O filme em que Jesus é homossexual?

Hoje falamos de um tema pouco conhecido em Portugal, o de um suposto filme sério no qual Jesus é representado como homossexual. Será verdade? Será mentira? Será tudo uma brincadeira para tentar ofender a religião católica e assim ter bastante publicidade grátis? Se até ouvimos falar de um filme brasileiro, de título A Primeira Tentação de Cristo, em que (supostamente) Jesus até é representado como “gay” – e não o fomos ver, mas o respectivo trailer parece, no mínimo, sugerir uma potencial relação com um “amigo” do mesmo sexo – esse trata-se apenas de uma sátira… e a espécie de lenda a que aludimos hoje antecede essa criação audiovisual em pelo menos várias décadas. Será, portanto, possível que um filme mais sério com este mesmo conteúdo até exista? E, se sim, qual é a trama do mesmo?

O filme em que Jesus é homossexual?

Se toda esta história até nem é muito conhecida em Portugal, ela foi sendo ouvida em diversos países ao longo dos anos desde 1973. Em suma, ela é transmitida por cartas (e, mais tarde, por  e-mails), e diz que está para estrear um filme em que Jesus Cristo é representado como abertamente homossexual. O leitor é então convidado a boicotar esse filme, a impedir potenciais visualizações do mesmo na sua área, mas não deixa de ser curioso o facto do respectivo título nunca ser dito. Ou seja, os leitores dessa informação, passada repetidamente de mão em mão, são instados a boicotar um filme em relação ao qual quase nada sabem e cujo título desconhecem, o que é uma ideia muito estranha e pode rapidamente sugerir uma enorme falsidade por detrás de tudo isto. Mas será mesmo mentira, como parece? Veja-se um exemplo do tipo de e-mail que, na América do Norte, apregoa a existência deste suposto filme:

Modern People News has revealed plans for the filming of a movie based on the SEX LIFE OF JESUS in which Jesus is portrayed as a swinging HOMOSEXUAL. This film will be shot in the U.S.A. this year unless the public outcry is great. Already a French Prostitute has been named to play the part of Mary Magdalene, with who Christ has a blatant affair. We CANNOT AFFORD to standby and DO NOTHING about this disgrace. We must not allow this perverted world to drag our Lord through the dirt. PLEASE HELP us to get this film banned from the U.S.A. as it has been in Europe. Let us show how we feel.

 

E a surpreendente verdade é… de facto, toda esta ideia não é verdade nem mentira, mas sim um misto estranho de ambas as coisas. Em 1973 o director dinamarquês Jens Jørgen Thorsen anunciou que ia fazer um filme no qual, além de outras coisas (negativas, que das positivas ninguém se queixaria!), Jesus Cristo era representado como homossexual. De título original The Many Faces of Jesus, The Sex Life of Jesus ou The Love Affairs of Jesus, ele acabou por nunca ser produzido, devido a toda a controvérsia que a ideia levantou, chegando até o Papa Paulo VI a criticar toda a estranha ideia…

Assim, por toda essa controvérsia, a produção do filme ficou pelo caminho, mas segundo foi possível apurar a história que iria ter lugar no mesmo foi publicada em dinamarquês e com o título Thorsens Jesusfilm: en uforkortet overættelse til dansk ved forfatteren, que é como quem diz “O Filme Jesus de Thorsen: uma tradução integral para o dinamarquês pelo próprio autor”. Tem ISBN 8741835247, se alguém ainda quiser tentar comprar e ler a obra.

 

Agora, se o filme de Thorsen com um Jesus homossexual nunca foi verdadeiramente feito, a enorme polémica suscitada pela ideia parece ter inspirado o mito de um filme sério no qual Jesus ia, pela primeira vez, ser representado não só como um homossexual mas, parece, também como um criminoso da pior espécie. Assim se explica o primeiro e mais famoso dos seus títulos, The Many Faces of Jesus, suscitando a ideia de um fundador do Cristianismo não só com uma parte boa, aquela que já bem conhecemos na cultura ocidental, mas também com múltiplas outras faces, essa menos conhecidas, das quais a homossexualidade se apresentava como a mais chocante nessa época. Nessa sequência, e em função da enorme polémica, poderá e deverá ter sido isso a inspirar o puro mito que o inventor desta história utilizou para a sua carta em cadeia, mas a ideia não parece ter sido recriada em nenhum filme sério até aos nossos dias…

