Uma pequena história de dois labirintos

Os mitos gregos e romanos atribuíam um labirinto em Creta a Dédalo, mas não é totalmente certo se, para eles, esse seria o primeiro recinto do estilo. Porém, o labirinto do Minotauro é certamente o mais famoso do género na Antiguidade, sendo até representado seja apenas com a sua forma característica, com um ou múltiplos caminhos possíveis de seguir e até com a monstruosa figura no seu interior. Na ausência do monstro, também pode aparecer com um intuito mais decorativo, que já ocorria em vasos gregos de bastante idade (perdão, “do período geométrico”, para quem gosta dessas coisas), mas seria difícil alguém querer argumentar que esse labirinto não se encontra quase sempre ligado a um mito muito específico.

O Labirinto do Minotauro

Alguns séculos mais tarde começaram a surgir figuras de labirintos na entrada e no interior de algumas igrejas cristãs. Qual é o seu significado, já que dificilmente ainda se poderia apoiar uma ligação ao Minotauro? Existem muitas teorias, mas uma das mais convincentes parece ser a de uma metáfora para a complexidade dos caminhos da nossa vida e da dificuldade que é a chegada a Deus.

 

Em ambos os casos parece existir a colocação de um elemento de grande importância no seu centro (ou na sua saída), seja o Minotauro de Jasão ou um invisível Deus cristão, entre outras figuras menos frequentes e eminentemente mais decorativas. Na ausência de qualquer figura, o labirinto, por si só, parece ser um elemento decorativo.

“A lenda das mulheres virtuosas”, de Chaucer

Esta lenda das mulheres virtuosas, de Chaucer, apresenta-nos um sonho do seu autor, no qual lhe aparecem o antigo deus do amor e Alceste, figuras que o instam a escrever sobre a virtude das mulheres, já que, como ele próprio nos conta, anteriormente tinha escrito sobre elas de uma forma menos boa. Essa é uma tarefa que empreende após acordar, falando dos amores de figuras históricas e mitológicas como Cleópatra, Dido de Cartago e Medeia.

"A lenda das mulheres virtuosas", de Chaucer

Se em termos de mitologia a lenda das mulheres virtuosas nem nos apresenta algo de muito notável – o autor assenta muito nas “Epístolas das Heroínas” de Ovídio – há pelo menos um elemento curioso no mito de Teseu. Quando Ariadne refere ao herói como este poderá derrotar o Minotauro não é feita qualquer referência à hedionda forma do monstro, mas é aconselhado ao grego que coloque uma bola na boca do seu opositor, de forma a que este não o pudesse atacar com a boca. Não se tratará de uma corrupção do novelo que o herói usa para escapar do labirinto, que só é mencionado mais à frente, mas de um elemento totalmente novo que não me recordo de ter visto em qualquer referência clássica ao mito.

Os “Contos da Cantuária”, de Chaucer

Os Contos da Cantuária, de Chaucer, são uma colectânea de pequenas histórias que numa viagem para a Cantuária, em Inglaterra, um conjunto de peregrinos, cada qual com a sua profissão, partilha entre si. É uma obra interessante, semelhante no seu espírito ao Decameron de Boccaccio, e talvez até uma das mais famosas da literatura inglesa medieval, mas talvez não estivesse a ser mencionada aqui hoje se não fosse pelo facto de entre as histórias contadas pelos seus intervenientes se contarem algumas provindas da Antiguidade ou mesmo inspiradas nos mitos greco-latinos.

Os Contos da Cantuária de Chaucer

Para dar um pequeno exemplo, uma das últimas histórias partilhadas nestes Contos da Cantuária principia com a derrota da Píton por Febo [Apolo]. Prossegue com a referência a uma esposa desta figura cuja fidelidade o “deus” (não é totalmente claro que ele aqui ainda se trate de uma figura divina) tentou preservar, colocando um corvo a guardá-la. Quando este animal falha o seu trabalho que lhe foi imputado, ele perde a sua voz cantora e é tornado negro. As semelhanças com o mito de Coronis são inegáveis, mas também existe algo de invulgar na história, que a faz soar mais como uma trama amorosa dos tempos medievais do que um antigo mito de tempos passados – e a ideia era comum na Idade Média, como também pode ser visto em obras como Sir Orfeu.

 

É esse espírito de romance que parece pautar todos os Contos da Cantuária, tanto ao nível de histórias mais recentes como em relação àquelas que provinham da Antiguidade. A isso se acrescente o facto de pelo menos duas enormes histórias estarem profusamente ilustradas com exemplos dos mais diversos autores – figuras como Cícero, Ovídio ou Boécio, apenas para mencionar três dos mais óbvios – e assim se poderá justificar a importância desta criação de Chaucer no estudo da recepção da cultura greco-latina na Idade Média.

Conselho de Chaucer para todos os pais

Conselho de Chaucer para todos os pais

Muitas vezes, de livre e espontânea vontade, [a jovem de que nos fala uma história] chegava a alegar doença para fugir às companhias que pudessem levá-la ao pecado, principalmente nas festas, nos folguedos e nos bailes, que são ocasiões para excessos. Como se vê, são essas coisas que tornam as crianças maduras e atrevidas antes do tempo, o que constitui um perigo. Afinal, as meninas podem esperar um pouco, deixando para perder o acanhamento quando se casam.

(…)

Pais e mães, não importa quantos filhos tenham, é seu dever vigiar a todos enquanto estiverem sob a sua custódia. Cuidem para que não se percam, nem por seu mau exemplo, nem por sua negligencia em castigá-los. Se assim não agirem, asseguro-lhes que irão pagar por isso. Quando o pastor é mole e descuidado, o lobo encontra muitos cordeiros e ovelhinhas para dilacerar.

Fonte: Contos da Cantuária, tradução de Paulo Vizioli