A verdadeira paternidade de Caim e Abel

Para a maioria dos crentes cristãos e judaicos a paternidade de Caim e Abel poderá nada ter de muito surpreendente. São os dois primeiros filhos de Adão e Eva, ponto final. Mas, fosse a história original assim tão simples, tão horizontal como hoje tendemos a pensar, e certamente que não lhe estaríamos a dedicar estas linhas de hoje. Portanto, vamos a algo mais inesperado sobre a paternidade destas duas figuras bíblicas.

O confronto de Caim e Abel

Hoje, quem conhecer a história de Caim e Abel associa-lhes um relato muito simples – Adão e Eva foram expulsos do Paraíso depois de comerem o famoso fruto, tiveram um primeiro filho, depois tiveram um segundo, o mais velho dos dois acabou por matar o seu irmão, e os pais primordiais depois acabaram por ter muitos outros filhos (notavelmente Seth). Dito assim, parece que as coisas são como tal e sempre se acreditou que foram como tal, até que se pense um pouco mais em toda a história – o que levou Caim a matar o seu irmão? Inveja? A recusa de um sacrifício a Deus? Ou, de um modo muito mais geral, se por este seu acto o assassino parece ter sido a origem de todo o mal, como se poderá explicar essa horrenda criação, que parece ter sido tão inesperada?

 

Há muito tempo que a humanidade, e em particular os crentes cristãos e judaicos, se deparam com questões como essas. Mas a resposta que aqui trazemos hoje, provinda de uma mesma tradição que mais tarde geraria histórias como as de Lilith, é talvez uma das mais intrigantes para um crente dos nossos dias – ela diz que Abel era filho de Adão e Eva, como hoje continuamos a acreditar, mas dá uma paternidade muito diferente ao irmão responsável por este primeiro grande crime, o hediondo Caim. Mas, ora bem, se na altura ainda não existiam quaisquer outros seres humanos, como é possível que esta primeira mãe tenha gerado outro filho com alguém que não o seu marido?

Adão e Eva, serão ambos pais de Caim e Abel?

A resposta pode, no mínimo dos mínimos, ser considerada como insólita, e diz-nos que Eva teve esse seu primeiro filho com a Serpente, aquele mesmo simbólico animal que tempos antes a tinha convencido a comer o fruto da árvore proíbida. Isto é mencionado em diversos textos dos inícios da nossa era, seja de uma forma bem directa ou mais ou menos dissimulada*… mas será que havia muita gente a acreditar nessa estranha possibilidade, ou ela era um simples criação de uma qualquer estranha seita gnóstica? A segunda opção poderá parecer-nos a correcta, até que nos confrontemos com uma estranha frase presente no Livro do Genesis (6:4), cujo verdadeiro significado intriga os leitores há milénios, e que pode ser traduzida da seguinte forma:

Naquela época, e também algum tempo depois, havia Nefilins na terra, quando os filhos de Deus possuíram as filhas dos homens e elas lhes deram filhos.

Neste seguimento, e se quisermos interpretar os tais “filhos de Deus” como anjos caídos (sobre isso, podem também ler o que depois escrevemos aqui), de que Satanás, Samael e/ou a Serpente são hoje os exemplos mais famosos, é verdadeiramente possível que essa seja uma referência antiga a uma tradição, hoje perdida, de que tinham existido relações sexuais entre duas classes de seres criados por Deus, podendo Caim ter sido gerado numa dessas relações, enquanto que já Abel nasceu de Adão. A ideia, por estranha que nos pareça, permite explicar a origem do mal, fazendo do primeiro “mau” um descendente de uma criatura considerada a pura representação do próprio mal… o que, queiramos ou não, até faz algum sentido!

 

 

*- Por exemplo, num desses textos antigos um Arcanjo diz a Adão que “Ecce Cain filius tuus, quoniam filius diaboli est, occidet Abel fratrem suum“, i.e. “Aqui está o teu filho Caim, e porque é filho do Diabo irá matar o seu irmão Abel”, apoiando a ideia – se metafórica, ou mais real, já é aqui difícil compreender – de uma ligação entre o Diabo e Eva.

