Como era o Mausoléu de Halicarnasso?

De entre os muitos túmulos construídos pela humanidade ao longo da sua história, é provável que o Mausoléu de Halicarnasso se trate do mais famoso da cultura ocidental. Ou, na verdade e para sermos mais precisos, talvez um dos mais famosos, a par das enormes pirâmides do Egipto. A sua fama parece ter sido tão grande que “mausoléu” até se tornou a palavra a ser usada para túmulos muito grandes e opulentos, em referência ao gigantesco local que em meados do século IV a.C. Artemisia II mandou construir para o seu amado Mausolo, e que depois se tornou o local de descanso eterno para ambos. O local até foi uma das Maravilhas do Mundo Antigo, e… bem, muito mais poderíamos escrever sobre ele, mas como aqui foi escrito há já uns anos, “hoje em dia os seus vestígios resumem-se a algumas pedras a assinalar o local”. E isso pode ser muito despontante, até porque muito pouco saberíamos sobre o local… não fosse um espécie de acidente dos tempos, de que iremos falar em seguida.

Como era o Masoléu de Halicarnasso?

Na cidade turca de Bodrum, em que um dia existiu este Mausoléu de Halicarnasso, pouco resta excepto algumas pedras da estrutura original. Uma enorme estátua de Mausolo, provavelmente retirada deste mesmo local, ainda pode ser vista no British Museum, mas a curiosidade de hoje vem de uma outra cidade da Turquia – Milas, a cerca de 50 quilómetros da anterior, onde ainda hoje existe uma espécie réplica romana do monumento aqui em questão, dos primeiros séculos da nossa era, como até pode ser visto na imagem acima. Não são bem iguais, como qualquer pessoa conseguirá ver sem qualquer dificuldade, mas a versão romana, à direita, parece basear-se no espírito da anterior, permitindo-se imaginar quão maior e mais impressionante terá sido o também-chamado Mausoléu de Mausolo.

 

Mas desenganem-se, face à fotografia antiga, aqueles que pensem que também este segundo espaço já desapareceu. Ele ainda hoje pode ser encontrado nessa cidade de Milas. Em 2019 estava coberto por uma enorme estrutura muito mais recente, um horrendo museu entretanto proposto para o local (que lemos que posteriormente até ia ser demolido), mas em janeiro de 2015 o Google Maps ainda captou numa das suas fotografias a forma pitoresca como o local se encontrava há muito poucos anos, em que o monumento se apresenta timidamente coberto por algumas árvores, como pode ser visto aqui:

Não é, naturalmente, um Mausoléu de Halicarnasso dos nossos dias, mas pelo menos deixa-nos perceber que a estrutura original, que ainda existia no tempo dos Romanos, teve algum impacto significativo na cultura dos primeiros séculos da nossa era, como algo que os cidadãos da altura até desejavam reproduzir, se bem que numa forma simplificada, para o seu próprio uso. E isso, numa espécie de recordação de tempos passados, terá de nos chegar, para os nossos dias de hoje…

Exposição do Mundo Português (1940), o que resta hoje?

Falamos hoje da Exposição do Mundo Português, de 1940, em virtude de uma controvérsia que teve lugar há alguns meses. Na altura, pretendia-se remover alguns brasões florais que tinham sido colocados no tempo da exposição, símbolos de muitas das ex-colónias, a que uns se opuseram e outros apoiaram. Os brasões, feliz ou infelizmente, lá acabaram por ser removidos, o que representa mais uma perda simbólica do património histórico nacional, mas… então, o que nos resta desses tempos? Se muitos dos pavilhões, que hoje teriam mais de 80 anos, foram demolidos pouco depois do término da exposição, o que ainda pode ser visto na zona lisboeta de Belém?

Mapa da Exposição do Mundo Português de 1940

Na imagem acima pode ser visto um mapa oficial da Exposição do Mundo Português de 1940, em que assinalámos a amarelo o que ainda existe dessa altura e que pode ser dividido em seis locais distintos. Quais são eles?

