A lenda de São Martinho (e as castanhas)

A lenda de São Martinho tem muito que se lhe diga. Que se refere ao francês Martinho de Tours, em vez de o Martinho de Dume nacional, é fácil de compreender em virtude da data da sua festa litúrgica – o “Dia de São Martinho”, também conhecido como o Magusto, é aqui celebrado a 11 de Novembro*, enquanto que a nossa figura falecida em Braga é celebrada a 20 de Março. Sabendo-se então a identidade dessa figura cristã, que lenda essencial está associada a ele, e – talvez até mais importante – de onde vem a tradição de se comer castanhas nesse dia?

A lenda de São Martinho, e o mendigo

Existem, naturalmente, muitas lendas associadas a um São Martinho, mas a mais famosa de todas elas diz que ele era um cavaleiro no exército romano no século IV da nossa era. Quando, num dado dia, se encontrava em viagem durante uma chuva torrencial, encontrou em plena rua um mendigo quase completamente nu. Desejando ajudá-lo, pegou na espada que transportava consigo e rasgou o seu manto em dois, dando metade ao pobre homem, para que este se pudesse proteger da chuva, como visto ali na imagem acima. Pouco depois, a intensa pluviosidade desapareceu por completo, dando miraculosamente lugar a um dia de sol radioso, e o homem misterioso revelou ser Jesus Cristo, levando à conversão deste soldado.

 

Como é fácil constatar, esta lenda, apesar de ainda famosa nos nossos dias, nada nos diz sobre as castanhas, mas justifica é aquele período de tempo que é conhecido entre nós como “Verão de São Martinho”, um período de dias solarengos numa época tipicamente chuvosa. Mas então, pergunte-se novamente, de onde veio a ideia de consumir o fruto do castanheiro no Magusto?

Castanhas

A resposta a essa pergunta passa, em parte, por uma coincidência. Tradicionalmente, as castanhas eram colhidas nessa altura do ano, levando, de uma forma natural, a que as pessoas se reunissem no dia de São Martinho e o celebrassem comendo aquilo que essa época do ano tinha para lhes oferecer, sem que existisse, inicialmente, qualquer relação oficial entre uma dada comida e o santo. Porém, segundo alguns idosos que consultámos**, a tradição de dar um golpe profundo nas castanhas, separando-as em duas metades quase iguais, provém da própria lenda deste santo, relembrando a sua história através de uma nova divisão, semelhante em espírito de partilha à que o próprio santo tinha feito. E assim se unem os dois elementos da publicação de hoje, explicando algo que já poucos parecem saber…

 

 

*- E porquê esta data? Nunca repararam que o número em questão se assemelha a um elemento da lenda, parecendo uma espécie de capa cortada em duas metades? Talvez seja mera coincidência, mas não deixa de ser curioso.

**- Já outras pessoas, como o nosso leitor José Querido, apresentam uma explicação mais humana para esse corte – “O golpe dá-se para evitar que as castanhas se estilhassem. Com o calor, a casca encolhe e ‘rebenta’ com estardalhaço. Dando o golpe, encolhe mas não estoira: uma parte afasta-se da outra”.

A expressão “… e o Senhor Ye gosta de dragões”

Na China existe uma expressão que diz algo como “… e o Senhor Ye gosta de dragões”. Ela nasceu da breve lenda de um homem, naturalmente chamado Ye, que dizia adorar dragões (o que faz algum sentido, porque na cultura chinesa o dragão é um sinal de sorte), chegando ao ponto de decorar toda a sua casa, e até tudo o que tinha, com pinturas com a representação destes seres.  O que, por si só, não tem absolutamente nada de mal… porém, um dia um dragão celeste tomou conhecimento de toda esta enorme paixão e decidiu ir visitar este homem, achando que ele já tinha todo o direito de ver um verdadeiro dragão com os seus próprios olhos. Mas depois, quando este Senhor Ye viu uma criatura como esta com os seus próprios olhos, desatou então a fugir a sete pés, com muito medo…!

 

E então, o que significa a expressão “… e o Senhor Ye gosta de dragões”? Refere-se àquelas pessoas que dizem gostar muito de algo mas que o fazem somente para nos encherem os olhos, para se mostrarem aos outros, mas sem que verdadeiramente gostem do que tanto apregoam. É, aparentemente, uma expressão para a qual não temos um equivalente directo em Portugal…

 

 

P.S.- Esta mesma história também é contada no Japão, com detalhes em tudo semelhantes aos descritos acima, mas com o nome da personagem principal alterado para Sekko.

“Vi veri veniversum vivus vici”, origem e significado

Vi veri veniversum vivus vici é uma daquelas frases que apesar de estar em Latim se tornou famosa apenas já nos nossos dias, essencialmente através dos comics V de Vingança e do filme que neles se baseou. Se a expressão utilizada nesses meios não é completamente correcta – na verdade, deveria ser provavelmente Vi veri universum vivus vici – qual é a sua verdadeira origem e o seu significado?

A frase 'Vi veri veniversum vivus vici' em filme

Nos meios ficcionais acima esta ideia aparece associada a um [João] Fausto, mais comummente conhecido como Doutor Fausto, uma figura interessante da cultura europeia de que já cá falámos anteriormente. Agora, não se pode ter toda a certeza se ele algum dia a proferiu, mas – e contrariamente ao que outras fontes pouco credíveis dizem – ela não aparece na peça de teatro de Christopher Marlowe, mas somente já em finais do século XX e sempre em obras totalmente ficcionais. Como tal, é quase certo que nunca foi proferida num contexto puramente latino, mas é somente uma invenção já dos nossos dias, e que pelo seu significado é colocada, falsamente, na boca de um homem, ou personagem, que na verdade nunca o disse.