O “Clássico das Montanhas e dos Mares” e os animais estranhos

Já aqui falámos antes, de forma muito breve, sobre o Clássico das Montanhas e dos Mares (山海经), uma obra chinesa da Antiguidade que, resumidamente, pode ser vista como um bestiário. Ela descreve, de forma muito breve, as criaturas, deuses e seres humanóides que se cria que existiam não só em terras da China mas também nos além-mares, juntamente com algumas informações sobre os poderes especiais de algumas delas. Foi sobre esse último elemento que cá dedicámos algum tempo antes, quando discutimos se os Chineses comem carne humana, mas hoje decidimos falar um pouco mais sobre os estranhos animais que vão surgindo nessa obra. Alguns deles são bem reais, pelo que têm pouco interesse mitológico, mas depois de uma releitura da obra original apresentamos aqui um pequeno resumo das criaturas mais notáveis da obra, escolhidas em virtude da estranheza das características que aí lhes são atribuídas:

Bashe, numa imagem do Clássico das Montanhas e dos Mares

Bashe – cobra que devora elefantes, cuspindo os ossos após três anos (ver imagem acima).
Bo – cavalo branco com cauda preta, um corno, dentes e garras de tigre. Come tigres e leopardos.
Changfu – galinha com três cabeças, seis olhos, seis pés e três asas, comê-la remove o sono.
Chiru – peixe com cara humana, comê-lo protege contra as doenças.
Danghu – faisão que voa com as penas do pescoço, comê-lo cura as doenças da visão.
Fei – boi com cabeça branca, um olho e cauda de serpente. As águas evaporam e a vegetação morre por onde ele passa.
Feiyi – cobra com seis pés e quatro asas.
Huan – cabra sem boca que é indestrutível.
Juru – pato com cabeça branca, três patas, e cara humana.
Lei – gato que tem ambos os sexos, comê-lo cura as invejas.
Lei – pega vermelha e preta com duas cabeças e quatro pés.
Lushu – cavalo com listas de tigre e rabo vermelho, o seu pêlo ajuda a ter muitos descendentes.
Manman – pato com uma asa e um olho, que só consegue voar se encontrar um companheiro.
Manman – rato com cabeça de tartaruga, e que ladra.
Min – pássaro com bico vermelho, protege do fogo.
Paoxiao – cabra com cara humana, olhos por trás dos sovacos, dentes de tigre e mãos humanas. Come seres humanos.
Qinyuan – abelha do tamanho de um pato, que mata animais e árvores com o seu ferrão.
Qiongqi – tigre com asas, que come as pessoas começando pela cabeça (ou pelos pés), com preferência por aquelas que usam cabelos longos.
Renyu – peixe com quatro pernas. Comê-los cura a estupidez.
Rupi Zhi Yu – frigideira com cabeça de pássaro, barbatanas e cauda de peixe. Faz nascer pérolas e jade.
Shenchui – seres com cara humana, um pé e uma mão.
Shuhu – cavalo com asas de pássaro, cara humana e cauda de serpente.
Shuyu – galinha com penas vermelhas, três caudas, seis pés e quatro cabeças. Comê-la cura a tristeza.
Tulou – cabra com quatro cornos, come seres humanos.
Tuofei – mocho com cara humana e uma só perna.
Xingxing – porco com cara humana, que consegue identificar as pessoas só pelo seu nome.
Xingxing – macaco falante, comê-lo faz a pessoa mais rápida em corrida.
Yao – pato com corpo verde, olhos rosa e cauda vermelha. Comê-lo ajuda a ter filhos do sexo masculino.
Yiniao – cinco pássaros tão grandes que conseguem com a sua sombra cobrir vilas inteiras.
Yu – mocho com cara humana, quatro olhos e orelhas.
Zheng – leopardo vermelho com cinco caudas e um corno, que faz o barulho de pedras a chocarem umas com as outras.
Zhu – mocho que tem mãos humanas em vez de pés.

 

O Clássico das Montanhas e dos Mares contém muitas mais criaturas além destas, num total de mais de duas centenas, (quase?) todas elas ilustradas com belos desenhos da época. Até pode ser esse o elemento mais notável de toda a obra, essa intenção dos seus autores de não só descrever estes animais e figuras mas também de mostrar como se pensava que eles eram. Curiosamente, algumas vezes a descrição e a imagem não batem certo, parecem referir-se a duas criaturas muito distintas, mas parecem ser raras essas falhas, que só quem estiver com muita atenção acabará por notar.

