“Elegíada”, o texto mais triste do mundo?

Será Elegíada o texto mais triste do mundo? Certamente que esta pergunta não tem uma resposta fácil, até em virtude do facto da tristeza ser um critério bastante discutível e difícil de definir, mas quando há algumas semanas ouvimos falar de um texto que era categorizado por um crítico nacional como o mais triste de Portugal, ou o mais triste alguma vez composto em língua portuguesa, sabíamos que tinhamos de lhe dar uma olhadela. E foi o que fizemos, ao longo de mais de 400 páginas de um épico nacional que hoje é muito pouco lido. Conte-se a sua história.

Um dos textos mais tristes do mundo?

Viveu na segunda metade do século XVI um padre jesuíta que ficou conhecido por Pereira Brandão. Entre o pouco que sabemos da sua vida é conhecido que ele acompanhou o Rei Dom Sebastião à Batalha de Alcácer-Quibir. Sobreviveu ao grande desastre e, menos de 10 anos depois, escreveu um poema épico, a Elegíada, em que o herói é o próprio monarca D. Sebastião. Ou seja, escreveu provavelmente o único poema épico do mundo em que o herói não só não triunfa nos seus objectivos, como até acaba por morrer no campo de batalha. E desenganem-se aqueles que esperam, aqui, um poema de esperança para o futuro profetizado por Bandarra ou imortalizado nas lendas – o rei estava mesmo morto, não ia voltar, e a obra termina no ponto em que o reino de Portugal é informado desse assustador destino. Esse é um tom de tristeza que pauta repetidamente toda a obra, que até começa com os seguintes versos, bem exemplificativos do seu conteúdo geral:

Mortes, danos, castigos, mágoas canto,
Males que todo o mundo chora e sente,
Um nunca visto estrago, e o rouco pranto,
Nunca enxuto em portuguesa gente.
Armas, furor, e temeroso espanto,
Em que se abrasa a Líbia ardente,
Quando [D.] Sebastião passar queria
A restaurar o Rei da Barbaria.

 

Parece tão triste quanto interessante, não é? Ao contrário do épico escrito sobre Henrique de Borgonha, o tema desta Elegíada dificilmente poderia ser mais fascinante, ainda para mais se foi escrito por alguém que testemunhou os eventos que reporta na primeira pessoa. Contudo, se a obra até tem alguns momentos preciosos, o seu mérito poético é demasiado discutível. Mesmo naqueles instantes em que surge algo mais digno de nota, como o misterioso idoso que inspira o rei falando-lhe do glorioso passado de Portugal (seria ele Camões?), ou a viagem do monarca por Sintra, eles demasiado depressa se desvanecem… e isso é particularmente notável naquele que deveria ser o episódio da morte de Dom Sebastião, no penúltimo canto, que é tratado com uma ligeireza que não pôde deixar de nos fazer sentir algo como “O quê? Só isto? Morre o rei e é apenas isto que o poeta tem para nos apresentar?” Em suma, o seu tema até era bom, mas o poeta não foi capaz de o tratar da forma conveniente para um verdadeiro poema épico.

 

Agora, não sabemos se esta Elegíada é o texto mais triste do mundo. Ou sequer se é o texto poético mais triste alguma vez composto em Portugal, mas se for colocado no seu contexto original entende-se o porquê de já ter recebido essa designação. É um poema emblemático de um momento muito particular da história portuguesa, do grande desespero de um povo, mas isso não faz dele, ainda assim, um bom poema épico. Explica-se, sem muita dificuldade, que seja essa falta de mérito poético que tenha levado ao seu esquecimento nos nossos dias. E quem desejar lê-lo faça-o como nós, mais pela breve curiosidade do que pela esperança de nele encontrar algo capaz de rivalizar com os Lusíadas de Camões.

