Como foi a Batalha de Aljubarrota?

Ainda sobre guerras, a Batalha de Aljubarrota parece ser um daqueles episódios da história de Portugal que todos conhecemos “muito bem” dos tempos de escola. E conhecemo-la essencialmente através de um grande facto intemporal – que os soldados de Castela eram muito mais numerosos que os nacionais, mas que estes últimos os conseguiram derrotar devido à chamada “táctica do quadrado”. Toda a gente nata no nosso país se tende a lembrar disso, mas infelizmente aos alunos de escola e aos leitores comuns raramente é explicado muito mais que esse facto consumado numa singela frase somatória, pelo que achámos que hoje deveríamos contar aqui o cerne de toda esta enorme lenda da história nacional. A própria história, os factos contextuais, esse grande “o que aconteceu antes e depois”, terá de ficar para outros (hey, isto ainda é um espaço sobre mitos, lendas, livros esquecidos e curiosidades…) – o que queremos contar, aqui, hoje e de uma forma muito simples, é exclusivamente o que aconteceu na Batalha de Aljubarrota, à data de 14 de Agosto de 1385, e como é que a vitória portuguesa foi conseguida!

A mais famosa imagem da Batalha de Aljubarrota

Assim, e como se aprende na escola, por razões de sucessão ao trono nacional os exércitos de Portugal e de Castela encontraram-se na zona de Aljubarrota. Porém, o que é menos sabido é que os primeiros tinham o auxílio de tropas inglesas, enquanto que os segundos tinham também o apoio de soldados franceses. E isto é importante porque, de acordo com Jean Froissart, cronista francês da época e que até falou com alguns dos sobreviventes, há um primeiro passo interessante na batalha de Aljubarrota – vendo apenas um pequeno exército à sua frente, os soldados franceses decidiram atacá-lo sozinhos, num acto hubristico,  e… acabaram derrotados, com muitos deles até a serem capturados!

Toda a batalha até poderia ter ficado logo por aí, não fosse o facto dos Castelhanos terem decidido atacar pouco depois, o que poderia levar a uma situação muito problemática, em que o exército português era atacado pela frente enquanto também tinha, por trás, os prisioneiros franceses; como tal, tiveram imperativamente de os matar a (quase?) todos antes do confronto com nuestros hermanos. E como se processou esse outro confronto, aquela tal famosa “táctica do quadrado”?

A táctica do quadrado da Batalha de Aljubarrota, por José Hermano Saraiva

Num dos seus vídeos sobre a Batalha de Aljubarrota, que pode ser visto carregando na imagem acima, José Hermano Saraiva explicou-o com um excelente diagrama que, segundo ele, podia ser visto há alguns anos no museu comemorativo da batalha. Essencialmente, e começando pela imagem inferior, os Castelhanos atacaram pela frente dos Portugueses e fizeram-no com uma tal pujança que rapidamente entraram numa espécie de quadrado formado pelo exército nacional. Em seguida, o nosso exército fechou essa formação e “capturou” grande parte dos adversários no seu interior, onde os podia atacar por todos os lados e até à distância.

Agora, poderia perguntar-se o porquê de os Castelhanos não terem, por exemplo, circundado toda a formação portuguesa… ora bem, se isso não é visível na imagem acima, o “nosso” exército estava no topo de uma pequena colina, flanqueado por dois ribeiros (o Ribeiro de Vale de Madeiros e o Ribeiro de Vale da Mata*), o que tornava muito difícil, ou quase impossível, um ataque senão pela frente – e quando, de uma forma previsível e natural, ele lá chegou, este confronto guerreiro tomou lugar precisamente como o exército de Portugal e Nuno Álvares Pereira esperavam, dando-lhes a tão-almejada vitória em menos de um só dia, até porque a noite já se avizinhava!

