original que hoje escrevemos estas linhas, porque as suas páginas são fascinantes.

Verdadeira história da Bela e o Monstro

A primeira metade da obra é semelhante à história como a temos hoje, salvo uma excepção muito significativa. Enquanto vive no palácio do Monstro, a Bela (é um criptónimo, o seu nome verdadeiro nunca é revelado) tem muito prazer nas diversões que vai encontrando e começa a ter uns estranhos sonhos em que vê um homem muito belo, por quem depressa se apaixona loucamente. E então, vê-se presa numa espécie de triângulo amoroso, em que não sabe se deverá amar essa figura misteriosa ou o Monstro – ou seja, trocando por míudos, deverá ela amar um homem lindíssimo (mas inacessível), ou uma figura horrenda mas disposta a fazer tudo por ela? O texto, aquando da altura em que a heroína fala com o seu próprio pai sobre isto, é muito claro na resposta que tem para nos oferecer – “a comparação que [Bela] fez entre os dois admiradores jamais poderia ser favorável ao Monstro”.

Mas depois, à medida que a história se aproxima do seu pináculo, o pai da heroína fá-la pensar que um pássaro na mão é melhor que dois a voar e a Bela lá decide casar com o Monstro. E fá-lo não porque tenha aprendido a amá-lo de alguma forma, mas porque – e tenha-se isto bem em atenção – face à perspectiva de ter um amante que só pode ver nos seus sonhos, lhe parece mais apropriado ficar com uma criatura que, apesar de “repugnante” (são palavras da heroína na própria obra!), lhe dava tudo o que ela quisesse. E então, vão casar e a Bela depressa tem uma enorme surpresa – afinal de contas, o misterioso homem com quem ela sonhava era na verdade o Monstro, que tinha sido enfeitiçado por uma fada!

 

Já todos conhecem essa parte da história, mas o que o texto de Gabrielle-Suzanne de Villeneuve tem de particularmente interessante é de não acabar aqui. Na verdade, ainda vai a metade! E continua a história, depois, revelando não só as razões pelas quais o Príncipe (que nunca recebe outro nome senão este…) foi transformado em Monstro, mas contando-nos também uma espécie de prequela de toda a trama, em que é revelado todo o passado do pai de Bela, destinando-se a explicar como um príncipe podia casar com uma plebeia. E, sem querermos estragar a enorme surpresa, são duas histórias que se entrecruzam e que, muito inesperadamente, talvez até sejam mais fascinantes do que a própria história da Bela e o Monstro que já bem conhecemos – por isso, para quem tiver essa curiosidade, fica o convite para que leia toda a história original, em tradução inglesa, aqui.

A Bela a sorrir por um Monstro bem rico...

Todavia, para quem não quiser (mesmo) ir ler essa história, ainda podemos, a título de exemplo, mostrar outra diferença muito significativa entre as duas versões. Na da Disney, como na de Jeanne-Marie Leprince de Beaumont, a transformação do Monstro para Príncipe é motivada pelo “amor verdadeiro [de uma virgem]”. Porém, nesta verdadeira história da Bela e o Monstro, ela tem lugar quando a Bela, tendo de escolher entre um homem bonito idealizado ou um ser horrendo que fazia tudo por ela, optou pelo segundo, ensinando ao seu futuro marido uma lição muito preciosa (que aqui até poderá parecer estranha, excepto para aqueles que tenham lido a segunda metade da obra).

Ou seja, se a moral da história original era algo como “Mulheres, casem com um homem que faça tudo por vocês, por mais horrendo que ele vos pareça”, ela foi deturpada nas várias versões posteriores, levando-nos a acreditar numa (falsa) moral de que o aspecto de alguém nada importa face ao amor verdadeiro. E essa lição não constava no original; esta não era, originalmente, uma questão de amor, mas sim de o Monstro estar disponível e a Bela querer para si um parceiro capaz de lhe dar tudo o que ela quisesse – uma verdadeira gold digger, que rapidamente deixaria este parceiro se tivesse conseguido encontrar o belíssimo homem que aparecia nos seus sonhos, como a própria história nos deixa muito claro. E, queiramos ou não, talvez essa moral da verdadeira história da Bela e o Monstro até fosse muito mais realista e apropriada para os nossos dias de hoje, em detrimento de toda aquela falsa ideia de que o aspecto físico nada importa nas questões amorosas…

As Profecias de Nostradamus

Les Prophéties, ou o livro das Profecias de Nostradamus, é uma daquelas obras que muitos conhecem mas que também muito poucos lêem. E por uma excelente razão – mesmo que se queira acreditar que este autor do século XVI, Michel de Nostredame, verdadeiramente sabia o que ia acontecer no futuro, este é um texto verdadeiramente monótono, com quase 1000 quadras poéticas que poderão (ou não… nunca é claro!), até estar de alguma forma relacionadas entre si.

As Profecias de Nostradamus

Mas comece-se pelo princípio. O livro das Profecias de Nostradamus foi escrito, como o próprio autor deixa claro na sua introdução, como uma espécie de prenda a um dos seus filhos. Iria revelar-lhe, segundo nos diz no prefácio, o futuro até ao distante ano de 3797 (com uma certa ironia até podemos dizer que é bom saber que o mundo irá durar mais 1700 anos…), mas tinha de o fazer de uma forma muito oculta, até para evitar potenciais problemas. E assim, ao longo da sua obra podem ser encontradas quadras como as seguintes, que nos deveriam revelar eventos que supostamente iriam tomar lugar algures no enorme período de tempo que separa o tempo de vida deste autor dos anos finais do século XXXVIII:

Fogo tremente do centro da terra
Fará tremer em torno da Cidade nova;
Dois grandes rochedos farão guerra por muito tempo,
E depois a Aretusa tornará vermelho um novo rio.

O que quer isto dizer, fazem alguma ideia? É, segundo alguns leitores dos nossos dias, uma previsão do 11 de Setembro, não vos parece “extremamente óbvio e muito claro”? Não…? Ora, certamente que não (!), mas ao mesmo tempo é este tipo de conteúdo que pode ser encontrado nas Profecias de Nostradamus – versos sem um significado claro, quase sempre sem qualquer ligação lógica entre eles (mas parecem existir excepções), em que pode ser lido e revelado quase tudo o que quisermos.

 

De facto, quando escrevemos sobre as Trovas do Bandarra, uma das coisas que os utilizadores mais procuraram por cá foi uma frase como “previsões do Bandarra para 2021”. De um modo semelhante, quem quiser procurar por algo como “previsões de Nostradamus para o ano de 2022” sairá igualmente frustrado – nenhum dos dois autores alguma vez apresenta aos seus leitores previsões concretas, claras, ou mesmo para um determinado ano, cabendo somente a quem lê estes versos a tarefa fantasiosa de ver significados reais onde assim o desejarem. Por isso, ler esta obra é uma pura perda de tempo, pelo menos até ao dia em que alguém consiga descortinar os significados não dos eventos que já tiveram lugar – isso é relativamente simples, basta sempre tentar ler nas quadras algo que se adapte minimamente ao que pretendemos – mas de todos aqueles que (supostamente) irão tomar lugar no futuro, dizendo-nos quando e onde é que algo vai acontecer. Até isso acontecer, perder tempo com obras como estas Profecias de Nostradamus é somente isso, uma grande perda de tempo e nada mais.