Cantigas de Santa Maria – Cantiga X, traduzida

Esta é de louvor a Santa Maria, que é formosa, bondosa, e tem grande poder.

Rosa das rosas e Flor das flores,
Dona das donas, Senhora das senhoras.

Rosa da beldade e da aparência
E flor da alegria e do prazer,
Dona em sua piedade,
Senhora em tirar mágoas e dores.

Rosa das rosas e Flor das flores,
Dona das donas, Senhora das senhoras.

A tal Senhora deve o homem muito amar,
Que de todo o mal o pode salvar;
E lhe pode os pecados perdoar,
Que no mundo faz por maus desejos.

Rosa das rosas e Flor das flores,
Dona das donas, Senhora das senhoras.

Devemo-la muito amar e servir,
Que insiste em nos proteger de errar;
E dos erros nos faz arrepender,
Que nós fazemos como pecadores.

Rosa das rosas e Flor das flores,
Dona das donas, Senhora das senhoras.

Esta dona que tenho por Senhora
E de quem quero ser poeta,
Se eu pudesse ter o seu amor,
Daria ao Demónio os outros amores.

Rosa das rosas e Flor das flores,
Dona das donas, Senhora das senhoras.

“Gigantomaquia” e “O Rapto de Proserpina”, de Claudiano

Romano desconhecido

Chegaram-nos muitos outros trabalhos da autoria de Claudiano, mas no contexto deste espaço são especialmente relevantes dois deles, a Gigantomaquia e O Rapto de Proserpina. E agrupamo-los numa só menção por sofrerem de um problema essencial – apesar de ambos parecerem extremamente interessantes pelas linhas que nos chegaram também estão incompletos, possivelmente por morte do seu autor.

 

A Gigantomaquia, supostamente, iria falar da guerra em que os gigantes defrontaram os deuses. Em pouco mais de uma centena de versos chega-se ao momento em que Minerva derrota dois deles, surge um pedido de ajuda a Febo Apolo, mas o poema termina nessa altura.

O Rapto de Proserpina contém, de uma forma muito detalhada, as razões pelas quais o deus Plutão decidiu tomar para si uma esposa, e porque escolheu a filha de Ceres. O deus rapta-a, de uma forma belíssima, e leva-a de volta para o seu reino, onde a presença de uma nova rainha é extensamente celebrada. Ceres descobre, posteriormente, que a sua filha foi raptada, parte em busca dela, e… o poema termina, apesar da continuação do mito nos ser bem conhecida de outras fontes.

 

Se Claudiano até representou ambos os mitos de uma forma bela, o facto dos dois poemas se encontrarem incompletos é tão tantalizante como frustrante. Ainda assim, o poema do rapto da filha de Ceres merece ser lido, quanto mais não for pela forma detalhada como trata esse famoso episódio mitológico.

“Hércules”, com Dwayne ‘The Rock’ Johnson

O filme Hércules, com Dwayne ‘The Rock’ Johnson, passou recentemente na televisão portuguesa. É uma espécie de sequela aos eventos mais famosos da vida do herói, os seus famosos Trabalhos, aos quais existem diversas alusões no decorrer da trama. Mas, tanto ou mais interessante, é a forma como este filme representa as aventuras do herói, nunca deixando totalmente claro se existe algum elemento mais lendário na sua vida ou não. Se em filmes como Tróia existe uma completa negação dos aspectos místicos, já aqui nunca existem evidências totalmente claras para afirmar (ou negar) esses mesmos aspectos. Existem circunstâncias de grande cepticismo, como quando uma das personagens parece ver centauros e diz algo como “Eles existem mesmo!”, bem como momentos em que aos aspectos mitológicos são dadas explicações mais realistas. Não duvidamos que quem escreveu a trama conheça as obras de Palaefato ou de autores semelhantes. É, em suma, um filme que se vê, mas que também dá que pensar um pouco na intersecção entre o mito e a história.

“Mégara”, de autoria desconhecida

Mégara no filme da Disney

Mégara é um pequeno poema de autoria desconhecida, mas que alguns estudiosos parecem atribuir a Teócrito. Nele, a esposa de Hércules e a respectiva mãe partilham as dores que sentem na ausência do herói. A primeira, Mégara, fá-lo por este ter morto os próprios filhos, enquanto que a segunda, Alcmena, lamenta os temores do passado e as muitas tribulações pelas quais o filho agora passa. É uma pequena construção poética, de pouco mais de uma centena de versos, com um certo charme.

“Fenómenos” de Arato

Constelações no céu

A obra Fenómenos de Arato conta-se provavelmente como uma das mais famosas que nos chegaram sobre os céus nocturnos – a sua popularidade pode até ser facilmente vista se tomarmos em conta que autores como Cícero ou Ovídio a traduziram para Latim! Porém, apesar de referir muitas figuras mitológicas que deram os nomes às diversas constelações, só muito raramente conta as respectivas histórias, limitando-se a aludir-lhes de uma forma que muito pouco nos informa. Ademais, o autor dá algumas informações incorrectas e trata de forma demasiado breve alguns pontos que nos poderão parecer importantes. Por isso, mais do que um livro com algum interesse real para o estudo dos mitos dos gregos e dos latinos, esta é uma obra cuja importância real se parece ter perdido ao longo dos séculos.