O breve mito de Asteródia

Falar de Asteródia e dos seus dois filhos é… por um lado é curioso, sem qualquer dúvida, mas por outro também nos levanta diversos problemas. Quer dizer, os mitos gregos e romanos da Antiguidade eram mais que muitos, e por cada famoso Hércules ou Aquiles podiam ser encontradas várias figuras menos conhecidas, como Troilo ou Charun. Depois, seguindo-se essa sequência, existem um conjunto de personagens e histórias mitológicas (ainda) menos conhecidas, que em muitos casos se resumem a meros nomes. Se o mito de hoje não está assim tão perdido – caso contrário, como conseguiríamos falar dele aqui? – é um de muitos que apenas nos chegaram em breves menções presentes em escólios de outros textos.

 

Diz-se então que esta Asteródia, também conhecida pelo nome de Astéria, foi casada com um homem chamado Foco, e dessa união nasceram dois filhos, de nomes Panopeu e Criso. Sobre eles, apenas nos é dito que se odiavam tanto que antes de nascerem já andavam à pancada dentro do próprio ventre de sua mãe. Os breves contornos da ideia sugerem um possível mito como o dos filhos de Édipo, com uma destruição mútua dos irmãos, mas infelizmente nada mais nos chegou sobre toda esta história – a continuação do escólio apenas acrescenta que algo de semelhante também tomou lugar com outros dois pares de irmãos, mas também eles se remetem a meros nomes, cujas respectivas tramas já há muito se perderam.

 

O que dizer de mitos como estes, de que apenas o nome de Asteródia, do respectivo marido e dos filhos de ambos nos chegaram? Quase nada mais, porque estes nomes apenas parecem ter sido preservados na sequência do estranho episódio mitológico que os unia. Sim, os filhos lutaram entre si dentro do ventre da mãe, algo que não parece acontecer em nenhum outro mito que nos tenha chegado numa forma mais completa, mas tudo o resto acaba por ficar apenas à nossa própria imaginação, já que as fontes nada mais nos dizem. Imaginar maiores detalhes, sem qualquer ponto de apoio real para os mesmos, é aqui imprudente, e quase que impossível.

“A Ilha dos Animais”, um texto medieval

É provável que existam muitos textos com o simples nome de A Ilha dos Animais, mas o tema de hoje prende-se com uma fábula muito curiosa presente na chamada Enciclopédia dos Irmãos da Pureza. A obra, em si própria, trata-se de uma colectânea de textos filosóficos islâmicos compostos no Iraque por volta dos séculos X e XI da nossa era, alguns mais interessantes do que outros, e entre os quais se conta o texto de hoje, uma fábula deliciosa sobre a natureza dos animais e a sua posição societal na cultura islâmica. Visto que parece ser muito pouco conhecida nas culturas portuguesas, decidimos apresentá-la aqui nas suas linhas gerais.

 

Esta história de A Ilha dos Animais conta-nos, portanto, que em outros tempos um grupo de Homens mudou-se para uma ilha misteriosa povoada por animais e Génios*. Inicialmente todos eles coexistiram sem problemas de maior, mas depois os seres humanos lá decidiram começar a utilizar os animais como bem desejavam, tratando-os como se fossem meros escravos, ao ponto de lhes baterem, não lhes darem comida, e outras coisas tristes como essas. E então, incapazes de suportar essas ocorrências por muito mais tempo, os Animais decidiram revoltar-se e levar o seu caso ao rei dos Génios, com vista a provar que não mereciam ser escravos dos Homens.

O que depois se seguem são um conjunto de debates entre os representantes da raça humana e diversas figuras emblemáticas de sete diferentes classes de animais – um chacal, um rouxinol, o rei das abelhas, etc. – cada qual com as suas forças e fraquezas particulares. No seu geral, os Homens apresentam um argumento para a sua superioridade, e depois ele é respondido com sucesso pelos animais. Muito curiosamente, os seres humanos parecem perder cada um desses pequenos debates, demonstrando-se repetidamente uma ausência da sua (suposta) força face aos opositores. E esse padrão vai-se repetindo até à aparição de um argumento muito fulcral.