 

Dito assim, tudo isto até parece fácil, mas há que recordar que esta foi provavelmente uma das mais importantes batalhas da história de Portugal, talvez a par da semi-lendária Batalha de Ourique, ao ponto de um dos seus grandes actores – Nuno Álvares Pereira, “o Condestável” – surgir em diversas lendas nacionais e ser considerado, mesmo até vários séculos após a sua morte, como o grande defensor da nação e uma das quatro maiores figuras da história nacional. Incrivelmente, quando em 2007 se decidiram eleger os “Grandes Portugueses”, ele ficou em 18º lugar, atrás de figuras como Álvaro Cunhal, D. João II, Mário Soares ou Pinto da Costa – uma grotesca injustiça, se se tiver em conta que sem ele poderíamos ter passado estes últimos séculos como uma província de Espanha… enfim, é o clássico esquecimento português, que tanto gosta de olvidar os grandes heróis do passado…

 

*- O local da batalha também pode ser identificado por um outro elemento importante – alguns anos mais tarde o famoso Condestável mandou erigir lá uma pequena capela, supostamente no mesmo local em que ele próprio tinha comandado o exército. Hoje é conhecida como a Capela de São Jorge, na zona de Aljubarrota, o que permite identificar com alguma precisão adicional pelo menos parte do local da batalha!

Sobre o Santíssimo Milagre de Santarém

Hoje íamos falar sobre o Santíssimo Milagre de Santarém, também conhecido como o Milagre Eucarístico, seguindo o nosso esquema habitual. Mas depois, à medida que investigávamos esse tema, apercebemos-nos de algo muito mais surpreendente do que a própria história que íamos contar hoje. Mas já lá iremos, por agora descreva-se a trama como o faz uma espécie de site oficial:

O Santíssimo Milagre de Santarém

A 16 de Fevereiro de 1226, em Santarém, uma jovem mulher acometida por ciúmes do marido, dirige-se a uma feiticeira que lhe sugere ir à igreja e roubar uma Hóstia Consagrada para fazer um filtro de amor. A mulher roubou a Hóstia e escondeu-a num pano de linho que logo se manchou de sangue. Aterrorizada recolhe-se imediatamente em casa onde abre o lenço para ver o que tinha sucedido. Vê, maravilhada que o Sangue jorrava da própria Hóstia. Confusa a mulher colocou a Partícula numa caixa do seu quarto mas desta, durante a noite começaram a soltar-se raios de luz que iluminaram o aposento como se fosse dia. Também o marido se apercebeu do estranho fenómeno e começou a interrogar a mulher que foi obrigada a contar-lhe tudo.

No dia seguinte os dois esposos informaram o Pároco, que se apresentou em casa deles para levar a Hóstia e transportá-la em solene procissão, para a igreja de Santo Estêvão, acompanhado de muitos religiosos e laicos. A Hóstia sangrou por três dias consecutivos. Foi colocada em seguida num magnífico relicário de cera de abelha.

Em 1340 verificou-se um outro Milagre. O sacerdote abriu o tabernáculo e encontrou o vaso de cera rasgado em muitos pedaços: em seu lugar estava um vaso de cristal com o sangue da Hóstia misturado com a cera. Ainda hoje a Sagrada Partícula se guarda num Trono Eucarístico do século XVIII, sobre o altar principal.

 

A uma primeira vista, esta lenda do Santíssimo Milagre de Santarém, a três tempos, nada tem de especial. Poderia ser uma lenda religiosa nacional como tantas outras, mas quando a lemos nesta forma moderna deparámo-nos com o facto de ela ser ligeiramente diferente de aquela que tínhamos conhecido através de fontes literárias mais antigas. Então, fomos voltando atrás no tempo, fonte atrás de fonte, e vimos que elas eram relativamente consistentes, e que a terem surgido alterações na história acima elas provinham de uma data desconhecida entre inícios do século XIX e os nossos dias. Eventualmente lá encontrámos uma obra de título História admirável do Sanctíssimo Milagre de Sanctarém, de inícios do século XVII e da autoria de Pedro de Mariz, sacerdote conimbricense, que relata uma versão antiga do milagre que pôde ler no local, ainda em Latim, e que depois traduziu para o Português do seu tempo. Reproduzimos o texto abaixo, mas com algumas alterações para facilitar a leitura nos nossos dias:

