A lenda dos Gambozinos e a sua Caça

Hoje em dia, quando se fala de Gambozinos, refere-se quase exclusivamente uma classe de seres que não existem. É quase tudo o que se sabe sobre eles, sendo eles representados sempre como entidades muito indefinidas e sem qualquer espécie de forma física fixa. Talvez até se faça, aqui e ali, uma referência ocasional à sua famosa caça, mas há mais de um século contavam-se histórias um pouco mais longas sobre eles. Pouco ou nada conseguimos encontrar sobre a sua verdadeira origem, mas nessa busca por respostas chegou-se ao texto abaixo, que vem da obra Folclore do Concelho da Figueira da Foz, com cerca de 113 anos. A sequência aqui em questão, reproduzida abaixo, foi ligeiramente adaptada para facilitar a leitura e compreensão:

Uma possível lenda dos Gambozinos

Quando um rapaz tem feitio apalermado, ou chegou pela primeira vez à terra, há sempre quem o leve à caça dos gambozinos, que dizem ser um animal muito interessante. Levam o rapaz ao campo e junto de um buraco, ravina ou barranco, ou à entrada de algum atalho, mandam-no pôr-se de cócoras com um saco aberto e dizem que vão bater mato, que se deixe ele ficar, para apanhar estes animais, que não tardarão a vir meter-se-lhe no saco. É mesmo conveniente – aconselham – que de vez em quando dê grandes vozes – “Gambozino ao saco!” – para que ele se não demore tanto. Claro que os acompanhantes não voltam mais, e o patetinha, farto de esperar e berrar, reconhece por fim que foi burlado.

É, portanto, esta a espécie de lenda de aquilo a que ainda hoje chamamos, famosamente, a caça aos gambozinos. Porém, se ela ainda é muito conhecida nos nossos dias, é curioso notar que já ninguém tende a praticar todo o processo como ele era descrito nestas linhas com mais de um século,e outras fontes até acrescentam que “deste costume não se contam casos modernos (…) não se apontando ninguém que se tivesse sujeitado a semelhante caçada.” Ainda se usa a expressão num contexto e sentido muito jocosos, fala-se de ir a essa tal caça destes estranhos bichos, raramente se refere como é que eles são fisicamente, mas de facto já nunca se pensa em tornar realidade histórias rocambolescas com os contornos da descrita acima. E, de facto, tanto a origem do próprio nome como a forma de toda esta rara criatura parecem mesmo ter sido esquecidas com o tempo, naquela que é agora pouco mais que uma vaguíssima lembrança de uma tradição que imperativamente já tem mais de 100 anos. E assim se vão esquecendo as figuras e expressões de outros tempos, como nos igualmente famosos casos do Arco da Velha ou da Maria Cachucha

“Preso por ter cão e preso por não ter”, origem e significado

Preso por ter cão e preso por não ter é uma expressão que ainda se utiliza muito hoje em dia. Ela pode parecer que faz algum sentido, até que alguém pense um pouco mais em todo o tema e se aperceba de que toda a ideia é um pouco estranha, quer dizer, porque razão seria alguém preso por não ter um canídeo? Ou pelo facto de o ter, se o pobre animal nunca tiver feito nada de errado? Não é uma ideia de fácil compreensão – ao seu verdadeiro significado, já lá iremos – mas existe uma pequena lenda que parece explicar a origem de toda a expressão.

Preso por ter cão e preso por não ter, origem e significado

Conta-se que no tempo das Invasões Francesas foi imposta uma lei segundo a qual todos os moinhos nacionais tinham de ter um cão a guardá-los. A ideia seria, supostamente, a de garantir que ninguém andava a roubar as farinhas e que pagava a totalidade dos seus impostos.

Um dia, em cumprimento dessa mesma lei, um determinado moleiro, cujo nome ou a localidade de residência já há muito foram esquecidos, obteve o seu cão, um belíssimo cão como o da imagem acima, com um nariz esbranquiçado. E tudo estava bem, mas quando os Franceses fizeram uma vistoria ao respectivo moinho, viram este cão assim mesmo, com o seu nariz branco, e supuseram que o animal andava a comer parte da farinha – e isto levou a que o seu dono fosse preso por algum tempo.

Depois, ele acabou por ser libertado e decidiu livrar-se do tal cão, face aos problemas que este lhe tinha criado. Livrou-se do animal, como pretendia, mas foi novamente visitado pelos Franceses no mesmo dia – azar dos azares! – e levado para a prisão uma segunda vez, agora pelo facto de não ter o animal que a lei lhe exigia. E, face a uma tal estranheza, terá então sido ele o primeiro a dizer “fui preso por ter cão e preso por não ter!

 

Terá sido esta verdadeira origem da expressão “preso por ter cão e preso por não ter cão”? Será que há mesmo uma verdade histórica por detrás do que aqui considerámos pura lenda? Não sabemos, e seria agora muito difícil conseguir descobri-lo com 100% de certezas, mas o seu verdadeiro significado é compreensível – as leis devem ser criadas de uma forma lógica, com limites que se possam perceber devidamente, sob pena de acontecer às pessoas o mesmo que teve lugar com o moleiro de toda esta história. Uma pessoa não pode – ou, pelo menos, teoricamente não deveria poder – ser culpada por um mesmo acto e pelo seu contrário, e é a isso que se refere a expressão a que dedicámos as linhas de hoje!

