O mito da Caça ao Javali de Cálidon

A Caça ao Javali de Cálidon é um de aqueles mitos gregos que se presume que em outros tempos tenha tido imensa popularidade – uma espécie de Vingadores da Marvel mas com heróis gregos – mas que infelizmente também se foi perdendo ao longo dos tempos. Hoje, conhecemos apenas alguns dos seus episódios mais emblemáticos, mas é quase certo que eles não captam a beleza e complexidade do original.

A Caça ao Javali de Cálidon

A imagem acima demonstra isto mesmo. Quem souber ler Grego Antigo poderá ver ali os nomes de muitas figuras envolvidas em todo o episódio – Melanion e Atalanta, Peleu e Meleagro, do lado esquerdo; o gigantesco Javali de Cálidon ao centro, acompanhado por um herói que este já matou (a legenda parece dizer Anteu, mas certamente não o filho de Gaia , e algumas versões referem que um tal Anceu foi morto por esta besta); entre muitas outras figuras heróicas da época, como Castor e Pólux.

 

Mas o que se passou em todo este mito grego pouco conhecido? Sabemos que os diversos heróis se juntaram para combater este poderoso Javali de Cálidon (também conhecido como Javali da Calidónia ou Javali Etólio), que alguns autores diziam ser filho da Porca de Cromion, e que ele foi enviado por uma deusa após o rei local lhe ter recusado um sacrifício. Presume-se que tenha sido um confronto bastante difícil, até pela necessidade de tantos intervenientes, mas sabemos que Atalanta foi a primeira a feri-lo, sendo o animal depois morto por Meleagro. Quando este último ofereceu os seus prémios à heroína pelo acto corajoso, outros heróis opuseram-se à oferta, levando a muitas confusões entre eles e fazendo com o oferecedor até matasse alguns. Porém, tendo ele conduzido à morte de alguns familiares da própria mãe, esta deitou um toro mágico ao fogo, que tinha em sua posse e que estava ligado misticamente à vida do próprio herói*, matando-o também a ele.

 

Num outro episódio da mesma aventura sabe-se que Peleu, pai de Aquiles, matou por acidente um herói que lhe tinha dado guarida… mas se até podíamos tentar adicionar, aqui e ali, mais detalhes sobre toda a aventura, o crucial a saber, em relação a toda esta caça ao Javali de Cálidon, é que foram muitos os heróis envolvidos nela e, aparentemente, todos eles tinham alguma espécie de papel no mito original. Já não sabemos quais seriam para todos eles, até porque as versões que nos chegaram apresentam algumas composições divergentes para o grupo de heróis que defrontaram a besta, mas parece correcto dizer-se que, na forma original do mito (que até já era conhecido de Homero!), todos eles tinham um papel. Presume-se que tenha sido mesmo um grande mito, nessa sua forma original, como aqui se tentou deixar claro, mas com a excepção de algumas referências tardias, em autores como Ovídio, já mesmo pouco se sabe sobre as aventuras originais, preservadas em pinturas de vasos como o acima…

 

 

*- Sobre este tema, da vida de um herói que está ligada a um qualquer elemento mágico, há que frisar que ele é bastante incomum nos mitos da Antiguidade, mas foi crescendo de importância ao longo dos séculos, e ressurge em diversos mitos e lendas da Idade Média, bem como em histórias populares mais tardias.

O Livro Vermelho de Mao Tse-Tung

Existem livros cuja importância cultural nas respectivas culturas é imensa, mas que ao mesmo tempo são quase esquecidos em outras. Já cá falámos, por exemplo, do Ramayana da Índia ou do Kebra Nagast, que muito poucos lêem em países lusófonos. O chamado Livro Vermelho (em virtude da cor da capa da sua edição mais famosa, já que o original lhe dá o nome de 毛主席语录), de Mao Tse-Tung, é uma dessas obras, de uma importância enorme em terras da China, mas que em Portugal conhecemos quase apenas como uma obra comunista e pouco mais. Por isso, de que fala mesmo este texto?

