Arco da Velha, origem e significado

Que o chamado arco da velha é o mesmo a que hoje damos os nomes de arco-íris ou arco-celeste é algo relativamente conhecido. Provavelmente nem dedicaríamos quaisquer linhas ao tema se fosse apenas para dizer isso… porém, um tema muito mais interessante passa por nos indagarmos sobre o porquê da primeira de essas três expressões, que é claramente a mais antiga de todas elas, mas que também é hoje a menos usada da tríade, talvez por se ter esquecido o seu sentido original. Como tal, qual é mesmo a origem desta estranha expressão?

O Arco da Velha, sua origem e significado

A resposta surgiu-nos, pela primeira vez, numa das obras de Dom João de Castro, neto de um famoso homónimo que nos ficou conhecido pelas suas barbas. Naquela que parece ser a mais conhecida das suas criações literárias – tem o enorme título de Discurso da vida do sempre bem vindo, e apparecido Rey Dom Sebastião nosso senhor o Encuberto desde o seu nascimento até o presente: feito, e dirigido por D. João de Castro aos tres Estados do Reyno de Portugal: comvem a saber ao da Nobreza, ao da Clerezia, e ao do povo – o autor utiliza uma expressão que agora nos poderá causar alguma estranheza:

Bem natural é o Arco das Velhas nas núvens, e tomou-o Deus por sinal do pacto que fez com Noé e todos os seus descendentes.

Que tem mesmo isto por significado? É uma ideia que parece ser mantida por outros autores da sua época e até mais tardios, no sentido de se afirmar que o arco da velha não é senão um sinal mostrado por Deus aquando do famoso Dilúvio Universal, talvez aquando das grandes cheias ou do seu término (para quem quiser saber mais, poderão ver o Livro do Génesis, 9:13-16). Portanto, a tal “velha” não é uma pessoa concreta, um qualquer ser humano em particular que deu o seu nome a toda a expressão, mas sim uma referência muito subtil àquilo chamado pelos Cristãos a “Velha Lei”, aquela que foi instituída por Deus no Antigo Testamento, mas que Jesus Cristo veio suplantar. E, nesse seguimento, face a estas informações até se pode compreender melhor o verdadeiro significado de toda a expressão.

 

As chamadas Coisas do Arco da Velha não são pura e simplesmente antigas, como no igualmente famoso caso do chamado “Tempo da Maria Cachucha“, mas aquelas que também nos causam algum espanto e cujo verdadeiro significado e importância se foram esquecendo com o tempo. É, portanto, mesmo um pouco irónico que o seu sentido original tenha, também ele, sido esquecido nos tempos que nos separam do desaparecimento de Dom Sebastião, a que se refere a obra já citada acima.

Os Fenómenos do Entroncamento e a sua história

Se ainda hoje se fala ocasionalmente de Fenómenos do Entroncamento, já poucos se parecem interrogar sobre a sua origem, aquilo em que consistiam, e o porquê de (quase) terem deixado de fazer parte da nossa cultura portuguesa. Hoje, a expressão é usada quase somente como um sinónimo para “coisas estranhas”, mas com a clara excepção dos habitantes de aquela que também é chamada a “cidade ferroviária”, já poucos parecem saber de onde vem esta expressão. A título de curiosidade, tentámos que diversas pessoas, em várias cidades portuguesas, nomeassem pelo menos um destes fenómenos e (infelizmente) já ninguém foi capaz de o fazer… e é, portanto, dessa situação que nasceu o tema que aqui decidimos apresentar hoje de uma forma alongada.

 

O Entroncamento, a cidade portuguesa dos tais fenómenos, é relativamente recente. Nasceu, cresceu e obteve o seu nome a partir da linha de comboio que por ela passa, mas na qual poucos hoje ainda páram. Tem menos de dois séculos e, por isso, em comparação com muitas outras cidades e vilas portuguesas ditas históricas, não tem muito para se ver. Talvez tenha sido por isso que em meados do século XX um tal Eduardo O. P. Brito, que vivia no local, tomou a inspiração do que se ia vendo de estranho em países como os Estados Unidos da América – recorde-se, por exemplo, o famoso caso dos gémeos siameses, entre outros freaks – e decidiu que o nosso país também podia exibir coisas como essas. Seguindo essa ordem de ideias, procurou casos semelhantes na zona onde residia e encontrou um melro branco (para os menos inclinados ornitologicamente, os melros tendem a ser pretos), descoberta que posteriormente reportou para um jornal, o Diário Popular. Seguiram-se muitas outras descobertas locais, relativas ao reino vegetal e animal, que também foram sendo reportadas em jornais, e que teríamos todo o gosto em detalhar… mas foi aqui que surgiu o grande problema na nossa pesquisa para o tema de hoje – não parece existir qualquer grande livro ou estudo sobre os Fenómenos do Entroncamento, ou mesmo alguma listagem que os apresente a todos e/ou reproduza as pequenas notícias em que se inseriam, como nos dois exemplos da imagem abaixo*:

