A lenda de Fortunato

A lenda de Fortunato, relatada nas linhas de hoje, teve a sua origem na Alemanha, aparentemente nos primeiros anos do século XVI. Agora, até pode ser encontrada em alguns livros de contos de fadas do centro da Europa, mas originalmente não era uma história para crianças, como um breve resumo da sua trama permitirá perceber.

A lenda de Fortunato

Fortunato era um homem como qualquer outro. Um dia, enquanto passeava numa qualquer floresta do local em que vivia, encontrou a deusa romana Fortuna (ainda hoje famosa pela sua presença numa expressão que ainda utilizamos), que lhe ofereceu um dom – ele podia escolher sabedoria, força, beleza, saúde sem fim, uma longa vida, ou até as maiores riquezas do mundo. Imprudentemente, ele acabou por escolher esta última, e então a deusa deu-lhe uma pequena bolsa que produzia todas as moedas de ouro que ele pudesse vir a querer. Com esta carteira encantada em sua posse, este homem tornou-se muito rico e foi viajando por tudo quanto é sítio, até que um dia se encontrou no Cairo, onde um sultão local lhe mostrou um chapéu mágico, capaz de transportar o seu portador para qualquer local que ele desejasse. Roubando-o para si mesmo, escapou logo do local e voltou para casa, onde ainda teve mais algumas aventuras, acabando eventualmente por falecer.

 

Claro que este não seria um final lá muito interessante para esta lenda de Fortunato, e por isso as coisas ainda não ficam por aqui. Como podem ter reparado ali na imagem, ele teve dois filhos, com os estranhos nomes de “Ampedo” e “Andolosia”. Quando faleceu, deixou a um deles a bolsa e ao outro o chapéu. Incapazes de trabalhar em conjunto, foram sucessivamente levados por diversas dificuldades e acabaram por perder não só tudo aquilo que tinham conquistado, mas também o que poderiam ter vindo a ganhar com ambos os ítens mágicos em sua posse comum. E a deusa Fortuna, essa, num misto de sorriso amarelo e de malícia, acabou até por levar a sua bolsa de volta para o local de onde a trouxe, demonstrando a completa imprudência dos homens na altura da escolha do que querem para as suas próprias vidas.

 

É esta, então, toda a lenda alemã de Fortunato? Nem por isso, mas o problema é que parecem existir diversas versões de todas estas aventuras, em que apenas alguns momentos chave se vão mantendo. Não existe, pelo menos pelo que foi possível apurar, qualquer versão em que toda a história termine bem, em que os dons providenciados pela Fortuna – ou o tal chapéu mágico – tenham trazido completa felicidade a quem os possuiu. E, portanto, talvez mais que tudo, seja essa a lição a reter de toda esta história – que as pessoas, e o uso que fazem daquilo que vão conquistando, são mais importantes do que toda a magia do mundo. Que vos parece…?

O mito medieval de Magonia

É muito provável que nunca tenham ouvido falar de Magonia. Seria, hoje, apenas um mito perdido entre incontáveis outros, se por volta do século IX da nossa era um arcebispo de Lyon, de seu nome Agobardo, não tivesse sentido uma grande necessidade de refutar esta crença dos habitantes do local em que vivia. Podemos, portanto, inferir que ela era muito importante na sua época, ou que muita gente acreditava na ideia que iremos reproduzir a seguir, mas hoje ela está, como dificilmente poderia deixar de ser, quase completamente perdida.

O mito de Magonia

Conta-nos então este Agobardo de Lyon que no seu tempo muitas pessoas acreditavam na existência de tempestarii, uns seres (humanos?) mágicos que tinham o poder de controlar as tempestades. A ideia pouco ou nada teria de especial – ela até já aparecia no tempo dos Romanos, existindo mesmo leis contra esse tipo de magia malévola – não fosse o facto do autor a associar a uma outra crença, a de Magonia. E o que é mesmo isso, poderiam vir a perguntar? Nada mais, nada menos, que uma espécie de terra mágica que existia nas nuvens, cujos habitantes usavam barcos voadores e, depois de um ataque dos tempestarii, supostamente roubavam o que estes tinham “destruído”, substituindo-o por coisas destruídas. O que é uma ideia muito curiosa, mesmo dentro de todo aquele pensamento mágico da época, mas que o autor refuta no seu tratado de nome De Grandine et Tonitruis, essencialmente citando a Bíblia para demonstrar que apenas e somente Deus tinha o poder de controlar as tempestades… e, assim o sendo, nem os habitantes de Magonia podiam fazer aquilo que o povo lhes atribuía, nem os seus companheiros mágicos tinham qualquer poder real sobre os elementos, caindo toda esta ideia por terra!