O Livro Vermelho de Mao Tse-Tung

Confesse-se, nunca pensámos lê-lo, até que um aluno chinês nos veio emprestar uma tradução inglesa da obra. Então, sentimos que tínhamos mesmo de ler este Livro Vermelho. Ele é, essencialmente – e como o título original, que pode ser visto acima, já indicava – uma compilação de citações de Mao Tse-Tung sobre diversos temas. São quase todas de conteúdo político, mas quem for ler a obra também poderá encontrar por lá ideias filosóficas que mereceriam ser mais exploradas num contexto ocidental. O que até nos trouxe um problema inesperado – quando fomos ler esta compilação, pensámos inicialmente em recolher apenas três ou quatro citações para apresentar aqui, mas acabámos por encontrar muitas mais, e até uma pequena lenda de origem chinesa. Por isso, aqui ficam alguns momentos da obra, que decidimos terminar com essa referência do autor a uma lenda local:

[1-] As classes lutam, algumas classes triunfam, enquanto que outras são eliminadas. Esta é a história da civilização há milhares de anos. Interpretar a História por este ponto de vista é materialismo histórico; estar em oposição dele é idealismo histórico.

 

[2-] Entre os Brancos dos Estados Unidos são apenas os círculos reaccionários no poder que oprimem os Negros. Não podem de nenhuma forma representar os trabalhadores, os agricultores, os intelectuais revolucionários, ou outras pessoas com conhecimento, de que fazem parte a maior parte das pessoas brancas.

 

[3-] Todos os reaccionários são tigres de papel. Na sua aparência, os reaccionários causam medo, mas na realidade não são tão poderosos. De um ponto de vista a longo prazo, não são os reaccionários mas as próprias pessoas que são poderosas.

 

[4-] A toda a gente deve ser dado o direito de falar, seja a pessoa quem for, desde que não seja hostil e não faça ataques maliciosos, e não importa que diga algo de errado. Os líderes de todos os níveis têm o dever de ouvir os outros.

 

[5-] Devemos ser modestos e prudentes, ter cuidado com a arrogância e a imprudência, e servir o povo com coração e alma…

 

[6-] De onde nascem as ideias correctas? Será que caem do céu? Não. Elas são inatas da mente? Não. Elas nascem apenas da prática social; elas vêm dos três tipos de prática social, da luta pela produção, da luta de classes e de experiências científicas.

 

[7-] Não conseguem resolver um problema? Bem, investiguem-no, nos seus factos presentes e na sua história passada! Quando tiverem investigado o problema de forma completa, saberão como o resolver. As conclusões nascem invariavelmente de uma investigação, não antes dela.

 

[8-] Existem um número de pessoas, e não são poucas, que são pouco responsáveis pelo seu trabalho, preferindo o fácil ao difícil, dando aos outros as cargas difíceis e escolhendo para si mesmos as fáceis. A cada momento pensam em si antes de pensar nos outros. Quando fazem algum pequeno contributo, incham-se com soberba e gabam-se constantemente, com medo que os outros não saibam o que eles fizeram. Não sentem compaixão face aos outros e são frios, indiferentes e apáticos.

 

[9, para os jovens -] O mundo é vosso, bem como nosso, mas em última análise ele é vosso. Vocês, jovens, repletos de vigor e vitalidade, estão na flor da vida, como o sol às oito e nove da manhã. A nossa esperança está em vocês. […] O mundo pertence-vos. O futuro da China pertence-vos.

 

[10-] Existe uma história antiga chinesa chamada “O Idoso Louco que Removeu as Montanhas.” Fala de um idoso que viveu no norte da China há muito, muito tempo, e que era apenas conhecido como o Idoso Louco da Montanha do Norte. A sua casa tinha uma porta para o lado do sol e fora dela estavam dois grandes picos, Taihang e Wangwu, que lhe obstruíam o caminho. Com grande determinação, levou os seus filhos a escavar essas montanhas com enxadas.
Outro homem de longa idade, conhecido como o Idoso Sábio, viu-os e disse-lhes de forma irónica, “Que absurdo fazerem isto! É impossível tão pouca gente conseguir escavar estas montanhas gigantescas.”
O Idoso Louco respondeu “Quando eu morrer, os meus filhos irão continuar; quando eles morrerem, irão existir os meus netos; e depois os seus novos filhos e netos, até ao infinito. Tão altas quanto sejam, as montanhas não podem crescer mais e com cada pedaço que escavarmos ficarão mais pequenas. Porque não as conseguiremos afastar?”
Tendo refutado as ideias erradas do Idoso Sábio, ele continuou a escavar todos os dias, sem nunca mudar a sua ideia. Então deus ficou compadecido e enviou dois anjos, que afastaram as montanhas com as suas próprias costas*.