No canto superior direito está a chamada “Secção Colonial”, em que podiam ser feitas visitas alusivas às agora-chamadas ex-colónias. Naturalmente que as exposições originais já não estão no local, mas naquele que é agora chamado o “Jardim Botânico Tropical” ainda podem ser encontrados, aqui e ali, edifícios e alguns resquícios desse tempo. Abaixo deste existia o “Bairro Comercial”, sendo possível que algumas das lojas no local, em particular na Rua Vieira Portuense, ainda sejam dessa altura. Do lado esquerdo desses dois locais está, como não poderia deixar de ser, o Mosteiro dos Jerónimos, a que já cá fizemos diversas alusões anteriormente, em particular na sua ligação aos famosos Pastéis de Belém.

Depois, na parte inferior, pode ser visto o agora-chamado “Museu de Arte Popular”, seguido pelo “Restaurante do Espelho de Água” (que era uma Cervejaria Portugália da última vez que lá fomos…) e o “Padrão das Descobertas”, que é, obviamente, hoje o Padrão dos Descobrimentos.

 

Além destas estruturas “maiores”, nesta zona baixa de Belém também existem diversas “pequenas” recordações desses tempos da Exposição do Mundo Português de 1940, como os próprios jardins ou a Praça do Império, mas não eram contemplados com uma referência específica no mapa mostrado acima, sendo essencialmente uma forma de embelezar todo o espaço para os visitantes. O que poderá suscitar uma questão por agora completamente impossível de responder – que recantos dos tempos da Expo 98 também um dia chegarão a essa mesma idade de 80 anos? É, talvez mais que tudo, esperar para ver, mas já cá não estaremos para comentar esse outro tema…

A lenda de São Torpes

A lenda de São Torpes merece ser contada aqui em virtude do facto de esta figura santa ser relativamente famosa em terras de Portugal. Contudo, se o santo não nasceu nem viveu no nosso país, como é ele associado a terras portuguesas? É isso que iremos explicar hoje.

Sobre a lenda de São Torpes

Conta-se que Caius Silvius Torpetius viveu no primeiro século da nossa era em Pisa, na Itália, mais precisamente no tempo do imperador Nero, aquele grande destruidor de Cristãos. Converteu-se ao Cristianismo pelos ensinamentos de São Paulo, admitiu a sua fé frente ao próprio monarca da altura e foi condenado a múltiplas torturas, que variam mediante a fonte literária consultada. Contudo, o que elas concordam é no destino final deste homem – a sua cabeça foi-lhe cortada e ele foi atirado ao mar, num barco juntamente com um cão e um galo (que se supõe que devessem comer o corpo do falecido).

 

Aqui termina a vida de São Torpes, propriamente dita. A sua cabeça foi depois encontrada em Pisa, e como aconteceu no caso de São Vicente este pequeno barco tinha de ir parar a algum lado. São-lhe atribuídos vários destinos, mas entre os mais notáveis para estas linhas contam-se a bela cidade de Saint-Tropez, em França, a que ele deu o nome; e uma praia na zona de Sines, em Portugal, a que o santo também emprestou o nome, e na qual – segundo a lenda local – a localização do corpo do mártir foi revelada em sonhos a uma mulher da região, que ficaria conhecida como Santa Celerina (e sobre a qual pouco ou nada mais se sabe). Não há qualquer registo do que aconteceu aos dois animais que o acompanhavam.

 

Contudo, toda esta lenda associada à Praia de São Torpes deve ser vista com enorme cepticismo. Se se acredita que este santo viveu no primeiro século da nossa era, não só os primeiros relatos da sua vida surgem quase mil anos depois, como estão repletos de anacronismos, de informação falsa e de elementos claramente copiados de outras histórias de santidade e de martírios – numa versão portuguesa do século XVII, por exemplo, o santo até ultrapassa cinco sequências de tortura distintas, cada uma delas copiada de famosos martírios da Antiguidade, antes de lhe ser finalmente cortada a cabeça… e, como tal, é muito provável que esta seja uma história ficcional, ou pelo menos uma em que o potencial cerne da verdade se foi perdendo ao longo dos séculos e é hoje impossível de traçar.

