Resumo da Alegoria da Caverna de Platão

Hoje deixo aqui um resumo da Alegoria da Caverna de Platão, que me foi pedido há alguns dias. Também é conhecida, de uma forma mais simples, como o Mito da Caverna, mas a sua principal referência vem da República de Platão. E então, esta alegoria platónica pode ser sintetizada assim:

Diagrama da Alegoria da Caverna de Platão

Na sua versão mais simples, a alegoria da caverna menciona vários homens, todos eles agrilhoados no interior de uma caverna, na qual nasceram e apenas conseguem ver uma ténue réstia de luz. Um dia, um desses homens liberta-se, escapa para o exterior da caverna e tem conhecimento de todos aqueles mistérios que, anteriormente, se escondiam por detrás de uma simples luz.

Ao voltar ao local onde sempre viveu, este homem conta aos seus antigos companheiros o que viu. Estes, quando confrontados com a recente descoberta, acham que a luz fez o seu amigo ficar louco, e pensam até em matá-lo.

 

Contrariamente ao que sucede em muitos dos mitos já relatados por cá, esta Alegoria da Caverna de Platão é uma história bastante difícil de interpretar, pelo simples facto de ter um quase infinito número de significados, os quais divergem em função do contexto que lhe queiramos dar. No caso da Filosofia, por exemplo, esta alegoria representa aquilo que se espera de um filósofo – a capacidade de se abstrair do mundo terreno e, com uma curiosidade periclitante, tentar interrogar-se sobre os diversos mistérios deste nosso mundo.

 

Esta Alegoria da Caverna platónica é certamente uma na qual o contexto é tão importante como a própria mensagem. É óbvio que a saída da caverna pode ter uma simbologia de escape de uma realidade frequente, e que o conjunto de homens agrilhoado pode simbolizar a sociedade geral, mas a importância geral do contexto é possivelmente a maior característica a ter em conta nesta Alegoria da Caverna. Por isso, aqui fica também um vídeo relativo ao tema, para ajudar nessa reflexão:

Jogos Olímpicos, suas origens e passado

Em altura de Jogos Olímpicos, acaba por ser interessante relembrar a mítica origem dos mesmos, bem como o seu passado. Tal como sucede em muitos outros mitos, são diversas as versões para justificar esta criação.

Origens e passado dos jogos olímpicos

Nas mais famosas dessas versões, a criação dos Jogos Olímpicos aparece sempre intimamente ligada a Herácles e Zeus. Na sequência de uma vitória (que depende da versão do mito) por parte do mais famoso dos heróis gregos, a mítica figura anuncia a criação de um festival, consagrado a Zeus, que se deveria repetir a cada quatro anos.
Noutras versões, a criação desse festival aparece associada a diversos heróis gregos, mas sempre com um denominador comum – para festejar um qualquer evento benéfico, é criado um festival aos deuses, com o nome de Zeus a surgir quase sempre como a entendida divina venerada no festival.

 

Além desta origem mítica, existem também alguns detalhes sobre esses antigos Jogos Olímpicos que merecem ser explorados.

 

Primeiro que tudo, na altura dos eventos existia sempre uma trégua, de modo a facilitar a viagem e participação de todos os atletas involvidos nas competições. Esta é uma ideia que, de certa forma, ainda se encontra enraizada na cultura moderna, apesar de ter deixado de ser um dever para todas nações participantes.

 

Em segundo lugar, o numero de eventos que tomavam lugar nos Jogos Olímpicos eram bastante mais limitados que nos dias de hoje. Originalmente, apenas existiam diversos tipos de corridas (possivelmente a razão pela qual, nos dias de hoje, os eventos de Atletismo têm especial relevo), mas ao longo dos séculos foram também adicionados o Boxe, Corrida de Quadrigas, Luta Grego-Romana, Pankration (uma modalidade similar à luta, que já não existe nos dias de hoje) e Pentatlo, composto por uma corrida, Lançamento do Dardo, Lançamento do Disco, Luta Greco-Romana e Salto em Comprimento.

 

Ainda, existiam algumas restrições relativas a quem podia participar nos eventos – apenas jovens que falassem Grego o podiam fazer, estando a participação de mulheres, ou escravos, obviamente impossibilitada.

 

Quanto aos prémios, eram obviamente mais simbólicos que nos dias de hoje. Em vez de medalhas, os vencedores recebiam coroas de louro e prémios similares, bem como uma bolsa oferecida pela cidade-estado que representavam, que lhes daria para viver relativamente bem.

 

Para terminar, há que referir que os antigos Jogos Olímpicos tiveram lugar durante mais de 1000 anos (desde o século VIII a.C. até ao século IV d.C.), até terem sido suprimidos por um imperador Romano, sob forma de incentivar a adesão ao Cristianismo. Apesar de, no século XIX ter existido um renascimento dos mesmos, deixaram de ter a componente cultural, religiosa e festiva que tinham originalmente, limitando-se essas influências à presença da famosa Chama Olímpica, que ainda hoje é (ou, para ser mais exacto, “deveria ser”) transportada de Olímpia até ao local dos Jogos.