 

Se este Livro Vermelho de Mao Tse-Tung apresenta muitas outras citações do famoso político chinês, num total de mais de 300, talvez esta pequena lenda recordada pelo autor, a que ele faz seguir uma breve interpretação (que omitimos aqui), seja a sequência mais digna de nota no contexto deste espaço. Mas, de um modo mais geral, esta é uma obra política, mais do que filosófica ou mitológica, de uma importância significativa para quem quiser compreender alguns aspectos da cultura chinesa dos nossos dias.

Mas… Será que a devem ler? Debatemos esse ponto várias vezes, até nos apercebermos que se trata de uma obra que, entre nós, apenas apelará a quem tem interesse nas Ciências Políticas ou na cultura chinesa. Os restantes leitores até poderão encontrar nela algum interesse ocasional, aqui e ali, mas de um modo geral este Livro Vermelho terá provavelmente pouco apelo para os leitores lusófonos.

 

 

*- Como a obra que lemos estava em tradução inglesa, é portanto provável que esta última frase seja uma adaptação do texto original, referindo-se originalmente a uma qualquer divindade da China e respectivo séquito divino.

Os poderes do Bruxo de Fafe são verdadeiros?

Desde há uns anos para cá que se ouve falar nas notícias desportivas de uma tal figura chamada Bruxo de Fafe. De nome Fernando Nogueira, ele é provavelmente um dos mais famosos ocultistas de Portugal – talvez a par do Professor Bambo e de um tal Mestre Alves – mas nunca é muito bem explicado o que ele faz ou deixa de fazer. Normalmente a questão seria fácil de resolver, se ele tivesse um site na internet ou uma página nas redes sociais com os contactos – o que não parece ser o caso – mas na ausência dessa informação foi-nos colocada uma questão inesperada – afinal, em que acredita esta figura? Ou, se assim preferirem, se o famoso Professor Bambo se diz um “prestigiado médium vidente”, em que consistem os alegados poderes desta outra figura do ocultismo nacional?

Quem é o Bruxo de Fafe?

Quem procurar algumas imagens do senhor depressa se aperceberá que ele não é padre católico, nem estudou Teologia, mas rodeia-se sempre de uma iconografia essencialmente cristã, o que é comum em diversas religiões da América do Sul. Esta ideia parece até ser confirmada por uma entrevista muito recente em que, ameaçando Joana Marques, disse as seguintes palavras:

Ela está-se a meter com o bruxo de Fafe… Ou pára ou tem o Inferno atrás para toda a vida. Nunca mais se vai ver livre do Diabo. (…) Com o meu trabalho, invocarei todos os exus do mar e dos cemitérios e ela vai ter a maldição dos mortos-vivos.

A palavra mais importante nestas ameaças e estranhas crenças é provavelmente “exus“. Usada assim, no seu plural, não se refere a um orixá, mas a um conceito da Umbanda – uma religião afro-brasileira, constituída por uma espécie de fusão de crenças africanas com o Cristianismo – que pode ser resumido na nossa cultura portuguesa como um espírito intermediário entre os vivos e os mortos. Esse tema, em si, é até muito interessante, mas terá de ficar para outro dia, face a uma questão mais relevante – será que este Fernando Nogueira viveu no Brasil, num qualquer país africano, ou estudou com alguém que perceba dessas religiões?

Infelizmente, não parecem existir entrevistas em que ele revele o seu passado de forma fidedigna, mas conseguimos encontrar uma intervenção televisiva de 2013 que revela alguns elementos muito interessantes… mas cuidado, este vídeo pode ser impróprio para os mais sensíveis, até porque tem alguns momentos que fazem relembrar exorcismos como o de Anneliese Michel:

Neste vídeo Fernando Nogueira não diz ter aprendido o que sabe no estrangeiro, nem nos informa que o seu conhecimento lhe foi transmitido por uma outra pessoa, o que é muito curioso… E ainda mais porque no vídeo refere conceitos como “porta aberta”, “chakras” e “incensos”, faz alusão ao acto de “incorporar”, a “poderes espirituais”, “conhecimentos bíblicos”, e a muitas outras coisas que… para quem perceber pouco ou nada destes temas, são ideias e conceitos que pertencem a religiões e crenças místicas completamente diferentes. É, por exemplo, importante frisar que mesmo na Umbanda a cura é normalmente feita por intermédio dos exus, mais do que pela intervenção humana, o que não acontece nos exemplos deste vídeo, em que o dito bruxo até diz transportar os espíritos malévolos para o seu corpo. Assim, aquilo em que o Bruxo de Fafe acredita, a origem e fonte dos seus poderes, é supostamente uma miscelânea de crenças completamente díspares, em que, para citar uma expressão bem portuguesa, “não bate a bota com a perdigota”*, tomando-se proveito do grande desconhecimento, ou mesmo receio, que o público nacional tem desses temas.

 

Portanto, como nos podia perguntar algum leitor, serão os poderes do Bruxo de Fafe dignos de algum crédito? Será que as pessoas no vídeo foram verdadeiramente curadas por ele? Será que ele consegue exorcizar demónios e afastar feitiços malévolos, enquanto também os ameaça fazer aos seus próprios inimigos, como se diz que uma dia até fez ao Benfica? Será ele um novo Luís de La Penha? Nestas coisas de crenças a resposta fica sempre para os leitores, mas deixamos também uma questão que nos parece fulcral – onde aprendeu ele todo aquele conjunto de terminologias que utiliza, que provêm de crenças religiosas totalmente distintas? Mesmo que se pretenda acreditar que os seus conhecimentos lhe foram dados por uma qualquer entidade divina (desconhecida, já que nunca a nomeia), como se compreende essa constante discrepância de crenças, que num momento fala de “exus“, no seguinte recorre a incensos de múltiplas variedades, num terceiro já denota crenças espíritas, e depois até fala de ideias relacionadas com vodu ou com a Bíblia? Não vos parece estranho?!

Se as coisas são para ser assim, tentemos até algo de completamente novo – em virtude dos nossos notórios conhecimentos de Misticismo, os próximos dez leitores que nos contactarem ali em baixo nos comentários, expondo problemas e questões místicas, poderão vir a ter o seu problema resolvido de uma forma completamente gratuita… é mesmo grátis, uma oportunidade única a aproveitar (!), mas não se deixem é enganar por quem vos promete mundos e fundos!

 

 

*- Para quem tiver alguma curiosidade sobre a origem da expressão “não bate a bota com a perdigota”, fazemos aqui um pequeno aparte – uma “perdigota” é uma perdiz muito jovem, e a frase parece referir-se à ideia de que esse animal, escolhido apenas por motivo de rima, não faz par com uma bota (até por serem duas coisas completamente diferentes).

A lenda da Peeira ou Pieira dos Lobos

Muito recentemente pediram-nos que escrevessemos sobre a Peeira, “uma lenda de origem portuguesa”. Também conhecida como Pieira dos Lobos, esta é efectivamente uma figura nacional, mas sobre a qual apenas nos chegaram algumas linhas muito gerais, que pela natureza de toda a lenda certamente vieram do norte do país, onde os animais ligados a toda esta história eram mais comuns.

Lenda da Peeira ou Pieira dos Lobos

Quando aqui escrevemos sobre a forma tradicional portuguesa do Lobisomem, dissemos que “quando uma mulher tem sete filhos consecutivos de um mesmo género sexual, esse sétimo rebento irá sofrer de Licantropia”. Na mesma frase, acrescentámos depois que “sete filhas geram uma bruxa, para quem tiver essa curiosidade”, o que representa uma visão que era comum na mesma época e que também era, aparentemente, a mais frequente no nosso país. Mas, face à lenda da Peeira ou Pieira dos Lobos, viemos posteriormente a descobrir que não era a única!

 

Segundo Consiglieri Pedroso, no norte do país e em finais do século XIX acreditava-se também na existência de uma figura chamada Peeira ou Pieira dos Lobos, que nascia quando uma mulher tinha sete filhas de uma forma consecutiva. O que acontecia a essa jovem depende mediante a versão da história, como é comum nas tradições orais – por vezes ela transformava-se em lobo nas noites de lua cheia, uma espécie de “lobismulher”; segundo outras opiniões, ela tinha de ir viver entre os lobos, tornando-se uma espécie de estranha pastora dos mesmos, e que até conseguia falar com estes animais. Desta segunda hipótese parece derivar o seu nome – “peeira”, ou “pieira” (palavras que já nem existem no nosso dicionário com este significado), por estar ao pé dos lobos.