 

É, muito naturalmente, provável que tenham existido mais elementos em todo este mito de Magonia, mas Agobardo já não os preservou para nós. No entanto, a ideia de seres místicos que podiam controlar os elementos parece ter sido popular ao longo dos séculos – recorde-se, por exemplo, até o nosso Secular das Nuvens de Portugal, hoje também já tão esquecido… a crença em Magonia não parece ter sido tão prevalecente, talvez até só tenha existido nesta região de França na Idade Média, como pode ser provado pela (pouca) informação que nos chegou sobre ela. Mas, em casos como estes, talvez seja é mais correcto afirmar que “pouco” é melhor que “nada”, entre tantas outras histórias misteriosas da mesma época que se foram perdendo ao longo do tempo…

“Johnny the Walrus”, de Matt Walsh

A história de Johnny the Walrus chegou-nos ás mãos há algumas semanas, como um daqueles livros que em determinadas culturas muito apoiantes da transfilia se pretendia banir. Como tal, e como nas circunstâncias semelhantes da obra Irreversible Damage: The Transgender Craze Seducing Our Daughters, decidimos que tínhamos de o ler. Foi uma boa decisão, porque é um livro hilariante, apesar de conter apenas cerca de 30 páginas e ter sido escrito para um público infantil.

Johnny the Walrus, the Matt Walsh

Essencialmente, a sua história passa pelo seguinte – a personagem principal de Johnny the Walrus é um menino com uma imaginação muito fértil. Um dia é um cavaleiro medieval, outro é um peixe, num terceiro é o Godzilla e um cão, e assim por diante. Mas depois, um dado dia, inventou que era uma morsa dentuda… e a mãe dele pensou que era uma brincadeira como as outras, até que os habituais maluquinhos da internet a começaram a insultar por ela dizer que a ideia da criança, de ser “uma morsa dentuda”, era apenas uma coisa passageira, e até começaram a fazer manifestações, com os agora habituais lemas de “As Morsas Humanas são Morsas Verdadeiras!”

Então, a mãe lá levou o Johnny a uma médica, com o seu previsível cabelo roxo, que depressa sugeriu que o menino devia comer minhocas, pôr maquilhagem cinzenta pelo corpo todo, e cortar-lhe os pés para ele passar a ter barbatanas… e o menino depressa descobriu que comer minhocas é um bocado nojento, que essa maquilhagem fazia comichão, e que ter as colheres na boca (a fingir que são os dentes de uma morsa) doía um bocado. E então, para o indoutrinar ainda mais, as tais pessoas da internet lá sugeriram a esta mãe que levasse o seu filho ao jardim zoológico.

Felizmente em tudo isto, no zoo esta mãe lá foi alertada que o desejo do filho em ser uma morsa era só uma fantasia, uma brincadeira, e o menino no caminho para casa lá passou a fingir que era um pássaro a esvoaçar pelos céus.

 

É uma história muito interessante, esta de Johnny the Walrus, porque demonstra o absurdo de uma transfilia agora existente na sociedade em que vivemos, em que só porque uma criança quer brincar com uma boneca, um dos pais – tipicamente a mãe, que no fundo sempre quis ter uma filha… – condiciona o seu filho a dizer que quer ser uma rapariga. Loucuras, loucuras talvez até muito maiores do que qualquer mito ou lenda que vamos contando por aqui…

A história de Kate Shelley

Se existem mitos e lendas, ocorrências como as associadas a esta Kate Shelley podem e devem é ser chamadas de histórias. Isto porque dar-lhes esses dois primeiros nomes poderia indicar, de forma ingloriamente falsa, que o relatado aqui hoje possa ter tido pelo menos um instante ficcional, ou de uma qualquer dúvida, quando até se sabe que tudo isto é pura e simples realidade. Por isso, e também porque a sua história parece ser muito pouco conhecida fora do país em que teve lugar, decidimos recordá-la aqui hoje.

A história de Kate Shelley

Kate Shelley nasceu na Irlanda a 12 de Dezembro de 1863. Mais tarde emigrou para os Estados Unidos, onde os seus pais e ela própria acabaram por ir viver em Worth Township, no estado do Iowa. Depois, no dia 6 de Julho de 1881, um rio local, o Honey Creek, sofreu uma cheia, o que levou a uma destruição parcial de uma ponte ferroviária, na qual vieram a cair ao rio, durante essa noite, quatro homens. Esta senhora encontrou dois deles (o corpo falecido de um terceiro viria a ser encontrado posteriormente), mas, de repente, lembrou-se que um comboio de passageiros se aproximava em poucas horas. Em vez de voltar para casa e passar uma noite confortável, esta Kate Shelley gatinhou pelos restos da ponte e caminhou durante alguns minutos até chegar a um local onde pôde, finalmente, fazer soar um alarme. Para terminar, ajudou até a salvar os dois homens, divulgando a sua localização. Por todas estas acções ela conseguiu que um comboio de passageiros, em que seguiam cerca de 200 pessoas, não caísse ao rio, e por isso acabou por ser muito bem recompensada ao longo dos anos que se seguiram.

