“Greek Myths”, de Robert Graves

Este Greek Myths, de Robert Graves, não é, obviamente, uma obra antiga. De facto, o autor morreu em 1985, mas menciono este livro por uma razão bastante importante, a de apresentar as várias versões dos mitos e, também, mencionar de onde todas elas provieram. Somente por isso, esta obra de Robert Graves acaba por ser interessante para todos aqueles que pretendem saber mais sobre alguns mitos.

Atenção, ainda assim esta não é, de todo, uma obra indicada para pessoas que percebam menos de (ou queiram aprender um pouco sobre) mitologia grega. O autor, além de apresentar um número impressionante de mitos, também os interpreta, mas de uma forma previsível, repetitiva, muito fechada, o que torna este livro demasiado pesado para um leitura real – tenha-se, por exemplo, em conta que existem mais de duas dezenas de capítulos sobre as aventuras de Héracles – em vez disso, é mais indicado para consulta pontual de dados.

 

Caso alguém queira adquirir a obra em questão, fica uma sugestão – a Penguin Books, editora inglesa, tem a obra completa para venda por menos de 16€, o que acaba por compensar, mesmo com os portes de envio, até porque as editoras portuguesas (aparentemente na sua já-usual ânsia por dinheiro) dividiram a obras em três partes, e vendem-na a um custo total de 63€.

O mito das Simplégades

Anteriormente, uma leitora pediu um artigo sobre uma ilha que aparece na  Odisseia, “temida pelos marinheiros que, por ‘saberem’ tratar-se de uma ilha suspensa sobre as àguas, acreditavam que podia mudar de sítio”. Possivelmente, trata-se de uma referência a um conjunto de duas rochas que, ao aproximarem-se uma da outra, esmagavam os navios que por lá passavam. Estas rochas, que tinham o nome de Simplégades, surgem em duas grandes obras gregas. Na Odisseia, a personagem principal opta por um outro caminho, que o leva aos monstros Cila e Caribdis, em deterimento de confrontar os perigos que estas rochas apresentavam, os quais levariam a uma morte quase certa.

Contudo, no mito de Jasão e os Argonautas, os heróis acabam realmente por passar por estas rochas. De acordo com uma profecia que lhes fora apresentada, largaram uma pomba nas direcção das rochas, e só se esta passasse é que eles poderiam tomar tal caminho; tal como a pomba ficou sem algumas penas, algo similar sucedeu ao famoso navio, apesar de todos os heróis terem sobrevivido a esta experiência. É, também, curioso o evento que se seguiu – depois da passagem de Jasão e dos Argonautas, estas rochas fecharam-se pela última vez, e jamais voltaram a afastar-se.

 

Em termos práticos, qual o significado deste mito das Simplégades? Bem, a hipótese mais directa tem a ver com a existência de um estreito que, aquando da passagem de alguns marinheiros, dava a sensação de que se estava a fechar. Era, claro, pura ilusão, mas poderá ter sido essa a principal ideia geradora deste mito. Quanto ao episódio protagonizado por Jasão e seus companheiros, poderá ser visto como uma simples razão pela qual as famosas rochas já não podiam ser encontradas, pelo menos não com todas as características que as caracterizavam originalmente.

O poema “Alexandra”, de Licofron

Hoje finalmente acabei de ler esta obscura obra, a Alexandra de Licofron. É importante ter em conta que este não é, de todo, um poema ligeiro, algo que se possa ler sem muita dificuldade numa paragem de autocarro, mas sim uma obra da qual se merece ter uma visão geral. De facto, este poema, o único dos supostos trabalhos de Licofron que sobreviveu até aos dias de hoje, é composto por sequências extremamente complexas, tanto do ponto antigosde vista temático como artístico.

 

A obra, que pode ser lida gratuitamente em inglês online, apresenta algumas previsões da profetisa Cassandra de Tróia (também conhecida como Alexandra, talvez por ligação com o seu irmão [Alexandre] Páris), que assentam, na sua maioria, nos regressos dos heróis gregos após o término da guerra. Infelizmente, como sucede em grande parte das previsões, ainda hoje conhecidas, do Oráculo de Delfos, também estas são extremamente crípticas, e referem mitos bastante obscuros, grande parte dos quais nem sequer sobreviveram até aos dias de hoje; é necessário, ainda, ter em conta que mesmo os autores antigos consideravam esta obra como extremamente obscura, difícil de ler e compreender, e portanto trata-se de uma obra apresentada como mera curiosidade, não sendo indicada para a maioria dos leitores, excepto se for lida com comentários de apoio.

“Interpretação de Sonhos”, de Artemídoro de Daldis

Finalmente consegui arranjar uma cópia da Interpretação de Sonhos, ou Oneirocritica, de Artemídoro de Daldis, para a minha colecção pessoal. Trata-se, como o próprio nome indica, de uma obra sobre interpretação de sonhos, mas compreende essencialmente dois pormenores essenciais, que merecem certamente ser analisados.

