Porque é que os vampiros não gostam de alho?

Será que nunca pensaram porque é que os vampiros não gostam de alho? Nesse mesmo seguimento, muitas são as características associadas aos vampiros nos nossos dias, mas uma das mais invulgares é certamente o facto de eles temerem o alho. Porquê alhos, e não cebolas, ou pepinos, ou até laranjas? Curiosos?

O vampiro e o alho

Para quem tiver essa curiosidade, a ideia provém de uma crença relativas às propriedades do alho, que desde há muitos séculos é visto como uma protecção contra elementos maléficos; diz a sabedoria popular que o alho, se colocado ao ar livre, absorve as impurezas que se encontram em seu redor e torna-se negro. Por isso, presumindo que os vampiros estão ao corrente da (suposta) protecção concedida por este bolbo, faz todo o sentido que o temam e que este os afaste, apesar de não os magoar de alguma forma mais directa; são uma espécie de talismã protector, não uma arma, como pode ser visto em filmes como Drácula: Morto Mas Contente!

“Tirant lo Blanc” e os exemplos de amor medieval

Tirant lo Blanc

Quando, na trama do Don Quixote, os familiares do herói queimam a sua colecção literária, entre eles encontra-se um Tirant lo Blanc, um romance medieval que pareciam ter em muito boa conta. É, contrariamente a alguns outros mencionados nessa mesma altura, uma obra real e um bom romance de cavalaria, mas a sua referência aqui deve-se, mais que tudo, a um momento que é particularmente digno de menção.

 

Pouco depois de encontrar o amor, Tirant passa por um quarto em que se encontram representadas as mais famosas histórias de amor da sua época – “Flóris e Brancaflor, Tisbe e Píramo, Eneias e Dido, Tristão e Isolda, Rainha Guinevere e Lancelot”. A segunda e a terceira delas provêm da Antiguidade, nomeadamente de Ovídio e Virgílio, enquanto que as restantes três são, essencialmente, histórias puramente medievais, de que a de Lancelot e Guinevere é, muito provavelmente, a mais famosa nos nossos dias.

 

E assim, neste Dia de São Valentim, que também os leitores inscrevam as suas próprias histórias entre as das figuras acima – que homem não gostaria de ser Lancelot? Que mulher não desejaria ser amada como Isolda?

Oração de Santo Erasmo (ou Santo Elmo, ou Santo Arasmo)

A Oração de Santo Erasmo faz parte de um conjunto de rezas populares que foram sendo esquecidas ao longo dos séculos. A mais conhecida entre nós é ainda provavelmente a Oração de Santa Bárbara, que se acredita ter o poder de afastar as trovoadas, mas até já existiram muitas mais, como a que se reproduz a seguir:

A Oração de Santo Erasmo, Arasmo ou Elmo

Senhor Santo Erasmo, Bispo,
Arcebispo, Capelão e Confessor
De meu Senhor Jesus Cristo!
Papa em Roma
Por esses ardores e fervores que tiveste
Em vosso coração quando viste
Estes cruéis inimigos a vossas ilhargas,
Para vossas tripas vos tirarem
Em um caneleiro encanelar
E no mar sagrado vo-las botar;
Assim, Senhor, fazei isto que vos peço!

 

Dada aqui a oração, talvez ainda importe perguntar a identidade do santo a que ela se refere. Pela referência às “tripas” e ao “mar” ele pode ser reconhecido como Erasmo de Fórmias (i.e. uma cidade em Itália), falecido por volta de inícios do século IV, que entre muitas outras torturas parece ter sido esventrado com um guincho de um navio, assim se justificando uma estranha associação desta figura às dores de barriga e aos marinheiros.

Mas as linhas de hoje ainda não ficam por aí. Este santo é conhecido por diversos nomes – não só Santo Erasmo, mas também Santo Arasmo, Santo Elmo, São Telmo, etc. Como é que ele obteve esses seus mais diversos nomes é uma história que terá de ficar para outro dia, mas deve ser frisado que é esta a figura santa associada ao fenómeno do chamado Fogo de Santelmo, que em outros tempos era muito presenciado pelos nossos navegadores, e que eles tendiam a considerar como um sinal da presença do santo. Se ele vinha para os transportar para o outro mundo, ou apenas para acalmar toda a tempestade, é um ponto em que as opiniões tendiam muito a divergir…

Porque tem o bolo-rei uma fava?

