I Concurso de Poesia Mitologia.pt (e os nossos conteúdos em livro!)

Para quem sempre quis poder ler os nossos conteúdos em formato físico, eles estão agora publicados em livro ou e-livro, através de dois volumes com pouco mais de 600 páginas cada. De títulos 20 Anos de Mitologia em Português: Volume I (2004 – 2020) e 20 Anos de Mitologia em Português: Volume II (2021 – Julho 2024), eles podem agora ser encontrados na Amazon, em diversas outras lojas online, e em qualquer livraria física com recurso aos ISBN 979-8333961204 e 979-8333968067. Os livros contêm quase tudo o que foi sendo publicado por cá ao longo dos anos, com ligeiras alterações, e com excepção das imagens de cada artigo (por questões de direitos de imagem) ou algumas publicações de carácter pessoal.

Agora, para celebrar o nosso 20º aniversário e essa publicação dos livros, inciamos aqui também um primeiro concurso de poesia associado ao nosso espaço, e esperamos que gostem da ideia:

I Concurso de Poesia Mitologia.pt

I Concurso de Poesia Mitologia.pt

As regras para a participação neste concurso são muitíssimo simples:

1- Para participar basta escrever um poema em Português sobre um mito ou lenda que já tenha sido abordado por cá no passado – desde as histórias de Aquiles até Teresa Fidalgo ou aos Kappa, vale tudo. Qualquer tema relacionado com a mitologia ou lendas pode ser escolhido, desde que já cá tenha sido falado antes(!);

2- O poema deve ter no máximo 20 versos, ser da autoria de quem o envia, e não ter sido publicado em nenhum lado anteriormente;

3- Para participar basta enviar o poema por e-mail para [email protected] , em anexo, com o assunto “I Concurso de Poesia” e a seguinte informação no corpo do próprio e-mail;
– Primeiro e último nome do autor ou autora;
– Endereço de e-mail;
– Número de telefone;
– Referência à nossa página onde estiver o mito no qual se basearam (por exemplo, https://mitologia.pt/o-mito-de-orfeu-e-euridice-4247 se o tema for o mito de Orfeu);
Esses dados serão guardados apenas até à data de conclusão do concurso e selecção das melhores composições participantes, e depois serão completamente eliminados.

4- Os poemas serão avaliados com base em dois critérios, a originalidade do tema (de 1 a 5) e a qualidade poética (de 1 a 5).

5- Quanto a prémios, os três vencedores – ou vencedoras – receberão os nossos parabéns, as suas composições serão publicados por cá, e poderão escolher os destinatários do seguinte:
1º lugar – Uma doação de 30€ a uma instituição de caridade feita em seu nome;
2º lugar – Uma doação de 21€ a uma instituição de caridade feita em seu nome;
3º lugar – Uma doação de 12€ a uma instituição de caridade feita em seu nome.

6- O concurso terá lugar até dia 31 de Agosto, 23:59 GMT, com um mínimo de cinco participantes, e sem número máximo. Os resultados serão publicados na semana seguinte.

7- Pode participar qualquer pessoa, mas serão tomadas medidas internas para garantir que os avaliadores não sabem quem escreveu cada poema.

8- Quaisquer questões podem ser colocadas nos comentários abaixo.

“Antirrhetikos”, de Evágrio Pôntico

Evágrio do Ponto, também conhecido por Evágrio Pôntico, é um daqueles autores de finais da Antiguidade que raramente se lê. Talvez um ou outro estudante de Teologia o faça, mas entre as suas criações conta-se um texto de título Antirrhetikos, que é como quem diz “Argumentos Contra”… e contra o quê, poderia perguntar? É precisamente essa ideia, mais do que o próprio conteúdo da obra, que a torna digna de ser mencionada por cá.

Antirrhetikos, de Evágrio Pôntico

Evágrio Pôntico, como muitos outros Cristãos da sua época, era um monge, vivendo, pelo menos em teoria, em completa solidão. Esse afastamento da humanidade levou-o, como é comum em casos como esses, a sentir o ataque dos demónios… frise-se que, pelo menos neste contexto, eles não eram “monstros” reais, físicos, como os famosamente encontrados por Santo Antão, mas metáforas para as tentações que iam sendo encontradas pelos monges na sua solidão religiosa.

