Alguém sabe para onde vão as cegonhas no inverno?

Alguém sabe para onde vão as cegonhas no inverno? A pergunta pode até parecer estranha, não é? Qualquer pessoa “sabe”, nos nossos dias de hoje, responder a ela, dizendo que as cegonhas (entre outros pássaros) emigram para sul nos meses frios. Mas isso também nos leva a uma questão mais complexa – como foi isso descoberto? Existiam várias teorias desde os tempos da Antiguidade, até nos textos de Aristóteles, mas… eram teorias, somente isso. Depois, perto do final do primeiro quarto do século XIX, algo de muito pouco vulgar foi encontrado na Alemanha.

Cegonha com lança

Perto da cidade de Klutz foi encontrada esta cegonha, que tinha uma lança parcialmente enfiada no seu pescoço. Dada a origem africana do instrumento guerreiro, foi então – finalmente! – possível perceber que estes animais emigravam para sul, para terras de África, assim evitando os nossos tempos frios europeus. Quanto à singular cegonha que levou a esta descoberta, ainda hoje está alojada na Universidade de Rostock, na Alemanha.

“As Núpcias de Filologia e Mercúrio”, de Marciano Capela

Também conhecida como Casamento de Filologia e Mercúrio, esta é uma daquelas obras que dá o proverbial “pano para mangas”. É particularmente famosa por ter popularizado a ideia das sete artes liberais na Idade Média, ideia esta que já vinha de Marco Varrão, mas poucos parecem ser aqueles que nos nossos dias realmente a lêem. Contudo, essa ausência de leitura é aqui bem justificada… passamos a explicar!

As núpcias de Filologia e Mercúrio, de Marciano Capela

As núpcias de Filologia e Mercúrio podem ser divididas em duas partes. A primeira delas, comportando os dois primeiros livros, apresenta o tema como se de um novo mito se tratasse; inspirado pelos casamentos de outros tantos deuses do Olimpo, Mercúrio decide também ele casar, pelo que parte em busca de uma companheira disponível para tal. Falha por três vezes, mas acaba por encontrá-la com a ajuda de Apolo, sendo essa busca, o subsequente casamento e a imortalização de Filologia então descritas, terminando com o momento em que Mercúrio oferece sete servas à sua esposa, i.e. as sete artes liberais. São essas mesmas sete artes as descritas de forma alongada nos restantes livros.

 

Como este breve resumo da obra nos permite antever, existem incontáveis alegorias envolvidas nos nove livros da obra. Se isso não for suficientemente desencorajador para o leitor comum, cada um dos livros encontra-se igualmente repleto de sequências de enorme complexidade; na edição a que tivemos acesso cada um dos livros tem pelo menos uma centena de anotações, sem o auxílio das quais seriam de compreensão quase impossível. Para dar um breve exemplo, numa dada altura é dito que a soma de um dos nomes de Mercúrio tinha um dado valor simbólico; só Hugo Grócio, quase um milénio depois, soube dizer que se tratava de “Thoth” quando escrito em língua grega.

 

Se, por um lado, As núpcias de Filologia e Mercúrio não deixam de ser uma obra importante no desenvolvimento do cânone das sete artes liberais, por outro é igualmente uma que só deve ser lida por aqueles que, por razões que temos dificuldade em compreender, queiram ter contacto com algo realmente desafiante. Não é uma leitura aprazível, mas uma que, frequentemente, fará o leitor sentir-se muito pouco culto, por mais que domine os temas da Antiguidade. Por isso, deve ser completamente evitada pelos leitores comuns, fica o nosso aviso!

Ruínas Romanas de Milreu

Principiam hoje as “Jornadas Europeias do Património”. Para as celebrar, apresentamos aqui um espaço romano que é menos conhecido em Portugal.

Ruínas Romanas de Milreu

Conforme a informação histórica que nos foi gentialmente cedida pela Direcção Regional de Cultura do Algarve:

 

As Ruínas Romanas de Milreu constituem um exemplo de villa rústica, cuja origem esteve ligada ao crescimento económico do Império Romano no século I e que, no século III, se tornou numa luxuosa residência de campo.
A villa de Milreu era composta por extensa área agrícola e zonas de produção de azeite e vinho, onde trabalharia a população local. A zona possui bons aquíferos, situa-se nas proximidades da cidade de Ossonoba, actual Faro e do seu porto, onde a produção agrícola seria comercializada.
A área residencial dos proprietários viria a adquirir uma expressiva dimensão a partir do século III e no século IV, com a criação de uma zona social ampla, com acabamentos de qualidade, como a aplicação de mármores, pavimentos de mosaicos e paredes com pinturas.
O templo dedicado às divindades aquáticas, padroeiras de abundância e saúde, foi erguido no século IV. No século VI o edifício foi cristianizado. No pátio foi descoberto um tanque baptismal rectangular e o recinto foi utilizado como cemitério. No século X, uma inscrição em árabe gravada numa coluna revelou a continuidade de utilização do edifício como espaço religioso pela comunidade muçulmana local.

