A verdadeira origem do nome do Chiado

Qual é, na verdade, a origem do nome do Chiado lisboeta? “Ele veio de um poeta” – diriam alguns – “até existe uma estátua à saída da estação do metro!” Mas… e se vos dissermos que podem estar enganados? Numa cidade que até ao Terramoto de 1755 esteve tão pejada de nomes religiosos, porque haveria de existir uma zona com o nome de um poeta que, admita-se em toda a verdade, já quase ninguém leu? É a busca por esse significado que aqui iremos apresentar hoje, mas tenha-se em conta que as linhas que se seguem serão longas…

Qual a origem do nome do Chiado?

Portanto, pense-se no seguinte. Historicamente, a termos de dar o nome de um poeta nacional a uma zona de Lisboa, a escolha mais óbvia seria Luís de Camões (com ou sem pala no olho). E falamos até desse autor dos Lusíadas porque no prólogo do seu Auto do El-Rei Seleuco, de meados do século XVI, surge uma frase curiosa da boca de uma das personagens:

Ainda vossas mercês não ouviram uma trova. Faço-as tão bem como o Chiado.

Depreende-se, portanto, que no tempo de Camões, ou um pouco antes, existisse uma figura conhecida pelas suas trovas com este nome real ou alcunha. Visto que esse nome não abunda em Portugal, depreende-se, quase automaticamente, que também tenha sido ele a dar o nome à zona lisboeta – caso encerrado, nesta busca pela origem do nome do Chiado? Não, nem por isso, porque se se pensar mais no tema nota-se o estranho que toda essa possibilidade é, mesmo que se queira supor, como alguns já fizeram, que o poeta tenha vivido na zona – como explicar que um autor de segunda ou terceira linha tenha dado o seu nome a algo no século XVI, quando o grande autor dos Lusíadas não o fez?!

Assim, face a este problema, já outros dizem que o nome veio de um taberneiro lisboeta da época, um tal “Gaspar Dias”, que supostamente tinha a sua casa comercial na zona. O que, no entanto, levanta outra dúvida – como é que sabemos isso?! Quer dizer, se alguém associa o nome que buscamos seja ao poeta (que, na verdade, nasceu António Ribeiro), seja a este Gaspar Dias, de onde lhe vem mesmo essa informação? É uma questão verdadeiramente importante, mas que as muitas respostas encontradas na internet e em jornais tendem repetidamente a ignorar…

 

Em busca de uma resposta mais fiável traçámos a fonte dessas informações até finais do século XIX, inícios do XX, altura em que Alberto Pimentel decidiu editar algumas das obras do poeta, então já muito esquecidas. No seu livro Obras do Poeta Chiado, em jeito de prefácio este autor defende, recapitulando as diversas opiniões anteriores, que essa personagem veio para Lisboa em meados do século XVI, depois de abandonar uma vida religiosa, e se tornou tão famosa que acabou por dar nome ao local em que viveu.

Porém, anos mais tarde, no livro O Poeta Chiado, o mesmo autor acrescenta que encontrou um novo documento, que os seus antecessores não consultaram (i.e. foi ele o primeiro a trazer à luz essa informação, permitindo defini-lo como a fonte dessa informação), e que atesta que até circa 1567 tinha vivido em Lisboa, mais precisamente na Rua Direita da Porta de Santa Catarina*, um “Gaspar Diaz o chyado d’alcunha vynhateiro” (ou “Gaspar Diaz Chyado”). Como o autor admite igualmente, não se percebe se a alcunha deste homem era Chyado ou Vynhateiro, mas a presença do artigo “o” na primeira referência, bem como a referência habitual à profissão em documentos da época, pode dar a indicar a primeira hipótese. Infelizmente não conseguimos consultar o próprio documento – ele está na Torre do Tombo mas não se encontra digitalizado (não é caso único) – mas fazendo fé apenas na transcrição parcial de Alberto Pimentel, em lado nenhum é dito que este homem tinha uma taberna (ele parecia fazer ou vender vinho, o que não é bem o mesmo).

Ao mesmo tempo, o autor também encontrou num manuscrito de título Diversas historias e ditos facetos a diversos propositos, que nos diz que “deve ser anterior ao ano de 1617”, um conjunto de histórias jocosas referentes a um homem astucioso deste nome. Não as cita directamente, parafraseia algumas delas, não sendo 100% claro pelo seu texto se se referem sempre ao poeta ou também a outra figura; o documento parece estar na Torre do Tombo**, mas entre as várias tramas aí apresentadas conta-se a seguinte, que aqui reproduzimos a puro título de curiosidade:

Passando o Chiado pela porta da Sé viu um grupo de muchachos e, dando-lhes atenção, ouviu-os dizer:
– Eu tomara ser bispo.
– Eu tomara ser papa.
– Eu tomara ser rei.
O “herói”, acercando-se deles, interpelou-os dizendo:
– E sabeis vós o que eu tomara ser?
– …?
– Tomara ser melão, para que me beijardes [no sítio onde se beijam os melões]***.