No tempo em que no dito reino [de Portugal] reinou o cristianíssimo varão, el-rei Dom Afonso III (…) aconteceu na dita paróquia [de Santarém], na rua que se chama “das esteiras”, estar uma mulher casada muito mal com o seu marido, e neste ódio permaneceram por muito tempo. Até que um dia aquela pobre mulher tomou conselho com uma malvada judia, para que, pela sua maldita arte, lhe desse algum remédio com que se abrandasse e acabasse aquele furioso ódio em que estava com seu marido. Ao que a judia, aconselhada e induzida pelo demónio, respondeu, dizendo-lhe: “Se quiseres alcançar o remédio que pedes, finge-te enferma e pede com diligência o Corpo do Senhor para comungares, que te não será negado, e eu então farei com ele tudo o que me pedes.” Assim se pôs logo tudo para obra. Ministraram à mulher o Santo Sacramento, mas ela não o consumiu, assim como a malvada judia lhe o tinha ensinado; antes, dentro na sua boca, entre as queixadas, o guardou por tão subtil arte que nem o sacerdote, nem pessoa alguma do povo, a entenderam. E com ele assim escondido esperou até que todos se saíram. Então, ficando ela só, tirou o sacrosanto sacramento da boca onde o tinha e envolveu-o num pano que consigo trazia, determinando a coitada levá-lo à malvada judia.

Feito isto, indo ela para casa da judia com o Santo Sacramento no pano escondido, aconteceu a caso que a gente que estava na rua que se chama da Santo Estêvão viram que do pano que ela levava lhe caíam, perante todos eles, gotas de sangue fresco. Espantados eles do caso, lhe perguntaram que era aquilo. Mas ela, dentro em si confusa e perturbada, se tornou, muito envergonhada e afrontada, a sua casa, de onde primeiro saíra. E logo pôs e guardou em uma arca o pano com o Santo Corpo do Senhor. E não sabia o que fazer.

Chegada a noite daquele mesmo dia, e lançadas na cama a mulher e o marido, viram ambos que daquela sua arca, onde estava o Corpo do Senhor, saíam raios de sol, tão claros como os do meio dia. E não sabendo o marido a causa de tal maravilha, perguntou à mulher que coisa era aquela. Então lhe contou ela tudo o que era acontecido naquele particular, muito miudamente.

Tanto que foi manhã, o marido se logo à dita igreja, e descobriu e contou aos clérigos tudo o que acontecera. Os quais, com o demais povo daquela vila, todos juntos em uma grande procissão se foram à casa onde acontecera o milagre e levaram o Corpo do Senhor da dita arca até à dita igreja; vendo todos esta o corpo de Cristo numa parte do pano, com algum sangue nele mesmo, o qual milagre foi visto por todos os que presentes se acharam. (…)
Puseram o Santo Milagre dentro em uns pedaços de cera, a qual ainda agora se guarda na mesma igreja (…) e está aparecendo na cera o sangue quase negro, e assim esteve nela muitos tempos. Depois acharam dentro do meio da cera uma ampola de vidro muito pequena, e dentro a mesma ampola o corpo do Senhor. (…) E aparece dentro da ampola a muitos em diversas semelhanças do Filho de Deus feito homem, umas vezes crucificado, outras vezes nos braços da sua Mãe Santíssima, e outras vezes de outras maneiras, assim como ele mesmo é servido. E aquela ampola está em outro vaso de prata sobre dourado.

 

Que a “feiticeira” ou “bruxa” até fosse, na verdade, uma “mulher judia” é uma alteração menor, feita para não difamar toda uma religião em épocas mais recentes (sinais dos tempos, como na lenda de Santa Iria?), mas o curioso da obra deste Pedro de Mariz é que, apesar de ser sacerdote, ele quis confirmar todo este milagre. Após uma primeira visualização de tudo isto, pediu ajuda ao pároco local, que lhe permitiu uma visualização mais pessoal de tudo o que este milagre tinha envolvido.