 

Hoje, passado até já mais de um século, quem for a Boone, no estado do Iowa, poderá aí encontrar, a cerca de 15 minutos de carro, a chamada Kate Shelley High Bridge, mesmo ao lado da antiga ponte – reconstruida depois daqueles eventos, como é evidente – em que tudo isto teve lugar. Talvez não nos importe muito, neste outro lado do oceano, mas há sempre que admitir que 200 vidas são 200 vidas, e pondo a sua própria em evidente perigo, esta senhora foi a responsável pela salvação de todos esses viajantes. E, por isso, recordamos-la aqui hoje, com este breve relato das razões que a tornaram famosa, tão pouco conhecido entre os Portugueses.

A verdadeira História dos Três Ursos

A história dos três ursos, que nos nossos dias também os une a uma menina chamada Cachinhos Dourados ou Caracóis Dourados, ainda hoje é muito conhecida. Mas, curiosamente, essa não é a versão original de toda a história, que foi primeiro colocada por escrito por Robert Southey em 1837, e que sabemos (hoje) ter-se baseado em fontes orais, como muitas das mais famosas tramas que chegaram aos nossos dias (por exemplo, recordem-se os casos da Pequena Sereia ou da Bela e o Monstro). Sendo assim, contamos aqui hoje, de forma breve, os contornos essenciais de como esta história era na sua forma original.

A história dos Três Ursos

Três ursos viviam numa casa na floresta e, um dado dia, enquanto esperavam que a sua papa arrefecesse, decidiram dar um pequeno passeio pela floresta. Nessa altura, uma velha muito má e muito mentirosa encontrou esta casa, viu-a vazia, e entrou para o seu interior. Primeiro, encontrou lá três pratos de comida – um demasiado quente, outro muito frio, e um terceiro que estava ao seu gosto. Comeu-o todo, mas ainda se queixou de que lhe sabia a pouco. Em segundo lugar, deparou-se com três cadeiras – uma demasiado alta, outra muito baixa, e uma terceira que lhe pareceu a mais adequada, mas acabou por partí-la e nem sentiu qualquer desgosto por isso. Depois, em terceiro lugar, deparou-se com três camas – uma muito alta na parte superior, outra demasiado alta na parte inferior, e uma tal como lhe aprazia mais. E então, deitou-se nessa última e dormiu por algum tempo…

Entretanto, os três ursos chegaram a casa e viram o que se tinha passado. Viram que alguém provou as suas papas (e até comeu uma), viram que alguém se sentou nas suas cadeiras (e até danificou uma), e viram que alguém se tinha deitado nas suas camas… mas quando deram uma olhadela maior à terceiras destas últimas, viram que a pessoa, uma idosa muito má e muito mentirosa, ainda estava a dormir no local. Ela não acordou com a voz do primeiro urso, nem com a do segundo, mas a pequenina voz do terceiro acabou por acordá-la. E então, ela fugiu pela janela, para não mais ser vista no local… e se partiu o pescoço, se se perdeu na floresta, ou se depois até foi presa, é algo que Robert Southey não parecia saber!

 

Esta incerteza do desfecho da História dos Três Ursos parece manter-se nos dias de hoje, com diversos finais diferentes para suscitarem diversas morais, mas o grande elemento digno de nota que esta versão original de toda a trama tem é não só referir-se a uma idosa (com cabelos brancos como a prata), mas igualmente deixar claro que ela era muito ingrata, por contraste com os próprios ursos, que são, nesta versão, personagens quase estáticas, que pouco ou nada se parecem importar com as estranhas ocorrências que tiveram lugar na sua própria casa, apesar do medo que a sua ocupante ilegítima parece ter sentido ao vê-los.

Portanto, esta história dos três ursos é uma que parece ter-se mantido mais ou menos estática ao longo do tempo, salvo a mudança da sua personagem principal e a sugestão de diversas possibilidades para finais de toda a trama, que até podem ter várias morais, entre elas a muitíssimo evidente “não deixem a porta de casa aberta quando saem”. Por isso, se conhecerem mais possíveis finais e morais para esta história, como é costume podem deixá-las ali em baixo nos comentários…