Face ao problema, este Evágrio Pôntico decidiu então categorizar esses seus opositores em oito grupos – a Gula, a Fornicação, o Amor pelo Dinheiro, a Tristeza, a Raiva, a Apatia, a Vanglória e o Orgulho [Desmesurado] – que posteriormente levaram aos chamados “Sete Pecados Mortais”. Porém, não se limitou a categorizá-los assim, mas também em encontrar as suas múltiplas facetas e a forma de como as combater, utilizando os próprios textos bíblicos contra esses inimigos. Vejamos três breves exemplos:

Contra a alma que pensa que a humildade perfeita não é possível à natureza humana:
E era o homem Moisés muito manso, mais do que todos os homens que havia sobre a terra. (Núm 12:3)

Contra a alma que não está convencida que até Satanás imita o Anjo da Verdade e se torna um professor de falso conhecimento:
E não é de admirar, porquanto o próprio Satanás se disfarça em anjo de luz. Não é muito, pois, que também os seus ministros se disfarcem em ministros da justiça; o fim dos quais será conforme as suas obras. (2 Cor 11:14-15)

Contra os pensamentos que levam o intelecto a blasfemar contra Deus:
Porventura, por Deus falareis perversidade e por ele enunciareis mentiras? (Jó 13:7)

É essencialmente assim que funciona esta obra, Antirrhetikos – o seu autor menciona, de uma forma breve, um determinado problema “filosófico” que tendia a afectar os monges na sua solidão, e depois providenciava uma frase, ou uma sequência bíblica mais alongada, com ela relacionada, destinada a combater esse inimigo psicológico. O que talvez não seja tão interessante como a ideia acima podia sugerir – hoje, em circunstâncias como essas, pensa-se mais em exorcismos como o de Anneliese Michel – mas nos preserva um momento da história da Igreja em que a Bíblia, e apenas os seus textos, se viam como a cura para todos os problemas.

O eterno mito de Nero Redivivus

A razão porque hoje aqui contamos o mito de Nero Redivivus * merece ser contada. Há algumas semanas vieram pedir-nos exemplos de um tipo de história lendária em que um rei desaparece mas se diz que voltará em alguma altura no futuro. Existem pelo menos dois exemplos muito significativos na nossa cultura ibérica (o nosso famoso Sebastianismo e o Rei Rodrigo), entre muitos outros pelo mundo fora (como o do Rei Artur e Avalon), e isto levou a que a mesma pessoa quisesse saber qual a versão mais antiga de uma história com essas características essenciais. Não é uma pergunta fácil de responder – até certo ponto, a vida de Jesus Cristo poderia ser incluída nessa categoria de potenciais histórias – mas uma das mais antigas versões que conhecemos merece ser apresentada aqui em virtude de possuir uma característica muito única e também pela sua influência significativa na cultura ocidental.

O mito de Nero Redivivus

Neste tipo de histórias é vulgar que o monarca seja uma figura bondosa, um símbolo de esperança ou de uma época idílica que os crentes desejam que volte ao nosso mundo numa época presente ou futura. Porém, no caso do mito de Nero Redivivus, a história refere-se é, em alternativa, a uma figura maldosa que se pensava que voltaria no futuro para continuar o seu antigo reino de terror. Parece que toda essa trama derivou do facto de após a morte de Nero, em 68 d.C., terem surgido várias pessoas que diziam ser ele, e que em comum tinham habitualmente o facto de se parecerem com o falecido e tocarem lira, numa potencial alusão à agora famosa história do fogo de Roma.