Quem tem boca vaia Roma, ou vai a Roma…? Qual é a correcta?

Parece ser uma questão relativamente comum online – quem tem boca vaia Roma OU vai a Roma…? À partida pode parecer uma pergunta muitíssimo simples, até porque a segunda versão é a mais utilizada nos nossos dias hoje, mas a verdadeira questão a colocar-se poderá ser, qual delas é a expressão original, a primeira ou a segunda?

Como se diz, quem tem boca vaia Roma ou vai a Roma?

“Vaia”, forma do verbo vaiar, significa apenas apupar, dizer mal, troçar. Faria, portanto, algum sentido que os povos invadidos em tempos da Antiguidade, bem como nos primeiros séculos da nossa era, vaiassem a presença romana, que muito provavelmente viam como invasores. Esta é uma ideia que, teoricamente, pode fazer sentido. Mas depois, quando partimos em busca de provérbios semelhantes em várias outras línguas – recorde-se, por exemplo, um outro de alguma fama, que refere Roma e Pavia – e descobrimos que não só este provérbio já se encontrava atestado no século XVI e em diversas línguas europeias (“o que tén lengua, à Roma chega”, “Qui langue a, à Rome va”, etc.), como também existia em terras de Itália, sob pelo menos as formas “Chi lingua ha, a Roma va” e “Domandando si va a Roma”.

 

Nesse seguimento, se em Português as expressões “Quem tem boca vaia Roma” e “Quem tem boca vai a Roma” até parecem muito semelhantes, não só nas suas equivalentes em outras línguas essa suposta parecença se desvanece muito rapidamente, como também demonstra que este mesmo provérbio até existia em outros lugares, inclusivé em terras de Itália, em cuja oposição ao antigo poderio de Roma não poderia deixar de nos parecer estranha. Como tal, não faz qualquer sentido real dizer-se “vaia Roma”. Por isso, de onde vem toda a expressão, qual a sua origem e verdadeiro significado?

 

Numa revista de inícios do século XX foram compiladas as origens de muitos provérbios. Entre essas colunas conta-se uma, de título Retalhos de um adagiário, em que é dada uma potencial explicação para a origem da expressão Quem tem boca vai a Roma. Segundo o autor, isso dizia-se porque antigamente havia muito o hábito de fazer peregrinações a Roma, e então as pessoas tinham de perguntar, aqui e ali, qual era o caminho correcto para a cidade… e portanto, “ter boca”, no bom sentido, tornou-se um requisito imprescindível para lá chegar – que é mesmo uma ideia com completo sentido, e que mesmo que seja apenas uma mera teoria, explica de uma forma razoável a origem do provérbio e a sua prevalência em diversas línguas europeias!

A origem do termo “Mary Sue”

Se até teve a sua origem em 1973, o termo Mary Sue só se parece ter tornado popular nos últimos anos. É, essencialmente, uma expressão popular associada a um conjunto de filmes recentes em que, a bem de uma falsa diversidade, a personagem principal da história é do sexo feminino e completamente perfeita em tudo aquilo que faz, mesmo que nunca o tenha feito antes e não perceba absolutamente nada dos temas em questão. É um completo absurdo, e muito mais se poderia escrever sobre isso, mas o que nos interessa hoje é a origem do próprio termo.

Origem do termo Mary Sue

Segundo foi possível averiguar, por volta do ano de 1973 existiam todo um conjunto de fanfics que, apesar de serem bastante mal escritos, tentavam adicionar mais personagens femininas à história de Star Trek. Essa diversidade nada teria de errado, de facto, não fosse o facto de muitas dessas histórias não terem qualquer qualidade. E, nesse seguimento, uma tal “Paula Smith” – presume-se que seja um pseudónimo – escreveu uma pequena aventura satírica que captava muitos desses problemas, e que merece aqui ser reproduzida na sua forma original, a mesma já apresentada na imagem acima:

“Gee, golly, gosh, gloriosky,” thought Mary Sue as she stepped on the bridge of the Enterprise. “Here I am, the youngest lieutenant in the fleet – only fifteen and a half years old.” Captain Kirk came up to her.

“Oh, Lieutenant, I love you madly. Will you come to bed with me?”

“Captain! I am not that kind of girl!”

“You’re right, and I respect you for it. Here, take over the ship for a minute while I go get some coffee for us.”

Mr. Spock came onto the bridge. “What are you doing in the command seat, Lieutenant?”

“The Captain told me to.”

“Flawlessly logical. I admire your mind.”

Captain Kirk, Mr. Spock, Dr. McCoy and Mr. Scott beamed down with Lt. Mary Sue to Rigel XXXVII. They were attacked by green androids and thrown into prison. In a moment of weakness Lt. Mary Sue revealed to Mr. Spock that she too was half Vulcan. Recovering quickly, she sprung the lock with her hairpin and they all got away back to the ship.

