A origem da teoria dos Astronautas Antigos

Hoje em dia a teoria dos Astronautas Antigos é relativamente conhecida, em virtude de programas de televisão como Ancient Aliens. Ela foi particularmente popularizada por Erich von Däniken, em obras como Chariots of the Gods? (em Português, “Eram os Deuses Astronautas?”), e na sua forma essencial diz que figuras extraterrestres visitaram o nosso planeta em dada altura do passado e de alguma forma interferiram com a nossa história. Mas de onde vem essa curiosa ideia, qual a sua origem?

Matest M. Agrest e a origem da teoria dos Astronautas Antigos

Segundo foi possível apurar, na sua forma actual esta teoria nasceu nos primeiros anos da década de 1960 na Rússia, por intervenção do matemático Matest Mendelevich Agrest (que pode ser visto, já idoso, na imagem acima). E é uma teoria que nasceu num ponto temporal muito concreto – Yuri Gagarin já tinha ido ao espaço (o que teve lugar em 1961), mas ainda não tínhamos ido à Lua (o que, supostamente, teve lugar em 1969). Por volta dessa altura este senhor publicou pelo menos dois artigos relacionados com o tema, sendo o mais importante um com um título como “Os Cosmonautas Antigos”. Nesse artigo, de uma forma maioritariamente científica ele coloca três questões essenciais:

  • Como explicar a presença de tectites antigas na Terra?
  • Como explicar as enormes plataformas de Baalbek, com mais de 1000 toneladas de peso, que claramente foram movidas para o seu local, mas mesmo com a tecnologia de hoje ainda não o conseguiríamos fazer?
  • Como explicar a presença, em alguns textos antigos, de momentos que recordam verdadeiras explosões nucleares?

 

São estas três questões os grandes fundamentos por detrás da origem da teoria dos Astronautas Antigos, e colocá-las nada tem de errado ou de pouco científico. Porém, depois o mesmo M. Agrest coloca aquilo a que chama “a sua hipótese”, respondendo a essas três questões da seguinte forma:

  • Essas tectites antigas resultam da aterragem de veículos com propulsão, sendo elas muito frequentes nas áreas em que os visitantes paravam mais frequentemente.
  • As plataformas de Baalbek foram criadas com base em tecnologias a que ainda não temos acesso, e foram-no para servirem de plataforma de lançamento e/ou aterragem para os tais visitantes.
  • Focando-se especificamente na lenda bíblica de Sodoma e Gomorra, o autor argumenta igualmente que os visitantes podiam ter tecnologias nucleares como as nossas, ou até mais avançadas.

 

São meras hipóteses, levantadas pelo facto das nossas então-possíveis viagens espaciais sugerirem que outros seres já as tenham efectuado anteriormente com destino ao nosso mundo. Para as testar, e continuando o seu discurso maioritariamente científico, o autor sugere também um conjunto de trabalhos para uma verificação experimental:

  • Procurar radioactividade na zona do Mar Morto (onde se crê que outrora existiram as cidades de Sodoma e Gomorra).
  • Tentar determinar com precisão a idade dos monumentos dessa região, e em particular os de Baalbek.
  • Estudar melhor o problema das tectites.
  • Conduzir um estudo sistemático das inscrições e monumentos que possam mencionar visitas de extra-terrestres.

 

E porque seria tudo isto importante? Porque, segundo este originador da teoria dos Astronautas Antigos, confirmando-se essa hipótese, poderiam ter sido deixados no nosso planeta documentos ou instrumentos desses antigos visitantes, o que seria muito precioso para as nossas civilizações actuais.

Agora, desconhecemos se aquela proposta de trabalhos foi depois completamente seguida pelo autor, ou por mais alguém, mas este conjunto de ideias parece ter sido, efectivamente, a origem da teoria dos Astronautas Antigos. E foi-o sem malícia, sem quaisquer fantasias de visitas constantes de extraterrestres (o que o autor diz não ser possível, já que uma viagem dessa natureza poderia demorar tempo demais…), numa teoria colocada de um ponto de vista puramente científico. Ela podia estar certa ou errada, sendo que o autor apenas a coloca e levanta um conjunto de trabalhos que a poderiam confirmar ou refutar, como é habitual no processo científico.

