Os cavalos lusitanos nascem dos ventos?

Diversas são as fontes da Antiguidade que nos contam algo curioso – existiam em terras da Lusitânia éguas que engravidavam somente por causa dos ventos. O episódio é localizado perto de Olisipo e do Rio Tejo; Varrão coloca-o no “Monte Tagro”, Columela diz que o local era o “Monte Sagrado”, enquanto que as fontes posteriores nada de muito útil adicionam em relação ao local em que tamanho prodígio tomava lugar. Onde seria? É provável que se tenha tratado de Sintra, até pelas enormes ventanias que existem próximas dessa serra. Outros falam de Montejunto. Mas, ainda assim, ninguém parece ter uma absoluta certeza… mas isso bem justificaria a sua fama!

A lenda de Machim e Ana D’Arfet

A lenda de Machim e Ana D’arfet é uma de aquelas que tenta explicar a origem do nome de um local, neste caso Machico, um dos municípios da Madeira. Em si próprio, este nome poderá parecer-nos estranho, e daí terá nascido uma potencial necessidade de o explicar.

A lenda de Machim e Ana D'arfet

Assim, esta lenda conta-nos que em meados do século XIV viveu em Inglaterra um tal Roberto Machim, que se apaixonou por uma Ana D’Arfet*. Não sabemos até que ponto se terão tratado de personagens históricas, mas a sua história diz que a família da jovem não permitiu qualquer união entre os dois amados, em vez disso escolhendo um outro noivo para Ana. Incapazes de aceitar esse triste destino, decidiram fugir de Inglaterra para França, mas o barco foi apanhado numa enorme tempestade e levado (muito) para fora do rumo que pretendiam seguir.

Na manhã seguinte, depois de muitas horas de medo e de viagem, chegaram ao areal de um local desconhecido. Não encontraram ninguém por lá e Ana adoeceu. Veio a falecer, algum tempo depois, e então Machim escreveu toda esta história numa cruz de madeira, que os Portugueses viriam a encontrar alguns anos mais tarde. Foi em sua virtude que deram à região o nome de Machico, e aí construíram o primeiro edifício de toda a ilha, uma igreja, com o seu altar colocado no mesmíssimo local onde se encontrou o túmulo dos dois amantes.

Outra versão, partilhada pela mais antiga que nos chegou, adiciona um passo extra a esta história – ambos os amantes morreram, mas pelo menos um dos seus companheiros no barco foi posteriormente capturado por Mouros. Após muitas tribulações chegou a Portugal e anunciou ao Infante Dom Henrique a ilha que tinha visto; este enviou embarcações ao local, sendo a Madeira finalmente descoberta por navegadores de Portugal no ano de 1418.

 

Não sabemos onde acaba a ficção e começa a realidade nesta lenda de Machim e Ana D’Arfet, mas há aqui um facto muito claro – o nome de Machico, qualquer que tenha sido a sua origem, é invulgar na cultura portuguesa. Terá, portanto, tido uma origem incomum, e a hipótese de ter nascido por corrupção de algum nome estrangeiro, como o referido na lenda, é por isso válida. Não sabemos se completamente certa, é claro, mas pelo menos é uma hipótese credível e que poderá ser tida em conta por aqueles que buscam a causa desse estranho nome – e, na verdade, toda esta história já aparecia num relato que se atribui a Francisco Alcoforado, um dos navegadores da primeira viagem à Madeira, o que lhe dá uma ainda maior aparência de se ter baseado em alguns factos reais…

 

 

*- Outras versões, incluíndo a mais antiga que conseguimos encontrar (i.e. ainda do século XV), dá-lhes os nomes alternativos de Lionel Machim e Arabella Darcy.

“Catomiomaquia”, de Teodoro Pródromo

Também conhecida sob o nome de “A Batalha dos Gatos e dos Ratos”, esta Catomiomaquia de Teodoro Pródromo é uma pequena obra satírica que nos apresenta uma batalha de vários ratos contra um gato, num estilo que é quase homérico, chegando a nela existir até referências notáveis a momentos da Ilíada e da Odisseia. Os deuses não estão muito presentes (aparecem, essencialmente, num sonho/profecia de um dos ratos e nas invocações que precedem o combate), mas esta obra do século XII merece ser mencionada é pelo seu carácter paródico. Não é única na literatura bizantina, mas é curioso exemplo do que aí foi sendo produzido ao longo dos séculos.

Citações de autores da Antiguidade Clássica no Novo Testamento

Ao leitor comum a ideia até poderá parecer um tanto ou quanto estranha, mas existem citações de autores da Antiguidade Clássica nos textos do Novo Testamento. Não são muito fáceis de notar – talvez até seja mais fácil referi-las como alusões, mais do que citações directas, na medida em que os autores originais nunca são mencionados pelo nome – até porque se presume que não sejam muitas as pessoas que decidem “caçá-las”, mas deixamos aqui três pequenos exemplos:

Autores da Antiguidade Clássica no Novo Testamento

  • Actos dos Apóstolos 17:28, a citação provém dos Fenómenos de Arato
  • Primeira Epístola aos Coríntios 15:33, a citação provém de Menandro
  • Epístola a Tito 1:12, é citado um famoso provérbio relativo aos Cretenses

 

Estes três exemplos permitem-nos compreender que o autor das epístolas tinha, pelo menos, algum conhecimento da literatura grega… mas será que conhecem alguns outros exemplos de citações de autores da Antiguidade na Bíblia?