Perto do final da história de A Ilha dos Animais, um “homem de Meca e de Medina” (provavelmente uma referência a um Islâmico, já que existiam várias outras religiões na ilha) levanta o argumento de que o Homem é superior a todos os outros animais porque Alá lhe prometeu a vida eterna, como pode ser lido no Corão. Os animais levantam a oposição de que essa promessa também tem um lado oposto, que os seres humanos maus também poderiam ser condenados eternamente ao Inferno, enquanto que eles jamais eram punidos pela entidade divina… e então, chega-se, filosoficamente, à ideia de que se os Homens pareciam ser superiores aos outros animais, com essa sua força também vem associada a necessidade de tratarem bem os seus supostos inferiores, sob pena de irem mesmo parar ao reino dos Infernos. Pouco depois, a história conclui que os Animais não são escravos dos Homens, mas ambos existem para venerar o seu criador comum…

 

Filosoficamente, talvez até pudesse ser dito muito mais sobre esta composição d’ A Ilha dos Animais, mas de um ponto de vista da trama – que é o mais relevante para estas nossas linhas – o digno de nota é mesmo o facto dos seres humanos serem apresentados num repetido e complexo debate filosófico contra os animais, mas sem que os consigam vencer com a facilidade que seria de supor num contexto aristotélico. E isso torna a obra, e os argumentos que vai apresentando para ambos os lados, particularmente digna de ser lida. Infelizmente, não parece existir em Português, mas existe tanto em tradução como em adaptação inglesa, sendo particularmente digna de nota uma versão de Denys Johnson-Davies que, apesar de cortar alguns capítulos secundários e omitir a riqueza de muitos dos debates, ilustra ricamente os episódios que vão tomando lugar ao longo da história.

 

 

*- Estes Génios, ou Djinns, podem neste contexto ser considerados como uma espécie de entidades semidivinas criadas por Alá e que se encontram num patamar existencial entre os seres humanos e Deus – um capítulo deste texto até parece equipará-los aos Nefilins. Não estão necessariamente associados a uma lâmpada mágica, como na famosa história de Aladino (que apresenta aquele que é, sem dúvida, o Génio mais famoso da nossa cultura ocidental), mas sim alguns poderes mágicos e uma grande sabedoria, podendo ser bons ou maus conforme as suas naturezas individuais.

A lenda de Wu Sing e o Espelho

Esta lenda de Wu Sing e o Espelho parece fazer parte da tradição popular chinesa. Nada nela, nas diversas versões a que lhe tivémos acesso, indica um período de tempo muito específico, até porque no seu cerne é requerido apenas a existência de um menino e de um espelho. Porém, a sua moral tem um certo charme, sendo essa a razão pela qual decidimos que tínhamos de recontar toda esta história por cá. Vamos a isso?

 

Num tempo já esquecido pela memória dos homens, viveu um pai que, por razões que a história não nos conta, teve de se ausentar de casa por algumas semanas. A sua ausência prolongada deixou a mulher e o filho, um rapaz chamado Wu Sing, sozinhos. Contudo, ao regressar, o pai não voltou de mãos vazias. Trazia consigo um objeto raro e extraordinário para aquela sua possivelmente antiga época – um espelho.

Este espelho, cuidadosamente transportado, foi colocado num canto da casa, onde poderia ser admirado mas, ao mesmo tempo, mantido seguro. O pequeno Wu Sing, como qualquer criança curiosa, não tardou a deparar-se com o estranho objeto. O brilho da superfície e a nitidez do reflexo captaram imediatamente a sua atenção. E foi aí que o menino teve a sua primeira surpresa: dentro daquele espelho parecia haver outro como ele!

Encantado com a descoberta, Wu Sing começou a brincar com o “novo amigo”. Este outro menino parecia imitá-lo em tudo, um comportamento que, no início, divertiu o pequeno Wu Sing. Se ele levantava um braço, o outro fazia o mesmo; se ele sorria, o menino do espelho sorria também. Contudo, com o passar do tempo, a diversão deu lugar à frustração. Wu Sing começou a sentir-se incomodado pelo facto de o seu “companheiro” não fazer nada de original, limitando-se a repetir todas as suas ações.

Certo dia, cansado e irritado, Wu Sing perdeu a paciência. Num gesto de frustração, cerrou o punho e deu um murro no espelho. O impacto foi forte, mas o espelho não se partiu. Em vez disso, o pequeno Wu Sing apenas conseguiu ferir a sua própria mão. Chorando de dor e confuso com o que acabara de acontecer, correu até ao pai, que o observava com calma.

O pai, com a paciência e sabedoria de quem entende o mundo melhor do que uma criança, explicou-lhe como funcionava o espelho. “Vês, Wu Sing,” disse o pai, “o menino que tu vias era apenas o teu reflexo. Tudo o que fazias, ele fazia também. Mas a verdadeira lição aqui não é sobre o espelho, mas sobre a vida: quando atacas alguém sem motivo, quem mais sofre és tu próprio.”