Essas descobertas levantam três grandes possibilidades… se o nome da zona de Lisboa ainda não parecia existir antes do século XV, quem lhe deu essa designação? O poeta, o vinhateiro, ou uma possível figura popular de identidade incerta? Alberto Pimentel parece resolver o problema identificando o terceiro com o poeta e dizendo que António Ribeiro veio para Lisboa e ficou em casa de Gaspar Diaz, possibilitando uma espécie de transferência de alcunhas… o que é estranho, porque não é por termos um amigo com uma dada alcunha que nos começam a chamar o mesmo! Então, se várias figuras partilhavam esse mesmo nome, de onde vinha ele? Conforme a mesma obra também esclarece, na altura a palavra significava nada mais, nada menos, que “astuto” – algo que tanto o comerciante de vinhos, como o poeta e a figura popular, poderiam ter sido!

 

Portanto, a acreditarmos que viveram mesmo na zona em questão, e que até o possam ter feito na mesma altura, poderá ser isso que contribuiu para a dificuldade em descobrir a identidade da figura por detrás da origem do nome actual. Hoje, quando dizemos “vamos ali a X”, depreende-se que esse X tenha lá algo de notável – mas seria uma loja de Gaspar Diaz, ou o local em que um poeta, potencialmente famoso na cultura popular da época por mais do que os seus versos, tinha vivido? Será que alguns poemas eram declamados sob o efeito do dom de Baco, como algumas historietas parecem indiciar vagamente? Será que as figuras até se conheciam? Ou, talvez até mais importante, qual delas tinha um maior potencial para não ser esquecida ao longo do tempo? De uma forma irónica deve notar-se que ambas foram (quase) esquecidas, daí até a dificuldade em saber-se qual delas a mais – e menos – importante… mas, a tratar-se mesmo do poeta, ele poderá ter sido famoso entre o povo não tanto pelos seus versos, hoje quase olvidados, mas por todo um conjunto de histórias populares brejeiras que lhe foram sendo associadas – conforme apontado por Alberto Pimentel, pelo menos uma delas aparece mais tarde também associada a Bocage, dando-nos a perceber que a sua verdadeira origem já estava esquecida na segunda metade do século XVIII.

 

Quando a estátua foi colocada no local, foi-o por se considerar horizontalmente o poeta, o autor de trovas, como a origem do nome popular do Chiado. Mas foi-o quase sem provas reais, porque se depreendeu que o incomum nome só poderia mesmo vir dele. Mas, acreditando então que existiu no local uma loja de vinhos proeminente (o documento já referido acima dá a entender que o seu proprietário e a respectiva esposa tinham posses significativas), será que ela não poderá ter sido, numa dada altura, tão popular que passou a dar o nome à rua em que estava localizada, e que o facto de António Ribeiro também ter vivido lá é pura coincidência? Poderá pensar-se em toda a questão da seguinte forma – quando alguém nos diz “vou ali ao Ronaldo”, se a casa do futebolista for em frente a um restaurante com mais de 50 anos que até partilha o mesmo nome, como sabemos nós a que local a pessoa se referia? Sabemo-lo porque a conhecemos, conhecemos os seus hábitos e o seu contexto pessoal… mas no caso aqui em questão, e desconhecendo-se hoje o contexto da época, é difícil conseguir tirar essa conclusão.

 

Assim sendo, qual é a verdadeira origem do nome do Chiado? Numa dada altura do século XVI viveu numa determinada rua lisboeta um Gaspar Diaz, comerciante de vinhos, que tinha essa alcunha – isso é certo! Mas crê-se, agora com menos certezas, que António Ribeiro, poeta e potencial herói de histórias brejeiras, também aí tenha vivido e partilhado a mesma alcunha. É, na nossa opinião, possível que tenha sido a conjugação de todos estes factores que levou ao nome popular da rua, mas também à enorme dificuldade em traçar a sua verdadeira origem. Por isso, afirmar, sem quaisquer dúvidas, que o nome veio mesmo do trovador – hoje quase esquecido, mas um dia também conhecido por meio de algumas aventuras ordinárias – não é completamente certo… e essa é a melhor resposta que temos para dar, pelo menos neste momento!

