Quem foi o Abade de Priscos?

Quem for à cidade de Braga, no norte de Portugal, poderá provar um doce típico local chamado Pudim Abade de Priscos. Se ele já não é assim tão fácil de encontrar como em outros tempos – fizemos a experiência há alguns anos, não tendo sido capazes de o provar em nenhum restaurante ou pastelaria da cidade – poderá levantar a questão do porquê do famoso doce ter este estranho nome. Pergunte-se, portanto – quem foi o Abade de Priscos que emprestou o seu nome a esta sobremesa?

Um Pudim Abade de Priscos

Bem, comece-se por dizer que Priscos é uma pequena freguesia a escassos quilómetros da cidade de Braga. Naturalmente que existiram, no passado, diversos abades nessa aldeia, mas apenas um deles ficou muito conhecido pelas suas criações gastronómicas. Nascido Manuel Joaquim Machado Rebelo em 1834, este abade de Priscos tinha por hábito presentear os seus paroquianos com as mais diversas comidas e doces, tendo até cozinhado para reis. Mas, apesar da sua grande fama nas artes da cozinha, ele parece ter pensado que elas eram demasiado secundárias face ao seu papel sacerdotal, e então não deixou a maior parte das suas receitas por escrito. Toda esta história teria terminado aqui, não fosse o facto de ele ter ensinado pelo menos uma delas numa escola local, aquela que acabaria por lhe ficar associada pelo nome até aos dias de hoje.

 

A receita não é secreta, ainda hoje; na verdade, o abade não parece ter pretendido ocultar os seus muitos sabores, apenas não os considerava assim tão importantes que merecessem ser deixados por escrito. E, nesse seguimento, hoje basta fazer uma pequena pesquisa pelo Pudim Abade de Priscos na internet e depressa se encontram as mais diversas formas de o cozinhar. Contudo, é provável que tenha sido a fama do próprio Manuel Joaquim Machado Rebelo que popularizou a sua receita original, confundindo o doce com a sua própria identidade religiosa, e dando a este doce o incomum nome que ainda tem nos nossos dias de hoje.

“Pés de barro”, significado e origem

A expressão pés de barros é hoje usada na nossa cultura quase sempre em referência a alguém ou alguma coisa, e.g. “aquele deputado tem pés de barro”. No entanto, qual é o significado e a origem de toda a expressão?

Essencialmente, esta metáfora vem do Antigo Testamento, de um sonho do rei Nabucodonosor II, a que se segue uma interpretação feita pelo profeta Daniel:

Pés de Barro, o significado e o ídolo

Tu, ó rei, estavas vendo, e eis aqui uma grande estátua; essa estátua, que era grande, e cujo esplendor era excelente, estava em pé diante de ti; e a sua vista era terrível. A cabeça daquela estátua era de ouro fino; o seu peito e os seus braços, de prata; o seu ventre e as suas coxas, de cobre; as pernas, de ferro; os seus pés, em parte de ferro e em parte de barro. Estavas vendo isso, quando uma pedra foi cortada, sem mão, a qual feriu a estátua nos pés de ferro e de barro e os esmiuçou. Então, foi juntamente esmiuçado o ferro, o barro, o cobre, a prata e o ouro, os quais se fizeram como a pragana das eiras no estio, e o vento os levou, e não se achou lugar algum para eles; mas a pedra que feriu a estátua se fez um grande monte e encheu toda a terra.

Daniel 2:31-35

 

Se o verdadeiro significado por detrás de todo este sonho de Nabucodonosor II é complexo, daria pano para muitas mangas e até nos poderia levar àquele famoso mito nacional do Quinto Império, o mais importante, aqui e no tema de hoje, é o facto de a estátua que o monarca viu nos seus sonhos ser feita de vários materiais completamente distintos, com os pés, os pontos de apoio de toda a grande estrutura, a serem feitos do material mais frágil, o barro.

No seguimento de toda essa história bíblica, ter pés de barro significa, essencialmente, possuir uma fraqueza pouco visível num grande conjunto que, a uma primeira vista, poderá até parecer muito impressionante e invencível. Ou seja, voltando-se ao exemplo que já demos acima, dizendo-se algo como “aquele deputado tem pés de barro”, estará a querer dizer-se que essa pessoa até parece muito bom, incorruptível, que todos gostam muito dele, mas que ao mesmo tempo ele anda também – por exemplo – a fazer negócios sujos com um determinado clube de futebol nacional.