Sendo hoje Dia de Reis, lançamos um pequeno desafio – porque tem o bolo-rei uma fava? A sua presença é cada vez mais incomum nos nossos dias (ao que uns poderão chamar “razões de segurança alimentar”, nós chamamos “o assassínio bárbaro de uma tradição”), mas muitos ainda se recordarão do tempo em que este bolo continha tanto um presente, normalmente metálico, como esta famosa fava. Mas, repita-se, de onde vem essa tradição?

Fomos à procura da resposta e encontrámos uma breve referência (moderna e sem fontes reais a apoiá-la) a uma lenda segundo a qual os três reis magos estavam a ter dificuldades em decidir qual deles ofereceria a primeira prenda ao menino Jesus. É uma ideia interessante, mas ignora dois elementos cruciais – no texto bíblico não existe qualquer referência ao número de reis magos (esse número surge somente como extensão do número de presentes e já na Idade Média); também, porque seria escolhida uma fava, ainda para mais quando esta nem é comida?

 

P. Saintyves, numa obra de que cá falaremos futuramente, deixa de forma oblíqua uma potencial resposta. Aparentemente, existia em terras do Egipto um festival que tomava lugar a 6 de Janeiro e em que eram oferecidos bolos e favas à deusa Ísis e ao seu filho Harpócrates. Quando o Cristianismo tentou sobrepor esse festival com um mais indicado para os novos crentes, optou por fundir os antigos bolos e a fava num só. A fava não era comida, seja por razões como as patentes nas crenças pitagóricas, ou por se ter tratado de uma oferenda para os deuses (nesse sentido, até poderia ser vista como um símbolo da vida eterna).

 

Será esta a resposta correcta à questão que lançámos acima? Não sabemos, nem temos forma de o saber, se tomarmos em conta que mais de um milénio separa esse ritual do bolo-rei dos nossos dias, mas esta é uma explicação que faz muito sentido, associando o dia do festival, o bolo e a fava (bem como o facto de esta não ser comida) numa só corrente contínua. E por isso, a resposta irá satisfazer-nos até que uma melhor possa ser encontrada.

O “Popol Vuh” e os mitos da civilização maia

A história do Popol Vuh, por si só, daria tema suficiente para uma dezena de entradas por cá, mas decidimos cingir-nos somente aos elementos mais cruciais. Sabemos então que, na esperança de eliminar as antigas crenças dos Maias, os conquistadores vindos de Espanha decidiram, numa dada altura, queimar todos aqueles livros que foram encontrando na cultura maia, como ilustrado nesta belíssima imagem.

Destruição dos livros dos Maias

Um dos livros destruídos era um Popol Vuh. Contudo, para que a antiga cultura não se perdesse, alguém escreveu um outro livro, hoje conhecido (também) por Popol Vuh, mas com um conteúdo bastante diferente. Como chegou até aos nossos dias terá de ser uma história que fica para outra altura.

 

O que contém, então, o Popol Vuh a que hoje ainda temos acesso? Trata-se de uma espécie de teogonia, desde a criação de tudo aquilo que existe até aos próprios dias dos seus autores e da presença espanhola no seu território. Apresenta algumas sequências verdadeiramente fascinantes, com eventos que pouco ou nada ficam a dever a romances medievais e a poemas como os de Hesíodo; entre eles contam-se até uma possível origem dos jogos da bola, então jogados com um crânio humano, e uma criação sequencial da humanidade que não pode deixar de nos fazer pensar no “Mito das Idades”.

 

O Popol Vuh é, por isso, uma obra crucial para quem estiver interessado nos antigos mitos da América do Sul, mas cujos vários paralelismos com os mitos europeus também nos podem dar muito que pensar…

 

(P.S.- Este pequeno artigo é dedicado a uma jovem de Porto Rico a quem tínhamos prometido que, um dia, também abordaríamos por cá alguns mitos sul-americanos)