O “Primeiro Mitógrafo do Vaticano”

O Primeiro Mitógrafo do Vaticano é um texto medieval, de autoria desconhecida, que reconta 229 mitos de uma forma muito básica. O autor, fosse ele quem fosse, não se prende em floreios poéticos, retratando cada um dos mitos de uma forma tão directa e nua quanto possível. Por exemplo, em relação ao mito de Tâmiris e as Musas, diz o seguinte:

 

Tâmiris era um poeta. As musas cegaram-no quando este, com a sua poesia, competiu contra elas e Apolo durante um longo período de tempo.

 

Este pequeno exemplo permite a qualquer leitor ter uma sensação do que pode esperar da obra; se o seu autor até conta uma infinidade de mitos, uns após os outros, parece fazê-lo somente para preservar a trama geral dessas histórias, chegando, muitas vezes, até a dar versões incompatíveis das mesmas histórias. Não obstante essa fraqueza, esta obra não deixa de ser útil pelo facto de compilar uma vasta imensidão de mitos.

Porque segue o cão a pedra?

Quando se atira, por exemplo, uma pedra a um cão, porque é que ele reage da forma que reage? Pode parecer uma pergunta um pouco estranha, mas é uma das questões, uma das mais curiosas, que Plutarco se põe nas Questões Naturais. Para lhe responder, o autor põe-se várias hipóteses:

– O cão, contrariamente ao ser humano, não tem logos, e portanto não consegue perceber quem o está a atacar. Portanto, pensado ser a única coisa que vê – uma pedra – persegue-a e procura vingar-se;

– O cão pensa que a pedra é uma besta, e então tenta capturá-la o mais depressa possível, mas quando entende que foi enganado, só aí ataca o ser humano;

– O cão apenas persegue a pedra por esta lhe estar mais próxima.

Claro que todas estas três hipóteses nos podem parecer demasiado simplistas, mas é precisamente esse o tipo de esclarecimento que também abunda nesta obra de Plutarco, um simplismo quase juvenil, quase como se fossemos fazer todas essas perguntas a uma criança, mas sem que possamos deixar de ter em conta que, em muitos dos casos, o próprio autor está, mais do que a dar a mera opinião dele, a veicular-nos a de outros autores, tais como Heraclito, Platão, Empedocles.

O mito de Talos

Segundo o mito de Talos, especialmente famoso da história dos Argonautas, ele era um enorme gigante de bronze que protegia a ilha de Creta, que teria sido criado por Dédalo ou por Hefesto, e cujo único ponto fraco passava por uma veia que atravessava grande parte do seu corpo, e que era protegida por um único prego. Este é, contudo, um daqueles mitos assolados por diversas versões em vários pontos, mas todos eles parecem ter um curioso elemento em comum, a destruição final do gigante, independentemente da razão ou de quem a causa.

O mito de Talos

Nesse sentido, sempre me pareceu que este Talos poderia ter sido, originalmente, uma divindade local, como acontece a muitas das figuras que surgem apenas para serem derrotadas por este ou aquele herói (podemos pensar, por exemplo, no caso da destruição de Anteu por Hércules), sendo ambas as figuras representativas da conquista da civilização dos primeiros por parte da desses segundos.

Mas se, por um lado, o material de que é feito Talos pode ser um vestígio de uma idade já há muito passada, ao mesmo tempo é curiosa a fraqueza da figura… é uma das poucas de que me recordo (a outra sendo Aquiles, em algumas das versões do mito) com uma fraqueza tão singular, e da qual os opositores conseguem acabar por tirar partido. Porquê um prego, e porquê essa uma tão singular veia? Pensando em toda a relação da ilha por ele protegida, Creta, com os touros, é até provável que, originalmente, se tratasse de um corno e não de um prego, mas seria o prego de Talos, como o corno do touro, um símbolo do seu poder, da sua coragem e força, que quando removido acabaria não só com a gigântica força, mas, e até, com toda a própria figura? Claro que é possível, é uma hipótese tão boa como qualquer outra, mas certezas sobre estas coisas são muito difíceis de ter…

Despedida

É com algum pesar que hoje, quase 10 anos após ter começado, dou por terminado este espaço. Novo conteúdos, como a abordagem ao resto da obra de Plutarco, traduções de textos, e as minhas monografias pessoais, irão ser levados para um novo espaço, mais privado e de acesso limitado, que já está disponível aqui [link removido]. Importa, ainda assim e segundo creio, explicar o porquê da minha decisão.