O eclipse da Odisseia Homérica

Há já uns dias, surgiu em diversos meios da comunicação social uma notícia com um conteúdo similar à seguinte:

 

Fenómenos astronómicos mencionados na Odisseia, o célebre poema épico atribuído a Homero, coincidem com a descrição de um eclipse solar total, indica um estudo hoje divulgado pela Academia das Ciências dos Estados Unidos.

Tendo em conta a raridade deste tipo de eclipses, a descrição do fenómeno por Homero poderá ajudar os historiadores a datar a queda de Tróia, que teria ocorrido durante os acontecimentos relatados na Ilíada e na Odisseia, segundo os autores da investigação.
A teoria do eclipse solar total tem sido discutida há séculos por historiadores, astrónomos e helenistas, mas nunca passou de uma hipótese por falta de índices astronómicos que a sustentassem.
Todavia, os autores do estudo julgam ter descoberto pistas astronómicas na obra de Homero que poderão contribuir para uma nova leitura histórica deste período – explica Marcelo Magnasco, director do laboratório de matemática e física da Universidade Rockefeller (Nova Iorque) e co-autor da investigação publicada na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).
Os cientistas procuraram em toda a Odisseia referências astronómicas específicas que pudessem ser associadas a datas precisas.
O passo seguinte foi situar cada uma dessas referências em relação a uma data de referência, a do regresso de Ulisses, quando ele mata os pretendentes que se aproveitaram da sua longa ausência para cortejar Penélope, sua mulher, de acordo com a obra.
Marcelo Magnasco e o seu colega Constantino Baikousis, do Observatório Astronómico de La Plata (Argentina), outro co-autor, identificaram quatro acontecimentos astronómicos específicos.
No dia da morte dos pretendentes, Homero descreve em várias passagens a sombra provocada pela passagem da Lua à frente do Sol, que transforma o dia em noite, assinalam os cientistas.
Seis dias depois do massacre, Homero escreve também que Vénus é visível muito alto no céu.
Vinte e nove dias antes da matança, Homero indica que as constelações das Plêiades e do Boieiro podem ser observadas simultaneamente ao pôr-do-sol.
Finalmente, 33 dias antes deste acontecimento, o poeta dá a entender que Mercúrio está numa posição elevada no céu ao amanhecer.
Astronomicamente, estes quatro fenómenos ocorrem em intervalos de tempo diferentes e nunca se repetem exactamente da mesma forma.
Os investigadores tentaram determinar uma data num intervalo de cem anos que englobasse a presumível data da queda de Tróia e correspondesse aos intervalos em que se produziram os quatro acontecimentos astronómicos mencionados na Odisseia.
A data a que chegaram foi 16 de Abril de 1178 antes de Cristo.
“Se considerarmos como exacto o acontecimento da matança dos pretendentes, o dia do eclipse, poderemos deduzir que todos os acontecimentos descritos na Odisseia são historicamente exactos”, sublinha Marcelo Magnasco, que no entanto admite o carácter ainda hipotético destas conclusões.

Fonte: Barlavento Online [site desaparecido antes de 2019]

 

De um ponto de vista prático, esta parece uma notícia interessante. Contudo, há uma coisa que se parece não ter em conta, a liberdade poética de um autor. Quando alguém escreve seja o que for, tem toda a liberdade para fazer alterações à realidade que pretende imitar, seja com um intuíto prático ou com mera intenção de tornar a realidade mais bela. Tendo em mente o episódio referido acima, é bastante provável que o eclipse mencionado na “Odisseia” seja meramente ficcional – não há qualquer prova que toda a aventura narrada nessa obra seja verdade. É absurdo assumir que todo o caminho percorrido por Odisseu foi real, e se pretendemos assumir que este eclipse aconteceu realmente, também se poderia assumir a existência de, por exemplo, a ilha que era habitada pelo gado de Hélio, ou mesmo do país dos Lotófagos, o que é certamente problemático.

 

Num sentido poético, creio que é mais provável que este eclipse, narrado na “Odisseia”, seja mais metafórico do que real, até por estar associado a um episódio muito importante do apogeu de toda a aventura. Contudo, é possível que eclipse tenha existido, de uma forma real, no tempo de Homero, e que todos os eventos celestes que o rodearam tenham servido de inspiração para o ambiente deste episódio. Ainda assim, uma tal hipótese levanta uma outra questão – porque se daria o autor ao trabalho de dar tantos detalhes, possivelmente reais, a um episódio ficcionado…?

Jogo “Hercules no Eikou: Tamashii no Shoumei”

Este jogo, Hercules no Eikou: Tamashii no Shoumei para Nintendo DS, cuja tradução é algo como Glory of Heracles: Proof of Spirit, ainda não existe em Inglês mas merece ser referido por cá.