É, portanto, simples, este significado e origem!

O que significa Gambito de Dama?

Na verdade, qual o significado de Gambito de Dama ou Gambito da Rainha? Face à popularidade de uma série de televisão recente, surgiu aqui repetidamente esta questão, em particular em referência ao significado de toda a expressão. E podemos esclarecê-la, claro!

 

Se já cá falámos anteriormente de um grande segredo do jogo do Xadrez, nomeadamente em relação à forma como as peças se movem, também existem um conjunto de informações que mesmo aqueles que já saibam os movimentos básicos deste jogo poucas vezes conhecem. Entre eles conta-se o facto de muitas das jogadas e técnicas do Xadrez terem nomes específicos. O mais famoso é provavelmente o Roque, que permite à peça do Rei andar duas casas de uma só vez (em condições muito específicas), mas até existem muitas outras. Nesse sentido, um Gambito é uma jogada em que se sacrifica deliberadamente uma peça para se ganhar uma vantagem face ao adversário. E é no mesmo seguimento que surge então o Gambito de Dama, uma forma muito específica da jogada referida acima.

 

E afinal, em que consiste essa jogada do Gambito de Dama, que é chamada em Inglês Queen’s Gambit, como o título original da nova série? Essencialmente, é uma jogada de abertura em que ambos os adversários movem o Peão em frente às respectivas Rainhas duas casas para a frente, e em seguida o jogador das peças brancas move o Peão em frente ao Bispo esquerdo duas casas também para a frente, permitindo ao adversário tomá-lo na jogada seguinte, se assim o desejar, numa situação semelhante à apresentada nesta imagem:

Gambito de Dama, significado

Ou seja, em suma, se um Gambito é o nome técnico dado ao sacrifício de uma peça para que se possa ganhar uma vantagem específica, o Gambito de Dama implica sacrificar, de uma forma planeada e logo no início do jogo, o Peão em frente a esta para conquistar, muito rapidamente, o controlo do centro do terreno de jogo, algo que os jogadores de Xadrez mais experientes saberão usar em seu favor. E, se depois disto alguém até quiser aprender mais sobre o passado e história deste famoso jogo de tabuleiro, poderá igualmente ler um livro gratuito de que já cá falámos antes.

“Obras de Santa Engrácia”, origem e significado

Falando das famosas Obras de Santa Engrácia, há alguns dias podia ser visto um pequeno anúncio nesta página, criado por uma companhia de seguros, que dizia que “encontrar um seguro para a casa não tem de ser uma…” Infelizmente não fomos pagos para lhes fazer esta publicidade adicional, nem sabemos de que companhia se tratava, mas o seu uso da expressão não poderia senão inspirar-nos a escrever estas linhas. Portanto explique-se, em que consistiram essas famosas obras? Qual a origem e significado dessa conhecida expressão? Tratando-se de uma das mais famosas expressões e lendas portuguesas, achámos que poderíamos contar a sua origem e significado, bem como a sua história essencial:

Obras de Santa Engrácia

Entre as muitas freguesias da cidade de Lisboa contava-se, anteriormente, uma chamada “Santa Engrácia”. Tinha esse nome porque aí estava localizada uma pequena igreja à mártir do mesmo nome, onde supostamente estavam alojadas as suas relíquias. Depois, ao longo dos anos esse espaço religioso foi caindo no esquecimento, até que em 1681 já estava muito degradado. Por isso, no ano seguinte decidiu-se construir uma nova igreja para a santa, e a sua primeira pedra foi lançada logo em 1682. Porém, naquele que será talvez o mais clássico de todos os exemplos do “adiar, adiar, adiar” sempre tão presente no povo português, a sua construção só foi terminada em 1966, ou seja, quase 300 anos depois!