A (verdadeira) lenda do Cavaleiro Verde

Em 2021 apareceu nos cinemas um filme que em português tinha o título de A Lenda do Cavaleiro Verde. O actor por detrás da personagem principal era Dev Patel, que fazia de Gawain, e quem tenha visto o filme (e, aparentemente, foram poucos os que o fizeram) poderá ter-se apercebido que este era baseado num mito arturiano, outrora um tanto ou quanto conhecido. O filme, em si, tem o seu quê de encanto (um trailer pode ser visto carregando na imagem abaixo), mas um dos elementos mais intrigantes da sua trama é, sem dúvida, o facto de ele reutilizar diversos elementos da lenda original mas sem nunca revelar os seus verdadeiros significados. Assim, o filme só pode ser percebido de uma forma completa se for visualizado em comparação e contraste com a lenda original. Fazer isso de uma forma completa ultrapassaria o objectivo das linhas de hoje, mas podemos aqui contar o cerne da própria lenda, tal como ela era conhecida na versão mais famosa da história.

A verdadeira Lenda do Cavaleiro Verde

Conte-se, portanto, esta lenda do Cavaleiro Verde. Um dia, enquanto o Rei Artur e os seus cavaleiros se banqueteavam na altura do Natal, surgiu-lhes em plena corte uma misteriosa figura de cor verde, que os convidou a uma espécie de jogo natalício muito incomum. Ela convidou um dos membros da corte a desferirem-lhe um golpe com o enorme machado que portava, e no ano seguinte essa pessoa deveria procurá-lo e receberia de volta um golpe semelhante, após o qual poderia ficar com o poderoso machado para si. Se Artur quis, inicialmente, aceitar esse desafio, depois foi Gawain que o aceitou, talvez em busca da sua fama, cortando o pescoço do estranho gigante com um só golpe… apenas para depois, de uma forma muito surpreendente, o ver a pegar na cabeça decepada, avisar o herói para este não esquecer o seu lado do “jogo”, e ir-se embora.

Durante o ano que se seguiu Gawain não soube muito bem o que fazer, mas lá decidiu que deveria cumprir a sua promessa – quanto mais não fosse, as regras da cavalaria assim o exigiam – e partiu em busca do Cavaleiro Verde, que então o esperava numa capela verde. Teve algumas aventuras pelo caminho, nomeadamente uma visita a um palácio em que foi muito bem tratado e seduzido pela esposa do senhor local. Finalmente, lá chegou à capela do opositor, onde o estranho inimigo, após algumas hesitações por parte do herói, lá cumpriu a sua parte do “jogo”… mas Gawain não morreu, porque, na verdade, este estranho homem verde era uma transformação do tal senhor em cujo palácio ele tinha vivido por algum tempo, e que por este meio pretendia vir a punir alguma infidelidade da parte do jovem – algo que, no entanto, não teve de fazer, porque Gawain sempre se “portou bem” nos seus domínios.

 

Alguns elementos desta história contrastam um pouco com os apresentados no filme A Lenda do Cavaleiro Verde, em que a verdadeira identidade do chamado “Homem Verde” não é revelada, mas outros elementos da história também divergem nessa representação cinematográfica, chegando Gawain a envolver-se, de forma discutivelmente sexual, com a bela senhora do palácio. Face a isso, pode surgir uma inesperada interpretação para o final do filme – será que nesta versão o herói morreu mesmo, decepado pelo tal Cavaleiro Verde? Isso não é nem confirmado, nem contradito na trama, mas é provável que o possível desfecho se destinasse a captar um elemento muito particular da literatura de ficção da Idade Média, em que por vezes existiam diversas versões de uma história, com vários elementos comuns mas também múltiplas diferenças.

Outro elemento digno de nota no filme é um momento insólito em que as personagens se perguntam a razão da cor do Cavaleiro Verde. É aquele tipo de coisas muito debatível nos nossos dias, mas a lenda original não só diz que a pele desta personagem era completamente verde, mas também partilhava essa característica com o próprio cavalo que a transportava, sendo que as razões para tal nunca são reveladas. Assim, muitas poderão ser as razões por detrás dessa sua cor – basta, por exemplo, pensar-se na lenda das crianças verdes de Woolpit, que partilhavam desta característica – mas, para nós e depois de vários debates, pensamos tratar-se de uma alusão à morte e renascimento da natureza, até pelo facto deste estranho cavaleiro – uma possível representação do mundo natural – ter sobrevivido a um golpe que seria claramente mortal para qualquer ser humano… mas, repita-se, é muito discutível!

