Qual a origem do nome de Portugal?

Nunca pensaram em qual a origem do nome de Portugal? Já em tempos de Dom Afonso Henriques que a parte norte do nosso território era conhecido como Portucale, um nome que ao longo dos séculos se irá expandindo para designar todo o território nacional, mas qual essa sua origem?

Mapa de Portugal Antigo

Essencialmente, o nome de Portugal é composto por duas partículas distintas. A primeira delas, Portus, era usada para designar aquilo a que ainda hoje chamamos um porto, ou seja, um local em que os navios atracam, trazendo os produtos comerciais de outros locais. Foi até essa designação que deu lugar ao nome da cidade do Porto, no norte do país.

Mas o que dizer em relação à segunda partícula, Cale? Os mais diversos autores divergem no seu significado real, desde a palavra grega para “bonito” até a um nome que servia para designar a etnia dos seus habitantes – os Galos, Gauleses, Galenses ou Galegos – entre muitas outras possibilidades. Qualquer que seja a resposta para o significado dessa segunda partícula, não deixa é de ser curiosa a ideia de que possa ter levado ao nome da cidade de Gaia, no lado oposto do Rio Douro.

 

Face a estas informações, é muito provável que Portucale tenha sido o nome original de uma cidade no norte do país, um possível “Porto dos Galos”, que era originalmente composta pelos territórios do Porto e de Gaia. A cidade terá sido tão grande, ou tão famosa, que à medida que o seu território se foi expandindo levou o seu nome para novas terras, fazendo desse antigo nome o do próprio território. Depois, o nome original separou-se no de duas cidades distintas, talvez pela dificulade em viajar consistentemente entre as duas margens do Douro, ou por uma qualquer outra razão. Mas o nome do país, esse, manteve-se, evoluindo para o que usamos hoje, com a evolução natural da língua ao longo dos séculos. E assim se explica a origem do nome de Portugal, em parte um facto concreto e em parte envolta em mistério, até aos nossos dias…

‘Verdade de la palisse’ – origem e significado

Se as expressões verdade de la palisse, ou lapalissada, ainda são comuns na nossa língua, qual é a sua verdadeira origem e significado? Bem, a expressão nasceu de um nobre francês falecido no século XVI, de seu nome Jacques de La Palice (ou La Palisse, se preferirem essa ortografia), mas sem que se refira a absolutamente nada que ele tenha realizado na sua vida. E isto pode parecer um tanto ou quanto estranho, pelo que passamos então a explicar.

Um retrato moderno de La Palisse

Quando La Palice faleceu, foi escrito um epitáfio em que constavam as seguintes palavras francesas – s’il n’était pas mort, il ferait encore envie – que querem dizer algo como “se ele não estivesse morto, ainda agora causaria inveja”. Porém, alguém as leu incorrectamente, tendo percebido que em vez do original, o epitáfio dizia antes era o seguinte – s’il n’était pas mort, il serait encore en_vie – ou seja, alterando-se apenas uma letra e adicionando um único espaço, a frase podia ser lida como “se ele não estivesse morto, ainda agora estaria vivo”, o que representa uma ideia mais que óbvia.

Face a esta ideia, parece então ter-se gerado a (quase certamente falsa) sugestão de que La Palice, enquanto figura histórica, era uma pessoa que verdadeiramente tinha vivido a sua vida num conjunto constante de verdades muito óbvias. Depois, essa ideia gerou diversas cantigas populares, a mais famosa das quais atribuída a Bernard de la Monnoye, uma Chanson de la Palisse que parece ter múltiplas versões, e que atribui a esta figura coisas como as seguintes:

  • Não conseguia colocar o chapéu sem cobrir a sua cabeça;
  • Não perdia a calma excepto quando estava irritado;
  • Quando comia em casa dos seus vizinhos estava lá em pessoa;
  • Para melhor provar um vinho pensava que este devia ser bebido;
  • Se tivesse vivido solteiro, não teria qualquer esposa;
  • Não teria iguais a ele se tivesse sido o único;
  • Quando escrevia em verso não escrevia em prosa;
  • Dizia que uma égua era sempre a fêmea de um cavalo;
  • Enquanto bebia não dizia nenhuma palavra;
  • Quando estava aqui não estava ali;
  • Quando tinha os olhos fechados não conseguia ver nada;
  • … entre muitas outras!