 

A arca refere ao primeiro milagre do Santíssimo Milagre de Santarém aparentemente já não existia (existiriam provas de fogo no seu interior?), mas o autor ainda pôde ver a “beatilha” da mulher (com sangue seco), um recipiente onde estava o sangue com alguns pedaços de cera (e o autor até pensou em pedir um deles para si, para análise, mas não o fez por temer que tivessem ainda parte da hóstia), e a chamada “ampola angélica”, i.e. aquela que surgiu por milagre. Depois, colocando uma vela por detrás desta última, pode ver no seu interior sangue seco, algum sangue ainda líquido, e ainda restos de uma substância branca, que pensou ser a hóstia… e, de facto, fez até um desenho do recipiente, que reproduz no seu livro e que mostramos abaixo, juntamente com a versão da fonte acima (Pedro Crasbeeck era apenas o impressor da obra em questão, para quem ficar com essa dúvida):

A ampola do Milagre de Santarém

Se a versão mais antiga desta lenda do Santíssimo Milagre de Santarém diz que as pessoas conseguiam olhar para este mesmo recipiente e ver diversas imagens sagradas no seu interior, Pedro de Mariz também fez o seu teste e, além do já descrito acima, não conseguiu ver nada de especialmente místico nesta “ampola angélica”. Por isso, caso queiram tentar por vocês mesmos, onde se encontra ela, nos nossos dias de hoje?

Infelizmente, não é de fácil acesso. Na primeira das imagens acima pode ser vista uma “Relíquia do Hóstia do Milagre”; no seu interior pode ser visto este pequeno recipiente, ligeiramente inclinado para a direita, como mostra em pormenor a terceira parte da imagem acima. É curioso que na gravura possa ser vista uma espécie de rosca no topo do recipiente, mas hoje em dia a mesma ampola já não a parece ter. De facto, a sua forma parece agora bastante diferente e o recipiente tem menos substância no seu interior. Porquê? Terá sido por algo que lhe aconteceu no tempo das Invasões Francesas, terá o original sido substituído por algo muito diferente? Fica a questão para quem gostar de pensar nessas coisas.

 

Hoje, a outrora-famosa hóstia deste Santíssimo Milagre de Santarém  já não sangra. Tanto o recipiente com o sangue, como a ampola, estão no alto de um pronunciado altar, o que torna difícil aos crentes vê-los com os seus próprios olhos. Desconhecemos se a “beatilha” da mulher, essa cidadã pecadora e sempre anónima, ainda pode ser vista no local. Mas, se toda esta lenda do também-chamado “Milagre Eucarístico de Santarém” tem mesmo um fundo de verdade, porquê isolar as suas provas assim? Se, conforme a versão mais antiga da lenda, os crentes sentiam uma experiência profundamente mística ao olhar para o interior da “ampola angélica”, porque não permitir-lhes esse acesso real, mesmo que atrás de um vidro protector? Fica, mais uma vez, a questão, para todos aqueles que forem a Santarém e visitarem a Igreja de Santo Estevão, também conhecida como Igreja do Santíssimo Milagre em virtude dos eventos aqui descritos…

O segredo da Sapataria A Deusa

Para este dia de hoje decidimos que também tínhamos mesmo que falar da Sapataria A Deusa, na cidade de Lisboa. Isto porque, se era uma das lojas históricas da cidade – fundada em 1951, ou seja, com já mais de 70 anos, e agora propriedade de José Fiandeiro – recebemos esta quarta feira a triste notícia de que ela ia encerrar definitivamente, vítima de uma ordem de despejo, para vir a dar lugar a mais um dos milhares e milhares de espaços quase exclusivos para turistas que já existem na capital portuguesa. É triste, indubitavelmente triste, que aquela que é provavelmente a mais antiga cidade de Portugal se esteja a tornar numa espécie de Disneyland só para visitantes estrangeiros, mas – deixando de lado essas inquietantes notas – o nome da loja, bem como a respectiva explicação por detrás dele, não pôde deixar de nos suscitar uma dúvida de curiosidade.

