Esta comédia apresenta-nos um evento pseudo-mitológico – o dia em que Pluto, deus da riqueza, foi curado daquela famosa cegueira, a mesma que anteriormente o levava a recompensar os criminosos e a se afastar dos justos. Seguindo essas linhas, os delatores deixaram de ser recompensados, as ricas velhotas deixaram de ser amadas por jovens pobres, e muitas outras coisas que tais. Era esse um mundo muito mais justo do que aquele que temos agora? Certamente que sim, mas também um mundo com muitos problemas de outra natureza – como a deusa Pobreza aqui o argumenta pela sua própria voz. Por isso, é uma comédia que faz rir, mas que também nos dá bastante que pensar.
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“Circe”, de… alguém de apelido Gelli
Datado do século XVI, este livro foi escrito por um letrado de Florença. O seu nome não é totalmente claro, variando de algumas formas entre edições, mas naquela a que tivemos acesso surge como “Giovanni Battista Gelli”.

Mas de que trata este livro entitulado Circe? Essencialmente, é uma expansão da ideia presente num tratado da Moralia plutarquiana, em que Ulisses falava com um ser humano que a famosa feitiçeira tinha transformado em porco. A mesma ideia é aqui expandida apresentado vários outros animais, que o herói homérico tenta, sem sucesso, convencer a voltar à forma humana. Apesar do quadro invulgar, tratam-se de vários pequenos diálogos sobre a forma como os animais são, aqui se argumenta, superiores aos seres humanos. Poderia pensar-se que um pescador transformado em ostra, ou um médico tornado cobra, podiam estar insatisfeitos com as suas transformações, mas dizem-nos, aqui e de forma bem justificada, o porquê de preferirem essas novas vidas às suas anteriores. Se também nós concordamos com os seus argumentos, bem, isso é questão de se ler a obra e pensar nos vários casos apresentados.
A derradeira infidelidade de Penélope

Penélope, esposa de Ulisses, é particularmente famosa da Odisseia e da Mitologia Grega graças à sua enorme fidelidade, mesmo após duas décadas de ausência do herói. Contudo, existem, nesta e naquela fonte menos conhecida, diversas referências a potenciais infidelidades da sua parte. Não valerá a pena recordá-las a todas – pobre Penélope! – mas existe uma tão curiosa que não poderíamos deixar de a mencionar por cá.
Segundo um dos fragmentos de Dúris de Samos, posteriormente reaproveitado em obras como as de Pseudo-Nono, esta personagem mitológica, Penélope, tinha sido mãe de Pã. Mas quem era o pai? Jamais acertariam na resposta, porque se tratava… de todos os pretendentes da heroína, como se ela se tivesse envolvido sexualmente com todos eles e daí fosse gerado um único filho. Essa possibilidade merece ser contrastada com a do mito de Alcmena, que envolvendo-se com Zeus e Anfitrião numa mesma noite, gerou dois filhos, um do deus e outro do marido.
Mas de onde vem uma tão absurda possibilidade? Provavelmente da etimologia – Pan significava “todos”, e por isso uma potencial traição com todos poderia vir a gerar, simbolicamente, esta criatura. E assim, a derradeira infidelidade de Penélope ficou imortalizada numa espécie de estranho mito…
O mistério de Araisodaro

Muitos são os grandes mistérios escondidos em breves versos da Ilíada, mas este é especialmente intrigante. No livro XVI dessa obra, por volta dos versos 325-330, é mencionada a monstruosa Quimera, que pode ser vista na imagem acima. Sobre ela, o poeta rapidamente acrescenta que o monstro destruidor de homens foi cuidado por um tal “Araisodaro”; dele sabemos apenas que tinha filhos e que era rei, mas… para que cuidou ele de uma tal criatura? Nenhum outro autor o parece explicar… seria um animal de estimação?
Como foi a divisão do mundo pelos deuses do Olimpo?

Por vezes gostamos de explorar um pouco as questões e pesquisas que as pessoas fazem neste espaço. Nesse sentido, há uns dias alguém procurou por cá a pergunta que dá o título a esta entrada. Correndo o risco de estar a fazer o trabalho de casa de algum aluno, achámos que poderíamos escrever um pouco sobre ela.
Existem várias alusões na literatura da Antiguidade a uma primordial divisão do mundo em três partes. Segundo um dos livros da Ilíada (apenas para mencionar uma das fontes mais óbvias), numa dada altura foram tiradas sortes e, por mero acaso, foi então decidido que os céus ficariam para Zeus, os mares para Poseidon e o submundo para Hades. Não verificámos os comentadores a essa passagem, mas é provável que essa divisão já fosse até conhecida no tempo dos poemas de Homero; outros autores também a ela fazem alusão, não parecendo existir qualquer versão alternativa do episódio em que, por exemplo, Zeus seja o senhor dos oceanos ou do submundo; existem, porém, versões satíricas em que esse cânone primordial é, de alguma forma, remexido ou parcialmente alterado.