 

Portanto, o filme A Lenda do Cavaleiro Verde merece, verdadeiramente, ser visto e comparado com a obra literária de autoria anónima, quanto mais não seja para que se suscite algum debate prolífico entre os visualizadores e leitores, com vista a que se perceba toda a história de forma muito mais completa…

O Barco do Amor em Lisboa

O Barco do Amor – ou, na versão original, The Love Boat – é uma de aquelas séries dos anos 80 que ainda hoje podem ser vistas na televisão portuguesa. É uma série relativamente simples, um tanto ou quanto divertida, cujos episódios podem ser visualizados sem qualquer ordem muito específica, mas o que aqui tem particular interesse é o facto de um dos seus últimos episódios tomar lugar na cidade de Lisboa. É, curiosamente, a penúltima sequência da trama, na sua nona temporada, e uma das três histórias contidas nesse episódio duplo até tem particular ligação à cidade, razão pela qual decidimos fazer-lhe esta breve referência aqui.

O Barco do Amor, título

Para quem conhecer a série, cada episódio tem pelo menos três viajantas que entram neste barco de cruzeiros, passando por aventuras que ocasionalmente se cruzam. Aqui, um deles é um tal Carlos Belmonte, o patriarca reformado de uma família de toureiros, cujo neto – António Belmonte – se prepara para a sua primeira aparição na arena, precisamente no Campo Pequeno lisboeta. O jovem, cujo pai até faleceu na arena, sente-se um pouco inseguro com a tarefa, prefere tornar-se escritor e continuar os seus estudos universitários em vez de ser toureiro, e decide não combater. Então, o avô decide tomar o seu lugar, e antes de ele descer à arena tem lugar uma sequência que é breve mas também bela:

O Barco do Amor em Lisboa

Antes de combater, Carlos Belmonte, talvez o maior herói deste episódio do Barco do Amor em Lisboa, toma um momento ritual para rezar num pequeno oratório, com a Nossa Senhora de Fátima a seu lado, numa postura de um verdadeiro nobre, aquele a que a trama até chama “o maior cavaleiro de Portugal”. É provável que a ironia não tenha sido bem planeada, mas ele depois cai do cavalo, certamente fruto de anos de falta de prática, e tem de ser visto por um médico, levando o neto António a combater, talvez pela primeira e última (?) vez – o episódio não o torna claro, dizendo apenas que ele vai continuar os seus estudos, mas sem que seja dito se abandonou definitivamente a Tauromaquia.

 

Além desta história principal, ao longo do episódio dessa nona temporada, as principais personagens do elenco – o Capitão Stubing, o médico, o bartender, a directora do cruzeiro, etc. – podem ser vistas a passear por alguns dos locais mais famosos da cidade, e o telespectador até vai vendo alguns momentos panorâmicos do Cristo-Rei, do Tejo, da Torre de Belém, etc. Portanto, toda a cidade de Lisboa até está relativamente bem apresentada neste episódio do Barco do Amor, captando igualmente um pouco da cultura portuguesa, apesar de um momento estranho – na arena tauromáquica, os anúncios são ouvidos em perfeito Português do Brasil, e não no de Portugal, como seria naturalmente de esperar.

 

Vale, então, a pena ver este episódio do Barco do Amor em Lisboa? Sim, acreditamos que sim, quanto mais não seja pela pura curiosidade de ver as suas famosas personagens na capital de Portugal. Por isso, se um dia estiverem a ver televisão e, talvez pelo mais mero acaso, se depararem com este episódio da série (ele passou recentemente na RTP Memória!), fica o pequeno convite de que lhe dediquem alguns momentos.

Chernobog e Belobog na Mitologia Eslava

Chernobog e Belobog contam-se entre aquelas muitas figuras divinas de determinados povos que foram sendo esquecidas ao longo dos séculos. Foram, como muitas outras, vítimas da cristianização dos vários povos europeus, talvez como o nosso Larouco, mas nem por isso deixam de ter ainda uma pequena história para contar. Como tal, fazemos da sua (pequena) história tema para a publicação de hoje.

