Um curioso olhar para logos de empresas

Quando, há já umas semanas atrás, andava pela internet, encontrei este curioso artigo que confronta o logo de sete empresas com a origem mitológica das criaturas e símbolos usados, numa associação que nem sempre tem muito sentido. Ainda assim, este problema é cada vez mais comum… como primeiro exemplo, posso dizer que algures por Lisboa há um empresa de trabalho temporário cujo logo apresenta uma coruja de Atena – a mesma da moeda de 1€ grega – numa relação que nem se compreende muito bem.

 

Depois, podem até ser encontrados exemplos como este:

[Imagem entretanto desaparecida]

 

Aqui, existem múltiplas interpretações para a situação, mas é-me difícil imaginar alguma que não seja profundamente negativa, razão pela qual, ao escolher-se um logo para uma empresa se deverá ter especial cuidado com toda a sua simbologia. Senão, incorrem-se em situações como a da sirena do “Starbucks” – que, como uma vez disse a uma amiga, é “provável” que tenha sido escolhida devido ao poder hipnótico e mortal dos produtos lá vendidos.

Como são vistas divindades desconhecidas?

Quando, há uns tempos, estava a reler Os Lusíadas, encontrei as seguintes linhas no canto VII, que nos dão interessantes pistas sobre como são vistas divindades desconhecidas:

 

Um na cabeça cornos esculpidos,
Qual Júpiter Amon em Líbia estava;
Outro num corpo rostos tinha unidos,
Bem como o antigo Jano se pintava;
Outro, com muitos braços divididos,
A Briareu parece que imitava;
Outro fronte canina tem de fora,
Qual Anúbis Menfítico se adora.

 

Linguagem poética deixada de parte, achei esta uma interessante forma de se tentar identificar divindades desconhecidas através de características que neles se reconhecem, de forma semelhante ao que ocorria na interpretatio graeca. Claro que alguém familiarizado com essa outra religião não teria qualquer problema em identificar estes novos deuses (que ainda hoje sobrevivem no panteão hinduísta), mas note-se que cada uma das quatro divindades mencionadas é reduzida à sua característica essencial. Seria esta simplificação de características a razão pela qual criaturas como os Monópodes e Blémias apareceram, muitos séculos antes, na imaginação popular? É possível…

Jesus, o deus com cabeça de burro

A ideia até poderá parecer estranha, mas existiu uma altura em que se pensava que Jesus era um deus com cabeça de burro, como pode ser visto neste grafito de outros tempos, conhecido normalmente como Grafite de Alexamenos:

Jesus, o deus com cabeça de burro

Além de um pequeno texto que diz algo como “Alexamenos venera o seu deus”, o grafito mostra uma pessoa (presumivelmente o mesmo Alexamenos nomeado no texto) a venerar um deus com cabeça de animal, possivelmente de um burro. Será a cena aqui mostrada a da crucificação de Jesus Cristo, com algumas liberdades artísticas e religiosas? Não podemos ter uma total certeza para nenhum dos lados, mas sempre me pareceu curioso o facto de uma das figuras ter cabeça de burro, uma singular characterística mais frequente no Egipto, em que muitos dos deuses apresentavam cabeça de animal (apesar de este deus, em específico, estar ausente do panteão egípcio, numa altura em que a sua presença poderia aqui levar a outras questões).

 

Se este facto, dos Cristãos venerarem um deus com cabeça de burro, é referido por muitos autores, nenhum deles parece esclarecer totalmente a questão, ou sequer referir a existência de um qualquer mito por detrás dessa aparência. Porém, Tertuliano parece levar-nos a algumas curiosidades, já que refere estes elementos por duas vezes no livro III de Às Nações:

 

– No capítulo XI refere que foi Tácito (veja-se Histórias, V.3-4) que inventou tal tolice, e reconta partes das palavras desse autor. Depois, diz que os seus pagãos é que veneram burros, não só em cabeça (ou seja, antropomórficos) mas com um corpo completo de burro, ou seja, que veneram toda a espécie de gado, juntamente com Epona (deusa protectora dos cavalos, burros e mulas) e os estábulos que lhes estão associados.

 

– No capítulo XIV, refere a história de um antigo judeu que apresentava uma caricatura dos cristãos a que dava o nome de Onocoetes. Sobre isto, Tertuliano diz que os seus opositores veneram deuses com cabeça de vaca, cabra, etc., pelo que têm vários Onocoetes entre eles.