O mito das fake news (ou notícias falsas)

Hoje, falamos também de um mito que é bem actual nos nossos dias, o das fake news, ou notícias falsas. A ideia não é de todo nova – já nos tempos da Antiguidade se dizia que Nero deitou fogo a Roma enquanto cantava sobre a destruição de Tróia, que Calígula fez do seu cavalo Incitatus cônsul, e que Jesus Cristo tinha nascido de uma relação extra-conjugal de Maria com um tal Pandera, entre infindáveis outros possíveis exemplos – mas parece continuar hoje tão actual como nesses tempos. Por isso, importa perguntar-se qual é, na verdade, a origem de todo este conceito…

As fake news e o fogo de Roma

Essencialmente, uma notícia tem, como o próprio nome dá a entender, o objectivo de noticiar ou informar de algo. Visto desse prisma o conceito é extremamente simples, mas o seu grande problema passa pelo momento em que se teve de começar a decidir o que noticiar. Vamos a um exemplo muitíssimo curioso que nos foi passado há já vários meses:

Um exemplo do mito das fake news (ou notícias falsas)

Segundo o escritor desta notícia, surgiu nas redes sociais uma publicação que mostrava imagens de alimentos num caixote do lixo e depois afirmava que Isabel Jonet e respectivos companheiros se apropriam de algumas doações ao Banco Alimentar. Neste breve resumo é logo associado um pequeno símbolo a afirmar que estas são afirmações falsas, puramente difamatórias. Mas depois, quem for mesmo ler o artigo completo, apercebe-se de algo muito curioso, que é o facto de ele somente desprovar a proveniência das imagens – e não dizer absolutamente nada sobre o outra metade da questão. Trocando por miúdos, fazendo uso do facto de pouca gente ler o artigo completa, esta notícia vende a ideia de que nem Isabel Jonet, nem os companheiros, se apropriam de absolutamente nada. Ou seja, um site de verificação de notícias fez mau trabalho jornalístico com a intenção de vender ao público uma ideia que lhes parece digna de defesa – ou seja, o Polígrafo publica fake news, ou notícias falsas, de uma forma encapotada.

 

Porque o faz? Porque uma notícia só é considerada falsa – seja hoje, como já o era nos tempos da Antiguidade – se não servir os nossos propósitos. Se, por exemplo, antes de um período de eleições um determinado candidato começa a subir muito nas sondagens, depressa são publicadas N notícias que tentam alterar esse ímpeto – assim, surgem notícias a dizer, por exemplo, que ele violou crianças em tempos de escola, que deitava fogo a animais na adolescência, e todo um conjunto de falsidades – enquanto que, ao mesmo tempo, o candidato que se pretende fazer subir nas sondagens é trazido à ribalta como dando de comer a quem tem fome e outras coisas que tais.

 

Na notícia acima, por exemplo, o mau trabalho jornalístico foi feito de forma muitíssimo propositada e publicado numa altura em que as pessoas poderiam vir a pensar o contrário. E nunca seria declarado como fake news, ou notícias falsas, porque cumpre plenamente o objectivo de quem decidiu publicar aquelas linhas, que foi o de isentar “Isabel Jonet e respectivos companheiros” de todo e qualquer roubo. De facto, nem lhes importa se esses factos são verdadeiros ou não, mas sim que tenham encontrado uma forma – dissimulada – para promover uma dada ideia. E isso até já vem de tempos da Antiguidade – apesar de não se ter qualquer certeza sobre os fogos de Roma, os Cristãos diziam que foi Nero, e os anti-cristãos diziam que foram eles. Como os primeiros acabaram por ganhar o confronto, a história acabou por declarar que o culpado foi Nero – não porque o tenha sido, mas porque é uma informação conveniente.