 

Infelizmente, na sua forma actual esta mesma teoria dos Astronautas Antigos parece assentar numa constante formulação de novas hipóteses, mas muito pouco na sua possível testagem. Se, por exemplo, alguns teóricos da área dizem que o Pé Grande pode ser uma criatura vinda de outro planeta, como é suposto conseguir testar-se isso? Não é de todo algo realizável, como é óbvio, o que levou a que esta teoria, originalmente com uma base científica, tenha de certa forma caído em desgraça, com alguns dos seus vértices a soarem mais a plena ficção científica do que a algo em que um ser humano comum possa acreditar. Mas isso já são outras histórias, aqui e hoje apenas nos interessava falar da origem da teoria…

O Poema de Amor mais antigo do mundo

Hoje decidimos aqui falar de aquele que parece ser o poema de amor mais antigo do mundo. Nunca é fácil descobrir precisamente a idade destas coisas – recorde-se, por exemplo, a nossa busca pela autora mais antiga do mundo, ou pelo primeiro sinal de trânsito – mas por se tratar de uma composição suméria e mencionar o monarca Su-Sim ou Shu-Sin, podemos supor que terá sido escrito há cerca de 3900 ou 4000 anos. Não é, portanto, tão antigo como as histórias de Gilgamesh ou Lugalbanda, mas é muito notável por se tratar de uma das primeiras composições do seu tipo que ainda nos chegaram de uma forma mais ou menos completa.

O Poema de Amor mais antigo do mundo?

Feita esta breve introdução a este suposto poema de amor mais antigo do mundo, apresentamos aqui uma tentativa de sua tradução para o português dos nossos dias, em que o sujeito poético parece ser uma esposa ou amante do rei Su-Sim:

Noivo, querido do meu coração,
Boa é a tua beleza, doce mel,
Leão, querido do meu coração,
Boa é a tua beleza, doce mel.
Tu cativaste-me, deixa-me tremer diante de ti,
Noivo, eu seria levada por ti para o quarto,
Tu cativaste-me, deixa-me tremer diante de ti,
Leão, eu seria levada por ti para o quarto.
Noivo, deixa-me acariciar-te,
O meu carinho precioso é mais saboroso que o mel,
No quarto, cheio de mel,
Desfrutemos da tua bela beleza,
Leão, deixa-me acariciar-te,
O meu carinho precioso é mais saboroso que o mel.
Noivo, tu tens o teu prazer de mim,
Diz à minha mãe, ela te dará iguarias,
Diz ao meu pai, ele te dará presentes.
O teu espírito, eu sei como o alegrar,
Noivo, dorme em nossa casa até ao amanhecer,
O teu coração, eu sei como o alegrar,
Leão, dorme em nossa casa até ao amanhecer.
Tu, porque me amas,
Dá-me a prece de teus carinhos,
Meu senhor deus, meu senhor protetor,
Meu Su-Sim que alegra o coração de Enlil,
O teu lugar é bom como o mel, coloca a tua mão nele,
Traz a tua mão sobre ele como uma roupa,
Cobre a tua mão sobre ele como uma roupa.

 

Não é, na verdade, possível saber se este é verdadeiramente o poema de amor mais antigo do mundo, mas podemos é afirmar, com maiores certezas, que se trata mesmo da mais antiga composição deste tipo que conseguimos encontrar. Ela já usa um conjunto de ideias que até se vão mantendo nos nossos dias – o amante como um pujante leão, o pedido da mulher para ele passar toda a noite com ele, etc. – e quem o escreveu, possivelmente uma pessoa do sexo feminino, até evoca brevemente o deus Enlil, o mais importante do panteão sumério, talvez na sua função como protector do monarca. Em momentos como estes, somos então levados a pensar que o grande espírito da humanidade nem mudou assim tanto ao longo dos séculos…

A origem do nome do Jogo do Galo

Presume-se que todos os leitores e leitoras conheçam o chamado Jogo do Galo, mas o mistério de hoje prende-se com o seu nome em Portugal. Isto porque, se no Brasil o mesmo jogo tem o nome de “Jogo da Velha”, possivelmente em homenagem às idosas inglesas que outrora muito o apreciavam durante as suas conversas nas tardes do famoso chá, de onde vem o estranho nome que o mesmo divertimento, tão simples de jogar, tem no nosso país?

 

O nosso Jogo do Galo parece ser tão antigo como a história da humanidade. Parece ter existido no Antigo Egipto, no tempo dos Romanos, na Idade Média, e aí por diante… mas sem que se saiba bem que regras foi tendo. Ao contrário de, por exemplo, o Xadrez, este parece ter sido sempre um jogo do povo e para o povo, em virtude da sua simplicidade de regras, que na forma mais simples nem sequer requer qualquer espécie de tabuleiro físico ou peças. Mas afinal, onde entra o tal galo, aludido no título da versão portuguesa do jogo?

