Origem e significado de “lei de talião”

A lei de talião é a proverbial lex talionis, também conhecida como o princípio da retribuição, “olho por olho, dente por dente”, e outras tantas coisas. Já aparecia no Código de Hamurabi, com pouco mais de 3700 anos, sendo, por isso, uma ideia muitíssimo antiga, que claramente precede as próprias expressões que lhe associamos e até possivelmente os primeiros documentos históricos. Procurar a sua verdadeira origem seria uma tarefa dificílima, cheia de muitas teorias e poucas provas reais, mas existe uma outra parte da questão que merece ser explorada – afinal de contas, o que é um talião?

A balança da Justiça, contrária à lei de talião

Normalmente isto seria uma questão simples, bastaria abrir um qualquer dicionário e ver o significado da palavra. Mas quem o for fazer no dicionário da Priberam, por exemplo, depressa se deparará com o mesmo problema que pretendemos focar hoje:

Usado na locução pena [ou lei] de talião, castigo que consiste em fazer sofrer ao delinquente o que ele fez sofrer à vítima.

Ou seja, segundo esta definição, o uso da palavra “talião” remete-nos, única e exclusivamente, para a sua utilização na mesmíssima expressão que nos intriga, “lei de talião”, mas sem que nunca se explique o significado dessa palavra específica. O mesmo problema repete-se nas outras fontes que fomos consultar, sem que nunca seja explicado, especificamente, o que aquela palavra individual significa.

 

Cansados de correr em círculos, decidimos tentar uma hipótese diferente. A expressão lex talionis é evidentemente latina. “Lex”, lei no nominativo + “talionis”, talião no genitivo, com o significado total de “lei de talião”. A segunda palavra, no seu nominativo, i.e. o talião, seria talio, mas o que significa isso? O dicionário de Latim que consultámos já nos diz que essa palavra hoje significa retaliação, uma palavra que tem as suas raízes evidentes no vocábulo latino.

 

Por isso, a lex talionis (ou lei de talião) é, pura e simplesmente, a lei da retribuição, de que ao acto negativo X se deve seguir um castigo semelhante. O que é interessante, porém, é que essas duas expressões evoluíram de forma independente, de tal modo que ao longo dos séculos a palavra foi perdendo todo e qualquer significado independente, perdurando hoje na nossa cultura somente como uma estranha recordação de tempos idos.

A lenda do Boto Cor-de-rosa, e o “filho de boto”

A lenda deste Boto Cor-de-rosa, e a expressão que dela deriva (i.e. filho de boto), deve começar com uma breve explicação para os Portugueses – um boto não é senão um golfinho, apesar do seu nome menos vulgar. O vocábulo é mais frequente no Brasil, apesar do dicionário português da Priberam nos informar que ambas as palavras significam uma e a mesma coisa.

Agora, passando ao que interessa, em certas zonas do Rio Amazonas vive uma espécie de boto que é cor-de-rosa, distinguindo-se facilmente do “tucuxi” cinzento. Mas ele não parece ser muito frequente, o que poderá ter gerado a seguinte lenda:

Um boto cor-de-rosa

Segundo ela, nas noites de lua cheia – ou nas de Santo António, São João e São Pedro, segundo outra versão – este boto cor-de-rosa tem a capacidade de se transformar num homem belíssimo. É uma metamorfose quase total, com a excepção da narina que ele tem – como os golfinhos que tão bem conhecemos – no topo da sua cabeça. Para suprir essa falha, ele usa sempre um chapéu durante as suas aventuras noturnas.

Com essa sua beleza em forma humana, este boto cor-de-rosa, introduz-se em algumas aldeias e finge ser nada mais que um homem vulgar, apesar de lindíssimo. Depois, seduz alguma jovem e engravida-a na beira de um curso de água, antes de desaparecer de uma forma tão misteriosa como surgiu. E a jovem, essa, confrontada com uma gravidez não planeada e misteriosa, fica sem saber o que fazer…

 

A origem desta lenda do Boto Cor-de-rosa é muito fácil de compreender, mas é também desta mesma história que surge a expressão “filho de boto”, desconhecida em Portugal, que é dada a um filho de pai incógnito, ou até potencialmente de uma violação. Desconhece-se se alguém ainda diz mesmo que foi engravidada por um boto com poderes mágicos (quem estiver no Brasil e souber responder a isto, por favor deixe um comentário abaixo!), ou se alguém ainda acredita nisso, mas esta expressão chegou aos nossos dias no sentido mais geral de apresentar alguém que tem um filho cujo pai é desconhecido.

E, se ficaram curiosos sobre a origem e significado de outras expressões mitológicas que ainda são usadas em Portugal e no Brasil nos nossos dias, podem encontrar mais na nossa secção de expressões.

“Homem dos sete ofícios”, origem e significado

As Sete Artes Liberais

Ainda hoje é costume dizer-se que quem é muito bom em diversas coisas é um homem dos sete ofícios. Naturalmente que a mesma expressão também pode ser aplicada ao sexo feminino, referindo-se então a uma mulher dos sete ofícios, mas se o significado por detrás desta ideia é bem claro, qual é a sua origem?

