Uma concepção do amor na visão de Chaucer

Sobre esta concepção do amor na visão de Chaucer, as linhas que se seguem vêm dos Contos da Cantuária, com tradução de Paulo Vizioli:

 Uma concepção do amor na visão de Chaucer

Os que se amam devem respeitar-se mutuamente, se quiserem viver juntos muito tempo. O amor não tolera imposições. Quando surge a imposição, o deus do Amor bate as asas, e então, adeus! vai-se embora. O amor, como tudo o que é do espírito, tem que ser livre. As mulheres, por natureza, desejam a liberdade, e não gostam de ser coagidas como escravas; assim também são os homens, para dizer a verdade. No amor leva vantagem aquele que for mais paciente; sim, virtude sublime é a paciência, dizem os doutos, pois vence onde fracassa a intolerância. Não se deve esbravejar, ou responder, a cada palavra: quem não aprende por si mesmo a controlar-se, ou por bem ou por mal será ensinado. Além disso, não há ninguém neste mundo que, uma vez ou outra, não faça ou não diga alguma coisa errada; a ira, a doença, a influência astral, o vinho, o desequilíbrio dos humores, – tudo pode levar a atitudes ou palavras insensatas. Eis porque não convém ficar zangado a cada deslize; e quem entende a essência da verdadeira autoridade deve com o tempo cultivar o equilíbrio.

O que querem todas as mulheres?

Esta é uma questão que já foi feita incontáveis vezes ao longo dos séculos – afinal de contas, o que desejam, ou querem, todas as mulheres? Sexo? Dinheiro? Amor? Fama? Para a maior parte dos leitores, esta poderá ser, sem qualquer dúvida, uma questão que dá muito que pensar – podemos considerá-la durante horas, tentar encontrar uma resposta, apenas para, momentos depois, conseguir encontrar várias excepções à mesma. Por exemplo, para que quereria uma freira amor? Para que quereria uma mulher que já tem muito dinheiro ainda mais do vil metal? Portanto, pense-se nisso antes de continuar a ler estas linhas – afinal de contas, o que querem todas as mulheres?

O que querem todas as mulheres?

Depois, aqui fica uma possível resposta, provinda de um dos Contos da Cantuária, numa história que parece ter alguma influência da Antiguidade e que deverá ter sido bastante popular nos séculos que se seguiram, dado o número de outras fontes literárias que também a referem. Essencialmente, nessa fonte e a um dado cavaleiro foi prometida a morte excepto se ele soubesse responder à questão que dá título ás linhas de hoje. Também ele teve dificuldade em encontrá-la, até que encontrou uma idosa, muito feia e mal-cheirosa, que lhe prometeu a resposta se ele aceitasse casar com ela. Em completo desespero, ele lá aceitou o pedido de casamento, e depois a idosa – que posteriormente se revela uma belíssima fada – disse-lhe o seguinte:

Wommen desiren to have sovereyntee
As wel over hir housbond as hir love,
And for to been in maistrie hym above.

 

O que quer isto dizer, para todos aqueles que têm alguma dificuldade em compreender a língua original? Essencialmente, diz-nos que todas as mulheres querem ser soberanas e mestres de quem amam. Mas será que os leitores, como as mulheres que apareciam na mesma história, também concordam? Afinal, o que querem todas as mulheres?

“O Sétimo Selo”, de Ingmar Bergman

Este filme O Sétimo Selo (ou, no original sueco, Det Sjunde Inseglet), da autoria de Ingmar Bergman, merece ser mencionado por cá face a uma ideia muito significativa que contém e que parece ter entrado para a cultura popular. Se, por um lado, podem ter sido poucos aqueles que já viram o filme, é provável que muitos mais até conheçam a sua cena mais famosa, que é mais ou menos assim:

Famosa imagem do Sétimo Selo, de Ingmar Bergman

Para que ainda não reconhecer a cena, O Sétimo Selo é particularmente famoso como o filme em que um Cavaleiro e a Morte jogam xadrez. Todo o conceito até pode parecer um pouco cansativo, por isso há que deixar muito claro que a trama não é apenas composta por estas duas personagens a jogarem esse seu jogo de tabuleiro, mas este vai voltando ao palco de tempos a tempos, mas sem que se consiga, aparentemente, seguir movimento a movimento o desenrolar de toda a acção.

 

Por isso, de que fala mesmo a trama de O Sétimo Selo? Temos alguma dificuldade em conseguir resumi-la sem fazer spoilers, mas apresenta essencialmente uma trama de inspiração medieval em que o confronto entre a vida e a morte se repete em diversas cenas, com todo aquele conceito da Danse Macabre em foco principal (que é como quem diz “a morte a todos une”, uma espécie de evolução do mais antigo Memento Mori), e em que vão sendo exploradas diversas atitudes face a esse elemento inevitável da vida humana. Aparece o tal cavaleiro, o herói da história, mas também um ferreiro, uma troupe de actores, e várias outras personagens que vão sendo confrontadas com o peso inevitável da morte.

 

É um filme relativamente interessante, talvez mais se até for incluído num contexto em que forem sendo explicadas as nuances das diversas cenas, mas se um dia, por mero acaso, estiverem a procurar algo para ver na televisão e encontrarem este Sétimo Selo de Ingmar Bergman, fica o convite para lhe darem uma olhadela…

“[O debate de] Helena e Ganímedes” ou as virtudes da homossexualidade e da heterossexualidade

“[O debate de] Helena e Ganímedes” é um poema medieval em que as duas figuras discutem diferentes visões da homossexualidade e da heterossexualidade. Helena apoia, como nos parecerá fácil entender, o amor entre um homem e a uma mulher, enquanto que Ganímedes é aqui apresentado como um adepto do amor entre dois homens. Porquê essa segunda figura? Não é totalmente claro, mas é possível que se deva ao facto de Zeus/Júpiter o ter escolhido pela sua beleza particular, fazendo dele (provavelmente) um símbolo da beleza masculina em algumas concepções medievais.

Poucas são as menções mitológicas no poema – nenhum dos dois intervenientes refere episódios dos mitos em seu favor e apenas nos é dito que o debate tomou lugar numa assembleia dos deuses pagãos – sendo que estas figuras da Antiguidade servem apenas como pano de fundo para toda a discussão. Não valerá a pena estar aqui a referir os argumentos usados por cada um, mas não se pode deixar de referir que a heterossexualidade acaba por vencer o debate, com Ganímedes até a corar face a alguns dos seus actos particulares.

Contudo, uma referência adicional deve ser feita à forma como o poema termina – todo o debate parece ter tido lugar num sonho do seu autor, sendo que este termina as suas linhas com uma referência aos pecados de Sodoma e Gomorra (i.e. a sodomia), antes de proclamar que “Se um dia eu pecar assim, que Deus tenha misericórdia de mim”, numa óbvia reprovação aos pecados advindos da relação sexual entre dois homens. Poderá, por isso, ser um importante recurso para o estudo da visão da sexualidade na Idade Média.

‘Amores’ de Mosco

Pan loved his neighbour Echo; Echo loved a frisking Satyr; and Satyr, he was head over ears for Lyde. As Echo was Pan’s flame, so was Satyr Echo’s, and Lyde master Satyr’s. It was love reciprocal; for by just course, even as each of those hearts did scorn its lover, so was it also scorned being such a lover itself. To all such as be heartwhole be this lesson read: If you would be loved where you be loving, then love them that love you.

fonte

 

Aqui fica um pequeno poema de Mosco, em tradução inglesa, que nos dá que pensar…