 

Nesse seguimento, a existência de fake news é um puro mito, porque nos vende a ideia de que algumas notícias são falsas e outras verdadeiras com base no factor discriminatório das intenções do editor. Pouco importa a verdade – ou falsidade – das informações que contém, desde que leve o leitor a pensar o que se pretende que ele pense. E isso é muitíssimo perigoso, porque está a criar um mundo em que pensamos e agimos quase exclusivamente como os outros querem que o façamos. Se, por exemplo, há 10 anos atrás nos viessem dizer que para irmos almoçar fora a um domingo tínhamos de levar um dado documento, certamente que nos iríamos rir e fazer alguma piada relativa ao Estado Novo. Parecer-nos-ia tão absurdo que o consideraríamos impensável. Mas, agora, tendo repetidamente vendido ao público uma narrativa em que essa privação de direitos é para seu bem, já toda a gente o aceita sem pensar – e, na verdade, até critica quem não o faz, tornando-se uma espécie de agente da PIDE dos nossos dias.

 

Pense-se, então e no contexto do Covid-19, no seguinte. Surge uma primeira notícia, que diz que a vacina não tem qualquer efeito secundário; surge uma segunda, que diz que ela tem efeitos secundários. Para bem do processo de vacinação, depressa surgiria uma notícia que afirma que a segunda destas é falsa, completamente falsa, porque caso contrário as pessoas poderiam ser levadas a não se vacinarem. Afirme-se, novamente, que a presença ou ausência de efeitos secundários é irrelevante – importa é vender-se, seja como for, uma ideia estipulada pelo editor, mesmo que ela não seja verdade. E, nesse seguimento, uma qualquer notícia só se torna fake news se for contrária ao objectivo a que esse tal editor se propõe. Ou seja, trocando por miúdos, as notícias falsas só existem quando não servem o nosso objectivo; não são notícias falsas, mas sim – talvez até seja mais correcto chamar-lhes mesmo isso – notícias inconvenientes.

 

Se já cá falámos da censura no Sapo Blogs, e de como ela se baseia em critérios editoriais vagos e que só são aplicados a alguns, tudo isso funciona no mesmo sentido – os editores pretendem vender algumas ideias e, nesse seguimento, promovem ou ocultam publicações mediante elas se conduzam – ou não – para o sentido desejado. Se também o pudessem fazer, declarariam as primeiras como completamente verdadeiras, e as segundas da maior falsidade do universo. Isto, não porque sejam verdade ou mentira, mas porque lhes serve um dado propósito. E é nisso que consiste todo este grande mito das notícias falsas – por muito que lhes seja dado esse nome depreciativo, elas só são apelidadas de “falsas” se não cumprirem os nossos objectivos individuais… quando, em alternativa, se deveria era perguntar quem as escreveu e, mais importante que tudo o resto, com que objectivo!

Em busca do verdadeiro Dr. Bayard

Hoje, partimos em busca do verdadeiro Dr. Bayard. Há uns dias um dos nossos colegas estava com muita tosse. “Toma aí um rebuçado”, foi-lhe dito, e então, ao olhar para o pequeno invólucro, surgiram-lhe duas grandes questões – quem foi esse criador dos rebuçados para a tosse?  E, talvez tão importante, será ele a principal figura masculina representada nos invólucros e caixas da marca? Em buscas de respostas contactámos a marca, que gentilmente nos cedeu alguma informação útil.

Um pacote de rebuçados Dr. Bayard

Começando pelo segundo ponto, o mais simples dos dois, foi-nos dito que “A figura original, tal como a assinatura original, estavam já presentes na lata metálica que o Dr. Bayard ofereceu a Álvaro Matias. Não temos maneira de confirmar se seria uma representação do criador ou [um desenho] meramente ilustrativo. Quanto às outras três figuras, foram criadas mais tarde aquando do processo de industrialização dos rebuçados, de maneira a representar um produto para toda a família.”

Ou seja, em suma, a principal figura masculina representada nos invólucros e caixas da marca, de um homem de meia idade a tossir, dificilmente terá sido a do próprio médico, na medida em que seria invulgar, ou deveras estranho, que o criador da fórmula possuísse uma lata com o desenho da sua própria cara. Faz muito mais sentido que se trate de uma figura estilizada, a representar um homem a tossir, para simbolizar o que os rebuçados pretendiam combater.