A imagem que dá nome à Sapataria A Deusa

A Sapataria A Deusa tem, segundo a sua informação no portal Lojas com História, como “ex-libris um baixo-relevo em verde de uma deusa hindu”. Ele pode ser visto acima (as fotografias são do mesmo portal!), tanto no seu contexto original, que aqui pensámos em tentar ajudar a preservar, como em maior pormenor. Porém, a nossa questão – uma que curiosamente, muitos jornais ignoraram por completo – prende-se com esta representação, que aparenta ser de origem hindu. Se ela tem representada, de facto, uma “deusa hindu”, qual é ela? Ou, de um modo até mais geral, se esta é uma representação de uma qualquer cena mitológica, qual será?

 

Relativamente a todo este tema da Sapataria A Deusa, fomos então inquirir – estes temas hindus, como já cá vimos anteriormente no caso de Ganesha, são pouco conhecidos em Portugal – e descobrimos que, curiosamente…. havia muitas opiniões, mas uma única certeza – que, por enorme ironia, não se trata de uma deusa hindu (já que essas são quase sempre representadas com mais de dois braços!), mas de algo um pouco diferente. Aqui ficam algumas opiniões:

  • Uma disse-nos que esta é uma Salabhanjika, uma representação de uma mulher ao pé ou debaixo de uma árvore.
  • Outra, que se trata de uma Gopika, uma devota de Krishna, reencarnação do deus Vishnu, que honra essa sua divindade através da dança.
  • Uma terceira sugeriu que, em alternativa, esta representação é budista, com base nas orelhas e no corte de cabelo das duas crianças que estão do lado esquerdo (ver a representação do Buda que incluímos quando cá contámos a sua história).
  • Uma quarta lançou a ideia de que esta até poderá ser uma intersecção de arte hindu com a budista, originária do norte da Índia.
  • Ainda outra disse tratar-se de Sita, esposa de Rama, no período de exílio que passou com os seus dois filhos na floresta (após ter sido abandonada pelo herói).

 

Ninguém parecia conseguir concluir nada sobre esta representação patente na Sapataria A Deusa, até que um leitor do site Reddit, de nome “_uggh”, nos enviou uma pista preciosíssima, cujo verdadeiro valor pode ser visto abaixo:

A mesma representação que está na Sapataria a Deusa

É extremamente fácil ver a semelhança desta imagem com a anterior, a que está na loja – e, de facto, elas até são quase iguais, salvo pequeninas diferenças! Então, o que representam ambas? Como este selo do Nepal indica no seu lado direito, a cena representada aqui é, na verdade, o nascimento de Buda! A figura feminina, em grande plano, não é nenhuma deusa, mas sim a rainha que deu à luz o fundador do Budismo, a que parece ser dado o nome de Maia (entre outros), e que deu à luz este seu filho agarrada a uma árvore cuja tradição diz ser a shorea robusta. Nesse sentido, as duas “crianças” na parte traseira são, aparentemente, dois seres celestiais – ou devas, no contexto original – que a ungiram antes desse nascimento!

 

Muito interessante, até porque é certamente uma das poucas representações budistas deste episódio em terras de Portugal, mas é também igualmente curioso que em mais de meio século ninguém pareça ter conseguido apurar tudo isto, que esta não era uma deusa hindu mas uma figura feminina significativa da história do Budismo – ou, se por acaso até alguém o fez, pelo menos parece que nenhum jornal nacional se importou em saber melhor quem era esta suposta “deusa” que habitava numa loja lisboeta e cuja Câmara Municipal falhou em proteger, em prejuízo dos que ali trabalharam… e assim se perdem as verdadeiras histórias e se criam as lendas, que pelo desconhecimento tornaram a Rainha Maia da Sapataria A Deusa numa vaga “deusa hindu”…

O mito da deusa Salácia (a Anfitrite dos Gregos)

A deusa Salácia, assim conhecida entre os Romanos, não é senão a mesma figura que a Anfitrite dos Antigos Gregos. Ela é, talvez até mais do que tudo o resto, a esposa do deus dos Oceanos, Neptuno / Poseidon, e se até parece ser referida aqui e ali na literatura da Antiguidade, existe essencialmente um mito significativo relacionado com ela que podemos contar aqui.