Algumas histórias dos fenómenos do Entroncamento

Ainda assim, visto que uma paixão por temas como estes é algo que nunca nos falta, decidimos ir procurar e compilar tudo aquilo que conseguíssemos encontrar sobre eles – normalmente, e como pôde ser visto acima, esses artigos não têm autor creditado, mas tendem a caracterizar-se por uma referência à cidade, uma representação gráfica do próprio “fenómeno” e a sua breve história. Para atingirmos esse objectivo queríamos consultar todos os jornais que apresentaram esses conteúdos entre os anos de 1950 e 1960 (a idade de ouro da expressão), mas no decurso da nossa pesquisa apercebemo-nos de que muitas edições não se encontravam em arquivos. Talvez já nem existam, a não ser que os familiares de Eduardo O. P. Brito, ou algum coleccionador mais ávido, tenham sentido o ímpeto de ir guardando estas referências à cidade. Por isso, passando à única alternativa que nos era possível em tempo útil, recolhemos informação relativa a estes Fenómenos do Entroncamento maioritariamente em fontes secundárias e conseguimos encontrar breves alusões a pelo menos alguns dos temas que os compunham:

“Abóbora com 60 kg” (esteve em exposição na Tabacaria Luanda)
“Árvore que dava cinco frutos diferentes” (eram tangerinas, laranjas, limões, pêras e maçãs)
“Batatas enormes”
“Cacto gigante” (parece ter morrido recentemente)
“Canária que teve 36 filhos em três meses”
“Cão que fala” (para quem estiver com curiosidade, já voltaremos a ele…)
“Carneiro com quatro cornos” (já reproduzido acima)
“Chica, a lebre que bebia leite de um biberão”
“Chuva amarela” (potencialmente incorrecto?)
“Corvo que falava como gente”
“Couve que dá cravos”
“Cravos verdes”
“Feijão com mais de um metro” (potencialmente incorrecto?)
“Um frango que morreu de desgosto”
“Homem com três rins”
“Laranja gigante”
“Melro branco” (de que já falámos acima, e que parece ter sido o primeiro de todos os casos reportados…)
“Oliveira com azeitonas brancas”
“Ovo de galinha com 800 gramas” (também já reproduzido acima)
“Pé de milho com vinte maçarocas”
“Pescador que pescou uma perdiz”
“Pinto com três patas”
“Pomba que acorda os hóspedes de um hotel”
“Raposa que enganou um caçador”
“Toureiro que morde no touro”

Por esta breve compilação de alguns dos fenómenos se pode depreender que, no seu geral, eles se tratavam de algo que pode ser designado como milagres da natureza, em termos de possuírem características, ou fazerem actos, invulgares nas suas respectivas espécies. Se, por exemplo, tivesse existido na cidade uma história de um homem que mordeu um cão, isso certamente que pertencia a estas mesmas categorias. E então, visto que notícias como estas eram reportadas por Eduardo O. P. Brito, mas nada de semelhante se lia com frequência sobre outros locais, gerou-se a (falsa) ideia de que o Entroncamento as tinha de uma forma bastante mais assídua que as outras localidades portuguesas. Note-se que estes fenómenos ditos estranhos nada tinham a ver com o sobrenatural, com monstros ou extraterrestres ou locais assombrados, como a expressão nos pode sugerir nos dias de hoje – eram apenas e exclusivamente coisas menos vulgares que iam sendo encontradas nessa cidade!

O Cão que Fala, um dos fenómenos...