 

Mas, afinal, quem foi esta figura tão misteriosa? A marca disse-nos que “Infelizmente, perdemos o paradeiro ao Dr. Bayard logo não temos mais informação sobre o primeiro nome ou algo mais.” Explique-se. Segundo a história presente no respectivo site, Álvaro Matias conheceu este homem estrangeiro durante a Segunda Guerra Mundial e tornaram-se amigos. Quando a guerra terminou, e certamente como forma de agradecer essa amizade e apoio em tempos difíceis, foram deixadas por ele em Portugal “a receita destes rebuçados, [dentro de] umas latas pequenas e redondas, com o desenho de uma cara a tossir”. Em seguida o médico foi-se embora, presume-se que para a sua terra-natal, e desaparece de toda a história. Mas quem seria ele, ou o que lhe aconteceu depois?

 

Será toda a história uma mera lenda? Dificilmente, porque a receita dos rebuçados existe e alguém terá de a ter criado, algo que as personagens puramente lendárias não têm capacidade para fazer. Mas então, quem foi o criador de toda a fórmula? Dele, segundo a informação do site, sabemos essencialmente que falava francês, que tinha mulher e filha, e que, supõe-se, tenha sido médico; mas não temos conhecimento é de algo muito importante, se o nome pelo qual ficou conhecido era mesmo o seu, um apelido, ou apenas uma espécie de alcunha adoptada pelo próprio para efeitos de marketing.

Descartámos logo a terceira hipótese, porque em nada ajudava na nossa busca. Depois, encontrámos diversos “Dr. Bayard”, em prénom e em apelido. Talvez um dos mais promissores tenha sido Henri-Louis Bayard, de Medicina Geral, mas esse faleceu em 1852. Vários outros nasceram, ou morreram, cedo ou tarde demais para serem a figura que procuramos. Já um tal Otto Bayard viveu entre 1881 e 1957, nasceu e faleceu na Suíça, e teve pelo menos três filhas (doutoradas em Medicina, acrescente-se); sobre este, sabemos que até viajou por países europeus, mas não encontrámos qualquer registo de uma passagem por Portugal, sendo certamente possível que tenha passado por cá. Poderíamos procurar outras hipóteses – nomeadamente, contactar todos os Bayards de França, com a esperança de que algum deles tivesse um bisavô que viveu em Portugal – mas isso já ultrapassa as nossas especialidades. Deixamos essa hipótese para quem perceber mais destes temas modernos e a quiser explorar…

O fundador da Dr. Bayard

Mesmo que não tenhamos conseguido encontrar a verdadeira identidade deste importante criador estrangeiro, a história ainda não está completa. Se a fórmula original não parece ser portuguesa, o fundador da empresa, tal como a conhecemos hoje, foi Álvaro Matias, que pode ser visto com os netos na fotografia acima  (que nos foi gentilmente cedida pela empresa). A adaptação dessa fórmula, bem como a sua comercialização, é puramente nacional – e, essa sim, sabemos bem a quem se deveu, sem qualquer dúvida!

 

Volte-se então às questões originais, para uma breve conclusão – não conseguimos descobrir, sem margem para dúvidas, quem foi o criador da fórmula dos rebuçados Dr. Bayard, mas das quatro figuras representadas no pacote do produto apenas uma delas é original, e ela dificilmente representará o criador do produto (tal como não representa o responsável português pela sua comercialização). Se foram quase incontáveis as pessoas que nos afirmaram, peremptoriamente, que a figura representada nos invólucros dos rebuçados era a do seu criador, esse é um grande mito dos nossos dias, que pelo menos pudemos desmistificar hoje mesmo…

Qual é a origem do Capuchinho Vermelho?

