A toupeira e a estátua, uma história da Coreia

A história de hoje, da toupeira e a estátua, vem de terras da Coreia, muito antes desse país se ter separado em dois. Seguindo os nossos paradigmas ocidentais, poderíamos defini-la como uma fábula, que até se assemelha bastante a alguns contos recolhidos em Portugal. Essa semelhança é fascinante, mas também ser pouco conhecida na Europa, pelo que achámos que poderíamos aqui recordar toda a história.

A história da toupeira e a estátua

Era uma vez uma família de três toupeiras que vivia próxima de uma estátua budista. A filha do casal, muito bonita, aproximava-se da idade para casar, e como bons pais o seu pai e mãe queriam casá-la com o melhor e mais poderoso homem* que conseguissem encontrar. Após pensarem muito no tema, decidiram que ela poderia casar com o Céu, porque este olhava de cima para todos nós.

Aproximaram-se dele com uma proposta, mas o Céu disse-lhes que não era o mais poderoso, já que o Sol era capaz de decidir as cores que lhe impunha – azul durante o dia, negro durante a noite, e assim por diante! Foram então falar com o Sol, a quem colocaram uma proposta semelhante, mas também este lhes disse que não era o mais poderoso – o Rei das Núvens tinha o poder de decidir se a sua luz chegava à terra ou não! Como tal, foram falar com o Rei das Núvens, que lhes revelou que ele também não era o mais poderoso – o Vento tinha a capacidade de o afastar de qualquer local com um mero sopro! Portanto, aproximaram-se depois do Vento com a mesma proposta, mas também este lhes disse que não era o mais poderoso – existia uma estátua budista que nem ele conseguia mover do local!

O casal de toupeiras, agora já bastante frustrado, foi então falar com a estátua budista que estava próxima da casa em que viviam. Inesperadamente, também esta lhes confessou que não era a mais poderosa, porque uma toupeira era capaz de escavar por baixo dela, fazendo-a cair e partir-se em mil pedaços! E então, marido e mulher aperceberam-se que a resposta era bem mais simples do que pensavam e acabaram por casar a sua filha com uma bela toupeira da sua região natal.

 

São muitas as lições que poderíamos extrair desta fábula, mas – como as de Esopo na sua forma original – elas são mais que muitas, não existindo uma resposta correcta ou uma errada. Em alternativa, cada leitor pode encontrar nela uma lição que lhe pareça apropriada para o seu próprio contexto, e é esse o convite que deixamos a quem ler estas linhas.

 

 

*- Neste sentido compreenda-se como “homem” um qualquer ser do sexo masculino, não necessariamente um humano.

Quem tem boca vaia Roma, ou vai a Roma…? Qual é a correcta?

Parece ser uma questão relativamente comum online – quem tem boca vaia Roma OU vai a Roma…? À partida pode parecer uma pergunta muitíssimo simples, até porque a segunda versão é a mais utilizada nos nossos dias hoje, mas a verdadeira questão a colocar-se poderá ser, qual delas é a expressão original, a primeira ou a segunda?

Como se diz, quem tem boca vaia Roma ou vai a Roma?

“Vaia”, forma do verbo vaiar, significa apenas apupar, dizer mal, troçar. Faria, portanto, algum sentido que os povos invadidos em tempos da Antiguidade, bem como nos primeiros séculos da nossa era, vaiassem a presença romana, que muito provavelmente viam como invasores. Esta é uma ideia que, teoricamente, pode fazer sentido. Mas depois, quando partimos em busca de provérbios semelhantes em várias outras línguas – recorde-se, por exemplo, um outro de alguma fama, que refere Roma e Pavia – e descobrimos que não só este provérbio já se encontrava atestado no século XVI e em diversas línguas europeias (“o que tén lengua, à Roma chega”, “Qui langue a, à Rome va”, etc.), como também existia em terras de Itália, sob pelo menos as formas “Chi lingua ha, a Roma va” e “Domandando si va a Roma”.

 

Nesse seguimento, se em Português as expressões “Quem tem boca vaia Roma” e “Quem tem boca vai a Roma” até parecem muito semelhantes, não só nas suas equivalentes em outras línguas essa suposta parecença se desvanece muito rapidamente, como também demonstra que este mesmo provérbio até existia em outros lugares, inclusivé em terras de Itália, em cuja oposição ao antigo poderio de Roma não poderia deixar de nos parecer estranha. Como tal, não faz qualquer sentido real dizer-se “vaia Roma”. Por isso, de onde vem toda a expressão, qual a sua origem e verdadeiro significado?

 

Numa revista de inícios do século XX foram compiladas as origens de muitos provérbios. Entre essas colunas conta-se uma, de título Retalhos de um adagiário, em que é dada uma potencial explicação para a origem da expressão Quem tem boca vai a Roma. Segundo o autor, isso dizia-se porque antigamente havia muito o hábito de fazer peregrinações a Roma, e então as pessoas tinham de perguntar, aqui e ali, qual era o caminho correcto para a cidade… e portanto, “ter boca”, no bom sentido, tornou-se um requisito imprescindível para lá chegar – que é mesmo uma ideia com completo sentido, e que mesmo que seja apenas uma mera teoria, explica de uma forma razoável a origem do provérbio e a sua prevalência em diversas línguas europeias!