 

Então, de onde viria toda esta história? Sendo que Tácito era um dos mais importantes historiadores latinos, é muito provável que pelas suas palavras esta figura inicialmente associada ao Judaísmo tenha então passado a ser associada aos Cristãos, de que ainda se sabia muito pouco nessa altura. Então, mais do que um mito, esta crença era fruto de um equívoco, seja somente da parte de Tácito ou até das representações sociais dos judeus (e, mais tarde, dos próprios cristãos) vigentes na altura. Assim, é muito provável que o Alexamenos do grafito fosse Cristão (mais do que Judeu, já que se apresenta na imagem algo semelhante a uma cruz), e alguém se quisesse referir a ele de uma forma pejorativa, satirizando parte das suas crenças religiosas.

A diferença entre as Sereias e as Sirenas

Para quase todas as pessoas, a diferença entre as Sereias e as Sirenas será quase nula. Se numa qualquer conversa ouvirmos falar de sereias, o nosso imaginário tende sempre a levar-nos para uns seres meio-mulher, meio-peixe, de voz encantadora. Mas… e se esta ideia estivesse incorrecta?

 

Inicialmente existiam duas criaturas muito similares. Ambas apresentavam elementos comuns – tinham uma voz encantadora e eram metade-mulher – mas, depois, havia algo que as distinguia – a parte inferior do seu corpo. Uma delas, aquela que para nós é a mais conhecida, era metade-peixe, mas havia uma outra figura que era metade-pássaro. As primeiras eram chamadas Sirenas, enquanto que as segundas tinham vulgarmente o nome de Sereias.

 

Até aqui tudo bem, mas à medida que se vão consultando bestiários de diferentes épocas nota-se um fenómeno interessante: apesar de começarem como figuras totalmente distintas, depois parece existir uma fusão de ambas e uma confusão dos seus nomes, algo que é seguido pelo desaparecimento de uma delas.

 

Isto poderá parecer estranho, mas pense-se então em mitos nos quais uma dessas figuras está presente. Um dos mais famosos é certamente o episódio da Odisseia em que a personagem principal é presa ao mastro do navio de forma a que consiga ouvir, sem sofrer qualquer dano, o canto destas criaturas. Assim, veja-se um vaso onde é mostrado o episódio em questão:

 

 

É demasiado fácil constatar que as figuras mitológicas aqui presentes são metade-mulher (identificadas pela ausência de barba) e metade-pássaro. Também, uma das personagens humanas está presa ao mastro do navio, algo que nos permite identificar a cena com uma ainda maior precisão. Então, que criaturas serão estas? De acordo com grande parte das traduções portuguesas (a título de exemplo, veja-se a disponível neste link), são sereias, apesar de não terem – como é fácil reparar – uma metade inferior semelhante à dos peixes.

 

Assim se compreende que, como já referi acima, ao longo dos tempos as sirenas se tenham transformado em sereias, enquanto que as sereias originais acabariam por desaparecer quase totalmente do nosso imaginário. Agora, falta explorar o porquê… não é possível concluir algo com uma total certeza, mas parece-me que esta alteração tem a ver com o contexto mitológico de ambas as figuras, provavelmente até ligado com o episódio mencionado acima. Neste contexto faz mais sentido tratarem-se de mulheres-peixe do que de mulheres-pássaro, e talvez seja por razões como essa que o nome transitou de umas para as outras. Veja-se que na arte medieval ambas as figuras se tendem a confundir, e só são distinguidas pelo seu contexto (como pode ser constatado nas múltiplas imagens disponíveis neste link), e esta é uma confusão que chegou aos dias de hoje, em que as sereias são vulgarmente mostradas como tendo uma metade inferior semelhante à dos peixes.

 

 

Voltando-se então à questão inicial, serão as “sereias” realmente seres meio-peixe, meio-mulher? Se originalmente essa era uma ideia incorrecta, foi tornada correcta pelo peso das anos; contudo, se quisermos ser mais precisos e correctos, uma sereia era originalmente um ser meio-pássaro, meio-mulher, com uma origem complicada, enquanto que a sirena junta à sua parte feminina uma metade de peixe.

Argumentos de Celso e Porfírio contra os Cristãos

Creio que nenhuma obra antiga contra o Cristianismo chegou completa aos dias de hoje, pelo que os argumentos de Celso e Porfírio contra os Cristãos nos preservam um conjunto de informações que já não chegaram aos nossos dias. E, mesmo essas, só nos chegaram de uma forma parcial, através de citações ou refutações por parte dos adeptos do Cristianismo.

 

Numa dessas obras, da autoria de Celso e citada profusamente por Orígenes em Contra Celso (trata-se de A Palavra Verdadeira, para quem estiver curioso), surgem as seguintes referências:

 

– Os Cristãos conduziam reuniões secretas (que, de acordo com a lei da altura, eram proíbidas). Presumo que o autor se esteja a referir a algo que, em Português, poderá ser traduzido como as “Ceias do Senhor”, uma refeição ritualística semelhante à Última Ceia de Jesus.

