Sobre alguns dos trabalhos de Ovídio

Finalmente tive tempo para acabar de ler alguns dos trabalhos de Ovídio, os quais já foram mencionados num post anterior [link perdido antes de 2022], e acho que os mesmos merecem um comentário um pouco mais alargado.

 

Começando por Fasti (também conhecida como Os Fastos), apesar de não ser uma obra muito interessante para uma leitura ocasional, é certamente uma importante fonte de informação sobre o modo de vida dos Romanos, especialmente sobre o calendário dos festivais festejados nessa civilização. Como referido anteriormente, é uma obra que está incompleta, mas não deixa de ser importante.

 

Relativamente a Ars Amatoria e Remedia Amoris (em Português, a Arte de Amar e a Cura para o Amor), são obras que claramente deixam perceber a imortalidade e intemporalidade do Amor, e é curioso descobrir que o conhecimento patente nas mesmas ainda se aplica aos dias de hoje. Quer o leitor pretenda encetar uma nova relação amorosa ou simplesmente terminar uma na qual já está incluído, os conselhos dados por Ovídio são bastante úteis, se bem interpretados e compreendidos. São realmente obras de um carácter quase imortal, com o autor a apresentar os seus argumentos de uma forma que nos dá a sensação que ele realmente nos compreende, com uma familiaridade bastante incomum nas outras obras Clássicas que já li.

 

Quanto a Amores, que relata a paixão do poeta por uma tal Corinna, acaba por ser uma obra também bastante interessante. É impossível saber se esta mulher realmente existiu ou se é simplesmente uma criação do autor, um protótipo da mulher Romana, mas ainda assim ele conseguiu capturar a essência de uma relação entre elementos de sexos opostos, com um clareza que faz inveja a muitos pares modernos. É uma leitura que recomendo vivamente a todos aqueles que tenham umas horas livres.

 

Sobre Heroides (em Português, Epístolas de Heroínas), obra em que o poeta imagina cartas de amor trocadas entre famosos pares de mitologia grega, temos aí a oportunidade de constatar algo bastante curioso, que o sentimento amoroso dos dias de hoje é vivido (pelo menos na ficção…) como o era há muitos séculos atrás.

 

Em relação a Metamorphoses, ainda não a li, pelo que terei de deixar esse comentário para uma data posterior.

Os sonhos na cultura grega e latina

Na Mitologia Grega, os sonhos tinham um papel bastante importante, visto serem considerados como um modo de comunicação entre o mundo etéreo e o terreno, através do qual os Deuses passavam mensagens aos mortais. São diversos os mitos em que este aspecto da vida Grega surge, normalmente com um herói a dormir num templo consagrado a um deus que, mais tarde, acaba por lhe surgir em sonhos, juntamente com um qualquer conselho ou mensagem.

Este método de comunicação entre os humanos e o divino também aparece em muitos outros locais. Por exemplo,  no início do Cristianismo – Maria, mãe de Jesus Cristo,é contactada por um anjo durante o sono, o qual lhe comunica a tarefa a que estava destinada.

Visto esta ser uma ideia mantida no Império Romano, é importante entender que este aspecto possa ter tido um papel importante na adopção do Cristianismo, enquanto religião oficial do império. Segundo uma das versões da história, quando o imperador Constantino I defrontou a Batalha da Ponte Mílvia, apareceram-lhe em sonhos diversos elementos cristãos que, ao serem colocados no equipamento dos soldados, lhe garantiriam uma vitória. Quando esse triunfo se concretizou, foi fácil atribuí-lo ao novo deus, tendo em conta o contexto cultural em que os sonhos se incluíam.

Hoje em dia, a importância dada aos sonhos é claramente menor do que nas religiões pagãs, perdendo-se assim uma parte interessante de uma cultura antiga.

O mito de Dédalo e Ícaro

Já todos ouvimos falar do mito de Dédalo, Ícaro e as famosas asas, não é? É certamente um dos mais famosos da Mitologia Grega, de que a cultura popular até nos continua a falar bastante hoje em dia. Mas, pelo sim, pelo não, nada como recordar este grande mito grego:

Dédalo e Ícaro a voarem pelos céus

Dédalo era um soberbo inventor, que trabalhava vulgarmente com o seu sobrinho Talo, do qual estava encarregado da educação.
Talo, um dia, após passear pela praia, viu o esqueleto de um peixe, forma na qual se viria a inspirar para criar a primeira serra. Com alguma inveja, tentou matar este seu sobrinho, atirando-o de um sítio alto. Contudo, antes que atingisse o chão, os deuses interviriam, e o jovem foi transformado numa perdiz, que voou para evitar a desgraça iminente.
Culpado de homicídio, foi obrigado a abandonar a cidade natal, indo refugiar-se em Creta, a ilha do famoso rei Minos . Aí, foi incumbido de construir um labirinto, onde o famoso Minotauro viria a ser aprisionado.
Seria, mais tarde, impedido de deixar esta ilha, altura em que concebeu a sua mais famosa invenção, umas asas que lhe permitiriam voar. Pretendia, juntamente com o filho, usá-las para escapar da ilha. No entanto, as coisas não iriam correr bem para o pequeno Ícaro. Ignorando os conselhos de seu pai, voou demasiado alto, o que fez com que a cera que prendia as asas derretesse, precipitando-o no mar. Quando a ao triste pai, escapou da sua prisão e passou a viver na ilha da Sicília.