A origem do nome do Jogo do Galo

Sobre essa possível origem do nome do Jogo do Galo, não é fácil descobrir quando ele primeiro entrou no nosso vocabulário nacional, mas… pelo menos desde inícios do século XX que na cultura inglesa existem máquinas, como as das feiras populares e arcadas, em que um opositor (humano) podia jogar contra um galináceo, num confronto que entre eles ainda hoje tem o nome de Bird Brain. Dado o facto de em outros tempos os casinos terem sido tão populares no nosso país, é provável que tenha sido por aí que este nome entrou na nossa cultura, pelo facto de existirem algumas versões do jogo em que o animal tinha esse papel principal.

 

Mas… porquê um galo, ou uma galinha? Porque não um cão, um gato ou uma vaca? Também essa possível origem anglófona para o nome do nosso jogo contribui para o explicar – como pode ser visto em muitos filmes ingleses, há entre esse povo a provocação de chamar chicken (que é como quem diz entre nós “mariquinhas”) a alguém que se pensa ser muito pouco corajoso… com algumas dessas máquinas de jogo de Bird Brain até a fazerem a piada, “She’s not chicken, are you?” (i.e. “Ela não é mariquinhas, tu és?”), uma ideia igualmente apoiada pelo facto de este animal, seja na forma feminina ou masculina, não ser propriamente imponente ou conhecido pela sua grande sabedoria.

Agora, é provável que estejam a pensar… se as galinhas, ou os galos, nem são visto como assim tão inteligentes, quão difícil seria derrotá-los neste jogo? Na sua versão actual – porque este jogo, com galinha incluída, ainda existe na cultura inglesa, como podem ver no vídeo acima – existe alguma batotice envolvida, com um computador a apontar a um animal treinado que quadrado ele deve “escolher”, mas na forma tradicional existiam pelo menos dois factores que ajudavam imenso à vitória deste opositor. Não só ele jogava sempre primeiro, mas num caso de empate físico – uma circunstância muito frequente no Jogo do Galo, ou da Velha, como sabem – a vitória era concedida à ave, constituindo uma derrota e ausência de qualquer prémio para o jogador humano… ou seja, mesmo sem a ajuda de qualquer batotice, o animal tinha sempre maiores chances de vitória!

 

Mas deixando essas outras histórias de lado, será mesmo esta a verdadeira origem do nome do Jogo do Galo? Não o conseguimos afirmar com cem porcento de certezas, mas pelos factores já apresentados acima é muito provável que o nosso nome para este jogo famoso internacionalmente tenha, de facto, derivado das versões inglesas em que ele era jogado contra um galo ou galinha, e dos quais encontrámos provas fotográficas de existência pelo menos desde inícios do século XX. Se os galos e galinhas já o jogavam numa forma mais simplificada e nessa mesma cultura anglófona, ou até mesmo na nossa, antes do ano de 1901, é algo que não conseguimos descobrir em tempo útil…

Qual o verdadeiro símbolo da Medicina?

À partida, falar sobre um verdadeiro símbolo da Medicina não deveria ter muito para dizer. Basta, por exemplo, abrir o site na internet da Ordem dos Médicos e aí pode ser encontrado, de uma forma mais ou menos estilizada, um bastão com uma cobra em seu redor. Mas depois, ao abrirmos um recurso como o site da Ordem dos Farmacêuticos, também aí pode ser encontrada uma representação semelhante, uma árvore com uma cobra em volta. E, em outros lugares, pode ser encontrado algo de muito parecido, mas com a presença de duas cobras… portanto, qual é o correcto? Aquele que pensamos ser ou, como no caso do Juramento de Hipócrates, andamos é todos a ser enganados?

O verdadeiro símbolo da Medicina

Na imagem acima, muito relevante para este tema do verdadeiro símbolo da Medicina, podem ser encontradas essas duas representações essenciais – uma espécie de bastão com asas no topo e duas serpentes em seu redor; e um simples bordão com uma só serpente aí enrolada. Variam não só na presença de asas, mas também no próprio número de répteis, como é óbvio… e são precisamente esses elementos que nos permitem descobrir o significado de cada um deles. Para o primeiro, as tais asas são um atributo do deus Hermes (o Mercúrio dos Romanos), que também as tem nas suas sapatilhas, enquanto que as duas serpentes são, em muitos mitos da Antiguidade, um símbolo da vida e da morte, como nos casos do mito de Tirésias, ou de um Glauco que foi trazido de volta à vida pelo poder de uma erva que apenas dois destes animais conheciam.

Para o segundo, a rudeza do bordão permite compreender que ele era utilizado para andar – não para esvoaçar, ou coisas semelhantes, como o anterior – enquanto que a serpente é aqui um símbolo para os venenos e suas curas, como no caso dos mitos de Orfeu e Eurídice ou Filoctetes. É, por isso, um símbolo do deus Asclépio (o Esculápio dos Romanos).