 

Mas o que é mais notável, em relação a este Clássico das Montanhas e dos Mares, é o facto de ter tido uma importância enorme na cultura chinesa. Isso ainda hoje é visível, porque nessa cultura continuam a atribuir-se a determinadas espécies algumas características misteriosas – e.g. o corno do rinoceronte aumenta o poder sexual – que podem, ou não, ser verdade. Alguns ainda acreditam que seja, outros já não… mas será que comer um Shuyu verdadeiramente curava a tristeza? Não será fácil encontrar uma criatura como essa, mas fazendo fé na obra, não podemos deixar de nos interrogar como terão sido inventadas muitos dos estranhos animais que este texto diz existirem em algum lado. Será que alguém, em alguma altura, acreditou tê-los visto com os seus próprios olhos? Somos levados a pensar que sim, mas como puderam ser testadas aquelas características mais estranhas que eram atribuídas a alguns deles?

 

Não encontrámos qualquer lenda que o explicasse, mas uma história atribuída a Shennong – mais conhecido na cultura ocidental como o suposto descobridor do chá – dá uma possível sugestão. Tal como se diz que este Shennong, que se supõe que terá vivido por volta do século XXVIII a.C., terá em dada altura testado todas as ervas para apurar as suas características individuais, é possível que também se tenha acreditado, em outros tempos, que o autor do Clássico das Montanhas e dos Mares tenha procurado sintetizar todas as criaturas e as suas respectivas características, estudando-as na primeira pessoa e chegando a comê-las a todas por algo a que podemos chamar uma pura curiosidade científica. Será que isso aconteceu? Pelo conteúdo da obra somos levados tacitamente a acreditar que sim, mas as respostas sobre todas estas coisas são meras teorias e nada mais.

 

Vale a pena ler esta obra nos nossos dias? Caso a consigam encontrar em tradução – existe em chinês e pelo menos em língua inglesa – acaba por ser um texto agradável para quem se dedica ao estudo da forma como os animais foram sendo representados na literatura de outros tempos. Os restantes possíveis leitores até podem encontrar, aqui e ali, algum pormenor que os faça sorrir, mas existem textos muito mais interessantes para eles.

O que significa comer gato por lebre?

Seria muito interessante aqui contar uma qualquer lenda para a origem da expressão comer gato por lebre, mas hoje focamo-nos é no seu significado. Isto não porque não exista uma qualquer história por detrás de toda a ideia – ela já aparece, com contornos bastante satíricos, em obras da Idade Média, em que é criticada a qualidade da comida de determinadas tabernas – mas porque não parece existir uma qualquer história particularmente famosa que tenha contribuído para toda a popularização da famosa expressão na língua portuguesa. Por isso, o que significa esta expressão bem portuguesa, que ainda muito se utiliza nos nossos dias de hoje?

O que significa comer gato por lebre?

Na cultura portuguesa é comum que se coma coelho e lebre, até em virtude da grande facilidade que é caçar esses animais em meios rurais. Agora, o que menos pessoas saberão é que removido todo o seu pêlo, os dois animais ilustrados na imagem acima são bastante semelhantes, ao ponto de quase se confundirem, tanto em termos da cor da carne como até do próprio sabor da mesma. Agora, teoricamente, isto pode levar alguns donos de restaurantes como menos escrúpulos a matarem gatos e os servirem como lebres – isto porque os primeiros até são muitos mais fáceis de encontrar e de capturar que os segundos!

Nesse sentido, “comer gato por lebre” significa, pura e simplesmente, comprar algo que é mais barato ao preço de algo que tem um valor maior, como fazem muitos restaurantes quando nos servem a todos, por exemplo, pota em vez de polvo.  O cliente, quase sempre fruto da sua inexperiência em reconhecer determinadas espécies, é assim enganado sem muita dificuldade, ao ponto de – como já cá aludimos uma vez – já ter existido um restaurante na zona de Sintra que cozinhava, sem que ninguém parecesse saber, os dois animais que deram nome a esta expressão.

 

Mas… para quem se estiver a interrogar até um pouco mais sobre tudo isto, será que se comem gatos – “por gato”, ou seja, sem que seja ocultada a sua origem animal – em Portugal? Mesmo que o leitor comum tenha alguma dificuldade em acreditar em toda a ideia, já existiu uma aldeia do nosso país em que o prato típico foi outrora chouriço de gato. Inicialmente o prato era cozinhado sem qualquer malícia, fruto apenas da grande pobreza da região, mas à medida que o tempo foi passando começou a descartar-se toda a ideia como puro e simples rumor, até porque eram muitos aqueles que se dirigiam ao local só com a intenção de ver se era mesmo verdade (o que ainda irrita os habitantes locais, daí não mencionarmos aqui o nome da aldeia em questão)… mas a confecção do prato, essa, manteve-se até há menos de meia dúzia de anos, altura em que faleceu uma das últimas idosas que ainda se atrevia a seguir a receita tradicional. Agora, em 2022, tanto quanto foi possível apurar na primeira pessoa essa estranha tradição culinária já terminou no local. Como tal, quem quiser comer os tais bichanos, só mesmo se os cozinhar em sua própria casa, ou naqueles estranhos casos em que os restaurantes ainda nos fazem comer o literal gato por lebre. Não recomendamos a dificuldade da experiência, até porque o seu sabor é mesmo muito semelhante ao da lebre!

