“Calcanhar de Aquiles” – origem e significado

A expressão Calcanhar de Aquiles tem um significado muito claro no contexto do mito deste herói da Mitologia Grega, na medida em que ainda hoje é usada para designar uma qualquer fraqueza particular em alguma coisa. Assim, ao dizer-se que o de uma determinada equipa é a defesa, pretende dizer-se que o seu grande ponto fraco é a incapacidade para defender correctamente. Muito simples, até porque esta expressão nos é sobejamente conhecida nos dias de hoje, mas de onde vem ela, qual é a sua verdadeira origem?

O mítico Calcanhar de Aquiles

Descortinar essa história do Calcanhar de Aquiles é muito menos simples do que nos poderia parecer a uma primeira vista. Na Ilíada não existe qualquer referência a uma especial vulnerabilidade que este herói possa ter tido, até porque este herói é aí ferido e até sangra. Saltando alguns séculos mais à frente, é somente já no início da nossa era que um primeiro autor, Estácio, alude a uma pequena história na qual o filho de Tétis, ainda muito jovem, tinha sido banhado pela mãe no rio Estige; isto deveria torná-lo invencível, mas como a deusa o segurou por um dos calcanhares, a figura teria sempre essa vulnerabilidade. Poderíamos então pensar que teria sido Estácio, na sua incompleta Aquileida, a originar a expressão relativa ao Calcanhar de Aquiles, mas a verdade é que nos muitos séculos que separam os Poemas Homéricos desta criação latina existem múltiplos vasos que têm representados alguma sequência da morte de Aquiles, com o herói a ter, muito frequentemente, uma flecha a trespassar um dos pés.

 

Teria ele morrido dessa ferida? Estaria a flecha de alguma forma envenenada? Era o Calcanhar de Aquiles verdadeiramente uma fraqueza do herói? Muitas poderiam ser as questões relativas ao episódio mitológico, mas seriam um pouco secundárias para o tema aqui em discussão. Nas fontes literárias a que ainda temos acesso, a ideia de uma vulnerabilidade do herói só aparece, como já dito, no primeiro século da nossa era, vindo depois a ser popularizada não através de uma única obra – como poderíamos crer – mas de todo um conjunto de obras que, ao longo dos séculos, a foram repetindo das mais diversas formas. Esta é, portanto, uma ideia de um autor desconhecido, que a cultura popular foi disseminando com o decorrer do tempo.

Jogo “Warriors: Legends of Troy”

Seria importante dizer-se que não terminei este jogo, disponível para Xbox 360 e Playstation 3, mas deixo aqui um vídeo que mostra diversas sequências do jogo. Estas cobrem não só os eventos da Ilíada, com algumas alterações, mas também outras sequências da mesma guerra, como as de Pentesileia.

Por muito interessantes que estas sequências nos possam parecer, há que ter em conta que foram inegavelmente adaptadas para o contexto do jogo. Assim, aqueles que procurem um estudo mais realista e concreto do tema deverão sorver os eventos aqui representados com alguma prudência.

Uma curiosa citação que Aristóteles um dia colocou na boca de Heraclides

What is a human being? A paradigm of weakness, a captive of opportunity, a plaything of Fortune, an icon of deterioration, a balance-beam between resentment and misfortune; and the rest is phlegm and bile.

 

É possível, mas não certo, que a citação que deu origem a esta tradução tenha provindo do Protréptico de Aristóteles, em que Heraclides era um dos intervenientes.

Filme “Orfeu Negro” e a peça “Orfeu da Conceição” de Vinicius de Moraes

Realizado pelo brasileiro Marcel Camus, este filme transporta o famoso mito de Orfeu e Eurídice para o Carnaval do Brasil de meados do século XX, com a grande reviravolta de que acaba por ser Orfeu a matar a sua amada. Fá-lo de uma forma indirecta, sem conhecimento de causa, mas quem conhecer bem o mito poderá encontrar ao longo de todo o filme diversas referências ao mito grego. Não serei a melhor pessoa para avaliar todo o filme, mas posso dizer que mais do que se basear no mito grego, a sua inspiração proveio de uma tragédia de Vinicius de Moraes, Orfeu da Conceição, que pode ser lida online gratuitamente aqui e que reservarei para um artigo futuro mais alongado.

De forma sucinta devo referir que é um filme interessante, quase sempre muito harmonioso e alegre, mas que também consegue capturar diversos elementos do mito de uma forma curiosíssima – o poder musical do herói, como este tenta recuperar a sua amada, ou mesmo a sequência da morte das suas duas figuras essenciais. Eu consideraria este um filme imprescindível para todos os leitores do Brasil, mas é provável que esses também já o conheçam – se for esse o caso, o que acharam dele?

Origem da expressão “À mulher de César não basta ser honesta, deve parecê-lo”

A expressão À mulher de César não basta ser honesta, deve parecê-lo já ocorria nas Vidas Paralelas de Plutarco, inserida num relato da vida de Cícero.

 

O seu significado remete-nos, essencialmente, para a ideia de que devemos sempre agir de uma forma que nos apresente acima de todas as suspeitas, mesmo que nada de errado tenhamos feito. Poderíamos até recordar a história de um dado político português, “engenheiro”, que, face a um conjunto repetitivo de processos em tribunal, se defendeu repetidamente dizendo que andava a ser perseguido, argumento que só convence aqueles que nele sempre acreditariam, mesmo face a qualquer tipo de prova real em contrário. Isso não o faz parecer honesto, mas muito menos o será.