Resumo do mito da deusa Salácia, ou Anfitrite

A deusa Salacia e Neptuno ou Anfitrite e Poseidon

Na imagem acima pode ser vista a deusa Salácia, ou Anfitrite, com o seu marido (fácil de reconhecer pelo tridente). Como já referido, na maior parte das referências mitológicas eles estão casados, mas há um pequeno mito que conta como isso aconteceu. Segundo essa história, ou esta deusa não queria casar com o monarca dos oceanos, ou simplesmente queria preservar a sua virgindade de forma perpétua. Então, para conseguir esse seu objectivo, fugiu do pretendente e não queria mais voltar… até que um golfinho a encontrou e a convenceu a aceitar os amores do rei dos mares! Depois, como forma de agradecimento por todo esse serviço, o par de amados – supõe-se que já casados, nessa altura – decidiu fazer do golfinho um dos seus animais simbólicos, mas também o colocou entre as estrelas, onde é hoje a constelação do Golfinho (ou Delfim, segundo um nome próprio dado ao animal personagem do mito).

 

Este pequeno mito explica o porquê da deusa Salácia, ou Anfitrite, bem como o seu marido – Neptuno / Poseidon – serem ocasionalmente representados num carro puxado por golfinhos, mas também explica como é que eles se conheceram e casaram. O mito ainda não aparecia nos poemas de Homero, parece ser tardio, mas pode ter nascido da necessidade de explicar o casamento do deus, tal como os seus dois irmãos, Zeus e Hades, também tinham histórias relativas aos seus.

 

A deusa Salácia e Alcácer do Sal

Alcácer do Sal, a antiga Salacia?

Porém, o tema de hoje ainda não fica por aqui, porque ainda há dias falávamos sobre Salácia no Sal da História. Existiu, na Península Ibérica, no tempo dos Romanos uma povoação de nome Salácia, de cognome “Cidade Imperial”, i.e. a Imperatoria Urbs. Pensa-se, segundo uma lenda local e aparentemente sem provas de maior (excepto a distância de outras povoações nacionais, mencionadas no chamado Itinerário de Antonino), que ela terá sido em Tróia ou na actual Alcácer do Sal. Diz-se ainda que aí existiam muitas salinas e um templo à deusa. Será esta a origem do nome? Ou seja, trocando por miúdos, se a deusa certamente veio primeiro, a cidade recebeu o nome desta divindade, de um possível templo dela, ou das salinas? Como no caso do Larouco, também aqui nos deparamos com uma espécie de situação do ovo e da galinha, em que é quase impossível responder a isto com base nas provas que ainda temos hoje em dia. Como tal, o mais correcto é dizer que a cidade e a deusa partilhavam um mesmo nome, mas que também pouco mais se sabe sobre essa relação entre ambas – por isso, quem preferir informação mais académica sobre o tema poderá até ler o que o Professor José d’Encarnação escreveu sobre ele.

Mitos e lendas da Esfinge do Egipto

Hoje decidimos falar de alguns dos muitos mitos e lendas da Esfinge do Egipto. Isto porque, para falarmos da estranha estátua mas não contarmos várias das histórias que iremos incluir abaixo (que são das mais famosas relativas ao local), se perderia uma excelente oportunidade para todo esse tema comum.

Alguns mitos e lendas associados à Esfinge do Egipto

Primeiro, qual é o verdadeiro nome desta estátua? Não sabemos, ninguém o parece ter preservado, mas a referência a uma lenda no local – e já a contaremos, ali mais abaixo – refere-se à figura representada no local como Hor-em-akhet. O problema é que essa lenda tem cerca de 3400 anos e já se referia à estátua como muito mais antiga, até porque já estava então esquecida e coberta pelas areias do deserto. Portanto, o seu nome original é agora desconhecido, mas ela recebeu o nome de “Esfinge” mais tarde, na cultura da Grécia Antiga, aparentemente por uma ligação directa com o mito de Édipo, em que a criatura defrontada pelo herói, que nos poderá parecer semelhante a esta, também tinha cara humana e um corpo que parece leonino.