 

Muito possivelmente, a expressão “homem dos sete ofícios” tem a sua origem nos primeiros séculos da nossa era, quando autores como Varrão e Marciano Capela instituíram a famosa ideia das sete artes liberais – i.e. o trivium (Gramática, Lógica e Retórica), seguido pelo quadrivium (Aritmética, Astronomia, Geometria e Música) – como uma espécie de sintetização de todas as grandes áreas do saber que então existiam. Quem as dominasse a todas poderia considerar-se como alguém verdadeiramente sábio; e é, naturalmente, esse o significado da expressão nos nossos dias, sendo ela normalmente usada para com uma pessoa que percebe de muitas coisas diferentes, por oposição tácita a alguém que se foca somente numa única área do saber.

O que significa “nolite te bastards carborundorum”?

Há já alguns tempos que nos vieram perguntar o significado de nolite te bastards carborundorum, uma frase que aparece na série The Handmaid’s Tale (ou, em Português, A História de Uma Serva), e que, a uma primeira vista, parece estar em Latim, mesmo quando bastardes é lido incorrectamente como bastards. Assim sendo, qual é a tradução desta expressão?

Nolite te bastards carborundorum na série...

Não conhecemos a série, não sabendo portanto em que medida a língua latina compõe, ou não, uma parte significativa da sua trama (se algum leitor souber isso, por favor deixe essa informação ali nos comentários), mas podemos, antes de mais, deixar claro que esta não é uma frase ou uma ideia provinda dos tempos da Antiguidade, da Idade Média, ou até do Renascimento, ao contrário de muitas das que falamos por cá. E isso torna-se particularmente importante porque, apesar de ser uma construção semi-latina, ou seja, uma frase com palavras em Latim e outras completamente inventadas, não tem qualquer significado real na sua tradução.

 

Nolite significa “recusai”. Te significa “a ti”. Mas o que dizer das restantes palavras, que não aparecem em qualquer dicionário de Latim? Bastardes é muito semelhante ao Inglês “bastards”, ou seja, “bastardos”. Mas… e carborundorum, o que significa…?

Felizmente, desta vez temos parte do nosso trabalho facilitado – numa entrevista, a autora Margaret Atwood como que confirmou que a frase não significava nada, era uma espécie de piada, mas que deveria significar algo como “don’t let the bastards grind you down”, que pode ser adaptado nesse contexto original como “não deixem os bastardos afectarem-vos”. E, em casos como estes, a palavra da autora basta-nos, porque ela saberá a sua intenção melhor do que cada um de nós!

A lenda da Cuca, Coca e Coco

A figura conhecida em Portugal e no Brasil como Cuca, Coca ou Coco é tudo menos simples. Na verdade, há meses e meses que pretendemos falar da sua lenda, mas deparámo-nos repetidamente com um problema, que é o facto de existirem diversas criaturas com este nome, que nem sempre são fáceis de sintetizar ou interligar. Por isso, já que agora estamos a falar de alguns temas da Mitologia do Brasil, achámos que esta figura seria perfeita para uma breve referência ao tema. Pergunte-se então – quem é a figura conhecida sob estes vários nomes?

Uma Cuca, Coca ou Coco

Uma primeira versão da lenda da Cuca, ou Coca, faz dela uma mulher misteriosa com que os pais assustavam os filhos, uma espécie de “papão”. E, como este, também não parece ter qualquer lenda associada, sendo uma figura quase fantasmagórica, sobre a qual absolutamente nada se sabe. Porém, podemos deixar uma curiosidade – quando usamos a expressão “estar à coca”, essa é uma referência ao acto principal desta figura, que se escondia e espreitava pelas crianças, aguardando que estas adormecessem.

A segunda Cuca é uma espécie de dragão associada ao norte de Portugal e de Espanha, que segundo a lenda foi derrotada pelo próprio São Jorge ou pelos populares de uma qualquer vila nortenha. Esta versão está hoje imortalizada, por exemplo, na festa portuguesa de Monção que pode ser vista no vídeo acima.

Uma Cuca, Coca ou Coco

A terceira lenda da Coca, ou Cuca, é a de uma figura brasileira que nos chegou especialmente atrás da obra de Monteiro Lobato, uma espécie de feiticeira nocturna que tem cara de jacaré e rapta crianças, bem conhecida dos leitores ou espectadores do Sítio do Picapau Amarelo.

 

Os mais atentos poderão ver na terceira figura uma espécie de fusão das duas anteriores, mas poderá tratar-se de uma mera coincidência. Que a figura brasileira deriva de alguma antiga lenda portuguesa é claro, mas infelizmente já pouco se sabe sobre os limites das outras duas para que se possa concluir algo de muito fiável – seriam elas originalmente uma só? Será que o dragão resulta de uma conflação de vários mitos anteriores, de uma possível tentativa de associar uma nova lenda a uma figura que ainda não tinha nenhuma? Será que eram, originalmente, figuras completamente distintas, que se foram fundindo em virtude da evidente semelhança dos seus nomes?

Não sabemos, sendo até possível que tenham existido outras figuras que partilhem este nome (ou algum outro semelhante a ele), e que entretanto foram sendo sendo esquecidas pelas pessoas – de facto, aquando da escrita destas linhas confrontámos várias pessoas em Portugal com o nome da Cuca (ou Coca, ou Coco), e nenhuma delas parecia saber do que falavamos…