E pode então perguntar-se… eram eles verdade, ou um mero fruto da imaginação humana? Não conseguimos afirmá-lo com total certeza e para todos os casos apresentados acima, mas existem provas da veracidade de pelo menos algumas daquelas histórias – o cacto supostamente gigante ainda existe; a dona da Chica ainda está viva e tem uma fotografia com a lebre; os vegetais e árvores incomuns eram enxertados no quintal de um conhecido do autor; alguém tentou comprar o melro branco, etc. Outras, pela sua própria natureza efémera, são impossíveis de provar – a história do cão falante*, por exemplo, termina dizendo que ele foi à Pastelaria Ribatejo, se colocou em duas patas e pediu “bolos” aos funcionários, por ter gostado de comer um que o dono lhe deu no dia anterior…

 

Fossem verdade ou não, porque caíram então estes Fenómenos do Entroncamento no esquecimento, ao ponto de já quase ninguém se recordar do que eles foram? Poderia ser um mistério insondável, mas em 2001 Eduardo O. P. Brito revelou a razão por detrás desse desaparecimento – parece que alguns habitantes locais, descontentes com a forma como o Entroncamento andava a ser representado nos jornais, se puseram a dizer mal do escritor dessas notícias e a incomodá-lo com cartas anónimas, levando-o a deixar de reportar notícias como as que tinha por hábito escrever até então… o que é muitíssimo irónico se tivermos em conta que a cidade, mesmo após mais meio século, continua a ter como um dos seus poucos motivos para fama estes fenómenos de antigamente. Ao mesmo tempo, é uma ideia triste mas muito tipicamente portuguesa, daquele famoso “não se faz e não se deixa ninguém fazer”…

Mas, felizmente, toda esta ideia não morreu por completo. Outros autores se seguiram a Eduardo O. P. Brito nessa história dos Fenómenos do Entroncamento (que se diz que continuam a aparecer nos nossos dias…!), e na cidade em questão a sua memória colectiva ainda parece perdurar. Há muito poucos anos foi feito o videoclipe acima, que celebra todo este tema e até mostra alguns dos artigos de jornal originais, enquanto que a Casa Carloto ainda vende produtos alusivos a alguns dos “fenómenos” mais famosos, de que até mostrámos um exemplo numa das imagens acima. Tentámos apurar se a Câmara Municipal já faz ou pretende fazer alguma coisa com este seu património cultural (ao longo dos anos foram sugeridas muitas alternativas para o seu reaproveitamento, inclusive um festival e um pequeno parque temático), mas não obtivemos qualquer resposta deles ou da tal casa comercial em tempo útil…

 

 

*- Para referência futura, ou por simples motivos de curiosidade, transcrevemos aqui três dessas notícias:

  • O cão que fala – “O rafeirito acompanhava sempre o seu dono, que, diariamente, ia à Pastelaria Ribatejo, na Rua 5 de Outubro, comer um bolo. Numa dessas vezes, já habituado à rotina, mas farto de não provar a iguaria, o cão ganiu insistentemente e o dono acabou por lhe dar a doçaria. O rafeirito gostou e conta-se que no dia seguinte foi à pastelaria sozinho e, determinado, empinou-se no balcão e proferiu a palavra ‘bolo’.”
  • O ovo de 800 gramas – “Um ovo com oitocentas gramas? Sim, é possível. Aconteceu no Entroncamento. Uma galinha de aspecto aparentemente normal, habituada a pôr o seu ovo diário, conseguiu a façanha, para espanto de todos, de deixar no ninho um ovo com 800 gramas.”
  • Um carneiro com quatro cornos – “Nasceu e cresceu numa pensão em frente à polícia, na Rua 5 de Outubro. Espantava pela postura e pelo número e dimensão das suas hastes.”

A origem do nome dos gémeos siameses

Hoje, ouve-se falar ocasionalmente de gémeos siameses, talvez até sem que se pense muito nessas palavras e na sua verdadeira origem. É, como bem nos informa o dicionário da Priberam, uma expressão usada para “cada um dos gémeos que nascem ligados por uma parte do corpo”, mas de onde vem toda a expressão? Claro que ela pode ser associada, sem muita dificuldade, com o reino de Sião – actual Tailândia – mas porquê? Como chegou a este nome? É isso que, de forma sucinta, aqui explicamos hoje.

