O problema das citações fora de contexto

Algo que sempre me incomodou, no estudo de uma qualquer área, é o uso de citações fora de contexto. É demasiado simples ver alguém mencionar uma dada frase, copiá-la juntamente com a referência, e usá-la sem sequer se conhecer a obra de onde proveio. Acontece demasiado, e é algo que eu considero abominável.

Qual é o problema? Vejamos um pequeno exemplo, provindo de uma tradução inglesa da Moralia de Plutarco:

Does it not thence follow, that the earth is spherical, though we nevertheless see it to have so many lofty hills, so many deep valleys, and so great a number of inequalities? Does it not follow that there are antipodes dwelling opposite to another, sticking on every side to the earth, with their heads downwards and their heels upwards, as if they were woodworms or lizards? That we ourselves go not on the earth straight upright, but obliquely and bending aside like drunken men? That if bars and weights of a thousand talents apiece should be let fall into the hollow of the earth, they would, when they were come to the centre, stop and rest there, though nothing came against them or sustained them; and that, if peradventure they should by force pass the middle, they would of themselves return and rebound back thither again? That if one should saw off the two trunks or ends of a beam on either side of the earth, they would not be always carried downwards, but falling both from without into the earth, they would equally meet, and hide themselves together in the middle? That if a violent stream of water should run downwards into the ground, it would, when it came to the centre of the earth, which they hold to be an incorporeal point, there gather together, and turn round like a whirlpool, with a perpetual and endless suspension?

Fabulosa, esta citação! Os Gregos acreditam numa terra redonda, na gravidade, e em outras coisas que tais! Que se use cinco, 10, 20 vezes esta citação para o provar, sem qualquer margem para dúvidas, mas… infelizmente, a frase seguinte a essas também era:

Some of which positions are so absurd, that none can so much as force his imagination, though falsely, to conceive them possible.

É, portanto, este o problema de se citar seja o que for sem se conhecer, ou sem se ter lido, a obra de onde ela provém. Mesmo que o eventual citador até tivesse lido a proximidade da citação, sem ler toda a obra ele nunca saberá o contexto da mesma. Seria como citar, por exemplo, o discurso de Aristófanes no Simpósio de Platão e atribuí-lo a Sócrates, só porque alguém mais também já o fazia, e porque nenhum dos dois envolvidos tinha lido a obra.

Agora, se por um lado eu compreendo a importância de se estudar também as fontes secundárias, e outras que tais, acho é que isso também nunca pode, nem deve, ser usado para colmatar um desconhecimento das várias fontes primárias, na primeira pessoa, como, infelizmente, tanta gente insiste em pensar…

Em tempo de crise, importa relembrar

No seu texto contra o empréstimo de dinheiro, Plutarco diz o seguinte:

this [o pedido de empréstimo de dinheiro] we do, not being compelled by poverty (for no usurer will lend a poor man money) but to gratify our prodigality. For if we would be content with such things as are necessary for human life, usurers would be no less rare in the world than Centaurs and Gorgons.
fonte

Quão mais simples e sublime seria, hoje, a vida se as pessoas, em vez de optarem, constantemente, por uma vida que não podem fazer, soubessem escutar as importantes palavras do passado, em muito semelhantes a estas!

“Sobre a malícia de Heródoto”, de Plutarco

Nesta obra, que faz também ela parte da Moralia, Plutarco analisa os vários livros das histórias de Heródoto, de uma forma muito sintética, e aponta as várias imprecisões de que a obra sofre. Nesse sentido, este texto pode ser dividido em duas partes, a primeira das quais aborda os problemas gerais da obra, e a segunda em que o autor vai passando pelos livros e mostrando o que está menos correcto em cada um deles.

Na primeira parte, então, é dito que Heródoto podia ter usado expressões mais simples, em vez de termos pejorativos; que usa demasiados infortúnios como forma de ligar as histórias; que omite alguns elementos positivos; que, face a várias versões, tende a optar sempre pela pior, e que o faz, igualmente, quando as razões para algo são desconhecidas; que nem sempre diz as verdadeiras razões para certas acções terem tido lugar, entre várias outras.

Na segunda parte, Plutarco começa logo por criticar a ideia, patente no primeiro livro das Histórias, de que as mulheres gregas tinham sido raptadas porque o quiseram ser. Eventualmente, até dá uma versão ligeiramente diferente da Batalha das Termópilas, e fala de vários outros episódios famosos, mostrando a parcial falsidade de Heródoto em muitos deles, e justificando a sua parcialidade face aos Bárbaros, e muitas vezes contra os Gregos.

Ironicamente, em nenhum dos momentos da obra Plutarco menciona as óbvias falsidades nas Histórias; seria porque também nelas acreditava, ou porque esses elementos já eram conhecidos como falsos, nessa altura, e portanto seria redundante fazê-lo? Omite, por exemplo, toda e qualquer referência às muitas criaturas fantásticas mencionadas por Heródoto, focando-se essencialmente em outras versões, e impossibilidades, dos episódios históricos, tema que, como ele próprio diz, também aborda naquilo a que hoje chamamos Vidas Paralelas. Nesse ponto, porém, esta torna-se uma obra crucial para o estudo da recepção do texto de Heródoto…

A origem dos daemones, segundo Lactâncio

Esta história, contada por Lactâncio, parece-me interessante o suficiente para ser recontada por cá. Após a criação do Homem, e os eventos que tomaram lugar no Jardim do Éden, a Humanidade vai-se tornando cada vez mais imoral, e Deus decide mandar alguns anjos para instruir a Humanidade e protegê-la do mal. Deu a esses anjos ordens para se absterem de tudo o que era terreno, mas a serpente seduziu-os, como fez com os primeiros homem e mulher, levando-os ao pecado, o que os tornou nos daemones que, com uma nova substância, seriam os venerados nas religiões da Grécia e suas semelhantes. Versões semelhantes a esta ocorrem em vários outros autores, mas esta é a única, de que me lembro, em que a ligação entre a criação divina original e os deuses dos Gregos é posta de uma forma tão directa e tão bem explicada. Claro que, como é hábito, isto nos leva à questão do mal, da criação da serpente, mas esse tema não é para aqui, não agora.

“De Ísis e Osíris”, de Plutarco

Esta é, sem margem para dúvidas, uma das mais interessantes obras que tive oportunidade de ler nos últimos meses. Nela, Plutarco fala da religião dos Egípcios, e apesar da sua informação nem sempre ser correcta (isto é óbvio até para alguém que, como eu, não sabe tudo sobre a religião em questão), ele menciona todo um conjunto de informações preciosíssimas, talvez únicas nos autores da Antiguidade que nos chegam.

Conta, por exemplo:
– Como foi o primeiro evento de pânico;
– Estranhas representações pictóricas;
– A história dos dois deuses do Zoroastrianismo;
– A confusão dos Gregos com seus deuses, em particular o facto das estátuas serem, eventualmente, vistas como deuses, mais do que como meras representações destes;
– O mito de Tífon, em que os deuses gregos fogem para o Egipto e se disfarçam de animais;
– E muitas outras, que nem me atrevo a tentar reproduzir…

Em verdade digo que este é, sem qualquer dúvida, um daqueles livros que DEVEM ser lidos, e apesar de não ser tão pequeno como outros deste mesmo autor, dada a riqueza da informação por ele facultada este é aqui um ponto positivo, mais que negativo.