 

Naturalmente que não há qualquer verdade histórica comprovável por detrás de todas estas afirmações, são meramente jocosas, mas foi assim que a estranha popularidade da morte de La Palisse, mais do que a sua vida enquanto guerreiro em França, levou à origem da expressão verdade de la palisse, que não significa mais do que uma afirmação completamente indisputável, um truísmo,  do qual jamais alguém sano discordaria.

Qual a origem e significado de “puta”?

O significado de puta é bastante conhecido em Portugal – trata-se de uma mulher promiscua, vulgo uma prostituta, alguém que vende relações sexuais por dinheiro. Porém, por mais estranho que isto nos possa parecer, em outros tempos Puta também parece ter sido uma deusa romana que presidia à poda das árvores. Só é mencionada por Arnóbio, no seu Contra as Nações, sendo provável que essa informação tenha vindo de uma famosa obra de Varrão que já não chegou aos nossos dias. Nada mais nos é dito sobre esta figura mitológica, mas – sem qualquer apoio de informação real – alguns autores parecem considerar que as sacerdotisas desta deusa se prostituíam, o que supostamente teria levado ao seu uso pejorativo ao longo dos séculos. Mas têm esses autores razão? 

Qual a origem e significado de puta?

A resposta é um ressonante “não!”, não só pela falta de informação real que apoie essas ideias, mas também pelo próprio contexto da referência na obra de Arnóbio – surge numa sucinta referência a diversas divindades, como Peta (deusa das preces), Patelana e Patela (deusas das coisas reveladas e ainda por revelar) ou Noduterense (deus associado à separação do grão), entre outros. Nada mais nos é dito sobre cada uma dessas figuras divinas dos Romanos, sendo apenas dadas por mero exemplo – o autor continua o seu argumento apontando a estranheza que é ter divindades associadas a todas as coisas – “Osílago, que dá aos ossos a sua solidez, não teria nome [se não existissem ossos]? (…) Existem deuses encarregados de coisas que ainda não foram criadas?”

Em suma, tratando-se Arnóbio de um autor cristão, se a esta deusa fosse associado um culto com contornos sexuais, certamente que isso também seria mencionado na sua obra, até para poder criticar ainda mais o Paganismo – mas nunca o é!

 

Mas então, qual é mesmo a origem e significado da nossa palavra portuguesa “puta”? Um dicionário consultado diz que esta palavra tem “origem controversa”, mas devemos apontar que em Latim até existiam as palavras putus e puta, que podiam significar “puro/pura/puras” (provavelmente num sentido de castidade) ou “homem jovem”. Faria, nesse último contexto, sentido construir o seu feminino como puta, para significar uma “mulher jovem” (ou rapariga, como dizemos em Portugal). Mas será então possível que a palavra latina, com um sentido original de uma mulher jovem e/ou casta, tenha ao longo dos séculos obtido um sentido satírico, até acabar por derivar na significação pejorativa que tem nos dias de hoje? É possível que sim – se não o sabemos com certeza absoluta, podemos é afirmar, sem quaisquer dúvidas, que o seu significado nos nossos dias não provém de qualquer culto, potencialmente sexual, de uma obscura deusa romana, como muitos dizem erradamente!

A lenda de Kuafu a perseguir o Sol

A lenda de hoje vem de terras da China e parece ser tão popular que existem múltiplos livros infantis chineses em que é recordada. Porém, serão provavelmente poucos aqueles que a conhecem em países lusófonos, razão pela qual achámos que a poderíamos contar nestas linhas.