Porque demorou tanto tempo? Como é comum no povo português, existiram desculpas de todo o tamanho e feitio. Desde maldições lendárias* até ao terramoto de 1755, passando por mudanças políticas, foram surgindo sucessivamente um conjunto de razões que pura e simplesmente levaram ao adiamento da sua conclusão. E então, tudo foi sendo adiado, adiado e adiado, uma e outra vez…

 

Hoje, a Igreja de Santa Engrácia já pode ser visitada em Lisboa, mas é mais conhecida sob outro nome, o de Panteão Nacional. Não é, na nossa opinião (fomos visitá-la há já uns anos), um local muito interessante para visita – o Mosteiro de São Vicente de Fora, localizado relativamente perto, é muito melhor, apesar de ser, hoje, muito menos conhecido. Mas estamos a escapar um pouco ao tema – quem nunca tiver visto esta igreja pode agora visitá-la, de uma forma completamente virtual, abaixo (o 4º piso, por exemplo, permite uma bela panorâmica sobre parte da cidade):

Mas volte-se é ao tema principal de hoje. A expressão “Obras de Santa Engrácia” teve a sua origem, naturalmente, no tempo quase infindável que levou à sua conclusão. E o seu significado parte da mesma razão, sendo a expressão normalmente utilizada quando nos queremos referir a algo que ou é muito difícil de terminar, ou demora muito tempo (como no anúncio que referimos acima). Esperemos, no entanto, que já ninguém a utilize com o significado de se demorar os literais 300 anos a concluir algo…

 

 

*- Para quem tiver essa curiosidade, podemos também contar aqui essa pequena lenda, outrora famosa, através da inesperada voz da mãe do mitologista Consiglieri Pedroso:

No século passado [i.e. XVII] existia uma freira – de nome Violante – no convento que ficava junto ao edifício então em construção para a igreja matriz de Santa Engrácia. Namorou-se essa freira de um rapaz – de nome Simão Pires Solis – e conseguiu que ele lhe fosse falar ao convento, deitando para isso todas as noites uma corda de seda pelo muro da cerca, por onde ele às escondidas subia. Vinha o mancebo a cavalo e para não ser pressentido envolvia as patas do animal em algodão em rama. Aconteceu que por essa ocasião houve na igreja do convento um desacato. Foi roubado o sacrário com as sagradas partículas, e ao outro dia um carro ia a passar pelo Campo de Santa Clara, os bois recusaram-se a andar num certo sítio, chegando mesmo a ajoelhar. Descoberta a causa disto viu-se que eram as hóstias, que os ladrões tinham roubado, que estavam ali enterradas. Foram novamente recolhidas à igreja, e houve uma procissão de desagravo, (nome que depois ficou ao convento) e outras cerimónias expiatórias. Os vizinhos, porém, que tinham descoberto os amores do mancebo com a freira, foram denunciá-lo ao Santo Ofício, e uma noite, quando vinha segundo o seu costume a descer pelo muro da cerca, foi preso e conduzido ao cárcere, tendo-se-lhe encontrado as patas do cavalo forradas de algodão. A freira apenas soube da prisão do seu namorado, e aflita com medo de alguma indiscrição que causaria a sua perda, mandou-lhe dois melões, um inteiro e outro «calado» (com uma pequena abertura que se costuma fazer para a prova) dizendo-lhe ao mesmo tempo que “o calado era o melhor”. O mancebo compreendeu a advertência e guardou um silêncio absoluto a todos os interrogatórios. Foi por isso condenado a morrer pelo crime do desacato e profanação da igreja. No momento porém de ir para o suplício, voltando-se para a igreja então em construção, disse: «Morro inocente! E é tão certa a minha inocência como é certo que nunca se hão-de acabar aquelas obras por mais que façam!» Dito isto foi a morrer sem proferir mais uma palavra. Desde então nunca mais foi possível acabar as ditas obras. Sempre um incidente imprevisto as tem vindo suspender. A igreja não se fez, e hoje as obras de Santa Engrácia, ainda por acabar, são um depósito de material de guerra [ou eram, no século XVIII]. Cumpriu-se a maldição do inocente!

Mas… falta ainda aqui uma pequena curiosidade sobre estas “Obras de Santa Engrácia” – uns anos mais tarde foi apanhado um homem por roubo, e se o tempo já parece ter esquecido o seu nome, crê-se que terá sido ele o verdadeiro ladrão das tais hóstias, isentando postumamente este Simão Pires Solis, cristão-novo, das culpas que outrora lhe tinham sido imputadas!