A lenda de São Frei Gil (e o épico “Egidéa”)

Se Frei Gil foi uma de aquelas figuras nacionais que em outros tempos eram muito famosas, hoje também está quase esquecido. E é pena, porque a grande aventura por que passou, segundo nos dizem as lendas, fazem dele uma espécie de Fausto nacional, numa história que parece ter fascinado tantos públicos ao longo dos séculos que há menos de 300 anos até lhe foi dedicado um poema épico, a Egidéa, que em versos de autoria anónima recontam a respectiva história. Agora, é provável que ele ainda seja um pouco conhecido em terras de Santarém, onde viria a falecer, mas para todos aqueles leitores que nunca ouviram falar dele – é Frei Gil, sim, mas também “São …”, “… de Valadares” (o apelido de seu pai), “… de Portugal”, “… de Vouzela” (onde nasceu), etc. – iremos aqui recontar a sua lenda de uma forma sucinta.

Frei Gil e a Egidéa

Nascido Gil Rodrigues de Valadares em 1190, após alguns anos decidiu ir estudar Medicina na Universidade em Paris. Este elemento é factual, mas tudo o resto poderá tratar-se de uma estranha mistela de lenda e realidade, onde nem sempre é possível reconhecer onde termina um e começa o outro, sendo essa uma informação crucial a ter em conta nas linhas que se seguem.

Conta-se que este Gil, enquanto viajava para Paris, passou pela cidade espanhola de Toledo, em que um misterioso homem o convenceu que existia um curso para ele melhor que aquele que tinha escolhido – o da Necromancia ou Magia Negra. Primeiro intrigado, mas depois já convencido, o herói assinou um contracto em sangue e dedicou-se sete anos ao estudo das artes mágicas, antes de se dedicar a todo o tipo de maldades e concluir muito facilmente o curso que tinha planeado tirar em Paris, até dados os seus conhecimentos etéreos. Mas depois, um dia, quando estava fechado a estudar, surgiu-lhe em casa um cavaleiro misterioso, que lhe disse “Ó homem, muda a vida, muda a vida!”; ignorando-o, continuou os seus estudos, até que o misterioso cavaleiro lhe apareceu uma segunda vez e lhe disse “Ó homem, muda, muda a tua vida, senão com esta lança a tens perdida!”… e, meio por temor de um ferimento que pareceu sofrer, meio por arrependimento, Gil decidiu que tinha mesmo de mudar a sua vida.

 

Andou de terra em terra até dar por si em Palência (Espanha), em que se juntou a uma ordem religiosa, a dos Pregadores. Posteriormente viria para Portugal, vivendo numa casa de outra ordem (a dominicana?), em Santarém. Mas, por muitas penitências que realizasse, nunca deixou de se lembrar que os demónios ainda tinham o contracto da sua alma… até que um dia, enquanto rezava e contemplava uma estátua da Virgem Maria, lhe pediu a sua intercessão e – diz a lenda, repita-se bem isso – com a ajuda dessa famosa advogada acabou por ser capaz de se livrar, de uma vez por todas, da influência demoníaca que tantos anos o aterrorizou. Viria a morrer alguns anos mais tarde, a 14 de Maio de 1265, mas deixou-nos uma cinta de ferro que usava para sentir na carne o peso dos pecados que anteriormente tinha cometido (se ela ainda existe hoje, não conseguimos encontrar uma fotografia).

 

Esta é a lenda de Frei Gil, tal como tende a ser recontada e como foi adaptada para o poema épico Egidéa. É difícil saber onde estão os elementos lendários e a pura verdade em tudo isto – por exemplo, poderá ter sido o seu jeito para a Medicina que inspirou a ideia do pacto demoníaco – mas todas as versões que consultámos são peremptórias tanto em afirmar a existência de um pacto com o Diabo, como em proclamar que, depois, o herói veio a renegar a essa influência diabólica. É esse elemento, tão incomum em hagiografias nacionais (e até estrangeiras!), que o tornou especialmente famoso e o manteve nessa estranha posição ao longo dos séculos, ao ponto de o podermos resumir como o santo português que fez um facto com o demónio.