 

Curioso, também, é o facto de parecerem ter existido diversas formas de “curar” uma Peeira ou Pieira dos Lobos. Bastaria, segundo alguns, derramar o seu sangue (como também acontecia com o Lobisomem); segundo outros, todo o feitiço (ou fado, ou triste destino, se assim o preferirem) podia ser evitado se a mais velha das sete irmãs se tornasse madrinha desta mais nova; uma terceira versão dizia que esta maldição era coisa natural, que começava no sétimo aniversário da jovem e terminava sete anos depois; ainda outra diz que todo o feitiço se acabava se a jovem, na sua forma transformada, devorasse um recém-nascido; e daí por diante, variando muitas vezes de local para local.

 

Infelizmente, todas estas histórias – como, por exemplo, as do Secular das Nuvens e do Homem das Sete Dentaduras – foram sendo esquecidas ao longo dos anos. Terá sido pelos casais terem menos filhos? Pelo êxodo para as grande cidades? Pelo desaparecimento crescente dos lobos? Ou apenas porque as pessoas as foram esquecendo, vendo-as somente como resquícios, cada vez menos importantes, do tempo dos seus avós? Não sabemos, mas o facto é que, hoje, já quase não se ouve falar desta Peeira ou Pieira dos Lobos, salvo em obras literárias que nos preservam, ou adaptam, crenças dos tempos passados…

O dia em que o Diabo fez uma bondade

A história de hoje, sobre o dia em que o Diabo fez uma bondade, vem-nos de terras do México. Destoa no contexto ocidental pelo facto de apresentar o opositor de Deus como capaz de fazer algo de bom, que – tanto quanto nos conseguimos relembrar, após várias horas de debate – quase nunca acontece na nossa cultura, mas até tem lugar em diversas lendas mexicanas. Portanto, decidimos que devíamos contar por cá uma em que isso acontece.

O Diabo e a Bondade

Diz-nos então esta história que um homem muito mau e muito ladrão roubou muitas coisas com a sua quadrilha. Depois, um dia, enquanto dividiam o saque, calhou-lhe a posse de um quadro com uma horrenda imagem do Diabo. O homem não queria isso para nada, mas visto que lhe foi dado por um superior nas artes do roubo, teve de o aceitar. Assim, levou o quadro para casa mas escondeu-o atrás de uma porta, para que nunca ninguém o pudesse ver. E o quadro aí ficou, até que a esposa deste homem se apercebeu da sua presença; vendo-o tão sujo e esquecido, ela foi limpando-o dia após dia, mês após mês, ano após ano.

Até que um dia esta mulher adoeceu, e em seguida foi ficando cada vez pior do seu estado de saúde. Na cama que ocupou durante muito tempo, tornou-se-lhe impossível fazer seja o que for. Vendo-a assim, o Diabo, compadecido com a simpatia que esta lhe tinha mostrado tantas vezes ao longo dos anos, foi por ele mesmo chamar um padre e pedir-lhe que este desse a extrema unção à (agora) idosa. Ele fê-lo de bom agrado, apesar do caricato de toda a situação, e a idosa foi para o Céu.

 

Esta história do dia em que o Diabo fez uma bondade é muito rara na nossa cultura, mas – e como já foi dito acima – apresenta-nos uma figura muito menos diabólica que a europeia. Em muitas lendas que ouvimos no México, o Diabo é uma figura bastante teatral, que sai quase sempre enganado pelos santos e até por homens comuns. Não é a mesma figura que tendemos a ver na nossa Bíblia, mas sim uma espécie de anti-herói que lhe tomou o nome, pelo que só assim se pode explicar o seu carácter tão invulgar na pequena história que aqui recontamos. Se Satanás (ou o nome que quisermos dar ao opositor de Deus), não tem de ser obrigatoriamente mau – basta ter-se em conta o Paraíso Perdido de Milton – é verdadeiramente curioso que na cultura mexicana o seja muito menos do que na europeia, em que a sua maldade nas histórias dos santos é quase constante.