 

As Ruínas Romanas de Milreu estão classificadas como Monumento Nacional desde 1910. Compõem-se de uma grande casa senhorial ou Pars urbana, complexo de termas ou Balneum, lagares de vinho e azeite, instalações agrícolas e um templo consagrado a divindades aquáticas.

Os vestígios arqueológicos ocupam uma área aproximada de 15.800 m2, composta por muros, pavimentos, tanques, desníveis, sistemas de canalização e arranques de abóbada com diversos revestimentos como rebocos, pinturas parietais ou mosaicos. Estes elementos representam a evolução construtiva da “Villa” romana de Milreu entre os séculos II e IV d. C. e vestígios de ocupação humana até ao século VI um dos monumentos de maior valor artístico, arqueológico e patrimonial do Algarve.

 

Fica então o nosso convite a que também sejam visitadas estas ruínas romanas. Mais informação sobre elas pode ser encontrada aqui.

“Cena de Cipriano”, atribuída a São Cipriano

Cartaz do filme "O Nome da Rosa"

É provável que já tenham ouvido falar desta Cena de Cipriano, atribuída a São Cipriano de Cartago (que não deve ser confundido com o outro santo do mesmo nome, Cipriano o Mago), em particular devido ao papel que tem na novela O Nome da Rosa, de Umberto Eco. Mas, afinal de contas, do que fala ela? Essencialmente, trata-se de um jocoso banquete de casamento, em que um rei convidou as mais diversas figuras bíblicas para participar. Depois, a cada nova acção do rei essas figuras respondem das mais diversas formas. Até aqui não de muito novo, ou particularmente interessante, não fosse o facto dessas acções nos remeterem, de forma disfarçada, para as características e episódios bíblicos de cada uma delas.

 

Vamos a três pequenos exemplos? Numa dada altura são oferecidas novas roupas aos convidados; Jesus toma uma veste com a cor de uma pomba, remetendo-nos para a figura do Espírito Santo. Mais à frente, aos convidados é pedido que reajam de forma contrário à habitual; Caim morre, em vez de matar alguém, numa alusão ao famoso episódio bíblico em que matou o irmão. Finalmente, depois de beber algum vinho Judas trai alguém, numa referência tão óbvia que dispensa maiores apresentações.

 

De uma certa forma, este texto é uma espécie de “quem é quem?” dos textos bíblicos, em que em detrimento de se perguntar “Tem óculos? Tem cabelo castanho? Tem olhos azuis”, somos instados a interrogar-nos sobre relações como “Porque razão José corta uma árvore? Que têm Adão e um figo em comum? Porque se senta Pedro próximo de um galo?”. Estas são respostas fáceis de dar, para quem conhecer minimamente o cânone bíblico, mas muitas outras das apresentadas indirectamente na obra implicam um conhecimento muito maior das personagens e respectivas históricas. Por isso, por muito que seja uma obra com uma certa piada – como já O Nome da Rosa nos indicava – não é de leitura simples.

Não são só os textos antigos que se perdem…

Muitos são os textos, e até algumas sequências mitológicas, que se perderam nos tempos que nos separam da Antiguidade. Disso já aqui foi falado por múltiplas vezes, mas exemplos de coisas semelhantes continuam a acontecer nos nossos dias. Para dar um exemplo engraçado, abaixo podem ser encontradas duas músicas de filmes da Disney que foram produzidas até um determinado ponto mas que, posteriormente, foram abandonadas e não apareceram nas versões finais das respectivas produções cinematográficas.

 

 

É natural que, ao longo dos tempos, estas (outras) músicas se vão perdendo, eventualmente resumindo-se a nada mais do que referências como “O filme X apresenta uma música sobre Y, mas está hoje perdida”. Em coisas como estas, infelizmente, parece que a humanidade ainda não aprendeu a melhor forma para preservar parte da sua identidade cultural.