 

Mas, deixando agora de lado a lenda para nos focarmos no poema épico Egidéa, será que ainda vale a pena lê-lo? Apesar da presença de uma meia dúzia de estrofes com alusões mitológicas, a construção poética, em si mesma, não nos pareceu particularmente agradável. Se, por um lado, reconta toda a lenda de Frei Gil de uma forma relativamente simples, por outro, a forma como o faz tem pouco de belo, quase como se apenas se tivesse tentado fazer rimar uma história em prosa. E, na verdade, não encontrámos nos seus nove cantos uma única estrofe que sentíssemos que fosse particularmente bela, só merecendo a abaixo – retirada de um instante em que os demónios torturam o herói – uma referência pela alusão mitológica:

Tisífone aumentava a enfermidade
Que já desde Paris o perseguia.
Alecto mais perversa na verdade
Muito mais dura guerra lhe faria.
Dizendo que a Divina Piedade
Inexorável sempre lhe seria.
Mas a terceira irmão não dava a morte
Por ver se o concluía de outra sorte.

Por isso, a Egidéa merece ser recordada nestas linhas por se tratar de um dos poucos poemas épicos sobre as desventuras de um futuro santo, e por ter como seu tema uma lenda que, feliz ou infelizmente, parece estar mais e mais esquecida. Não é uma obra fácil de encontrar, mas talvez nem valha a pena o trabalho de tentar reencontrá-la, excepto para alguém que tenha um enorme interesse no tema. Para os outros, prefiram antes a mais-risonha Gaticanea!

 

E uma última curiosidade – se este São Frei Gil foi contemporâneo do Santíssimo Milagre e até parece ter vivido na mesma cidade de Santarém nessa altura, nenhuma versão da lenda parece fazer cruzar as duas ocorrências, o que pode fazer levantar algumas questões muito curiosas…

Danny, o fantasma do Natal da África do Sul?

Hoje focamo-nos no estranho tema de Danny, o fantasma do Natal da África do Sul. Ouvimos falar de todo este tema através de um amigo que tinha lido a respectiva história online e queria saber se ela era de facto verdade. Por isso, decidimos partir em sua busca… mas visto que o tema não é propriamente muito conhecido em terras de Portugal, parece-nos bastante apropriado que se comece por contar a sua breve história.

A história de Danny, o fantasma de Natal

Supostamente, existia na África do Sul uma criança muito jovem que se chamava Danny. Ele era muito guloso. Então, um dia, mesmo na véspera de Natal, a avó dele – cujo nome nunca é referido – cozinhou bolachas para deixarem ao Pai Natal. Incapaz de resistir ao sabor das mesmas, este Danny comeu-as todas às escondidas. Depois, quando a respectiva avó notou o que o neto tinha feito, zangou-se tanto que lhe deu uma enormíssima tareia, acabando mesmo por matá-lo. Ele transformou-se num fantasma que visita as casas na Consoada, castigando as crianças que se portam mal.

Esta história de Danny, o fantasma do Natal, é estranhíssima, no contexto de potenciais tradições dessa altura do ano, pelo que não podia deixar de suscitar o nosso interesse. Seria ela verdade? De onde vem? Será que é, de facto e como diziam as pouquíssimas fontes que encontrámos, uma história tradicional da África do Sul? Intrigados, e depos de muitas conversas sobre o tema, decidimos partir em sua busca.

 

Começámos por perguntar a nativos da África do Sul se conheciam esta história – a resposta foi sempre peremptória, ninguém a conhecia. Procurámos depois em dezenas de livros sobre tradições de Natal, mas ela não era mencionada em nenhum deles. Tentámos ainda professores universitários desse país, bem como funcionários da embaixada, mas também eles nunca tinham ouvido absolutamente nada sobre esta história. Ou seja, se esta era, de facto, uma famosa história tradicional desse país, é muitíssimo curioso que absolutamente ninguém a tenha conhecido antes. O que seria possível – por exemplo, em Portugal poucos conhecem a história de Guesto Ansures – mas torna impossível que se trate de um famoso e tradicional conto de Natal desse país!