 

Essencialmente, eu hoje apercebi-me que um grande objectivo deste blog estava falhado; eu sempre tentei levar os mitos gregos a tanta gente quanto possível, e mostrar-lhes não só os muitos mitos mas também a cultura, as muitas e interessantes obras da Antiguidade. Eu, que escrevo, sempre me achei secundário, sempre achei que seria apenas um mero interlocutor, um transmissor desse conhecimento a que vou tendo acesso. E, através da escrita neste espaço, tive a oportunidade de, mais concretamente nos últimos dois anos, explorar mais de três centenas de obras, que com prazer tentei, muitas vezes, transmitir. Este espaço era um versão mais directa, mais simples, dos meus registos pessoais, e nele me focava somente nos mitos e nas obras com temas com eles relacionados.

 

Porém, isto também gerou um enorme problema… mais do que o conhecimento que tentei transmitir, as pessoas com quem fui falando nesta área e/ou sobre este espaço mostraram sempre, e exclusivamente, mais interesse em mim, naquela minha figura de mais que mero interlocutor, do que no próprio conhecimento que eu tivesse para lhes transmitir. E, infelizmente, isso também contrasta demasiado comigo próprio; eu costumo, a quem me conhece bem, dizer que se um dia me aparecesse uma cópia do Hortênsio de Cícero, ou da obra de Varrão sobre as antiguidades humanas e divinas, ou até da Filosofia dos Oráculos de Porfírio, à porta de minha casa, eu seria o mais feliz de todos os seres humanos – leria as obras, passá-las-ia a quem sempre me auxiliou para que as estudasse de forma mais técnica, e jamais me interrogaria da sua proveniência. E, no entanto, essas pessoas insistiram em dizer-me, uma e outra vez, que essa proveniência importa… dizem-me, até, que essa proveniência é o que mais importa, TUDO o que importa, lembrando-me as abomináveis aves do lago Estínfalo nesses seus barulhos, mas sem que alguma vez tenham entendido que a minha tarefa era de lhes mostrar o que poderão saber, o que poderão explorar, por eles mesmos, e não a de me mostrar grandioso e dar-lhes, de mão beijada, o material a copiar letra por letra, como fazem aqueles que copiam frases de Quintiliano, Lactâncio ou Aristóteles, sem sequer alguma vez terem aberto as obras desses autores.

 

Mas, devo dizer, falhei. Quando, por exemplo, tentei participar em conferências de Clássicas em Portugal (lá fora, porém, sempre foi um pouco diferente), a minha participação foi-me sempre negada sem sequer avaliarem a qualidade do meu trabalho uma única vez. Quando tentei pedir ajuda em alguns temas, as pessoas nunca me responderam. Quando pedi para me irem mantendo informado de eventos nesta área, não o fizeram. Quando tentei requisitar, em famosas bibliotecas, alguns livros para continuar a minha pesquisa, estes nunca estavam disponíveis, apesar de informação em contrário, tendo eu de os pedir emprestados recorrendo a apoiantes de outros países. E, ao longo de todo esse tempo, fui-me apercebendo que as pessoas não queriam o conhecimento, mas a pessoa; não queriam a arte, mas o título; não queriam o Héracles do mito, mas o Alcides. Foram-lhes dadas pérolas, e essas pessoas (que começo por identificar no novo espaço, para que se saibam quem são) insistiram em chafurdar na lama, em busca de bolotas. E, graças a essa gente que pouco sabe mas muito fala, gente que de Sabedoria terá pouco, e outros que tais, eu entendi que já não faz mais sentido continuar, pelo menos não aqui, pelo menos não para essa audiência que sempre pareceu preferir conhecer o autor à mensagem, quando a segunda, como dizia Sócrates em Fédon, sempre me pareceu a mais importante, por transcender o próprio autor.