 

 

*- Pelo contexto depreende-se que tenha sido uma perpendicular à Rua da Misericórdia. A porta em questão, que dava nome à antiga rua, foi demolida no início do século XVIII, mas um pedaço da muralha ainda pode ser visto no interior do número 12 da Rua da Misericórdia.

**- Um enorme agradecimento aos funcionários da Torre do Tombo, que nos permitiram localizar este documento – aparentemente ele é o número 1817 dos manuscritos da livraria, mas ainda não está disponível online. A informação interna apenas informa que a obra em questão inclui “poesias, anedotas e notícias várias”.

***- Essa censura partiu do próprio Alberto Pimentel, que admitiu que algumas das histórias presentes no documento eram de natureza “pornográfica”.

A história da Lampreia de Ovos

Esta espécie de história da Lampreia de Ovos merece ser contada pelo facto de estar já quase totalmente perdida. Sim, claro que é comum ver-se este bolo nos supermercados e pastelarias do nosso país, mais frequentemente até na altura do Natal, mas de onde surgiu toda esta singular ideia de representar este estranho peixe numa versão dourada e feita com ovos?

A história da Lampreia de Ovos

Numa página “oficial” sobre doces tradicionais portugueses (que sempre seria mais fiável que um artigo da Wikipedia…), em relação à Lampreia de Portalegre – uma possível antecessora desta nova e mais famosa versão? – é dito que se “desconhece o que terá levado as freiras [de Santa Clara e/ou São Bernardo] a confeccionarem este bolo com uma forma tão pouco habitual e imitando um animal não existente na região de Portalegre.” Por isso, de onde vem a ideia? Procurámos, procurámos, procurámos, e… acabámos por formular duas possíveis teorias que poderão ajudar a explicar uma possível história deste doce.

 

Quem for ao norte de Portugal, mais precisamente à fronteira estabelecida pelo rio Minho, perto de Melgaço poderá encontrar uma localidade espanhola chamada Arbo, que na sua bandeira e brasão até tem uma lampreia dourada, uma sintetização dos peixes e do ouro que, anteriormente, existiam muito na região. A mesma cor dourada do peixe, puramente lendária, também podia ser explicada por se acreditar que na região as feiticeiras – ou as Mouras Encantadas – adoptavam essa forma e, movendo-os pela notória procura pelo vil metal, afogavam os pescadores locais, numa lenda que está atestada em inícios do século XX, mas poderá até ser muito anterior.

Não sabemos se a Lampreia de Ovos original era feita de massa-pão (como a de Portalegre), ou já era também toda de gemas, mas faz algum sentido que esta segunda forma do doce descenda da primeira, não só pela simplificação da receita, como pelo facto de não se parecer, de todo e mesmo nos nossos dias, com o próprio peixe, como se o seu criador nunca tivesse visto o respectivo animal. Por isso, mediante a forma original do doce – que parece desconhecer-se hoje – esta ligação a Melgaço e/ou Arbo poderia ser provada ou negada.

 

Outra opção é que, tratando-se este de um doce raro, tivesse sido feito originalmente com o nome de “lampreia” por esse se tratar de um peixe cujo consumo, na altura e segundo conseguimos apurar, era associado às classes mais altas – novamente, isso ajudaria a explicar a diferença significativa entre o verdadeiro peixe e a forma representada no doce, já que o simbolismo teria mais significado do que a própria representação correcta do animal.

Uma Lampreia de Ovos do século XIX

Esta potencial história da Lampreia de Ovos é, assim, bastante circunstancial, mas há que frisar que a informação que se tem sobre o nascimento e evolução deste doce conventual é muito limitada. Se o animal é característico e famoso no norte do nosso país, não sabemos se ele originalmente já era feito de ovos (o que o poderia ligar a uma origem em Melgaço e Arbo, já sob a forma dourada), ou tinha mesmo a forma do peixe (o que poderia indicar que quem o fez até conhecia o animal, ou pretendia apenas dar esse nome ao seu doce). Assim, talvez esta acabe por ser uma daquelas histórias que se perdeu ao longo do tempo, como a da igualmente natalícia razão por detrás da fava do bolo-rei

O mistério do Cantchal das Letras

Há cerca de 100 anos o etnógrafo Jaime Lopes Dias visitou um local a que chamou o Cantchal das Letras ou a Pedra do Gato. Localizou-o quase em frente da localidade (portuguesa) de Segura, mas do lado espanhol do Rio Erges. Ou seja, tendo por referência estas indicações (que são relativamente vagas), talvez algures no local mostrado nesta fotografia:

O mistério do Cantchal das Letras

Segundo ele, este tal Cantchal das Letras era uma espécie de “grande penedo” em que se encontravam inscritas muitas letras. Algumas eram antigas, outras eram mero fruto de brincadeiras do século XX, mas o mais curioso é que, admitidamente, alguns habitantes locais admitiram que tinham feito novas inscrições no local, mas que ao fazê-lo degradaram as verdadeiras inscrições que já lá existiam antes, que continham caracteres que, aparentemente, ninguém sabia decifrar… o que parece ter levado, em alguma altura, a uma lenda local, segundo a qual quem conseguisse ler essa mensagem poderia encontrar enormes tesouros nas redondezas!