But back on board, Dr. McCoy and Lt. Mary Sue found out that the men who had beamed down were seriously stricken by the jumping cold robbies, Mary Sue less so. While the four officers languished in Sick Bay, Lt. Mary Sue ran the ship, and ran it so well she received the Nobel Peace Prize, the Vulcan Order of Gallantry and the Tralfamadorian Order of Good Guyhood.
However the disease finally got to her and she fell fatally ill. In the Sick Bay as she breathed her last, she was surrounded by Captain Kirk, Mr. Spock, Dr. McCoy, and Mr. Scott, all weeping unashamedly at the loss of her beautiful youth and youthful beauty, intelligence, capability and all around niceness. Even to this day her birthday is a national holiday of the Enterprise.

Esta parece ser a primeira utilização de todo o termo, já de uma personagem absolutamente perfeita em tudo aquilo que faz, o que poderá ter contribuído para se dar esse mesmo nome, hoje em dia, a uma personagem feminina que partilha das suas características. Se não existe nada de errado em se fazer do herói da história uma mulher, o problema, nestas circunstâncias particulares, é o de se a fazer demasiado perfeita e absurdamente infalível, apenas para depois se poder acusar potenciais críticos de um sexismo que não o é, enquanto se oculta o facto de a trama estar apenas muito mal escrita…

Besta negra, origem e significado (e a Besta de Gévaudan)

Falando-se sobre a origem da expressão besta negra, parece fazer todo o sentido uni-la à francesa Besta de Gévaudan. Mas, até para que se possa explicar essa possível relação entre ambas, comece-se pela parte mais fácil, a da origem e significado da expressão, tal como ainda continuamos a utilizá-la no nosso vocabulário actual.

 

A expressão “besta negra” parece ter nascido no século XVIII em França, com uma das primeiras alusões anglófonas a referir uma bête noire, demonstrando uma clara origem da designação no país dos seus vizinhos europeus. Quanto ao seu significado actual, uma de várias definições online que fomos encontrando refere-se a ela como um intrigante “adversário pelo qual se tem especial ódio”. Juntando-se esses dois factos, ou seja, a origem francesa no século XVIII e o significado por detrás da própria expressão, podemos ser levados aos verdadeiros factos por detrás da sua obscura origem. Conte-se, portanto, uma história cujo tempo fez virar lenda.

Besta de Gévaudan

Entre os anos de 1763 e 1767 alguns territórios em França foram atacados por uma criatura misteriosa que ficou conhecida sob o nome de Besta de Gévaudan, em função da área em que atacava e que hoje é conhecida como Lozère*. Diz-se que essa criatura, ou criaturas, mataram muita gente, com os valores numéricos registados a variarem bastante, mas ás tantas veio a acreditar-se que o monstro foi morto em 1765, ao ponto de ele ter sido empalhado e levado para a corte francesa, onde se determinou que media pelo menos 1.7m de comprimento.

Mas, muito infelizmente, depois os ataques continuaram, até que em 1767 um tal Jean Chastel, um agricultor da zona de Lozère, matou uma segunda criatura e os ataques cessaram por completo. Também esta segunda figura animalesca foi empalhada, e posteriormente nasceu a ideia segundo a qual o monstro não era pura e simplesmente um animal menos invulgar, mas em alternativa um loup-garou, aquele ser a quem nos nossos dias é dado o nome de lobisomem. Terá sido verdade? Será que eles até existem? As fontes existentes admitem que ambos os animais eram lobos de um tamanho muito grande, mas o grande problema em conseguir-se descobrir muito mais é o facto de ao longo do tempo terem sido adicionados novos elementos a toda a história, dando à realidade contornos mais lendários e poluindo o relato original ao ponto de, em determinada altura, até se ter vindo a acreditar que só foi possível matar a chamada Besta de Gévaudan com uma bala de prata, um preciosismo agora comum na nossa cultura ocidental.

 

No seguimento desta história, podia fazer sentido ligar-se a criatura morta por Jean Chastel em 1767 à proverbial besta negra presente na expressão dos nossos dias. Não conseguimos descobrir se as suas versões empalhadas ainda nos chegaram até hoje, mas pelo menos esta foi a mais famosa das criaturas francesas num século em que parece ter nascido a expressão. Poderia até ser a mais pura das coincidências, admita-se que sim, mas dada a informação de que ambas as criaturas tinham pêlo de cor negra e de que elas podiam, na cultura da época, ser chamadas “bestas” (por se tratarem de animais selvagens), faz mesmo todo o sentido identificar esta tal Besta de Gévaudan como a criatura a que ainda hoje se alude na própria expressão de génese francesa.

 

*- Curiosamente, o nome desta Besta de Gévaudan parece ter sofrido um número enorme de erros no nosso português – Geuvadan, Gevaldan, Gevoudan, Gevudan, Gevaudam, Geovadan, Gevodam, Gevauda, ou Geuvodan, entre muitos outros, possivelmente nascidos por parte de pessoas que já não sabem, ou apenas desconhecem, o nome dessa área histórica de França!