 

Poderia, e deveria, não mais escrever uma linha que fosse, mas ao mesmo tempo também não quero privar uma outra audiência, mais simples, de parte desse conhecimento, e daí esta alteração parcial, para mostrar parte do meu trabalho a todos, e outra parte somente a quem o merece, seja onde for.

 

Para terminar, queria acabar por agradecer a várias pessoas – P., H., A., S., J., e acima de tudo a R. – por todo o apoio que me deram ao longo dos anos. Obrigado, lembrem-se das palavras de Plínio o Velho, e voltaremos a ver-nos no novo espaço.

 

 

[Texto adicionado posteriormente:] Este espaço voltou. Porquê? As razões podem ser lidas aqui.

O mito do Rapto de Proserpina

O mito do Rapto de Proserpina, conhecida entre os Gregos como Perséfone, conta-nos um dos eventos mais famosos da Mitologia Grega e Romana, que todos aqueles que gostam de mitos e lendas deveriam conhecer. Por isso, segue-se uma descrição simples, muito simples, de toda a história:

O Rapto de Proserpina

Quando Proserpina se encontrava a apanhar algumas flores num prado, juntamente com algumas ninfas, Plutão apareceu e, cativado pela sua beleza, raptou-a, levando-a para o seu submundo.

Ceres, sua mãe, desconhecia o que se tinha passado, e então decidiu procurar a filha. Tanto procurou que a natureza e as culturas, que tutelava, foram apodrecendo, o Inverno instalou-se, e pouco ou nada crescia. Entretanto, com a ajuda de um outro deus (Sol), veio a saber o que se tinha passado, e decidiu pedir a Júpiter ajuda para ter a sua filha de volta.

Quando contactado pelo deus Mercúrio, enviado de Júpiter, Plutão acedeu ao desejo de Ceres de ter a filha de volta, mas somente de uma forma parcial… visto que esta tinha, no submundo, comido seis sementes de romã, teria então de permanecer esses tantos meses por ano no outro mundo, voltando à companhia da mãe nos restantes. E assim foi, a partir desse momento.

(Quem preferir os deuses gregos pode substituir o nome da heroína por Perséfone, Plutão por Hades, Ceres por Deméter, Sol por Hélio, Mercúrio por Hermes, e Júpiter por Zeus)

 

Considerando este mito do Rapto de Proserpina como uma história urdida para explicar algo, torna-se simples compreendê-lo como uma explicação para a existência das estações do ano, para o facto das culturas dos campos crescerem em alguns meses mas não em outros. Porém, ver este mito dessa forma também é demasiado redutor, por escapar a essa interpretação todo um conjunto de aspectos que faziam deste mito algo tão importante ao ponto de ter todo um importante culto a si associado, os Mistérios de Elêusis.

 

Mais do que uma simples explicação, o mito do Rapto de Proserpina é quase uma certeza da vida eterna, porque como a Perséfone grega voltaria ano após ano, tal como as culturas voltariam repetidamente após cada espaço de tempo, também todos aqueles que aceitavam e apoiavam a mensagem do culto teriam esse mesmo acesso a uma renovada vida, (talvez) depois da de agora. Como a dupla viagem de Orfeu, também a continuada e repetida viagem de Perséfone seria uma certeza eterna de uma nova vida, e seguindo e exemplo da deusa também nós estaríamos como que condenados a, uma e outra vez, “escapar” deste mundo e a ele regressar.

 

Contudo, a enorme importância deste mito não se resume nem se esgota nestes breves comentários. Podemos, por exemplo, pensar na simbologia das seis sementes da romã, ou na existência do prado de onde a deusa foi raptada (se não me engano, alguns autores referiam até a existência de um culto nesse lugar, portanto conhecido e identificado), e muitas outras coisas que tais. Pense-se nisso, porque este é um daqueles mitos que, para seguir uma expressão poupar, “dá pano para mangas”…