A Lenda do Menino dos Olhos Grandes

Na cidade algarvia de Olhão, mais precisamente num local que tem o nome de Largo do Carolas, pode ser encontrada uma estranha estátua cuja imagem reproduzimos um pouco mais abaixo. Ao viajante comum esta poderá parecer uma representação intrigante, mas para os habitantes locais – e quase somente para eles, daí termos decidido falar desta pequena história nas linhas de hoje – é sobejamente conhecida esta referência a uma lenda do Menino dos Olhos Grandes.

A lenda do Menino dos Olhos Grandes

Quem era este menino, ou mesmo o que lhe aconteceu, provavelmente permanecerá um mistério até ao final dos tempos, mas diz esta espécie de lenda que numa data desconhecida de inícios do século XX, e sempre durante a noite, podia ser visto na cidade de Olhão uma criança muito estranha. Uns diziam que estava sempre a chorar, outros que tinha uma pequena cesta consigo, ainda outros acrescentavam mais um ponto aos estranhos eventos, mas, de um modo geral, todos concordavam em três grandes características – ele tinha olhos grandes (e daí, muito naturalmente, o nome pelo qual ficou conhecido!), era magicamente muito pesado, e nunca dizia uma única palavra. É apenas essa a sua “história”, repita-se que não se sabe de onde veio nem para onde foi, mas por alguma razão difícil de precisar as populações locais nunca o esqueceram, passando os relatos dessa estranha ocorrência por via oral, de pais para filhos, até aos nossos dias de hoje.

 

Mas porquê, tamanha importância associada a uma história tão estranha, breve e incompleta? Terá sido por este Menino dos Olhos Grandes (quase) partilhar o seu nome com o da cidade? É até possível que sim, mas sempre ouvimos dizer que o nome de Olhão se deve ao facto de terem existido muitos “olhos de água”, ou seja, pequenas nascentes, na região. O facto do menino também ter “olhões”, i.e. olhos de um tamanho maior do que é habitual, parece ser mera coincidência e nada mais. Mistérios…

A lenda de Nossa Senhora de Sacaparte

O muito incomum nome de Nossa Senhora de Sacaparte está hoje quase esquecido. Talvez quase até tanto como está o convento que um dia tomou o seu nome, na freguesia de Alfaiates, município do Sabugal. O original datava (provavelmente) do século XIV, depois foi reconstruído no século XVIII, mas hoje está assim, como mostrado abaixo, quase tão olvidado como a pequena lenda que lhe deu esse nome:

Nossa Senhora da Sacaparte, a lenda e o convento

Mas, então, de onde vem esse estranho nome de “Sacaparte”? A lenda refere que, num tempo agora já esquecido, mas provavelmente anterior ao reinado de Dom Dinis, os Castelhanos tentaram invadir Portugal e chegaram ao local próximo de onde existe este convento. O combate entre os dois exércitos foi relativamente rápido, mas depressa se aproximava a noite. Face ao enorme frio que se antevia na região, um dos combatentes nacionais evocou Nossa Senhora e disse “Virgem, saca-nos a boa parte” (ou seja, algo como “deixa-nos ficar com o que nos pertence”). Assim foi pedido à mãe de Cristo e assim se cumpriu – os Castelhanos retiraram-se para as suas terras e os Portugueses mantiveram este pedaço de território como seu, honrando a santa no local em que lhes prestou ajuda.

 

Se as lendas de combates entre Portugueses e Castelhanos abundam em Portugal – recordem-se, por exemplo, histórias como as do Castelo de Faria ou de Aljubarrota – esta é um pouco diferente, por tentar explicar o nome de um local. Claro que esta é uma explicação muito ténue, pouco satisfatória até ao povo, mas se existia alguma outra origem para o nome desta Nossa Senhora de Sacaparte, o tempo parece tê-la feito esquecer. Só assim se compreende que em dada altura o nome tenha mesmo sofrido uma pequena alteração para Sacraparte, i.e. parte sagrada, de explicação muito mais natural e fácil de entender, mas sem uma lenda associada (ou, pelo menos, alguma que tenhamos conseguido descobrir).