 

Decidimos então procurar mais informação sobre o seu nome, “Danny”. O nome não se encontrava entre os 1000 mais comuns desse país, mas visto que “Daniel” ocorria na lista, o suposto nome do fantasma podia ser um diminutivo utilizado pela avó. Ou poderia apenas ter sido associado à história mais tarde. Como tal, decidimos pesquisar tradições natalícias desse país, e se encontrámos toda uma panóplia que nos poderá parecer mais ou menos estranha, absolutamente nenhuma delas se referia a algum fantasma. O que também não deixa de ser curioso, porque se encontrámos, de facto, um número significativo de histórias fantasmagóricas vindas desse país, a de hoje nunca se encontra entre elas. É como se, na verdade, absolutamente ninguém desse país a conhecesse, um ponto que devemos frisar de forma muito repetida, até porque todas as páginas que mencionam esta história ou o fazem sem citar quaisquer fontes, ou revelam que a obtiveram de um local que também não mencionava quaisquer fontes.

 

Mas… queiramos ou não, esta história de Danny, o fantasma do Natal da África do Sul, existe. Alguém terá de a ter inventado e escrito pela primeira vez. Ela terá vindo de algum lado. Seguimo-la cronologicamente até ao dia 13 de Dezembro de 2015, altura em que Siobhan Downes, da Nova Zelândia, publicou online um artigo sobre estranhas tradições de Natal, como a Befana e o Krampus, entre as quais menciona o seguinte:

Deep fried caterpillars, South Africa

On Christmas Day, some South Africans tuck into a particularly wriggly delicacy – the sundried Emperor Moth caterpillar, which is served deep-fried. But if you think that sounds bad, wait until you hear about what happened to Danny, a young South African boy who ate all the Christmas cookies before Santa Claus arrived. In a fit of rage, the tale goes, his grandmother murdered him. The story is apparently meant to teach children about the perils of being too greedy, and Danny is said to haunt homes on Christmas Day, making sure they got the memo. So, how about those caterpillars?

As lagartas comidas no Natal

A tradição de comer as lagartas é bem real, por estranho que possa parecer no nosso país, mas nada conseguimos encontrar sobre o resto da história, nem ela parece ser conhecida entre os nativos sul-africanos (que também confirmaram que comem mesmo as tais lagartas, acrescente-se). E se uma suposta tradição não é conhecida ou sequer praticada entre aqueles que se crê que a praticam, sê-lo-á por quem?!

 

Então, de onde vem toda esta história, afinal de contas? Contactámos Siobhan Downes em busca de mais esclarecimentos sobre este Danny, o fantasma do Natal da África do Sul, mas nunca obtivémos qualquer resposta dela ou da editora da secção de viagens do respectivo site, aquele onde toda esta história parece surgir online pela primeira vez. É portanto provável que se tenha tratado de uma prática editoral em que se incluem informações falsas num artigo para conseguir detectar quem é que anda a reproduzir ilegalmente os mesmos… o que é uma prática relativamente comum em algumas indústrias para impedir cópias de conteúdos, e poderá ter sido isso que aconteceu aqui, visto que ninguém parece conhecer a história original por detrás de uma tradição que se suporia famosa entre os locais.

 

Mas tudo isto ainda não fica por aqui. Se o artigo anterior era de 13 de Dezembro de 2015, um outro, o segundo sobre o mesmo tema, datado de 23 de Dezembro de 2015 e da autoria de uma tal Melanie Dimmitt, diz o seguinte:

Fried caterpillars and ghosts in South Africa

South African’s celebrate the holiday by dishing out a freshly fried batch of Emperor moth caterpillars (and you thought KFC was bad…), while children are also told the charming story of Danny, the young lad who ate all of Santa’s cookies – enraging his grandmother so much that she killed him, leaving his ghost to haunt homes at Christmas.

As semelhanças com o anterior são mais que muitas, mas é notável que esta segunda autora nada adicione ao tema, apresentando a história precisamente com os mesmos elementos gerais da sua antecessora. Terá sido plágio? Não diríamos tanto, pelo menos não com provas limitadas, mas se uma história não parece existir durante décadas e depois aparece em dois locais distintos num espaço de 10 dias, contada sucintamente e com diversos elementos comuns, é difícil negar que a autora do segundo conhecesse o artigo da primeira sobre esse mesmo tema.

 

Então, o que podemos concluir sobre Danny, o fantasma do Natal da África do Sul? Por muito que possam ter lido essa história em outros locais, ela parece ser desconhecida no país de onde se supõe que vem. Não encontrámos qualquer prova real e bem atestada da sua existência antes do dia 13 de Dezembro de 2015, tratando-se quase certamente de uma falsa tradição natalícia, talvez criada para detectar potenciais plágios num tema que tende a ser muito comum no período de tempo que precede a celebração do Natal.