 

Assim, a lenda de Wu Sing e o Espelho atravessou gerações, não só como uma história simples e encantadora, que se poderia repetir mesmo hoje em nossas casas, mas também como uma lição valiosa. É uma narrativa universal que ensina que, muitas vezes, os nossos actos refletem-se de volta em nós, tal como a superfície de um espelho. E esta moral, apesar de simples, continua a ser tão verdadeira hoje como há muitos anos…

A lenda de Ilvala e Vatapi

A lenda de Ilvala e Vatapi vem-nos de terras da Índia, sendo referida de uma forma breve no épico Mahabharata. Não parece ser uma história com grande importância cultural, mas decidimos que devíamos contá-la por cá face a um elemento muito incomum presente na sua narrativa.

 

Ilvala e Vatapi eram dois irmãos da classe dos asuras, uma espécie de semideuses do Hinduísmo. Um dia, um deles pediu a um sábio que lhe concedesse um desejo, o de vir a ter um filho com poder maior do que o de Indra, rei dos deuses. O sábio negou-lhe este pedido. Muito irritados com essa acção, pelos seus poderes de transformação Vatapi adoptou a forma de uma cabra e foi cozinhado. Depois, foi servido em jantar ao sábio… mas quando já se encontra dentro da barriga deste homem, o irmão do “comido”, Ilvala, pediu a este que voltasse à sua forma original. E isso aconteceu, a transformação desfez-se, e feito homem no interior da barriga de outro, os efeitos foram de tal forma grotescos que explodiram com a barriga do sábio, matando-o!

Depois, Vatapi e Ilvala repetiram estas acções com muitos outros sábios, conduzindo-os à sua morte, até que se depararam com um novo sábio de nome Agastya, que foi capaz de digerir completamente o primeiro dos irmãos, antes de matar o segundo de uma forma bem mais física.

 

Esta é uma das muitas histórias, aparentemente exemplares, que podem ser lidas no decurso da trama do Mahabharata. Como aqui já dissemos, ela não parece ter nada de muito particularmente digno de nota, com excepção do facto de apresentar o estranho elemento de um vilão que mata os seus inimigos de uma forma tão invulgar como a relatada acima. Alguns episódios como estes até aparecem em séries de manga e anime do Japão, mas esta parece ser a mais antiga referência a um episódio ficcional desta natureza.

O cativeiro de Bajazeto I, uma lenda (quase) esquecida

A lenda que aqui trazemos hoje já foi de uma enorme fama. Em outros tempos, a história por detrás do cativeiro de Bajazeto I chegou a ser representada em múltiplos países por toda a Europa, lado a lado com figuras famosa da antiguidade, como Creso. E depois… foi esquecida quase completamente. Tudo assim teria permanecido, até que há algumas semanas encontrámos uma breve referência literária, do século XVI, em que constavam diversas figuras, supostamente históricas, a quem tinha sido ensinada a humildade. Todas elas eram fáceis de reconhecer, menos aquela a que o autor chamava “Bayezid I in captivity“. Depressa conseguimos encontrar uma ou outra representação do episódio, mas o aqui relevante é… que história se escondia por detrás dela?

 

Bajazeto I foi um sultão do Império Otomano entre os anos de 1389 e 1402. Diz-se que não era um monarca muito fiável ou simpático, e então lá foi capturado por um dos seus inimigos, um tal “Timur, o Coxo”. Desconhece-se, em pura verdade, o que lhe aconteceu nessa altura, mas a lenda – que é o que aqui nos interessa – relata que este Timur o sujeitou a todo um conjunto de práticas completamente humilhantes. A mais famosa de todas elas, aquela que muito se representava em outros tempos, passou por prender este conquistado numa jaula e levá-la para todos os lados, como se este homem fosse uma espécie de animal de estimação. Porém, contavam-se muitas outras coisas, como por exemplo, que:

  • Teve de servir de apoio para os pés;
  • Foi usado como cobertura quando alguém mudava de roupa;
  • Muitas vezes era guardado debaixo da mesa de jantar, sendo-lhe atirados alguns ossos ou lixo para comer;
  • Viu as suas concubinas a servirem de meras empregadas;
  • Viu a sua mais amada esposa a servir jantares ora em trajes menores, ora completamente nua;
  • Em dada altura, já demasiado saturado da sua punição, bateu com a cabeça nas grades até morrer, ou tomou veneno.
  • Etc…

Desconhecemos até que ponto estas coisas serão verdade, mas neste caso específico isso nem é importante. A lenda constrói-se nesse vazio de informação fidedigna, e foi uma que em dado momento da história europeia era muito contada. Mas depois, e como também acontece com muitas outras ao longo dos séculos, lá foi caindo naquele enorme esquecimento em que se encontra hoje… e, por isso, se alguma vez se depararem com uma representação antiga de um homem com turbante otomano preso dentro de uma jaula, já sabem que quase certamente se trata deste Bajazeto I!