A origem de “amante” (e “zeloso”)

Hoje, quando pensamos numa palavra como amante, tendemos a dar-lhe um sentido completamente pejorativo. Um, ou uma, amante é vista como alguém com quem se trai uma relação legítima. E isso nada teria de errado, até que se pense que, no seu cerne, a palavra nada tem de errado, podendo ser usada para designar, pura e simplesmente, aquela pessoa que ama outrém. Mas então, de onde nasceu aquele sentido negativo que a palavra tem nos dias de hoje?

A origem de amante e zeloso

Démos por nós a pensar nisto por mero acaso, enquanto líamos um romance português de meados do século XIX, em que uma mulher, de nome Henriqueta (não, não é A famosa Henriqueta Emília da Conceição e Sousa!), deixou o legítimo marido para fugir com outro homem, Carlos. O que isto tem de notável é o facto da trama construir uma oposição entre o homem com quem ela tinha casado e esse outro, que amava e por quem achava ser amada. A heroína foge, e vivem depois por alguns anos uma tórrida paixão em terras do Brasil, mas o curioso é que quando é empregue na trama a palavra “amante”, isso parece ser feito exclusivamente por oposição ao amor legítimo do marido. Ou seja, esta personagem principal tinha dois homens na sua vida – um primeiro, com quem casou, e um segundo, com quem vivia numa situação que se pensava ser de amor.

 

Admita-se que Henriqueta, de Maria Peregrina de Souza, não é uma obra muito interessante, mas permitiu-nos compreender como nasceu a visão negativa da palavra hoje em questão. Nos tempos em que os casamentos se celebravam por razões além do “amor”, era certamente comum que as pessoas tivessem uma relação legítima, mas que depois também se envolvem com outras pessoas com as quais tinham mais afinidade, e a quem chamavam “amante”, por ser aquele, ou aquela, por quem nutriam sentimentos amorosos.

 

Ao mesmo tempo, isto poderá levar-nos a outra palava que é relativamente comum no romance em questão – zelo, zeloso e zelosa. Quem pegar num dicionário como o da Priberam poderá ver que essa palavra tem um sentido duplo, “que mostra cuidado” VS “que sente ou mosta cíumes”. Ou seja, esta palavra, hoje mais comum em inglês sob a forma jealous, vibra entre dois pólos, entre cuidado e cíume, mediante a forma como é sentida e aplicada. É muito digno de nota, esse jogo de como os significados das palavras evoluem ao longo do tempo…

Origem da expressão “Nadar contra a corrente”

“Nadar contra a corrente” tem por significado, como muitos já saberão, debater-nos – frequentemente com pouco ou nenhum sucesso – contra as adversidades que a vida nos vai apresentando. Mas esta curiosa expressão parece já ter uma origem de quase mais de 2500 anos – aparece não só nos textos platónicos, mas também nos trabalhos de Ovídio, de Santo Agostinho e de São Gregório, o último dos quais até lhe dá o reconhecido estatuto de “provérbio”.

Peixes a nadar contra a corrente

Com esta outra expressão termina então a sequência que viemos a conduzir nas últimas semanas, relativa à origem de muitas expressões que ainda estão em uso nos nossos dias. Mais virão no futuro!

Origem da expressão “Se não fosses meu pai…”

Um pai e um filho

A origem da expressão “Se não fosses meu pai…” pode ser vista como um tanto ou quanto problemática, na medida em que ainda é usada nos nossos dias mas não podemos ter absolutas certezas de que efectivamente esse seu uso ainda venha dos tempos da Antiguidade. Isto porque é uma frase relativamente comum, cujo uso poderá derivar do que iremos dizer abaixo, mas também poderá andar a ser utilizada com um total desconhecimento de qualquer outra fonte literária anterior.

A ideia parece aparecer primeiro na Antígona de Sófocles, em que a Creonte o próprio filho diz algo como “Se não fosses meu pai, dir-te-ia insensato”. É, nesse sentido, uma espécie de admissão de que existem um conjunto de coisas que não devem ser ditas aos nossos pais, independentemente das acções e decisões que tomem, mas é igualmente uma frase tão comum que não sabemos se, hoje, quando alguém a repete estará a fazê-lo de uma forma totalmente independente, ou na senda de um conjunto de ideias da Antiguidade. Não sabemos, pura e simplesmente.

Origem da expressão “Ave rara”

Esta expressão, rara avis ou ave rara, já ocorria nas obras de Pérsio e Juvenal, em que nos era dito que – por exemplo – cisnes negros e corvos brancos eram as proverbiais “aves raras”. Porém, a maior delas era certamente a fénix, pela sua raridade – recorde-se que, como já cá foi dito, ela somente podia ser vista na cidade de Heliópolis uma única vez a cada 500 anos.

O significado da expressão remete-nos, essencialmente, para a ideia de que algumas coisas são muito invulgares nas nossas vidas. Ainda assim, devemos ter em conta que a expressão original não tinha qualquer conotação negativa, contrariamente ao que acontece com a dos nossos dias.

O que nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?

É uma questão que parece assolar a mente da humanidade há já vários milénios – o que nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?

Afinal de contas o que nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?!

Como parecerá óbvio à maioria dos leitores, não seremos nós a descortinar esse enome mistério, mas o que pretendíamos apontar aqui é que essa questão, da proverbial escolha entre o ovo e a galinha, é, de facto, tão antiga como as próprias obras literárias que nos foram chegando. Já aparecia nas obras de Aristóteles, mas também em obras latinas como as de Plutarco e de Macróbio, em que normalmente até são expostos diversos argumentos em relação aos dois lados da questão. Um dos autores menos conhecidos que falou sobre esta mesma questão, Censorino, até dá uma possível solução – diz-nos então que as coisas que existem nunca tiveram um princípio e jamais terão um fim. Não era caso único – outros diziam que a primeira galinha não nasceu de um ovo, mas que foi pura e simplesmente criada pelos deuses.

 

Portanto, permanece a questão – quem nasceu primeiro, afinal de contas? Fica, como sempre, o convite para que partilhem as vossas opiniões nos comentários!