Os gémeos siameses originais, Chang e Eng Bunker

Claro que gémeos sempre existiram – já eram referidos em obras da Antiguidade Clássica como as de Aristóteles – e provavelmente sempre existirão, mas os que levaram à origem do nome que ainda lhes damos são relativamente recentes. As figuras que nos ficaram conhecidas como Chang e Eng Bunker nasceram no século XIX, mais precisamente a 11 de Maio, na província de Samut Songkhram, na Tailândia, e depressa se tornaram famosos no seu país. Depois, por volta dos 17 anos de idade começaram a ser exibidos pelo mundo fora e chegaram até a trabalhar com P. T. Barnum quando já eram bastante famosos. Às tantas, estes gémeos siameses decidiram viver nos EUA, obtiveram o apelido “Bunker” em suposta homenagem a um amigo americano, casaram cada qual com sua mulher, tiveram um total de 21 filhos (eram outros tempos…), e faleceram a 17 de Janeiro de 1874, estando hoje enterrados na White Plains Baptist Church, no estado da Carolina do Norte.

Os famosos Gémeos Siameses

Agora, o que este breve história tem de particularmente digno de nota é aquela parte, quase inicial, em que estes gémeos saíram do seu país natal e foram exibidos nos continentes americano e europeu. Se alguns os antecederam e muitos mais os seguiram, naquele tipo de entretenimento outrora conhecido como freak shows (a que aqui fizemos outra alusão recentemente), estes parecem ter sido os mais famosos numa época em que esse tipo de exibição era muito popular. Desta forma, os gémeos originários de Sião tornaram-se gémeos siameses (por compressão do seu país de origem), que pela sua grande fama passaram depois a dar nome a todos aqueles que se lhes seguiram e que se mostraram igualmente unidos como estes – para quem ainda não o tiveram notado na pintura e no poster acima, estes dois irmãos estavam juntos na área da barriga, com uma banda de pele e cartilagem em que muitos médicos mostraram especial interesse… não se sabe, hoje, se teria sido possível separá-los, algo que não foi tentado na época e que até levou a uma possível morte prematura de Eng, cerca de duas horas após o falecimento do seu irmão Chang.

 

Assim sendo, a origem do nome dos gémeos siameses, expressão que continua a ser utilizada hoje, advém da fama que Chang e Eng Bunker, nascidos na Tailândia(o antigo reino de Sião), obtiveram no século XIX. Eles não foram os primeiros gémeos que correspondem a esta designação, nem sequer os últimos (e.g. pense-se no caso de Abby e Brittany Hensel, nascidas em 1990 nos EUA), mas é agora claro que foram os mais conhecidos numa época em que o conhecimento se começava a espalhar entre países de uma forma mais fácil, e poderá ter sido essa possibilidade que contribuiu para a sua fama e para a adopção da sua designação para a generalidade de todos os irmãos gémeos que partilham da sua característica tão singular.

Sobre a origem dos Kamikaze

Hoje, quando pensamos na palavra kamikaze, lembramo-nos dos pilotos suicidas japoneses da Segunda Guerra Mundial. E isso pouco teria de relevante para este espaço, não fosse o facto da mesma palavra japonesa – no original, 神風 ou かみ​かぜ – ter um significado muito específico e que pode ser traduzido para português como “vento divino”. Nesse sentido, se a ligação entre a própria expressão e os tais pilotos não é evidente, de onde vem ela? Que história se esconde por detrás de tudo isto? São as verdadeiras razões por detrás dessa palavra que aqui explicamos hoje!

A origem dos Kamikaze

Diz-se então que em finais do século XIII os Chineses tentaram invadir o Japão com uma frota naval. Essa tentativa de invasão inicial foi repelida e foram construídas infraestruturas para dificultar qualquer possibilidade de invasão marítima futura. Ainda assim, alguns anos mais tarde os Chineses voltaram a tentar atacar, desta vez com uma frota que se diz que teria mais de 4000 barcos e 140000 homens, um valor imenso para a altura. Não esperavam que a situação tivesse sido alterada significativamente – os nativos tinham-se unido e construído uma espécie de muralha em redor de toda a costa, impedindo o atracamento de navios – e quando confrontados com a situação não souberam o que fazer. Esperando então no mar por novas ordens, depressa foram atingidos por furacões, que destruíram a maior parte da sua frota, e que ficaram conhecidos como kamikaze.