A lenda da Caldeira de Pêro Botelho – e a sua verdadeira história!

Para se falar sobre esta lenda da Caldeira de Pêro Botelho talvez valha a pena começar com uma pequena história mais pessoal. Há alguns anos atrás – que isto do Covid tocou a todos – tínhamos uma espécie de jogo que passava por tentar relembrar diversos títulos associados a figuras e espaços religiosos. Por exemplo, se uma primeira pessoa dissesse “Jesus”, a segunda continuaria com “Emanuel”, outra diria “o Cordeiro de Deus”, “o filho de Maria”, “o Messias”, assim por diante, e a primeira pessoa a não conseguir acrescentar um novo título perdia o jogo. Claro que isto implicava algum estudo (e podia assustar um pouco quem não nos conheça…), e ao longo dessas tentativas de jogo acabou por se ir encontrando alguns títulos um tanto ou quanto desconhecidos.

Que a “Caldeira de Pêro Botelho” era uma espécie de metáfora para o Inferno é relativamente fácil de compreender, dada em particular a forma como esse espaço religioso é representado na cultura ocidental, mas porquê dar esse nome ao Diabo? Seria o de uma daquelas infindáveis transformações que lhe são atribuídas na cultura portuguesa? Na altura nada conseguimos concluir, e então o tema foi ficando de lado, até que há algumas semanas nos foi perguntado algo sobre a misteriosa estátua da Ilha do Corvo, também no arquipélago dos Açores, o que nos levou a este outro local.

A lenda da Caldeira de Pêro Botelho

Segundo a tradição local, em outros tempos viveu numa ilha dos Açores um homem muito malvado de nome Pêro Botelho. Essa sua história não parece ter preservado relatos das suas malvadezas, mas informa que em dada altura ele estava a recolher lama numa das caldeiras da ilha e caiu acidentalmente para o seu interior, onde os seus gritos puderam continuar a ser ouvidos durante muito tempo… e diz até a mesma lenda que ainda hoje ele pode ser ouvido no local, soltando agora roncos demoníacos que ora lhe podem ser atribuídos a ele, ou a um dos muitos demónios seus companheiros nesse outro mundo.

 

Agora, esta é uma lenda relativamente simples, mas algo nos cheirava a esturro nela – porquê mencionar, em todas as versões que fomos lendo, a maldade deste homem, quando depois ela não tinha qualquer qualquer papel real na própria trama? Em plena curiosidade, decidimos procurar um pouco mais sobre este Pêro ou Pedro Botelho. Fomos saltando de livro em livro até chegarmos à Fastigínia de Tomé Pinheiro de Veiga, datada de 1605, que parece ser a mais antiga referência a este episódio, e em que é revelado que existiu, de facto, um homem chamado Pedro Botelho e que foi ele que deu origem ao provérbio “caldeira de Pêro Botelho”. E como aconteceu isso? Segundo esta fonte literária, em dada altura ele quis entregar esta ilha portuguesa aos Franceses, e como castigo por essa traição foi depois cozido vivo numa caldeira… o que aconteceu na Ilha da Madeira, provavelmente no ano de 1566, e não na Ilha Graciosa dos Açores, como hoje nos fazem crer!

 

Isto é muitíssimo interessante porque mostra aquela grande razão pela qual escrever estes artigos nunca cessa de nos fascinar. Se é comum dizer-se que todas as lendas têm um fundo de verdade, o episódio referente a esta caldeira de Pêro Botelho teve, aparentemente, lugar num determinado local, foi posteriormente associado a outro, mas para que tal fosse conseguido surgiu a necessidade de “censurar” parte da história, fazendo do vilão uma pessoa muito má, mas omitindo as verdadeiras razões dessa sua maldade. Se elas tivessem sido reveladas, como fizemos acima, acabariam por trair que esta até pode ser hoje uma lenda açoreana mas teve, na verdade, a sua verdadeira génese no que parece ser um episódio histórico – e bem real – que aconteceu entre madeirenses!

A lenda da Mina da Moura

A lenda da Mina da Moura é uma história da região de Óbidos que parece estar cada vez mais esquecida. E o porquê é fácil de compreender – ela está completamente associada a um espaço físico em concreto, localizado algures entre a Lagoa de Óbidos e aquela nossa vila hoje famosa pelo seu grande castelo, mas já ninguém parece saber precisamente onde era o local. E assim, sem um local concreto onde se procurar a sua heroína, tudo o que vamos contar abaixo foi sendo esquecido…