“Fortis fortuna adiuvat” – origem, tradução e significado

Fortis fortuna adiuvat é, sem qualquer mínima dúvida, um provérbio latino muito famoso nos nossos dias de hoje, mas qual a sua origem, tradução e significados reais? É algo em que certamente já muita gente pensou, até porque a frase até aparece em filmes tão conhecidos como os da saga de John Wick, e parece instar-nos a arriscar, a procurar aquilo que queremos mesmo nas nossas vidas, já que isso depende, primeiro e primordialmente, de nós próprios. Assim sendo, falemos um pouco mais sobre ela.

 

A origem da expressão fortis fortuna adiuvat

Afinal, de onde vem essa famosa expressão? Duas das fontes literárias mais antigas que temos para ela parecem ser Cícero e Virgílio, ambos autores do tempo dos Romanos, mas o primeiro deles dá-nos uma pista importante quando, ao citar a expressão, a atribui a Quinto Énio. Por isso, dadas as muitas referências aos Anais deste Énio no poema épico de Virgílio, a Eneida, parece-nos provável que ambos os autores a tenham conhecido através dessa mesma fonte comum, então muito famosa. Mas isso não implica que esse tenha sido o seu autor original, sendo até possível que a expressão já viesse do tempo dos Gregos.

De facto, uma rápida pesquisa online revela que alguns até a atribuem a Alexandro Magno, sem qualquer fonte literária associada, pelo que é muitíssimo provável que se trate mais de uma atribuição tardia, quase em termos de wishful thinking, do que algo com uma base real. Se foi mesmo esta personagem história que o disse, não parecemos ter hoje qualquer prova real disso mesmo.

Fortis fortuna adiuvat e a Fortuna Favorece os Bravos, na sua origem, tradução e significado

Qual a tradução de fortis fortuna adiuvat? Será ela apenas a fortuna favorece os bravos?

Traduzir Latim, como qualquer outra língua, não é tarefa fácil, porque umas mesmas palavras podem significar coisas significativamente diferentes mediante o seu contexto. Portanto, de uma forma muito simples, esta expressão latina pode significar coisas tão variadas e sibilinas como “A fortuna favorece os bravos”, “A sorte sorri aos audazes”, “A sorte protege os audazes” ou mesmo “a sorte favorece os audazes”, entre outras (e.g. em Inglês, “fortune favours the brave”). Nenhuma destas é mais correcta que as outras, são apenas traduções diferentes de um mesmo conteúdo original, que, mediante o contexto em que se insere, até poderá soar melhor de uma ou de outra forma. Por exemplo, já vimos a expressão original, em Latim, utilizada até em anúncios relativos a criptomoedas, o que levanta a questão do seu significado…

 

O que significa, na realidade, fortis fortuna adiuvat?

Erasmo de Roterdão, quando explica esta expressão na sua obra sobre adágios latinos, dá-lhe uma metáfora particularmente importante, dizendo que não devemos viver as nossas vidas como animais que se escondem no interior das suas carapaças. Isto, diz-nos o célebre autor, porque as coisas boas, aquelas que a fortuna, a sorte ou o destino, nos possam vir a trazer dependem frequentemente de nós próprios. Assim sendo, para voltar ao exemplo concreto das criptomoedas, o que os anunciantes pretendem, ao utilizar esta expressão concreta nos seus anúncios, é dizer ao público que se este ainda pouco conhece do tema (como é natural, dado elas serem relativamente recentes), poderá e deverá arriscar na aquisição das mesmas, já que estas lhe podem trazer muitos benefícios… o que até pode, ou não, ser verdade, mas discutir esse tema já escapa ao nosso objectivo de hoje.

 

Agora que explicámos a origem, tradução e significado de toda esta hoje-famosa expressão do tempo dos Romanos, deixamos igualmente um pequeno convite adicional a quem nos ler – se ficaram curiosos em relação à origem e significado de outras expressões latinas que ainda são usadas em Portugal e no Brasil nos nossos dias, podem ver muitas outras na nossa compilação de 150 Frases Famosas em Latim, e explorar também as respectivas origens na nossa secção de expressões!