 

E porquê chamar-lhe kamikaze, esse tal “vento divino”? Porque, face às ocorrências da altura, os Japoneses começaram então a acreditar que os deuses locais, face à grande união que os nativos mostraram para com um invasor estrangeiro e teoricamente muito superior (algo que nunca tinha acontecido até então…), os decidiram premiar com a sua ajuda etérea, com algumas versões a mencionarem até explicitamente a presença divina de Raijin e Fujin, divindades padroeiras dos ventos e das trovoadas.

 

Salte-se agora para o século XX. Em que medida é que os tais pilotos suicidas japoneses da Segunda Guerra Mundial tiveram este nome de “kamikazes” associado a eles? Essa ideia é fácil de compreender face a todo o contexto da história contada acima. Se, outrora, todo o Japão se tinha unido contra um adversário vastamente superior, e em virtude dessas acções os deuses lhe concederam a derradeira vitória, neste confronto mais recente os Japoneses acreditaram, até certo ponto, que se voltassem a demonstrar uma tal união, estando dispostos a abdicar das suas próprias vidas em prol do país, os deuses lhes voltariam a conceder a vitória. Não é claro, hoje, até que ponto é que eles acreditavam verdadeiramente nisso, se achavam que os deuses iam mesmo intervir ou se esta era apenas uma lenda antiga que foi reaproveitada na altura por motivos políticos, mas há que deixar claro que existem muitas lendas semelhantes por todo o mundo – recorde-se, por exemplo, a nossa lenda da Batalha de Ourique, de um Portugal destinado por Deus a ser o grande império cristão do mundo – nas quais as pessoas parecem ter acreditado verdadeiramente até um momento fulcral, como o do nosso desaparecimento de Dom Sebastião. É possível que também o Japão, o antigo Yamato, essa “terra dos deuses”, tenha mesmo acreditado numa lenda semelhante, de que os deuses os auxiliariam novamente contra um opositor muito superior, neste novo caso os Estados Unidos da América, levando-os a estarem dispostos a sacrificar as suas vidas por aquilo que viam como um bem maior.

O mito chinês de Jingwei

Não fosse o nome desta sua protagonista e o mito de Jingwei facilmente se poderia confundir com uma das muitas metamorfoses de Ovídio. Porém, visto ser quase desconhecido na sociedade ocidental – na China, esta figura até emprestou o seu nome a uma expressão idiomática – devemos contá-lo por aqui.

O mito de Jingwei

Há muito, muito tempo atrás, viveu nas terras da China uma menina chamada Nuwa (o seu nome é partilhado com uma deusa primordial da mesma cultura, mas as duas figuras não devem ser confundidas). Ela gostava muito do mar, das ondas do oceano, e então passava horas e horas na praia, a contemplar a beleza que a circundava. Um dia, decidiu então meter-se nas águas e acabou por morrer afogada. Mas este não foi o fim da sua história – após a morte, ela foi transformada num pássaro que ficou conhecido com o nome de Jingwei, e que para impedir que outros viessem a sofrer o seu destino começou a transportar pedras e pequenos ramos para o mar local, tentando assim enchê-lo de tal forma que mais ninguém alguma vez viesse a falecer nessas águas.

 

Este pode até parecer um mito simples, mas encontrámos duas versões relativas ao porquê de esta Nuwa, a futura Jingwei, se ter colocado naquelas águas que a viram morrer. Na versão mais simples, ela fê-lo somente para aproveitar a frescura do oceano. No entanto, em outra versão a menina foi movida por uma enorme curiosidade relativa ao que existia além do oceano chinês; assim, montou-se num barco e tentou cruzá-lo, mas acabou por encontrar uma enorme tempestade que levou à sua morte. Em qualquer dos casos, esta razão parece ser completamente secundária para toda a história.

 

Para terminar as linhas de hoje, aponte-se que os Chineses têm um provérbio, ou expressão idiomática, que diz algo como “Jingwei tenta encher o mar”. Na nossa cultura ocidental poderia parecer-nos uma espécie de tarefa de Sísifo, interminável e impossível, mas segundo nos foi dito ela é usada com um significado muito distinto do nosso – mais do que se referir à dificuldade da tarefa, tem em conta a enorme paixão deste novo pássaro para tentar cumprir a tarefa a que se dispôs, por muito difícil que ela possa parecer. Não pode deixar de nos relembrar da história, também ela chinesa, do “Idoso Louco que Removeu as Montanhas”, em que com a ajuda dos céus até o maior impossível se pode acabar por realizar. O que importa é não desistir…