 

Será verdade? Que antigas inscrições eram essas? Será que verdadeiramente escondiam o local de algum tesouro? Gostaríamos bastante de o vir a saber, mas parece que já ninguém sabe onde ficava esse tal Cantchal das Letras. Terá sido destruído? Será que a sua degradação progressiva, ao longo do último século, levou a que o penedo perdesse todo o seu interesse? São perguntas que terão de ficar mesmo sem resposta, porque já não conseguimos encontrar o local em questão, nem Jaime Lopes Dias preservou as antigas letras a que se referia a lenda… por isso, se algum dia alguém vir estas linhas e tiver mais alguma informação para oferecer sobre o tema, por favor deixe-a nos comentários ou envie-a para nós ali por e-mail!

Em busca do verdadeiro Dr. Bayard

Hoje, partimos em busca do verdadeiro Dr. Bayard. Há uns dias um dos nossos colegas estava com muita tosse. “Toma aí um rebuçado”, foi-lhe dito, e então, ao olhar para o pequeno invólucro, surgiram-lhe duas grandes questões – quem foi esse criador dos rebuçados para a tosse?  E, talvez tão importante, será ele a principal figura masculina representada nos invólucros e caixas da marca? Em buscas de respostas contactámos a marca, que gentilmente nos cedeu alguma informação útil.

Um pacote de rebuçados Dr. Bayard

Começando pelo segundo ponto, o mais simples dos dois, foi-nos dito que “A figura original, tal como a assinatura original, estavam já presentes na lata metálica que o Dr. Bayard ofereceu a Álvaro Matias. Não temos maneira de confirmar se seria uma representação do criador ou [um desenho] meramente ilustrativo. Quanto às outras três figuras, foram criadas mais tarde aquando do processo de industrialização dos rebuçados, de maneira a representar um produto para toda a família.”

Ou seja, em suma, a principal figura masculina representada nos invólucros e caixas da marca, de um homem de meia idade a tossir, dificilmente terá sido a do próprio médico, na medida em que seria invulgar, ou deveras estranho, que o criador da fórmula possuísse uma lata com o desenho da sua própria cara. Faz muito mais sentido que se trate de uma figura estilizada, a representar um homem a tossir, para simbolizar o que os rebuçados pretendiam combater.

 

Mas, afinal, quem foi esta figura tão misteriosa? A marca disse-nos que “Infelizmente, perdemos o paradeiro ao Dr. Bayard logo não temos mais informação sobre o primeiro nome ou algo mais.” Explique-se. Segundo a história presente no respectivo site, Álvaro Matias conheceu este homem estrangeiro durante a Segunda Guerra Mundial e tornaram-se amigos. Quando a guerra terminou, e certamente como forma de agradecer essa amizade e apoio em tempos difíceis, foram deixadas por ele em Portugal “a receita destes rebuçados, [dentro de] umas latas pequenas e redondas, com o desenho de uma cara a tossir”. Em seguida o médico foi-se embora, presume-se que para a sua terra-natal, e desaparece de toda a história. Mas quem seria ele, ou o que lhe aconteceu depois?

 

Será toda a história uma mera lenda? Dificilmente, porque a receita dos rebuçados existe e alguém terá de a ter criado, algo que as personagens puramente lendárias não têm capacidade para fazer. Mas então, quem foi o criador de toda a fórmula? Dele, segundo a informação do site, sabemos essencialmente que falava francês, que tinha mulher e filha, e que, supõe-se, tenha sido médico; mas não temos conhecimento é de algo muito importante, se o nome pelo qual ficou conhecido era mesmo o seu, um apelido, ou apenas uma espécie de alcunha adoptada pelo próprio para efeitos de marketing.

