É provável que a fábula do sapo e do escorpião se encontre entre as mais famosas dos nossos dias, e portanto vale a pena recontá-la aqui juntamente com a sua moral. Mas, antes disso, talvez importe explicar que esta não é uma das muitas histórias que se atribuíam a Esopo, nos tempos da Antiguidade, ou fruto de alguma obra famosa como o Panchatantra indiano. Toda a ideia, e até mesmo a respectiva moral, já existia antes do século XX, mas esta pequena história, na forma como a temos agora, apenas surgiu quase já nos nossos dias, de uma fonte literária russa que pouco parece ter de importante fora ter sido a primeira versão do tema a que ainda temos acesso. Feita, portanto, essa breve introdução, foquemo-nos agora na história em si mesma:

Um dia, um Escorpião viu um Sapo à beira de um ribeiro. Visto que queria cruzar esse curso de água para o lado oposto, chamou este animal verdinho e pediu-lhe que o ajudasse. Mas o Sapo, desconfiado, reconheceu em quem o interpelava um seu inimigo mortal e a sua grande prudência fez, inicialmente, levá-lo a pensar que não poderia confiar nele. Porém, o Escorpião disse-lhe que nada tinha a temer, que não lhe ia fazer nenhum mal, até porque se o picasse colocaria ambos no mais mortal perigo. E o Sapo, coitadinho, acreditou nessa ideia, colocando o Escorpião sobre as suas costas enquanto se movimentava para o lado oposto do rio. E tudo parecia correr bem, até que este segundo lá ferrou quem o transportava… conduzindo-os ambos à morte, mas não sem que antes o Sapo tivesse pedido explicações. A ele, o Escorpião disse apenas “Desculpa, não pude evitá-lo, é apenas a minha natureza”…
Esta fábula do sapo e do escorpião é relativamente simples, não tem muito para contar, mas o que alguns parecem ter mais dificuldade em compreender é a sua moral. Se ela é um pouco discutível, normalmente pode ser interpretada para significar que todos nós temos uma natureza intrínseca que não podemos contrariar. Até podemos tentar argumentar contra ela, afastar o cerne do tema por aqui e por ali, desviar as atenções com esta e aquela ideia, mas tal como o Escorpião da história tem um poderoso ferrão na sua cauda, também cada um de nós tem uma parte de si mesmo que não consegue contrariar, e que em limite até poderá levar-nos à nossa destruição, como aconteceu com o Sapo.
Assim, se, por exemplo, alguém decidisse dar o nome de O sapo e o escorpião a um programa de televisão ou rádio, talvez o fizesse para dizer que tudo na vida tem a sua própria natureza, que em limite ninguém é capaz de contrariar. E, portanto, para moral da conhecida fábula, esta é uma ideia que nos chega…
!["O cavaleiro que fazia falar as vaginas [e os rabos]", de Garin "O cavaleiro que fazia falar as vaginas [e os rabos]", de Garin](https://mitologia.pt/wp-content/uploads/2026/06/O-Cavaleiro-que-Fazia-Falar-as-Vaginas-e-os-Rabos.jpg)





Gostaria de saber se o acesso ao vosso site comporta algum tipo de despesa. Obrigado desde já pela informação.
Caro Joaquim, não se preocupe, o acesso ao site é totalmente grátis. Temos alguns anúncios nas páginas, mas eles são apenas para ajudar a patrocinar os nossos projectos e para pagar o alojamento, ou seja, quem vem cá ler os nossos conteúdos nunca paga nada do seu bolso!
Caros Senhores
Fico-lhes muito grato pela amável e pronta resposta e pelo conteúdo da mesma, i.e. pela gratuitidade do conhecimento que transmitem, esse sim dum valor sem preço.
O meu muito obrigado e um grande bem hajam.
Nós é que agradecemos, o objectivo deste espaço sempre foi o de partilhar conhecimento em Português e de o fazer de forma gratuita, pelo que se os leitores nos vão lendo, sentem que as nossas linhas têm valor, e vão partilhando o que aprendem, isso é muito mais importante para nós do que o dinheiro! 🙂
Você credita a um conto russo a fábula como a conhecemos; sabe me dizer se do sec XX ou anterior. Estou produzindo um romance e pretendo inserir esta fábula, porém não consigo descobrir de qual época ela é datada.
A fábula aparece pela primeira vez, em versão escrita, já no século XX, numa obra de Lev Nitoburg.