Kuafu e o Sol

Kuafu era um gigante que numa dada altura da sua vida decidiu seguir o Sol. Segundo alguns fê-lo porque queria desafiá-lo para uma corrida, enquanto que outros dizem que ele queria era capturar esse astro celeste. Mas, independentemente dessa razão, Kuafu perseguiu o Sol durante dias e dias; pelo caminho, sentindo-se a desfalecer, foi bebendo as muitas águas dos muitos rios com que se cruzou, mas nem todos eles conseguiam afastar a sua sede. Então, cada vez mais cansado, acabou mesmo por falecer, enquanto que o Sol, esse, continuou o seu caminho como antes – impávido, sereno e inabalável.

 

Esta lenda parece ter gerado uma expressão proverbial entre os habitantes da China, definindo-se “Kuafu a perseguir o Sol” como alguém que se propõe a uma tarefa inatingível e em que tem demasiada confiança injustificada nas suas próprias capacidades. Claro que o gigante jamais poderia vencer o imenso poder do astro-rei, e talvez seja mesmo essa a lição a retirar desta lenda, a necessidade que todos temos de não nos propormos a tarefas demasiado inatingíveis.

A origem da expressão “Dia de São Nunca”

Que o Dia de São Nunca [à tarde] significa pura e simplesmente “nunca” não tem muito que se lhe diga e é sobejamente conhecido em Portugal. Porém, a origem de toda a expressão – com ou sem o seu “à tarde”, que parece ter sido uma adição posterior e puramente nacional – é bem menos famosa, razão pela qual achámos que podíamos falar desse tema.

Quando teremos políticos honestos? No Dia de São Nunca...

Até há cerca de um século existiam em Portugal – como certamente em outros países – um conjunto de eventos que se regiam pelos dias dos santos. Havia bailaricos, havia um conjunto de tradições específicas para cada santo, sendo então comum que se referissem esses dias pela figura santa que tinham associados. A prática foi-se perdendo ao longo dos anos, mas ainda prevalece em algumas aldeias do norte de Portugal, e mesmo nas grandes cidades é comum associar-se, por exemplo, o Dia de São Martinho a uma celebração com castanhas e água-pé. E nesse contexto dizer-se “Dia de São Martinho” ou 11 de Novembro era precisamente o mesmo, tal como dizer “Dia de Nossa Senhora de Fátima” equivaleria a dizer-se 13 de Maio, e assim por diante.

 

Até aqui tudo bem, mas estas situações poderão gerar um problema para o leitor comum – qual é o Dia de Santo Agostinho? Ou o dia de Santo Atanásio? Ou de São Nemo? Ou mesmo esse tal estranho Dia de São Nunca, qual ou quando é? Pelas mesmas razões, será que alguém sabe qual é o dia associado a Santa Hermínia, a São Tasquízio, ao Venerável Asdrúbal ou a tantas outras figuras religiosas menos conhecidas? Naturalmente que não (!), e terá sido este problema que gerou um conjunto de figuras, falsamente santas, sem uma existência real ou um dia específico associado – veja-se, por exemplo, o São Nunca, São Nemo e o São Pisco, ou mesmo o São Glinglin francês (entre muitos outros que nos escapam neste momento)… alguns até dizem que eles, todos eles, poderão estar escondidos por detrás do “Dia de Todos os Santos”, mas é uma opinião muito pouco comum*.

 

Nesse sentido, quando alguém se refere ao “Dia de São Nunca”, ou a outro similar, está, com base na cultura dos séculos passados, a urgir-nos a consultar um calendário em busca do dia associado a esse santo. E obviamente que não existe, nunca poderemos encontrá-lo, sendo esse próprio nome do falso santo uma alusão natural a essa impossibilidade.

 

 

*- Curiosamente, numa obra literária de inícios do século XX, Folclore da Figueira da Foz, está preservada uma pequena história popular em que é dada a ideia de que este santo está mesmo contemplado entre os que são celebrados no “Dia de Todos os Santos”. Sucintamente, um homem tinha uma dívida e prometeu saldá-la no Dia de São Nunca. Posteriormente, o emprestador foi exigi-lo no dia associado à celebração de todos os santos, justificando-se com as palavras “como é de todos, lá está também o seu S. Nunca”. O devedor, incrédulo com o argumento, pagou logo a dívida!