 

Mas o que quer mesmo dizer vi veri veniversum vivus vici? Algo como “pelo poder da verdade, ao viver eu conquistei o universo”, uma frase que, no contexto em que é proferida, faz sentido que se associe seja a Fausto, seja a uma das personagens principais do V de Vingança. Mas, ainda assim, deixe-se claro que não é uma expressão que venha da Antiguidade ou mesmo da literatura latina da nossa era; em vez disso, e como acontece em outros casos dos nossos dias, é uma expressão em Latim mas significativamente recente, como et in Arcadia ego ou nolite te bastards carborundorum, que também foram popularizadas de uma forma semelhante, seja na arte, em filmes ou em livros…

“Fé do carvoeiro”, origem e significado

A expressão fé do carvoeiro já não é muito utilizada em Portugal nos nossos dias, mas foi-nos recordada há alguns dias, quando, ao falarmos com uma idosa, esta nos disse, relativamente às suas crenças religiosas, que “Deus são três pessoas, iguais mas distintas”. Quando confrontada com a dificuldade de algo ser ao mesmo tempo igual e distinto, ela limitou-se a declarar que não sabia de nada, que não percebia nada disso, mas que foi apenas o que lhe ensinaram nos tempos da catequese. E esta fé simples, de uma espécie de “eu acredito apenas porque me disseram”, constitui precisamente o significado da expressão de hoje,

 

A origem parece ser francesa, foi du charbonnier, que é como quem diz “fé do carvoeiro”, e vem de uma pequena história em que um demónio transformado em homem se cruzou com um carvoeiro, um homem simples que faz e/ou vende carvão. Procurando tentá-lo e conduzi-lo ao pecado, o demónio perguntou em que acreditava o carvoeiro, e este limitou-se a responder-lhe “Acredito na Santa Igreja.” Então, em seguida, perguntou-lhe em que acreditava a Santa Igreja, e desta vez o homem limitou-se a retorquir-lhe que esta acreditava “No mesmo que eu.” Depois, a conversa continuou por algum tempo, sempre com respostas que nada revelavam sobre as crenças deste homem, até que o demónio lá desistiu das suas más intenções.

 

Esta expressão refere-se, assim, à fé religiosa que as pessoas mais simples têm, em que nada questionam, limitando-se a acreditar naquilo que as autoridades religiosas lhes dizem, sem que procurem sequer compreender as suas palavras ou as ideias, muitas vezes até um tanto ou quanto estranhas, que lhes vão sendo passadas por aqueles em que têm confiança. Acreditam em “algo”, sim, mas sem que saibam muito bem no quê ou porquê… como o carvoeiro desta pequena história!

“Alea jacta est”, origem, significado e tradução

A famosa expressão latina alea jacta est tem a sua origem no tempo agora-remoto dos Romanos. Nasceu num evento muito significativo do seu tempo que se acredita ter tomado lugar a 10 de Janeiro do ano 49 a.C., e sobre o qual devemos aqui contar um pouco mais, antes de avançar para a própria expressão, sua origem e significado em Português dos nossos dias.

Alea jacta est, como diz a expressão?

No ano 49 a.C. Júlio César era governador na Gália Cisalpina, e o seu tempo nesse cargo político tinha terminado. Como tal, foi-lhe ordenado pelo Senado que dispersasse o seu exército e regressasse a Roma, sozinho. Porém, em vez de o fazer, em vez de acatar essas ordens muito directas, ele dirigiu-se para as margens do Rio Rubicão, que era o limite até onde deveria poder levar os seus combatentes, e… de uma forma completamente inesperada, cruzou-o, esse derradeiro limite dos seus domínios temporários, entrando por Itália adentro e contrariando as importantes ordens do Senado Romano. Depois, estas suas acções causaram uma guerra civil, mas também geraram duas expressões distintas que ainda são usadas nos nossos dias de hoje.

 

A primeira das duas, que supostamente até foi dita por esta famosa figura histórica no momento em que o evento teve lugar – alea jacta est – não significa mais em tradução portuguesa do que “os dados estão lançados”, numa ideia frequentemente adaptada como “a sorte está lançada”, no sentido de que ele já tinha feito tudo o que podia e, agora, sabia que o controlo de todos os acontecimentos estava então completamente fora das suas mãos. É esse o seu significado. Como alguém que joga craps num casino dos nossos dias, Júlio César lançou os seus metafóricos dados e, agora, encontrava-se somente à espera do resultado que aí vinha, sobre o qual já não tinha quase nenhum poder.

A outra expressão que ele originou não se refere a nenhuma frase latina em específico (ou pelo menos nunca é usada em Latim…), mas a uma ideia muito concreta gerada pela história que contámos acima. Assim, o tremendo acto de “atravessar o Rubicão” é o de, num sentido mais realista para os nossos dias, tomar uma decisão após a qual não há qualquer volta a dar, ou seja, em relação à qual jamais poderemos voltar atrás.

Estão, portanto, estas duas expressões muito intimamente ligadas, não só no seu significado mas também na forma como nasceram de um único evento do tempo dos Romanos, há mais de 2000 anos atrás, mas cujo impacto ainda hoje é sentido nas sociedades ocidentais, até porque foi a “pequena” acção de Júlio César, quando atravessou o Rubicão, que a longo prazo levou à ascensão daquilo que viria a ficar conhecido como o grande Império Romano.

 

Uma última curiosidade, em relação a todo este tema – a expressão Alea jacta est, cuja origem, significado e tradução aqui relatámos, também pode ser escrita com I em vez de J, i.e. iacta est, porque originalmente, e como já cá mostrámos antes, só a primeira das duas letras existia nos primeiros séculos da nossa era, sendo mais tarde desdobrada em dois sons distintos.