Descartámos logo a terceira hipótese, porque em nada ajudava na nossa busca. Depois, encontrámos diversos “Dr. Bayard”, em prénom e em apelido. Talvez um dos mais promissores tenha sido Henri-Louis Bayard, de Medicina Geral, mas esse faleceu em 1852. Vários outros nasceram, ou morreram, cedo ou tarde demais para serem a figura que procuramos. Já um tal Otto Bayard viveu entre 1881 e 1957, nasceu e faleceu na Suíça, e teve pelo menos três filhas (doutoradas em Medicina, acrescente-se); sobre este, sabemos que até viajou por países europeus, mas não encontrámos qualquer registo de uma passagem por Portugal, sendo certamente possível que tenha passado por cá. Poderíamos procurar outras hipóteses – nomeadamente, contactar todos os Bayards de França, com a esperança de que algum deles tivesse um bisavô que viveu em Portugal – mas isso já ultrapassa as nossas especialidades. Deixamos essa hipótese para quem perceber mais destes temas modernos e a quiser explorar…

O fundador da Dr. Bayard

Mesmo que não tenhamos conseguido encontrar a verdadeira identidade deste importante criador estrangeiro, a história ainda não está completa. Se a fórmula original não parece ser portuguesa, o fundador da empresa, tal como a conhecemos hoje, foi Álvaro Matias, que pode ser visto com os netos na fotografia acima  (que nos foi gentilmente cedida pela empresa). A adaptação dessa fórmula, bem como a sua comercialização, é puramente nacional – e, essa sim, sabemos bem a quem se deveu, sem qualquer dúvida!

 

Volte-se então às questões originais, para uma breve conclusão – não conseguimos descobrir, sem margem para dúvidas, quem foi o criador da fórmula dos rebuçados Dr. Bayard, mas das quatro figuras representadas no pacote do produto apenas uma delas é original, e ela dificilmente representará o criador do produto (tal como não representa o responsável português pela sua comercialização). Se foram quase incontáveis as pessoas que nos afirmaram, peremptoriamente, que a figura representada nos invólucros dos rebuçados era a do seu criador, esse é um grande mito dos nossos dias, que pelo menos pudemos desmistificar hoje mesmo…

O que aconteceu às armas de Aquiles?

Um dos momentos mais significativos da Ilíada tem lugar quando Pátroclo é derrotado em combate e os Troianos, na pessoa de Heitor, capturam as armas de Aquiles. Posteriormente, o famoso herói grego receberá um novo equipamento, feito por Hefesto e que lhe é entregue pela sua própria mãe, Tétis. Mas depois, o que aconteceu a essas novas armas de Aquiles? A questão foi-nos colocada, há já alguns dias, no Twitter.

Na sequência do mito, sabemos que quando o famoso herói grego foi derrotado em combate existiu uma disputa significativa pela posse do seu (novo) equipamento guerreiro; que esta teve lugar entre Ulisses e Ájax; e que o primeiro dos dois acabou por vencê-la, levando ao suicídio do segundo; mas… e depois? Será que as armas de Aquiles se afundaram algures, aquando das muitas viagens marítimas do herói da Odisseia?

Neoptólemo e Ulisses

A resposta é negativa. Quando Neoptólemo, o filho de Aquiles, se juntou à Guerra de Tróia, Ulisses achou natural devolver-lhe o equipamento bélico de seu pai. Quando essa guerra terminou, a mesma personagem manteve as armas de Aquiles em sua posse, como era seu direito. Mas anos depois, quando foi a Delfos e acabou morto por Orestes no Templo de Apolo (recorde-se até a expressão “Vingança de Neoptólemo”), as armas de Aquiles, ou que tinham sido originalmente pertença desse herói, tornaram-se propriedade desse recinto consagrado ao deus Apolo, onde puderam continuar a ser vistas durante alguns séculos.

 

Poderá parecer um percurso estranho, mas não é um caso único. Recorde-se, por exemplo, o mito do Colar de Harmonia, cujo infame acessório feminino numa dada altura também esteve em Delfos. E Pausânias, na sua famosa obra Descrição da Grécia, diz-nos que passou por diversos locais em que podiam ser vistos os mais diversos elementos retirados dos mitos dos Gregos.

Mas seria mesmo verdade, será que essas personagens míticas (e/ou as suas histórias) existiram, ou tratava-se de um mero estratagema de marketing, como ainda hoje acontece nos mais diversos santuários religiosos? É uma questão mais complexa, que não tem resposta fácil, mas sabemos é que pessoas como Pausânias acreditavam em pelo menos algumas dessas presenças. É provável que também tenha existido um certo cepticismo por parte de outros visitantes – como continua a acontecer nos nossos dias, quando uma igreja diz ter as relíquias de “São Nunca” – mas, salvo casos muito raros, pouco sabemos em relação ao cepticismo que podia existir quando os visitantes olhavam, por exemplo, para aquelas que se diziam ter sido as armas de Aquiles. E, em casos como estes, a simples crença basta-nos para responder à pergunta inicial.