A lenda da Mina da Moura

Conta-nos então esta lenda que algures num caminho da região havia um misterioso buraco numa rocha. Ele era demasiado pequeno para alguém lá poder entrar, mas eram muitos aqueles que reportavam existirem as maiores riquezas, e até mesmo um fantástico palácio com contornos mágicos, no seu interior. Nunca ninguém lá conseguiu ir, ou procurou obter esses ouros de outros tempos, pela simples razão de que, em dadas alturas do ano, aí podia ser vista uma jovem misteriosa, belíssima como a Lua, que penteava constantemente os seus cabelos com um pente feito de puro ouro, o qual tinha incrustadas as mais belas pedras preciosas. E então, quando alguém se aproximava do local, esta bela jovem perguntava-lhe sempre “Quem é mais belo, eu ou este pente?”… e os homens respondiam-lhe, como nunca poderia deixar de ser, que ela era a mais bela. Isso fazia-a sorrir, mas com um sorriso fingido e muito triste, porque ao dar essa resposta – ou ao aceitar em si que apesar da sua beleza, depois todos os homens preferiam ficar com o pente do que com ela – ela acabava por ficar condenada durante mais algum tempo. E reza então toda esta história de que ela nunca foi salva do feitiço ao qual foi condenada em outros tempos…

 

A jovem misteriosa desta lenda da Mina da Moura era, naturalmente, uma Moura Encantada, como tantas outras que se acreditava terem existido pelo país fora. Ainda não conseguimos encontrar quem nos tenha afirmado ter visto uma na primeira pessoa, mas histórias com contornos como estes existem um pouco por todo o país, e este exemplo em particular merece destaque por não estar associado ao norte ou ao sul de Portugal, como é mais habitual neste tipo de relatos, mas à região centro, onde histórias como estas parecem ser bastante mais raras. Só falta mesmo é redescobrir onde ficava essa outrora-famosa caverna, para se poder confirmar hoje se sempre existia um misterioso palácio no seu interior, ou se tudo isto vinha, pura e simplesmente, das más línguas das populações locais…

A origem do termo “Mary Sue”

Se até teve a sua origem em 1973, o termo Mary Sue só se parece ter tornado popular nos últimos anos. É, essencialmente, uma expressão popular associada a um conjunto de filmes recentes em que, a bem de uma falsa diversidade, a personagem principal da história é do sexo feminino e completamente perfeita em tudo aquilo que faz, mesmo que nunca o tenha feito antes e não perceba absolutamente nada dos temas em questão. É um completo absurdo, e muito mais se poderia escrever sobre isso, mas o que nos interessa hoje é a origem do próprio termo.

Origem do termo Mary Sue

Segundo foi possível averiguar, por volta do ano de 1973 existiam todo um conjunto de fanfics que, apesar de serem bastante mal escritos, tentavam adicionar mais personagens femininas à história de Star Trek. Essa diversidade nada teria de errado, de facto, não fosse o facto de muitas dessas histórias não terem qualquer qualidade. E, nesse seguimento, uma tal “Paula Smith” – presume-se que seja um pseudónimo – escreveu uma pequena aventura satírica que captava muitos desses problemas, e que merece aqui ser reproduzida na sua forma original, a mesma já apresentada na imagem acima:

“Gee, golly, gosh, gloriosky,” thought Mary Sue as she stepped on the bridge of the Enterprise. “Here I am, the youngest lieutenant in the fleet – only fifteen and a half years old.” Captain Kirk came up to her.

“Oh, Lieutenant, I love you madly. Will you come to bed with me?”

“Captain! I am not that kind of girl!”

“You’re right, and I respect you for it. Here, take over the ship for a minute while I go get some coffee for us.”

Mr. Spock came onto the bridge. “What are you doing in the command seat, Lieutenant?”

“The Captain told me to.”

“Flawlessly logical. I admire your mind.”

Captain Kirk, Mr. Spock, Dr. McCoy and Mr. Scott beamed down with Lt. Mary Sue to Rigel XXXVII. They were attacked by green androids and thrown into prison. In a moment of weakness Lt. Mary Sue revealed to Mr. Spock that she too was half Vulcan. Recovering quickly, she sprung the lock with her hairpin and they all got away back to the ship.

But back on board, Dr. McCoy and Lt. Mary Sue found out that the men who had beamed down were seriously stricken by the jumping cold robbies, Mary Sue less so. While the four officers languished in Sick Bay, Lt. Mary Sue ran the ship, and ran it so well she received the Nobel Peace Prize, the Vulcan Order of Gallantry and the Tralfamadorian Order of Good Guyhood.
However the disease finally got to her and she fell fatally ill. In the Sick Bay as she breathed her last, she was surrounded by Captain Kirk, Mr. Spock, Dr. McCoy, and Mr. Scott, all weeping unashamedly at the loss of her beautiful youth and youthful beauty, intelligence, capability and all around niceness. Even to this day her birthday is a national holiday of the Enterprise.

Esta parece ser a primeira utilização de todo o termo, já de uma personagem absolutamente perfeita em tudo aquilo que faz, o que poderá ter contribuído para se dar esse mesmo nome, hoje em dia, a uma personagem feminina que partilha das suas características. Se não existe nada de errado em se fazer do herói da história uma mulher, o problema, nestas circunstâncias particulares, é o de se a fazer demasiado perfeita e absurdamente infalível, apenas para depois se poder acusar potenciais críticos de um sexismo que não o é, enquanto se oculta o facto de a trama estar apenas muito mal escrita…