 

– Os Cristãos assentam somente na fé, mais do que na razão.

 

– Jesus não nasceu de uma virgem. Em vez disso, Maria foi abandonada pelo marido, José, na sequência de uma infidelidade com um soldado chamado Pantera/Pandera. Esta foi então viver para o Egipto, onde Jesus eventualmente aprendeu as artes mágicas características dessa civilização. Este conhecimento fez com que, mais tarde, se considerasse um deus.

 

– Pense-se na falta de lógica na fuga de Jesus para o Egipto. Se este fosse realmente um deus, porque temeria a morte, porque necessitaria da intervenção dos anjos?

 

– Comparados com os actos admiráveis de Perseu, Minos, etc, Jesus nada de admirável fez quando lhe pediram para provar, no templo, que era mesmo filho de deus.

 

– Assumindo que Jesus realmente fez os milagres que lhe são atribuídos, como se poderia explicar que muitas outras pessoas com conhecimento das artes egípcias fizessem actos similares, desta vez nos mercados e a troco de algum dinheiro? Então e aqueles que usavam artifícios similares à ressureição? Seriam todos eles também filhos de um dado deus?

 

– Quando Jesus foi crucificado, os seus apóstolos fugiram e negaram que o conheciam. Com isso em mente, porque deveriam os Cristãos então morrer com o seu mestre? Porque acreditariam as pessoas nele agora que estava morto, se não acreditaram quando ele estava vivo?

 

– As crenças dos Cristãos e dos Judeus diferem somente na identidade do seu Salvador – os primeiros diziam que este já tinha vindo, enquanto que os segundos referiam que ele ainda estava para vir. Além disso, tal como os Judeus desprezavam a religião dos seus antecessores (os Egípcios), também os Cristãos desprezavam agora a dos Judeus.

 

– Grande parte das componentes filosóficas (se é realmente correcto dar-lhes esse nome) de Jesus parecem já vir de Sócrates e Platão.

 

 

Já em Contra os Cristãos, de Porfírio (outra obra que não sobrevive, mas que é citada por vários autores da altura), aparecem as seguintes referências:

 

– Jesus é acusado de inconstância, já que muitas vezes dizia algo e fazia algo diferente.

 

– Alguns dos milagres mencionados nos Evangelhos são vistos como sendo para ignorantes, já que um dado lago é até confundido com um mar.

 

 

Vai para além do conteúdo deste blog a crítica destas referências (além disso, qualquer pessoa com o mínimo de conhecimentos de Teologia conseguirá certamente fazê-lo), mas a alusão a estes elementos por cá serve, acima de tudo o resto, para demonstrar um interessante confronto de ideologias:

– De um lado temos os opositores do Cristianismo, que se servem da razão para criticar, com argumentos discutíveis e como já faziam há séculos, uma nova visão do mundo e do próprio divino;

– Do outro temos os Cristãos, que mais do que recorrem à lógica parecem assentar os seus argumentos na fé, no invisível, numa crença – por vezes até absurda – de que aquilo que escrevem é que está correcto, e que a sua interpretação é a verdadeira, a única, a aprovada por uma nova entidade divina que tanto veneram.

 

Pessoalmente, acho este confronto de ideias, de diferentes visões, extraordinário. De um lado temos a razão, do outro a fé, e é com bastante pena que constato que hoje temos pouco acesso a esse debate de ideias. Sim, ainda existem fragmentos de múltiplas obras representativas deste confronto, primeiro com os Pagãos e depois com os Gnósticos, mas seria extremamente interessante ter-se um maior acesso aos argumentos esgrimidos por um dos lados do confronto, juntamente com a resposta que lhe é dada pelo outro lado.

 

Vamos a um exemplo bastante simples. Se, numa qualquer conversa de café, se ouvir dizer “a minha ex-namorada nunca teve relações sexuais, mas engravidou”, o que se pensará? Provavelmente que existiu uma traição da parte dessa ex-namorada. Contudo, se a frase for alterada para “Santa Maria nunca teve relações sexuais, mas engravidou”, parece tornar-se aceitável, lógica, vera. Então, qual é a diferença entre ambas as afirmações? Bem, no segundo caso temos acesso a um dado contexto, no qual um evento impossível se torna até bastante possível. É mesmo aqui que a fé entra em jogo – se os argumentos lógicos, apoiados em provas reais, não nos podem levar a nenhum lado, a crítica é feita com base em algo mais, seja fé, mera opinião pessoal, ou algo mais. Fé e lógica são então incompatíveis, como se pode entender através de alguns dos exemplos de Celso e Porfírio acima referidos. No seu âmago, parece-me que são esses os verdadeiros confrontos entre os Pagãos e os Cristãos, o da lógica contra a fé, a oposição do debate ao cânone…