De entre os contos infantis conhecidos nos nossos dias é provável que poucos sejam tão fascinantes como o do Capuchinho Vermelho (também conhecido como “Chapeuzinho Vermelho” no Brasil). E é motivo de fascínio não pela sua agora-famosa aventura com o lobo, em si mesma, mas por toda uma história que existe por detrás da heroína. Ao longo dos séculos é possível encontrar as mais diversas versões da sua narrativa, cada uma delas mais estranha que a outra – ora uma versão em que a menina se despe para o lobo, numa estranha sessão de striptease; ora outra em que avó e neta são comidas (e não são salvas por ninguém…); uma em que o capucho tem poderes mágicos; uma em que o lobo é queimado vivo; juntamente com versões em que outros animais também entram na história; há alterações de todas as formas e feitios, mantendo-se, quase exclusivamente, o cruzamento desta jovem com um lobo. Mas, afinal, de onde vem toda esta trama? Qual é, na verdade, a origem do Capuchinho Vermelho?

A origem do Capuchinho Vermelho

Responder a essa questão implicou muita investigação e uma viagem até ao século XI da nossa era, em que Egberto de Liège escreveu a sua obra Fecunda Ratis, uma espécie de metafórica barca repleta de conhecimento linguístico. É, na verdade, um manual de exercícios de Latim, com um grau crescente de complexidade; começa por simples frases, depois conjuntos de dois versos, seguidos por pequenas histórias e algumas um pouco mais difíceis de ler. E entre essas últimas surge a seguinte sequência, que aqui traduzimos integralmente para Português:

[Título:] Sobre a menina salva dos filhotes de um lobo

O que vos conto, as pessoas do campo podem contar juntamente comigo, porque não é tão miraculoso que seja difícil de acreditar.
Um certo homem retirou uma menina da fonte sagrada e deu-lhe uma túnica de lã vermelha, nesse dia de Pentecostes em que foi baptizada. A menina, agora [já] com cinco anos de idade, saiu ao amanhecer, a pé e sem sentir o perigo. Um lobo atacou-a, levou-a para o seu antro na floresta, e deu-a aos seus filhotes para que ela fosse comida. Eles aproximaram-se logo dela e, como não a podiam magoar, começaram, livres de qualquer ferocidade, a acariciar-lhe a cabeça. “Não danifiquem esta túnica, ratinhos”, disse a menina, “que o meu padrinho me deu quando me retirou da fonte.”
[Moral?] Deus, criador de tudo, pacifica as almas selvagens.

Será esta a verdadeira origem do Capuchinho Vermelho? O seu autor parece dar a entender que esta era uma história bem conhecida no seu tempo, e há um elemento indisputavelmente religioso na sua trama (e.g. até surge entre outras histórias com conteúdos cristãos), com a túnica que a heroína recebeu a apresentar-se como uma prenda dada aquando do seu baptismo. O texto latino chama-lhe uma tunica, uma peça de roupa que normalmente não teria um capucho, mas se quisermos acreditar que esta história foi evoluindo com o tempo, acabando até por perder parte do seu elemento religioso, é certamente possível que represente uma forma muito embrionária de uma trama que, a longo prazo, até poderá ter tido a sua sequela, ou uma espécie de versão satírica, num relato como o que conhecemos nos nossos dias.

 

Atenção, isto não quer dizer que, sem qualquer dúvida, a história do Capuchinho Vermelho nasceu no século XI da nossa era. Afirmá-lo de uma forma tão simplista seria mentir. Podemos dizer, isso sim, é que existem várias narrativas muito semelhantes por toda a Europa, contadas oralmente e publicadas em livros ao longo dos séculos, e a apresentada aqui parece ser a mais antiga que une uma menina com uma peça de roupa vermelha a um lobo. Mas será isso suficiente para nos fazer aceitar que a breve trama que reproduzimos acima levou, com o passar dos séculos, a um conjunto sucessivo de versões que acabaram imortalizadas num conto de Charles Perrault, muito famoso e constantemente repetido nos nossos dias? Será que há uma relação real entre as duas histórias? Isso já é algo que não conseguimos provar sem margem para dúvidas, pelo que uma possível resposta, de natureza completamente pessoal, terá de ficar para quem ler estas linhas…

