Quem foi Maria Cachucha?

Há alguns dias fizeram-nos uma pergunta curiosa – quem foi Maria Cachucha, aquela tal figura feminina que nos emprestou o seu nome à designação para um tempo muito antigo? Claro que é uma expressão evidentemente portuguesa, não vem da Antiguidade, da Idade Média, ou do Renascimento Europeu… mas então, quem foi que deu esse seu nome a esta famosa expressão?

Maria Cachucha

Uma primeira hipótese – em inícios do século XX parece ter vivido em Torres Vedras uma curiosa mulher que ficou conhecida por “Maria Cachucha“, mas que na verdade era chamada Maria Purificação da Silva. Por muito singular que essa figura tenha sido – e diga-se que na altura causava admiração, tinha uma destreza impressionante e até trabalhava no matadouro municipal, como a breve entrevista contida ali no link prova – não se compreende como ela poderá ter inspirado a expressão. De facto, se uma alcunha tão singular ainda não fosse conhecida, certamente que lhe teriam perguntado de onde ela nasceu; não tendo sido feita essa pergunta, podemos presumir que já existia uma outra figura que partilhava o seu nome, mais famosa e certamente anterior a ela, com quem – muito possivelmente – até partilhava o carácter que discutiremos abaixo.

 

Segunda hipótese – as mais variadas fontes referem incessantemente uma dança do século XIX como estando por detrás da expressão (ver este exemplo nacional). Como nos informa o dicionário da Priberam, a cachucha era uma “dança popular espanhola do século XIX, de compasso ternário, executada geralmente por uma pessoa munida de castanholas, ao som de guitarras e, por vezes, canto.” Um breve exemplo:

Esta é uma hipótese que parece ter satisfeito muitos curiosos, mas que deixa ainda duas questões por resolver – porquê o nome de Maria, e porque seria esta expressão ligada a algo que é antigo?

 

Terceira hipótese – A cachucha original, como se depreende da definição acima, nem sempre tinha letra. Houve então a necessidade de criar um conjunto de letras para ela. Vejamos um primeiro exemplo, aparentemente de meados do século XIX (focamo-nos somente na informação dada no Youtube, que até pode estar incorrecta):

E outro já do século XX:

Em ambas existe uma frase comum – “Maria Cachucha, com quem dormes tu?” Todas as outras versões que encontrámos parecem manter a mesma questão e respondem-lhe das mais variadas formas – “Durmo com um gato dentro de um baú”, “Com um menininho[ou marinheiro] chamado Angu”, “Durmo sozinha com o dedo no cu”, etc.

Independentemente da rima utilizada para “tu”, esta figura parece ser sempre uma mulher de má reputação, com um gato, que se envolvia com muitos homens… Será que por detrás desse nome (fictício) existia uma figura popular portuguesa, bem conhecida na altura? A revista Pim-Pam-Pum, no seu número 555 (de 1936, ou seja, mais de um século depois!), até nos conta a história de uma mulher com este mesmo nome, a quem foi feita a pergunta acima (e a que ela responde “Durmo sempre só, e de corpo nu!”), mas as fontes da autora dessa história infantil são desconhecidas… ainda assim, se quisermos acreditar que em inícios do século XIX já existiam histórias como essas, que inspiraram as várias letras, faria sentido que o seu tempo fosse localizado numa altura muito mais antiga, que já ninguém conseguia precisar, como aquele proverbial “tempo em que os animais falavam”. E isso até poderia justificar a expressão, tal como é usada nos nossos dias…

 

Quarta hipótese – parte de uma das canções ficou na sabedoria popular, e ainda encontrámos idosos que se lembram de quatro versos, mas que insistem na ideia de que “não é nenhuma música, é só a Maria Cachucha”. Nenhum sabia dizer de onde conhecia os versos ou quem lhe os tinha ensinado. Por essa dificuldade de precisão, de uns versos que lhes chegaram já nem se sabe bem de onde ou quando, poderá ter-se suposto que o tempo em que foram criados era já muito antigo.