 

Se fosse só isto o que havia para dizer sobre o mito de Nero Redivivus e provavelmente nem lhe estaríamos a dedicar estas linhas. No entanto, nos Oráculos Sibilinos, em sequências aparentemente associáveis a finais do primeiro século da nossa era, surge primeiro a ideia, numa forma escrita, de que este Nero tinha fugido para uma terra distante e andava a juntar um enorme exército para regressar e destruir completamente Roma (ou todo o Império Romano, já que o objectivo de toda essa sua destruição não é claro). O que isto tem de muito interessante é que as sequências em questão parecem ter sido escritas mais ou menos na mesma época que o bíblico Livro do Apocalipse, em que este mesmo imperador pode ser identificado na figura da Prostituta da Babilónia e/ou do misterioso Anticristo, como Santo Agostinho o fez na sua Cidade de Deus. Por isso, mesmo que hoje já quase ninguém conheça o breve mito referido acima, em dada altura ele marcou tão significativamente a cultura ocidental que esta sua história mereceu ser colocada por escrito e ainda pode ser encontrada, de uma forma oblíqua, num texto bíblico que continua a ser lido nos nossos dias.

 

 

*- O Latim Redivivus pode aqui ser traduzido como “retornado” ou “regressado”.

Aniversário – Fazemos HOJE 20 anos!

Faz hoje 20 anos que a escrita destas linhas principiou. Seria, portanto, apropriado deixar aqui umas palavras de celebração, mas nunca é fácil decidir o que escrever em alturas como estas. Isto porque este nunca foi pensado como um espaço pessoal, em que se fale de mim ou dos meus colegas, mas sim e somente um local de partilha de conhecimento, em redor de uma espécie de fogueira (virtual) na floresta.

O que pode, então, ser dito? 20 anos… 20 anos é muito tempo. Onde estavam vocês há vinte anos atrás, ainda se lembram? Onde estava cada um de nós nessa altura? Vinte é aquele mesmo número de anos que Ulisses demorou a voltar a casa, a rever a esposa e o filho, depois de ter partido para a Guerra de Tróia. Parece muito, talvez demasiado, tempo. E um dia esta escrita terá de terminar, um dia, mas não será hoje. Em vez disso, aproveito é para anunciar três coisas:

  • Dentro de alguns dias será finalmente possível adquirir uma versão física e/ou digital deste espaço, para todos aqueles que prefiram ler estes conteúdos offline. Estará dividida em dois volumes, por motivos de espaço físico, e incluirá a maior parte dos temas que por cá foram passando.
  • Também dentro de alguns dias iremos anunciar um pequeno concurso de poesia, com direito a prémios e tudo.
  • É provável que uma nova coluna também venha a aparecer aqui nas próximas semanas, mas ainda não há data prevista para o seu início.

 

Além disso… como sempre, queremos deixar um enormíssimo agradecimento a quem nos vai lendo. Sejam aqueles que ainda estão presentes, ou os que já partiram ( 🙁 )… é para todos vocês, leitores que conhecemos ou aqueles que nos são mais anónimos, que vamos escrevendo. Obrigado, e espero honestamente que vão gostando dos temas que aqui vamos deixando!

M.

20º Aniversário de Mitologia.pt

O primeiro mito do Zoroastrianismo (e a origem do bem e do mal)

Falar deste primeiro mito do Zoroastrianismo é, talvez mais que tudo, falar de um tempo já tão recuado que ninguém parece saber muito bem quando foi. Diz-se, hoje, que o fundador dessa religião, um tal Zoroastro ou Zaratustra, viveu há cerca de 3000 anos atrás, mas nem disso se tem qualquer certeza. O que se sabe bem, no entanto, é que foi ele o criador de um conjunto de ideias filosóficas e religiosas que tiveram um impacto tão profundo na humanidade que já ninguém sequer pensa de onde vieram, tão naturais que acabaram por se tornar.

Pense-se, por exemplo, na oposição composta pelo “bem” e pelo “mal”. Um desses elementos implica necessariamente a existência do outro. Ou “luz” e “trevas” – mais uma vez, cada um dos dois pode ser definido como a ausência do outro. E poderíamos aqui dar N outros exemplos, mas pretendemos é chegar à ideia de que a existência de dualidades, divinas ou mais terrenas, parece ter nascido com o Zoroastrianismo, ou pelo menos sido muito popularizada por este. Antes desta religião os deuses e heróis parecem ter sido figuras essencialmente amorais (e.g. o mito de Lugalbanda), quase humanos como nós (e.g. vejam-se, por exemplo, as paixões de Zeus, em que ao deus grego nunca é apontada qualquer necessidade de fidelidade!), mas aparenta ter sido com esta religião que um aspecto fulcral da sua existência se alterou e modificou o pensamento da humanidade no Ocidente para sempre.