 

Em termos gerais, esta é uma obra que relata costumes, bem como vários outros elementos da própria cultura grega, de uma forma extremamente jovial. O autor chega, em determinadas alturas, a questionar a própria religião, quando se refere à Titanomaquia como uma simples história, apesar de considerar outros mitos (por exemplo, o de Seleno) como reais e, portanto, dignos de ser considerados na própria arte de interpretação dos sonhos. Desse ponto de vista, esta é uma obra que merece realmente ser lida, para que se possam conhecer melhor vários elementos da cultura grega.

 

Contudo, de um ponto de vista mais filosófico, esta obra é bastante rica, e dá muito que pensar. Ao tentar ensinar a arte de interpretação de sonhos ao seu próprio filho, Artemídoro de Éfeso (ou, segundo ele escreve na própria obra, “de Daldis”) refere que a própria interpretação de sonhos pode ser executada recorrendo-se somente a uma justaposição e associação de ideias, o que acaba por ser uma interessante visão da própria psique humana. Em termos práticos, não é de todo possível compreender o que nos sucede nos sonhos nocturnos, mas uma teoria deste género leva-me a pensar que, mais do que preverem o futuro, os sonhos podem condicionar as nossas acções. O próprio Artemídoro o escreveu, quando disse que os sonhos de quem os sabe interpretar acabam por ser bastante diferentes, mais crípticos, que aqueles dos comuns mortais…

 

Recordo-me, por exemplo, de um caso referido por Artemídoro de Daldis, em que um homem tinha um sonho que parecia prever que a futura esposa se tornaria uma prostituta; infeliz com um tal presságio, e após várias peripécias, esta esposa acabou por falecer sem cumprir esse provável destino. Ao pensar que o conteúdo da profecia já se teria, até certo ponto, cumprido, o homem casou com uma outra mulher, sendo esta que acabaria por realmente se tornar prostituta… pura realidade, ou será que a própria previsão de sonhos, enquanto ciência inexacta, condicionou as acções do próprio homem?

 

Pense-se nisso… se, por uma qualquer via, um homem da época contemporânea soubesse que ia morrer vítima de um acidente de automóvel, é bastante provável que tendesse a tentar evitar os carros; a previsão, como se poderá ver neste caso, condicionaria as próprias acções humanas, e por conseguinte levaria a caminhos que, normalmente, ele até poderia jamais vir a cruzar.

 

Assim… será que os sonhos têm realmente uma capacidade obscura de ajudar a prever o futuro? Fica a questão aberta para debate…

Algumas leis religiosas do Império Romano

Aquando de mais uma pesquisa pela internet, encontrei uma listagem simples de algumas das leis religiosas do Império Romano, a qual pode ser vista aqui. Visto de uma forma geral, esta lista não tem muito interesse para o leitor comum, mas existem algumas entradas que merecem ser analisadas, no contexto deste blog (o texto em Inglês é mantido, de modo a que certos detalhes não sejas perdidos na tradução).

 

Lei de Constantino I, em 317-319 d.C.:

Magicians and such who use their art against the minds of men are guilty and shall be punished; however, to use this art for good, to seek favorable weather during harvest for example, is allowable under the law.

e

Lei possivelmente de Valentiniano I, em 367 d.C.:

Prisoners are to be released from prison to celebrate Easter. The exceptions are those who have committed treason, necromancy, poisoning, magic, adultery, rape, and murder.

Estas são duas leis que denotam uma crença na magia. Apesar desta crença também aparecer em diversas composições literárias (por exemplo, através das figuras de Circe e Medeia), é interessante constatar que até as mais altas patentes do Império Romano acreditavam na sua existência.

 

Lei de Constâncio II, em 356 d.C.:

Constantius declares a curse on those who perform the magic arts and thereby “jeopardize the lives of innocent persons.”

Apesar desta lei não ser muito clara, comporta um facto bastante curioso – a realização de magia para proíbir essa mesma realização.

 

Lei possivelmente de Valentiniano II, em 388 d.C.:

No public discussions or debates about religion may be held.

Começa a surgir uma relativa distanciação entre o sagrado e o profano,  com a religião a tornar-se algo em que se deve simplesmente acreditar, sem qualquer tipo de questões.

 

Lei possivelmente de Arcádio, em 398 d.C.:

Heretical books are to be destroyed. Those who refuse to surrender such books are to suffer capital punishment on the charge of sorcery.

É com base nesta lei que se perdeu um importante património literário.

 

Lei possivelmente de Teodósio II, em 435 d.C:

Pagan sacrifices are forbidden. Pagan temples and shrines are to be torn down and replaced with the symbol of Christianity: the cross. Anyone who mocks this law faces execution.

É com esta lei que a antiga religião finalmente cai.

 

Além destas, existem muitas outras leis que favorecem o Cristianismo em deterimento das antigas religiões, e que enfraqueceram o modo de vida dos Romanos, o que poderá ter facilitado a queda dessa civilzação.