 

Os símbolos são parecidos, tanto ao nível das representações como da sua simbologia, mas se recordarmos que Hermes era o deus encarregado de levar os mortos para a sua morada eterna, o seu bastão com asas poderia sugerir, de uma forma tão errónea quanto assustadora, que os médicos têm completo poder sobre a vida e a morte. Por contraste, se o verdadeiro símbolo da Medicina for o segundo, o normalmente associado com Asclépio, sugere-se apenas a ideia do uso de drogas curativas, com poder limitado, até porque esta mesma figura, quando ainda era um mero ser humano, foi morta por Zeus por ter tentado trazer de volta à vida um falecido – Capaneu, Órion, as opiniões divergem.

 

Portanto, se os dois símbolos acima são mesmo muito parecidos, o verdadeiro símbolo da Medicina só pode ser o segundo, não só por ter estado associado desde o início a um deus desta área de conhecimento – Asclépio / Esculápio – mas por toda a simbologia mitológica de uma serpente VS duas serpentes. Desacompanhado, este réptil é um símbolo da preservação da vida pelas drogas (legais, acrescente-se hoje), enquanto que acompanhado e neste contexto ele é… estranhamente, um puro símbolo da divindade Hermes / Mercúrio, mais conhecido hoje na sua faceta de deus do Comércio, já que a sua tarefa de psicopompo – transportador das almas dos falecidos, se preferirem – já foi esquecida há muitos séculos atrás.

 

Mas, de uma vez por todas, simplifique-se tudo isto muito mais – se nada perceberem, nem quiserem vir a perceber, de Mitologia Grega ou Romana, como podem saber qual é o verdadeiro símbolo da Medicina? Basta que pensem na presença – ou ausência – das pequenas “asinhas” nessa representação. Se o símbolo as tiver, ele não é o da Medicina, mas sim o de um antigo deus hoje ligado quase exclusivamente ao Comércio, e que em representações na cultura popular dos nossos dias até tem sempre consigo umas sandálias ou sapatos alados!

Como os Cristãos gozavam os Pagãos? Um exemplo de Zacarias de Mitilene…

Nos primeiros séculos da nossa era existiu uma verdadeira guerra entre Cristãos e Pagãos. Dos ataques dos segundos já sabemos muito pouco, fruto da evidente tentativa de destruição de documentos dos seus adversários, mas existem muitas obras que, como a de Orósio, nos mostram o lado contrário da situação, o que os primeiros tinham para dizer de aqueles a quem se opunham.

Os Cristãos contra os Pagãos

Nesse sentido, poderíamos apresentar os nomes de mais umas quantas obras, até do tão importante Santo Agostinho, mas o tema de hoje parte da chamada Vida de Severo, de Zacarias Retórico (também conhecido por Zacarias de Mitilene). Esta é uma obra em que o confronto directo entre as duas religiões, nos séculos V e VI da nossa era, ainda tem um papel (quase) principal. Conta-nos, naturalmente, parte da vida de Severo de Antioquia, mas refere repetidamente alguns momentos de confronto entre Cristãos e Pagãos. Para nós, um dos mais interessantes é aquele em que os adeptos da nova religião gozam com os seus antecessores, contando-nos o autor que sobre os antigos deuses eram ditas coisas como estas:

Olhem para Dioniso, o deus que é mulher [por não ter barba]! Olhem para Cronos, que odeia as crianças [porque as comia]! Olhem para Zeus, o adúltero e amante de jovens rapazes [i.e. o mito de Ganimedes]. Ali está Atena, a virgem e amante da guerra, e ali está Ártemis, caçadora e deusa que odeia os estrangeiros. Ares, aquele daemon, faz a guerra, e aquele ali é Apolo, que destruiu muitos [pelos seus oráculos]. Ali está Afrodite, a primeira dama da prostituição! E existe um padroeiro dos roubos entre eles [i.e. Hermes], e Dioniso é o deus dos intoxicados. E, vejam só, entre eles até está o insolente dragão, e cães e macacos, e até ninhadas de gatos – pois até eles [, os animais,] são deuses do Egipto!

 

É, naturalmente, muito simplista esta visão da religião da Grécia e Roma Antiga. Tem o objectivo claro de ridicularizar até os grandes mistérios das antigas religiões, nas suas múltiplas faces, mas preserva-nos, queiramos ou não, um momento curioso da história europeia, o da grande decadência final do Paganismo, em que os opositores são agora construídos como completos tolinhos que continuam a acreditar nas “fábulas das velhotas”. Por um lado é triste, mas por outro podemos, através de linhas como aquelas que ali reproduzimos, saber como poderá ter sido viver numa religião que não é a nossa em outros tempos…