Apesar deste mito apresentar diversos pormenores bastante interessantes, é sempre dada especial relevância às asas usadas pelos dois heróis. Somente muitos séculos mais tarde é que a humanidade foi capaz de cruzar os céus, mas ainda hoje se podem entender estas asas como sendo as da imaginação humana que, ao tentar obter o que lhe parece impossível, acaba sempre por criar novos, e mais ousados, objectivos.
Ainda assim, é preciso ter algum cuidado com a forma como se pretendem alcançar esses propósitos – quiçá para tentar equiparar-se a Hélio, o jovem voou mais alto, uma acção impensada que o precipitou para um mar eterno. Tendo o mito em mente, torna-se mais claro que os os humanos deverão, também eles, pensar nas consequências reais dos seus actos.

Contudo, existe ainda um outro pormenor que deve ser analisado. Contrariamente à parte final do mito, em que Dédalo é mostrado como um genial inventor, o episódio que leva à sua expulsão de Atenas é o de um mero mortal. Contrariamente ao que sucede com Orfeu, Herácles ou Odisseu , este herói é mostrado como alguém com falhas humanas, entre elas a inveja. Tendo em conta que é esta a mesma figura que, anos mais tarde, incita Ícaro a um prudência certamente adquirida com o avançar da idade, surge-nos uma interessante dualidade – tem-se a curiosidade juvenil de Ícaro, oposta à experiência de um maduro elemento paterno, que parece ter aprendido com os erros do passado.

Enquanto que a ousadia de Ícaro é certamente um dos mais importantes aspectos da mente humana, é também necessário viver com a prudência de Dédalo, sem a qual algumas decisões se podem tornar muito perigosas. Há que saber quando se deve arriscar e quando se devem retrair os impulsos curiosos, e acaba por ser essa uma das mais importantes lições a tirar deste mito.

 

P.S.- Mas existiam, na Antiguidade, mais alguns mitos associados a Dédalo. Talvez um dos mais importantes vem-nos de Diodoro Sículo, que explica, perto do final do quarto livro da sua famosa obra, que esta figura também foi o primeiro criador de estátuas com todo um conjunto de características mais humanas, como braços e pernas afastados do corpo, e olhos abertos. Pelo facto de parecerem estar quase em movimento, elas passaram a ser vistas, de uma forma metafórica, precisamente como tal.

Explicação da relação entre a Mitologia Clássica e o Cristianismo

Antes de avançar para um próximo artigo, existe uma interessante explicação que eu acho que devo fazer.

Por vezes, tento relacionar as três principais mitologias abordadas neste blog com o próprio Cristianismo, o que pode parecer um pouco ilógico. Contudo, esta necessidade parte de uma proximidade inegável entre esses quatro elementos, unidos de uma forma que é por vezes difícil de entender.

Um dos exemplos que costumo dar é do próprio Jesus Cristo. Se eu disser a alguém que Orfeu, personagem da Mitologia Grega, ou “Pedro” (uma qualquer pessoa dos nossos dias) voltaram do mundo dos mortos, as pessoas riem-se, face a uma tal impossibilidade. Contudo, se eu fizer uma mesma referência relativamente a Cristo, esta é interpretada de uma forma totalmente diferente. Relações como esta são possíveis de encontrar em muitos outros mitos da época pré-Cristã e acredito que foram esses mesmos mitos que acabaram por modificar, numa primeira fase, as características e a interpretação da mensagem do próprio Cristo, de modo a serem dados às populações conceitos com os quais elas já estavam familiarizadas.

Sol Invictus

Veja-se, por exemplo, a associação do dia 25 de Dezembro ao nascimento de Jesus Cristo. Em termos físicos, não existe qualquer prova de que o afamado filho de Deus tenha nascido nesse preciso dia, mas ainda assim são muitas as pessoas que acreditam numa tal possibilidade, mesmo sem quaisquer evidências terrenas. Originalmente, esta data era a data de um festival que celebrava o solstício de  Inverno, instituído pelo imperador Aureliano, em honra de uma divindade solar normalmente denominada “Sol Invictus“. Cerca de um século mais tarde, este festival parece ter sido abolido, e essa data acabaria por ser associada ao nascimento de Jesus Cristo. Existem diversas teorias sobre esta associação, mas independentemente de todas elas existem dois factores que são impossíveis de ser ignorados:

— “Sol Invictus ” foi um dos primeiros deuses a ser representado com uma coroa solar, muito semelhante à auréola Cristã. Assim, entende-se a clara relação entre Cristo e esta divindade romana, e é possível que, num período mais tardio, as figuras de ambos se tenham vindo a confundir.

— Na Cronografia de 354, aparece uma referência a ambos os eventos (o festival em questão, e o nascimento de Cristo), mas esta é feita de uma forma um pouco invulgar. Ao festival, é dada uma referência relativa às festividades, enquanto que o nascimento é referido apenas como tendo lugar em Belém, Judeia, no oitavo dia antes das calendas de Janeiro, o que dá a entender uma diferença de importância desses dois eventos.