A verdadeira história da Pequena Sereia

A verdadeira história da Pequena Sereia é um pouco mais complexa do que algumas de que cá falámos no passado. Se, por exemplo, na história da Cinderela foram removidos alguns elementos mais cruéis, ou na da Bela e o Monstro a moral da história foi significativamente alterada, já neste caso existe um elemento horrendo na trama, bem como três finais distintos. Mas já lá iremos, convém apresentar brevemente esta história – como bem se sabe, a Pequena Sereia é um conto da autoria de Hans Christian Andersen, mas que teve algumas influências de autores anteriores, e que hoje nos é famosa devido a uma versão da Disney.

A Pequena Sereia no mar

Nesse sentido, o conto original tem bastantes semelhanças com essa versão americana. Não há nada muito significativamente diferente até que a Pequena Sereia – que aqui não tem outro nome senão este – pede à sua avó que lhe ensine mais sobre os seres humanos. E é nesse momento que surge um dado estranho – é dito a esta jovem sereia, na altura com 15 anos, que os seres humanos viviam pouco tempo, mas que após a morte eram levados para o Céu e tinham uma vida eterna (por oposição aos seres marinhos de que elas faziam parte, que viviam 300 anos mas depois se tornavam em espuma do mar). Traumatizada, não pode deixar de perguntar à avó se havia alguma alternativa… e sim, havia, ela podia obter uma alma se conseguisse casar com um ser humano que a amasse “mais que ao pai e mãe”! Fazendo então um pacto com uma bruxa do mar, a heroína obtém pernas – em troca, perde a voz e consente morrer se não conseguir obter o amor que procurava – e vai para o mundo dos humanos. Tenta casar com o Príncipe que um dia salvou de um naufrágio, por quem ela estava totalmente apaixonada, mas… ele acaba por casar com outra mulher, com quem vem a confundir a sua salvadora.

 

E é aqui que toda a trama se complica. Na primeira de todas as versões, a Pequena Sereia, não tendo conseguido casar com o Príncipe, pura e simplesmente morre, feita em espuma do mar. Na segunda, ela recusa matar o antigo amado (o que lhe permitira voltar a ser sereia novamente), e depois transforma-se numa nova espécie de ser, semelhante a um Silfo, que supostamente poderia vir a obter a imortalidade se fizesse boas acções durante 300 anos. Já na terceira versão, a mais comum nas edições dos nossos dias, após esta transformação a antiga habitante dos mares ascende aos céus sob a forma de um pseudo-silfo, dá um derradeiro beijo na testa do Príncipe, e surge então uma estranha moral da história, em que as crianças são advertidas de que um dia é adicionado aos 300 anos do (imerecido) “castigo” destas criaturas cada vez que elas se portam mal.

 

O que dizer de todas estas versões? Procuram transformar algo completamente trágico num final que apenas podemos classificar como “menos mau”, mas em qualquer um dos casos não é propriamente o que esperaríamos encontrar num conto para um público infantil. Esta é, sem qualquer dúvida, uma história atípica nesse sentido, já que aborda tacitamente até considerações teológicas (i.e. acreditava-se que apenas os seres humanos tinham alma, e nesse sentido os animais de estimação, ou quaisquer outros seres, nunca poderiam vir a partilhar da alegria eterna dos Céus), naturalmente incomuns em histórias para crianças. A necessidade que a Disney sentiu de a normalizar, de tornar esta apenas mais uma história de amor entre um príncipe (humano) e uma princesa (dos oceanos), é aqui bem compreensível – toda a história, e o seu final, funcionariam bem num filme para os mais velhos, mas destoam no panorama das aventuras infantis.