Uma pintura da queda de Tróia na Biblioteca Nacional de Portugal

Incêndio de Tróia

Na imagem acima pode ser vista uma pintura representando a queda de Tróia que é hoje pertença da Biblioteca Nacional de Portugal (mais informação pode ser lida clicando na imagem), e que parece ser datada do século XVII. O que ela tem de especial é mesmo o facto de representar a queda da cidade recorrendo aos seus elementos mitológicos mais famosos:

  1. A torre da cidade, onde ocorreram diversos diálogos e de onde Astíanax foi atirado.
  2. As famosas muralhas que protegiam Tróia.
  3. O Cavalo de madeira, usado pelos Gregos para a invasão da cidade.
  4. (Provavelmente) O templo em que estava guardado o Paládio.
  5. Os esgotos da cidade, por onde Ulisses entrou aquando do roubo do Paládio.
  6. Eneias, com o pai às costas e o filho a seu lado.
  7. O barco que Eneias irá tomar para escapar de Tróia.
  8. Um enorme edifício em chamas, podendo tratar-se do palácio real.

 

Esta é uma representação da queda de Tróia tal como esta acontecia na Eneida, focando-se mais na dor dos derrotados do que na felicidade dos vencedores. Os Gregos, esses, remetem-se a meros vultos que saem do cavalo, como que anunciando, desse lado esquerdo, a destruição posteriormente concretizada no resto da pintura. É um quadro repleto de significado, de que esperamos que gostem!

“Elementos Mágicos”, de Pedro de Abano

Quando, numa qualquer série de televisão, as personagens são vistas durante um ritual mágico, normalmente desenham algo deste género:

Trata-se, essencialmente, de um círculo com alguns desenhos e escritos no seu interior, mas o que significa? Obviamente que nestas artes místicas muitas são as possíveis respostas, mas é disso que fala a obra Elementos Mágicos, de Pedro de Abano. Ele insta os leitores a desenharem um círculo, símbolo da unidade divina, no qual depois devem ser inscritos determinadas formas e palavras, que variam mediante o dia da semana e a hora em que o ritual é realizado. É uma obra pequena, mas com bastante informação interessante para quem quiser explorar temáticas como estas.

Porque cheiram os cães os rabos alheios?

Cão a cheirar o rabo de um companheiro

Quem tiver cães certamente que já os viu a cheirarem os rabos alheios… mas porque o fazem? Quem nunca se interrogou sobre esse invulgar comportamento?

 

Essencialmente, contam-nos as fábulas de Fedro que, numa dada altura, os cães enviaram uma embaixada ao pai dos deuses, procurando uma vida melhor para a sua espécie. Porém, quando estes embaixadores viram os deuses com os seus próprios olhos, “descuidaram-se”.

Passado algum tempo, e sem que voltassem a ver os embaixadores originais, os cães decidiram enviar um segundo grupo aos deuses. Para impedir que o mesmo voltasse a acontecer, colocaram perfumes nos traseiros dos embaixadores; mas também a nova embaixada, quando viu o poder e o horrendo som dos relâmpagos de Júpiter, fez o mesmo, deixando não só os seus dejectos mas também o perfume no local.

Júpiter, zangado, decidiu então que os cães iriam manter a vida que tinham, ou seja, que iriam passar muita fome, de forma a que não tornassem a cometer o mesmo erro que duplamente tinham feito.

 

Porque cheiram então os cães os rabos alheios? Segundo Fedro, fazem-no provavelmente na esperança de que, quando vêem um cão que nunca viram antes, reconhecerem-nos como parte dos potenciais embaixadores que enviaram aos deuses, e dos quais ainda esperam vir a ter notícias.

Os deuses e a escolha das árvores

Imagem de uma oliveira

Esta pequena história dos deuses provém das fábulas de Fedro.

 

Conta-nos então esse autor que, um dado dia, os deuses do Olimpo decidiram escolher as suas respectivas árvores – Júpiter escolheu o Carvalho, Vénus a Murta, Febo Apolo o Loureiro, Cibele o Pinheiro e Hércules o Choupo. São, todas elas, árvores que não dão fruto, o que levou Minerva a perguntar-se sobre a razão para tal; Júpiter, seu pai, respondeu-lhe que assim não venderiam as suas honras em troca das frutas. A ele, a deusa retorquiu que, ainda assim, a Oliveira (vista na imagem acima) lhe era mais cara em virtude do seu fruto.

 

A verdadeira moral da história provém dos próprios lábios de Júpiter – “Ó filha, é com justiça que és chamada sábia por todos; pois, a não ser que o que fazemos for útil, vã é a nossa glória“.

De que árvore provinha o fruto que Adão e Eva comeram?

Muitos são os segredos que se escondem nas linhas do Antigo Testamento. Infelizmente, ainda não encontrámos qualquer livro que aborde todos eles (se souberem de algum, por favor deixem essa informação nos comentários!), pelo que esta semana voltaremos a focar-nos num segundo mistério – de que árvore provinha o fruto que Adão e Eva comeram? Terá sido, como frequentemente representado em imagens cristãs, a maçã?

É muito provável que a história do Paraíso e da singular árvore tenha antecedido o próprio Judaísmo, porque existem representações de episódios a eles semelhantes em períodos muito anteriores. Porém, nenhuma delas permite identificar seja a árvore, ou o fruto desta. Mesmo aqueles que procurem, quase com uma lupa, essa informação no texto do Antigo Testamento rapidamente acabarão frustrados – não está lá, estando tão oculta que a Árvore da Vida facilmente se confunde com a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, ao ponto das suas características muito se confundirem. Poderiam procurar-se respostas noutras religiões da mesma área geográfica, mas isso também leva a um problema inesperado – mesmo quando é de alguma forma identificada (por exemplo, quando os praticantes do Zoroastrianismo falam da haoma), desconhecemos qual a sua equivalência moderna.

 

Tentemos então uma resposta inversa – terá sido a árvore a macieira, e o fruto proíbido a maçã? Já responder a essa pergunta implica falar um pouco do texto bíblico cristão. Quando São Jerónimo, por volta do século IV ou V, traduziu esses textos para Latim, criou uma tradução tão popular que durante séculos e séculos seria a utilizada por toda a Europa. E no seu texto ocorria, evidentemente, uma palavra como malus (“o mal”), ou mali (“do mal”).

Contudo, se alguém na mesma época quisesse escrever “a maçã” ou “da maçã”, fá-lo-ia precisamente da mesma forma – malus e mali – só mudando muito ligeiramente o som produzido oralmente.

Agora, se nada no texto identifica mesmo o fruto, a semelhança de palavras facilmente poderá ter levado a que este passasse a dizer o que não diz – que essa árvore dava… maçãs. E assim surgiu mais uma ideia que não está escrita na Bíblia, a de que Adão e Eva poderão ter sido expulsos do Paraíso por causa de um fruto de macieira.