 

Qual destas hipóteses está correcta? Quem foi a mulher que agora evocamos quando dizemos que algo ou alguma coisa antiga é do tempo da Maria Cachucha? As poucas provas que temos são puramente circunstanciais; a maior parte dos autores parece satisfazer-se com a segunda, mas a verdade é que ela deixa questões em aberto. Por isso… a resposta fica para quem for ler estas linhas, a quem deixamos igualmente um convite para que nos dêem a vossa opinião nos comentários. E, para quem quiser conhecer mais histórias como esta, aqui também poderá ler sobre outras expressões dos nossos dias.

“Et in Arcadia ego” – origem e significado

Sobre a expressão et in Arcadia ego, a sua origem e o seu significado, há que frisar que apesar de estar em Latim não teve a sua origem na Antiguidade. Ou, se até o teve, já não nos chegou qualquer prova fidedigna dessa sua antiga existência. Pode ser traduzida como “eu também [estou/estive] na Arcádia”, mas a ausência de um verbo na frase latina torna difícil compreender o seu verdadeiro sentido. E por isso esta expressão tem de ser abordada de uma forma ligeiramente diferente do usual. Quando se fala da expressão Et in Arcadia ego tende-se a fazê-lo no contexto de alguns quadros barrocos, de que aqui reproduzimos o de Nicolas Poussin:

Et in Arcadia Ego, de Nicolas Poussin

O que têm eles em comum? Essencialmente, um confronto do homem com a sua própria mortalidade. Neste caso em particular, isso é simbolizado pelos pastores (da Arcádia, região grega famosa pelos pastores e belos pastos imortalizados na poesia grega) e por um túmulo em que as ténues palavras Et in Arcadia ego ainda podem ser lidas.

 

Isso leva-nos a dois possíveis significados, tanto para os quadros como para a frase latina – se o verbo oculto fosse no presente, talvez o falecido considerasse que está, ele próprio e apesar do seu estado actual, num outro paraíso como o da Arcádia terrena. Mas se o verbo for considerado no pretérito, como mais frequentemente o é, insta os pastores a considerarem que também eles terão de morrer algum dia. Uma espécie de Memento mori, “lembra-te que terás de morrer”. Qual dos dois significados é o correcto? Não sabemos, é discutível, e terá de ficar para os leitores essa conclusão final.

A origem, significado e tradução de “Lorem Ipsum”

Sobre a origem, significado e tradução de Lorem ipsum, talvez só os muito distraídos nunca se tenham apercebido que existe um texto muito comum na internet que começa sempre com esta expressão. E isso poderá levar-nos a uma questão – afinal, qual a sua origem, e o que significa verdadeiramente toda essa sequência textual, semelhante à que reproduzimos abaixo?

Qual o significado de Lorem Ipsum, e a sua tradução?

Na verdade, costuma ser usado um gerador de texto para prolongar este lorem ipsum até à extensão desejada, mas a fonte original deste texto foi uma das obras de Cícero, no seu título latino De Finibus Bonorum et Malorum. Aparentemente – nunca conseguimos uma confirmação 100% segura – quando, por volta do século XVI, alguém estava a desfazer uma composição tipográfica desse texto, retirou umas palavras aqui, umas letras ali, criou parte deste texto e por uma qualquer razão imprimiu-o. Depois, talvez por mero acidente, talvez como uma espécie de piada que já nos escapa, ou até talvez “porque sim”, este Lorem ipsum foi sendo impresso sempre que se necessitava de um conjunto de palavras que não fossem para ser lidas, mas sim para testar como um texto irá surgir numa página ou num ecrã.

 

Mas o que diz ele? Essencialmente… o texto que começa com Lorem ipsum não tem qualquer significado ou tradução real! Pode haver, por mera coincidência, uma sequência aqui e ali que tenha algum significado acidental e real em Latim, mas no seu geral não tem qualquer sentido. A palavra lorem, por exemplo, nem sequer existe, tendo sido retirada do original dolorem, que significa “a dor” (em complemento directo).

Por isso, este lorem ipsum é um texto mais ou menos em Latim, mas sem qualquer significado real, como se alguém, nos nossos dias, escrevesse algo tão estranho como “sapo da comer um azul mas casa os porquê”.