O primeiro mito do Zoroastrianismo

Segundo a revelação de Zoroastro, numa dada altura muito remota nada existia excepto duas divindades – “Ahura Mazda” (ou “Ormasde”) e Arimã (ou “Angra Mainiu”). Elas eram completamente opostas em tudo, pelo que quando a primeira gerava “algo”, a outra tinha igualmente o poder de gerar o seu contrário, como se de uma espécie de sombra constante se tratasse, num processo que se repetiria até ao fim dos tempos. Por exemplo, em dada altura a primeira cria um determinado animal, como um cão, e a outra gera uma espécie de contrário, como um lobo, para que ambos se pudessem defrontar num combate eterno. A ideia repete-se opondo um mangusto a uma cobra, etc. E então, justificava-se pelo conflito contínuo entre estas duas figuras todos os problemas do nosso mundo… e assim se gerou a grande ideia de um “bem” e um “mal”, opostos em tudo!

 

Toda a ideia é muitíssimo bem captada no Bundahishn, um texto zoroastriano possivelmente do século VIII da nossa era (mas baseado em fontes literárias anteriores, já perdidas), no qual aparece a seguinte sequência:

Arimã contra Ormasde;
[Outras divindades aqui]
(…)
Mentira e falsidade contra a verdade;
Excesso e deficiência contra moderação;
Maus pensamentos, palavras e actos contra bons pensamentos, palavras e actos;
O mau caminho contra o bom caminho;
(…)
Indolência contra diligência;
Vingança contra a paz;
Dor contra o prazer;
Mau cheiro contra a fragrância;
Escuridão contra a luz;
Veneno contra o antídoto;
(…)
O Inverno contra o Verão;
O frio contra o calor;
A secura contra a frescura;
(…)

Esse constante estabelecimento de oposições entre as duas grandes figuras do Zoroastrianismo é um elemento muitíssimo repetido na teologia dessa religião, mas nas suas muitas histórias vão aparecendo, aqui e ali, outros elementos curiosos. Por exemplo, as mulheres começaram a ter a sua menstruação por influência do deus “maldoso”; pela acção do séquito do tal vilão dois gémeos fizeram amor após 50 anos de espera para que toda a humanidade pudesse ser gerada; e o deus “bondoso” criou as mulheres com uma característica muitíssimo curiosa, que até pode ofender algumas das pessoas que nos lêem mas é digna de ser recordada aqui, numa outra citação do Bundahishn:

[As mulheres terão] uma boca perto do ânus para que a relação sexual pareça aos seres humanos o mais doce dos sabores da comida na boca.

 

Tudo histórias interessantes, não haja qualquer dúvida, que um outro dia talvez venhamos a recordar por aqui, mas o que nos interessa hoje é somente o primeiro mito do Zoroastrianismo, o da criação de tudo o que existe por duas figuras completamente opostas mas curiosamente complementares. Essa ideia, por simples que hoje nos pareça, teve um impacto significativo em figuras ocidentais como Platão e em religiões como o Maniqueísmo, e foi tão famosa que ainda chegou ao nossos dias, por muito que tenhamos esquecido de onde ela vem – aponte-se que a religião de Zoroastro ainda existe, mas os seus crentes são cada vez menos frequentes, e não encontrámos sequer um único em Portugal.

 

Mas, ainda sobre todo este tema, uma última curiosidade. Quando gerámos a imagem ali em cima, que deveria representar a oposição destes dois deuses essenciais, um sistema informatizado colocou uma terceira figura, branca, entre eles. Não é possível descobrir porque o fez, mas corresponde, de facto, a uma evolução curiosa desta religião – se os textos, hoje quase perdidos, diziam que apenas zurvan existia antes das criações feitas por estes dois deuses, alguns crentes humanizaram essa figura – que originalmente significava apenas “o tempo” – e criaram o Zurvanismo, que mais do que venerar os dois “irmãos”, tinha por grande e único deus aquela estranha entidade que os parecia ter criado. Mas isso já são outras histórias, demasiado afastadas do tema de hoje…