 

Deixando de parte aspectos menos importantes, este é um jogo que apresenta bastantes detalhes relativos à Mitologia Grega. Por exemplo, o Cavalo de Tróia aparece no jogo, tal como  Prometeu, Aquiles e muitas outras figuras Gregas. Estranhamente, o Herácles do título nem sequer é o personagem principal, e apesar de a história conjugar o Clássico com o futurista de uma forma não uniforme, este jogo também apresenta diversos detalhes bastante curiosos.

Por exemplo, para ganhar certos bónus o jogador tem de visitar templos consagrados a diversas divindades, e os desígnios dos deuses apresentam também um papel importante na aventura. Monstros muito conhecidos, como a Hidra ou o Minotauro, aparecem no jogo, mas têm um papel menor.

 

No geral, este é um jogo que, apesar de conter algumas raízes mitológicas que certamente merecem ser apreciadas, não é de todo fiel aos mitos gregos. Quem estiver interessado no jogo, e devo mencionar que este ainda só existe em Japonês, deve ter em conta que a história deve ser considerada como totalmente apócrifa, apesar das personagens e eventos que por lá aparecem estarem inseridos numa história de qualidade elevada. É uma experiência interessante, mas não merece ser jogado apenas com vista ao conteúdo de índole mitológica.

Tirésias e o mito da transexualidade

Tirésias é uma figura da Mitologia Grega conhecida pelos seus dons de profeta, condição sobre a qual incidem grande parte dos mitos que o referem. Por exemplo, na Odisseia de Homero, o herói Ulisses acaba por invocar um espectro deste famoso profeta de modo a obter alguns conselhos. É este dom da profecia que o tornou conhecido, mas pouca gente conhece os eventos que antecederam esse episódio. Assim, segue-se um pequeno resumo de um mito relacionado com essa figura:

O mito de Tirésias e a transexualidade

Enquanto passeava, Tirésias encontrou duas serpentes em cópula, as quais atingiu com o seu bordão. Um tal acção enfureceu Hera, que decidiu transformar o seu perpetrador em mulher. A partir daqui, são diversas as versões do mito, com algumas a mencionarem este antigo homem como uma famosa prostituta, enquanto que outras a referem como uma sacerdotiza de Hera. Eventualmente, esta figura encontrou outras duas serpentes em cópula e pelas suas novas acções voltou ao seu sexo original.

Mais tarde, Zeus e Hera tiveram uma curiosa dicussão, relativa a qual dos dois sexos tira mais prazer do acto sexual. Hera mostrou-se simpatizante pelo lado masculino, enquanto que Zeus referia o sexo feminino como o mais feliz nessa questão, e pela sua experiência única decidiram então chamar Tirésias. Ainda desprovido dos dons que acabariam por torná-lo famoso, este habitante de Tebas proferiu uma curiosa ideia – “das dez partes do prazer, as Mulheres têm nove e o Homem apenas uma” – que exaltou a ira de Hera. Zangada, a deusa cegou-o, mas o marido desta, para compensar um tal acto, deu a este homem o dom da profecia, que acabou por se tornar um dos mais famosos da Grécia Antiga.

 

Apesar desta ser a mais famosa versão do mito, existem muitos detalhes menores em que esta trama varia. Alguns autores mencionam que, inicialmente, Tirésias apenas matou a serpente feminina, o que justificaria a acção da deusa. Outros referem que, no segundo encontro, ambas as serpentes foram deixadas em paz, o que mostraria um certo arrependimento.

 

Deixando de parte esses desvios do mito, o evento mais importante acaba por ser a experiência desta vida muito única tida pelo herói, nomeadamente no ramo sexual, a que alguns até viriam a chamar o “Teorema de Tirésias sobre o Prazer”. Tendo sido, no âmbito da Mitologia Grega, um dos poucos mortais a vivenciar ambos os sexos, este mortal seria certamente o único capaz de concluir a discussão entre Hera e Zeus. Ainda assim, é um pouco difícil atribuir um significado mais real a todo este mito. Numa sociedade em que o homem tinha uma importância maior que a mulher, esta pode ser uma pequena admissão de culpa masculina, em que se tenta dizer que “somos mais importantes, queremos mais o acto sexual, mas vocês é que têm a maior parte do prazer”.

 

Não é, de todo, correcto assumir que Tirésias vivenciou ambos os sexos, num sentido da transexualidade moderna, pelo que este é um mito que serve para tentar dar uma lição. Contrariamente aos transexuais modernos, este herói não teve qualquer opção relativamente ao que se sucedeu durante a sua vida, limitando-se a viver as oportunidades que lhe foram dadas. Assim, em deterimento de uma referência a uma transexualidade real, este episódio do mito deve ser visto como meramente metafórico, criado de forma a se atingir um fim, de se tirar a lição (não me cabe a mim decidir se correcta, ou não) que, para alguns, as mulheres eram o sexo que mais prazer tinha numa relação sexual.

 

Tendo-se em conta que a transexualidade do mundo moderno não é, de todo, uma mudança de sexo completamente real, como parece ter sido a de Tirésias, a conclusão retirada por esta figura perante Zeus e Hera não é possível de verificar ou debater, em sentido real. Se tal figura tinha razão, ou não, é algo que provavelmente nunca saberemos…