“Roma e Pavia não se fizeram num dia”, origem e significado

A famosa expressão que dá título ao tema de hoje toma diversas formas, mas as mais famosas de todas elas são provavelmente Roma e Pavia não se fizeram num dia ou Roma não foi feita num dia. Mas, afinal de contas, de onde vem ela e qual o seu significado?

Roma e Pavia não se fizeram num dia

A versão mais antiga que conseguimos encontrar provém de uma obra francesa do século XII chamada Li Proverbe au Vilain, em que pequenos poemas são seguidos por uma expressão popular. Entre elas conta-se a seguinte sequência digna de nota:

Mainz hon est si hastis,
Quant rien a entrepris,
Tantost veut a chief traire;
Le suen despent et gaste
Et si pert par sa haste
Le plus de son afaire.
Rome ne fu pas fait toute en un jour,
ce dit li vilains.

 

Traduzir o poema em si não é tarefa fácil, mas o que nos importa são os dois últimos versos, em que é dito que “Roma não foi feita toda num dia, isso diz o camponês”. Por aí se compreende que esta era uma expressão popular, usada entre as populações da época, de onde foi chegando aos nossos dias.

 

No entanto, há um elemento que falta nesta expressão – de onde vem a referência a Pavia, possivelmente em alusão a uma pequena cidade do norte de Itália? Não parece fazer muito sentido, excepto se tivermos em conta a necessidade de fazer toda a expressão rimar, o que torna mais fácil relembrá-la; assim, ela foi introduzida na versão portuguesa do provérbio original para dar uma rima à palavra “dia”, não se pretendendo, naturalmente, equipará-la à grandeza da Cidade Eterna.

 

Independentemente da sua forma, a expressão que entre nós ficou conhecida como Roma e Pavia não se fizeram num dia tem um só e o mesmo significado – as coisas grandiosas não são fáceis nem rápidas de fazer, requerem tempo e esforço.

Qual o verdadeiro significado de “Avada Kedavra”?

A expressão Avada Kedavra é particularmente famosa nos nossos dias devido à sua ocorrência nas aventuras de Harry Potter. Mas qual é o seu significado no mundo real? Qualquer leitor das obras de J. K. Rowling saberá que, nas obras de ficção, se trata de um dos feitiços mais dolorosos e mortais presentes nas aventuras do jovem feiticeiro, usado por Lord Voldemort, e até banido pelo Ministério da Magia. E, de um modo geral, os feitiços da série estão em Latim, ou são de alguma forma derivados da língua latina, mas este é diferente… Este é uma excepção a essa regra, como até deveria ser fácil entender pelo estranho som das suas palavras, muito mais difíceis de dizer do que os restantes feitiços recitados durante as diversas aventuras em Hogwarts.

Qual o significado de Avada Kedavra?

Na verdade, o significado de Avada Kedavra não vem do Latim, mas sim do Aramaico (i.e. um conjunto de línguas faladas na Antiga Síria e Mesopotâmia). E, originalmente, a expressão aparecia em textos mágicos, em que significava algo como “que [a doença, infere-se pelo contexto] seja destruída”. É esse elemento destrutivo, mas agora privado da referência a alguma doença específica, que foi reutilizado pela autora de Harry Potter.

Porém, esta pequena história ainda não fica por aqui. Naturalmente que J. K. Rowling não fala Aramaico, mas então como terá ela conhecido estas invulgares palavras, que depois reutilizou na sua obra? Bem, segundo diversos autores, a palavra Abracadabra, muito utilizada na magia lúdica dos nossos dias, tem a sua origem na Antiguidade. Qual é a sua origem concreta, em específico, não é ainda claro, existindo muita disputa na sua possível etimologia, mas é provável que esta escritora tenha tomado conhecimento da expressão original, aquela que falamos neste artigo, numa pesquisa pessoal pela mais famosa das expressões mágicas dos nossos dias. E, depois, utilizou-a nas suas obras, fazendo deste um feitiço particularmente poderoso talvez até para homenagear a fama da expressão original; essa reutilização de conteúdos é recorrente na obra, como também pode ser constatado no caso do hipogrifo.