Chernobog e Belobog na Mitologia Eslava

Comece-se por voltar atrás no tempo algumas décadas. O filme Fantasia, da Disney, chegou aos cinemas em 1940, mas se o considerarmos como um filme animado para crianças não podemos senão estranhar uma sequência particularmente assustadora, que dado o contexto merece aqui ser recordada (caso não seja óbvio, não é uma sequência muito indicada para crianças):

O ser monstruoso e diabólico apresentado nesta sequência é considerado “Chernabog” no filme, como pode ser confirmado pr outras fontes, mas quem quiser procurar por esse nome específico na internet quase nada encontrará sobre ele. Isto porque essa designação tem um pequeno erro, é derivada de um verdadeiro nome de uma antiga divindade eslava de nome Chernobog. Como sempre, seria muito interessante contar aqui alguns mitos e lendas que o envolvam, mas eles estão quase totalmente perdidos, salvo uma pequena informação que nos chegou do século XII – segundo esta, alguns Eslavos veneravam dois deuses, um bom e um mau, respectivamente responsáveis por tudo o que é bom ou mau no mundo. Ao segundo deles era chamado Chernobog – que é como quem diz, “o deus negro” – e se as linhas não preservaram o nome do seu bondoso companheiro até ao século XVI, ele ficou conhecido como Belobog, i.e. “o deus branco”. Nada mais sabemos sobre estes dois deuses na sua forma original, pré-século XII, e pelo facto das linhas dessa altura nos dizerem que o deus mau já era então conhecido pelo nome de Diabo é provável que ele já estivesse quase esquecido enquanto figura religiosa.

 

Portanto, a ideia por detrás de Chernobog e Belobog parece ser curiosa, peca por agora sabermos pouco sobre cada um deles, mas… não era nova. Quase na mesma altura, o Bogomilismo pregava a ideia da existência de dois deuses, um da matéria e outro do espírito, e o Catarismo tinha ideias semelhantes (para quem nada percebe desses temas, eram ambos uma espécie de seitas cristãs). Já muitos séculos antes, o Zoroastrianismo também pregava a existência de dois deuses, irmãos e completamente contrários. Mas de onde terá nascido toda esta grande ideia é algo que o tempo parece ter feito esquecer há muito…

O filme animado “Kureopatora” (de 1970)

Kureopatora, que é como quem diz “Cleópatra” em Japonês, é um filme animado que foi lançado nos cinemas em 1970. Certamente que ele não estreou em Portugal, e as razões para tal são fáceis de compreender – é um filme pejado de erotismo (até os seios da heroína podem ser vistos no póster!), mas sem que seja verdadeiramente pornográfico. É, talvez até mais que tudo, um filme estranho, que parece não conseguir decidir o que quer ser.

O filme Kureopatora

A trama de Kureopatora é relativamente simples – num futuro distante, uma espécie extraterrestre ataca a terra e quer pôr em marcha algo a que chamam o “Plano Cleópatra”. Então, para investigarem em que este consiste, os heróis da história tomam uma espécie de máquina do tempo para irem ao tempo da governante egípcia… e até aqui tudo bem, mas o filme está pejado de momentos eróticos, quanto mais não seja pelo facto da heroína se dispor a utilizar toda a sua sexualidade em favor da protecção do Egipto. A trama vai-se desenvolvendo com alguns momentos com piada, outros mais filosóficos, uns quantos baseado em história muito real, outros já mais ficcionais, mas… se a iconografia, as imagens que vão sendo vistas no ecrã, são quase sempre artisticamente belas, já a trama é bastante estranha, com momentos de uma sensualidade enorme a serem imediatamente seguidos por piadas que só interessam aos mais parvinhos dos espectadores, como quando um dos viajantes no tempo, encarnado num leopardo, se tenta envolver sexualmente com mulheres humanas.

Portanto, se o objectivo da aventura era descobrir-se o verdadeiro sentido do tal “Plano Cleópatra”, em que consiste ele? Evidentes spoilers, mas a ideia passava pelos tais extraterrestres se disfarçarem de mulheres para poderem controlar toda a sociedade humana através da sua sexualidade. Claro que isto poderia levantar centenas de questões filosóficas importantes, mas elas são completamente excluídas do filme em favor de um erotismo muito pouco aparazível – por exemplo, uma das personagens da história é uma escrava egípcia que anda constantemente com os seios ao léu – e de dezenas de momentos secundários que parecem destoar na seriedade da trama.

 

Kureopatora é, portanto, um filme que ainda hoje parece ser conhecido pelo seu erotismo animado, mas tem uma história aborrecida. Não vale mesmo a pena que se percam quase duas horas para o ver do início ao fim. Estranho mesmo é o facto do seu produtor ter sido Osamu Tezuka, que é muito conhecido por várias outras séries animadas japonesas, no seu geral muito mais interessantes do que qualquer coisa que este filme tenha para nos oferecer…