A estranha história de Vilgardo de Ravena

Um poeta da Antiguidade

As fontes literárias que temos referem que Vilgardo de Ravena foi um dos primeiros heréticos medievais. Porém, o que o torna digno de nota é mesmo a forma como essa sua heresia nasceu – as fontes dizem que ele se aplicou tanto nos estudos literários que, numa dada altura, lhe apareceram durante a noite os espíritos de Virgílio, Horácio e Juvenal. Estes agradeceram-lhe o estudo intenso, antes de lhe asseguraram que também ele iria partilhar da mesma glória literária que eles tinham. Isto levou-o a uma curiosa heresia, em que defendia que as palavras “dos poetas”, numa natural referência aos autores latinos da Antiguidade, eram sempre dignas de serem acreditadas.

 

Infelizmente, sabemos pouco mais sobre este Vilgardo de Ravena. Seria interessante saber como essa sua crença se intersectava com os ensinamentos da religião cristã, mas essa informação parece ter sido perdida ao longo dos séculos, até porque não temos conhecimento de ele ter composto qualquer obra literária.

A Écloga de Teodulo

O combate presente na Écloga de Teodulo

A Écloga de Teodulo é um poema latino da Idade Média, curioso pela forma como funde os mitos da Antiguidade com as histórias do Antigo Testamento. É um debate entre duas figuras, a Falsidade e a Verdade, em busca da verdadeira doutrina. Face a esse objectivo, a Falsidade começa por mencionar um qualquer mito de tempos da Antiguidade, ao que a Verdade depois lhe responde apontando um episódio bíblico com a mesma ligação temática.

 

Vejamos dois pequenos exemplos, provindos desta Écloga de Teodulo. Quando a primeira figura refere o mito em que Saturno foi expulso do Olimpo, a segunda responde-lhe com a expulsão de Adão e Eva do Paraíso. A informação de que Cécrope fez o primeiro sacrifício é depois respondida com o de Caim e Abel.

 

São cerca de 350 versos, esta Écloga de Teodulo, em que as (antigas) crenças dos Gregos e Romanos são combatidas com as (novas) dos Cristãos. É apenas natural que o Cristianismo acabe por ganhar, mas na verdade trata-se de um curioso combate de intertextualidades que até dá um certo prazer de leitura.

A lenda da Estátua do Duque de Coimbra

Encontrar uma possível lenda associada a uma Estátua do Duque de Coimbra não foi tarefa fácil. Isto porque se existem, hoje, várias estátuas de Dom Pedro, i.e. o primeiro duque da cidade e conhecido pelas suas sete partidas, nenhuma parecia ser suficientemente antiga para poder ter inspirado alguma espécie de lenda. Curiosamente, essa ausência de um memorial físico antigo acabou por provar-se a chave para todo o mistério!

 

Segundo a breve lenda, diz-se então que numa dada altura o povo quis erigir uma estátua ao Infante Dom Pedro (alegadamente no Palácio dos Estaus, em Lisboa), em virtude de ele ser muito popular e bem amado na sua época. Contudo, ele rejeitou essa estátua, pela modéstia que lhe foi inspirada pelos modelos da Antiguidade, e porque sentiu que essa homenagem não lhe deveria ser feita em vida. Assim, a Estátua do Duque de Coimbra, a que se refere esta espécie de lenda, é notável pela sua não-existência e pelos eventos que levaram a tal, mais do que por uma potencial homenagem que lhe tenha sido feita…

“As Viagens de Gulliver” e os começos da literatura de viagem

Gulliver preso pelos Liliputianos

As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, é um daqueles livros que todos parecem conhecer – de filmes, de menções em outras obras, de sátiras na cultura popular, etc. – mas que poucos ainda parecem ler. É, essencialmente, um exemplo satírico daquilo que se costuma chamar “literatura de viagem”, e que pode ser definida, de forma muito sucinta, como aquela em que alguém vai viajar e, posteriormente, conta aos seus leitores as coisas – muitas delas completamente estranhas – que foi vendo. Esse elemento é aqui levado ao extremo, com a personagem titular a passar por desventuras completamente inacreditáveis (mas com elementos moralizadores), que ele afirma, jocosamente, que foram completamente reais.

 

Mas, se até existem algumas referências a figuras e eventos da Antiguidade neste livro, em particular no momento em que Gulliver fala com alguns falecidos de esses tempos antigos, devemos é relembrar que este é talvez o mais famoso exemplo de uma tendência que começou nos primeiros séculos da nossa era, com uma obra chamada As Coisas Incríveis Além de Tule (de António Diogenes), sendo que “Tule” era uma ilha que pensava existir-se no ponto mais a norte da Europa (seria a Islândia? Não temos a certeza). Já não nos chegou de forma completa, mas foi um dos livros lidos por Fócio de Constantinopla, que ainda o resumiu na sequência 166 da sua Biblioteca.

Alguns anos mais tarde, outro exemplo particularmente famoso da literatura de viagem é a História Verdadeira, de Luciano, que já continha episódios naturalmente jocosos, e que até poderá ter vindo a inspirar a obra de Jonathan Swift. E, depois, seguiram-se muitas outras ao longo dos séculos…

 

(Se até se poderia levantar uma ressalva de que a Odisseia também é uma obra que contém viagens, há que deixar presente que esses momentos são acessórios face às aventuras de Ulisses, nunca se pretendendo documentar directamente os locais pelos quais o herói foi passando.)

O mito de Apolo e Dafne

Sobre o mito de Apolo e Dafne… são muitos os atributos associados aos deuses da Antiguidade Clássica – Zeus tinha o seu relâmpago, Poseidon um tridente, Eros carregava consigo sempre o famoso arco e flechas que causavam o amor, e daí por diante. Nesse contexto, são vários os mitos que explicam os seus atributos individuais, e este é um deles – o mito de Apolo e Dafne explica uma famosa relação entre o deus de Delfos e uma árvore, o loureiro.

Apolo e Dafne, a segunda em plena transformação

Conta-nos então este mito que numa dada altura o deus Cupido se zangou com Apolo. Procurando vingar-se, atirou-lhe uma flecha que lhe causou a mais intensa paixão por uma ninfa chamada Dafne. Não contente com apenas esse acto, em seguida atirou uma outra flecha a Dafne, mas com um objectivo totalmente contrário, fazendo-a sentir a maior repulsa possível por Apolo.

Durante dias Apolo procurou os amores de Dafne, enquanto que Dafne fugiu sem cessar dos braços de Apolo. Mas depois, fruto de uma breve desatenção da ninfa, o deus finalmente conseguiu tocá-la. Nesse momento, no maior dos terrores que uma mulher perseguida por um homem pode sentir, Dafne invocou a ajuda do seu próprio pai, o deus-rio Peneu, e foi transformada num loureiro, cujo belíssimo instante até pode ser visto na belíssima estátua de Bernini acima.

 

Só depois é que Apolo se apercebeu do que tinha causado. Triste, mas igualmente incapaz de corrigir o erro a que a vingança de Cupido o tinha conduzido, o deus tomou então o loureiro para um dos seus símbolos, como Zeus tinha o carvalho ou Atena a oliveira… e assim, Apolo e Dafne foram unidos para toda a eternidade…