Se, hoje, um qualquer governo optasse por alterar a data do feriado de 25 de Dezembro, e deixasse a população escolher uma data desse mesmo mês, creio que as pessoas voltariam a optar pelo mesmo dia, baseando-se essencialmente na tradição que tanto lhes apraz. Assim, é possível que o mesmo tenha sucedido no Império Romano, com uma nova festividade a tomar o lugar de um festival pagão recentemente abolido.

Deixando de parte toda a complicação relativa a datas, até porque esse tema daria para escrever muitos outros artigos, onde eu quero chegar é que, num período final (leia-se como “depois de Constantino I”), existe uma inteligível relação entre a figura de Cristo e a de alguns dos deuses do Império Romano. Também acredito que esta ligação já existia nos séculos anteriores, mas em 354 d.C. é mais fácil de visualizar, através do documento anteriormente mencionado.

Toda esta informação leva-me a um ponto que acho muito interessante. Durante cerca de 350 anos, a religião romana coexistiu com o Cristianismo, e é pena que não exista muito mais informação sobre esta coexistência. Enquanto que, no caso dos Gregos, a famosa religião teve um final virtual aquando da sua aglutinação pelo Império Romano, no caso deste povo a  admiração por Júpiter, Vénus e todos os outros deuses nunca tem um final muito claro. Também, não existem hoje quaisquer mitos relativos a “Sol Invictus”, o que me parece ser certamente curioso. Assim, devo confessar que tenho um especial interesse por esse período, pois foram esses poucos séculos a traçar a rota do Império Romano, e mesmo de toda a religião Ocidental.

A religião dos Gregos e dos Romanos, com os seus deuses e monstros, acabariam por perder toda a sua vertente filosófica, tornando-se não mais que um ideal de beleza e fonte de inspiração a aproveitar no Renascimento, bem como em algumas correntes artísticas posteriores. Quanto ao Cristianismo, em detrimento de continuar a ser uma religião mais filosófica (veja-se, por exemplo, o Primeiro Concílio de Niceia , onde foi discutida a natureza de Cristo), acabaria por se tornar uma religião estritamente regrada pelos Homens, favorecendo a sede de poder de determinadas elites, em vez de seguir as admiráveis leis pacifistas de Jesus Cristo.

A existência, ou não, do Destino

O Destino, a linha que rege a vida de todos os seres,  parece ser uma constante de todas as Mitologias.

Para os Gregos, este era gerido por um grupo de três irmãs, cada uma delas com uma tarefa muito específica em relação ao fio da vida. Também os Romanos acreditavam neste complexo conceito, e davam-lhe características similares.
São muitos os mitos que abordam esta temática, mas todos eles acabam por ter um ponto em comum, a impossibilidade humana em fugir aos desígnios divinos. Tal como sucedeu na triste história de Édipo, um mero mortal que acaba por ser um fantoche nas mãos divinas, também Aquiles teria a sua morte anunciada no momento que se juntou ao conflito de Tróia. Ambos tiveram, de certa forma, a possibilidade de fugir a esta ditadura, mas falharam, como pode ser visto nos seus mitos.

Na Mitologia Egípcia, a constante morte e renascimento de Rá um símbolo para a viagem diária do Sol, é um exemplo da inevitabilidade de algumas partes da vida humana. Contudo , visto que todos os mortais eram julgados após a morte, sendo penalizados pela sua conduta no reino dos vivos, é dada alguma margem de manobra. Subentende-se, assim, que todos os seres têm poder sobre os seus próprios actos, tendo a possibilidade de os realizar, ou não, de acordo com as suas vontades.

Para os antigos povos nórdicos, bem como para os deuses da sua mitologia, o prenúncio do Ragnarök era já encarado como uma certeza. Assim, tal como este conflito final tinha já uma linha simples e directa a tomar, é possível que o mesmo sucedesse com a vida de todos os seres humanos.

Certamente mais curiosas, e menos conhecidas, são as alusões ao Destino feitas pelo Cristianismo. São diversos os exemplos possíveis, mas um dos meus preferidos prende-se com as próprias palavras de Jesus Cristo. Quando este, numa parte final da sua vida, refere a um dos apóstolos que este o irá negar três vezes antes de um galo cantar, acaba por fazer uma interessante alusão à inevitabilidade das acções humanas.
Esta referência é curiosa, se tivermos em conta que Cristo pregava uma religião em que os seres humanos eram impelidos a arrependerem-se dos seus próprios pecados – se o Destino não for evitável, que culpa têm os seres dos actos que realizam? Nenhuma, como é fácil compreender.

Em termos mais terrenos, é-nos permitido compreender muito pouco do Destino através destas crenças. Contudo, é bastante curiosa, toda a esta alusão à inevitabilidade de alguns detalhes da vida humana. É claramente impossível provar a inexistência do Destino, mas também são poucos os argumentos que jogam a seu favor. Assim, tudo se resume a uma mera questão de fé, experiência própria e opinião pessoal.