Édipo e a Esfinge

E isto leva-nos ao ponto seguinte – afinal, que estranho animal é este? Será que é mesmo um leão com cabeça humana, como se costuma dizer? Vista pela frente, a criatura até poderá parecer uma espécie de cão – não são eles, mais do que os leões, que têm por hábito deitarem-se assim? – o que poderia indicar tratar-se de uma representação de uma figura como Anúbis, deus dos mortos, mas quem lhe prestar mais atenção poderá aperceber-se que ela tem patas muito diferentes de qualquer um desses animais, bem como uma cauda bastante longa, quase serpentesca. Então, por essa junção de estranhas características, talvez seja mais justo afirmar-se que esta é uma criatura puramente mitológica, composta por diversas partes de animais distintos, como Ammit ou o Hipogrifo.

A Esfinge do Egipto, de frente e de trás

Assim, falar da Esfinge do Egipto é, como se pode inferir do que já foi dito acima, falar de mistérios. Podemos aqui falar de dois deles, já que discuti-los a todos seria provavelmente enfadonho para a maior parte dos leitores.

 

Um primeiro diz que foi Napoleão que destruiu o nariz da Esfinge do Egipto, disparando um canhão contra ela. Desconhecemos sequer porque o faria, quando até tentou preservar muitas outras obras do mesmo país, mas no seu tempo o famoso nariz já tinha desaparecido há muito tempo. Seguindo esse contexto, é provável que este estranho mito tenha surgido porque em diversas obras de meados do século XVIII esta estátua até pode ser vista com um nariz, cuja forma varia de gravura para gravura, enquanto que outras a mostram sem ele, dando a (falsa) ideia de que ele possa ter sido destruído nessa altura.

Então, na verdade, o que lhe aconteceu? Lemos e ouvimos várias opiniões, mas a mais convincente é que algures nos primeiros séculos da nossa era algum devoto do Cristianismo ou do Islão viu cidadãos locais a venerarem esta estátua. Como tal, procurando agir da mesma forma que o fariam no caso de uma pequena estátua de um deus pagão, destruíram então parte do “deus”, como que desejando fazê-lo perder o seu poder. É, para que também estiver com curiosidade, por essa mesma razão que muitas das estátuas agora encontradas, originárias da Grécia Antiga ou do tempo dos Romanos, têm a face destruída, por se acreditar que isso impedia os “demónios” que as habitavam de verem, falarem, ou – de um modo mais geral – interagirem com o nosso mundo.

 

Outro mistério associado à Esfinge do Egipto, nascido da boca de Edgar Cayce, diz que existe “algo” por baixo dela… que, na versão mais famosa do mito, se diz que é uma espécie de biblioteca com todo o conhecimento místico e secreto deste mundo, que nos poderia levar a todos a uma nova idade de ouro. Será verdade? É curioso que até existam passagens, agora quase todas elas fechadas, que permitem entrar em dadas partes da enorme estátua e/ou explorar parte do que existe por baixo dela, mas não existe, até à presente data, qualquer prova real de que exista algo de significativo num local como o proposto pelo mito, até porque seria muitíssimo difícil aceder à totalidade do local sem danificar ainda mais toda a estrutura milenar…

O que está em frente da Esfinge

Por isso, terminamos hoje com uma importante lenda da Esfinge do Egipto. Quem tiver prestado atenção a uma das imagens acima – se não o fizeram, reproduzimo-la aqui novamente – poderá notar que existe uma estela precisamente entre as duas patas frontais de toda esta estrutura. É a chamada “Estela do Sonho”, que se pensa ter sido erigida por volta de 1400 a.C., e que nos conta uma história muito curiosa, que faz todo o sentido recordar aqui.

Segundo essa estela, num dia de muito calor um dos filhos de um faraó, vendo apenas a cabeça desta figura a espreitar das areias, deitou-se à sua sombra e adormeceu. A misteriosa figura apareceu-lhe em sonhos, revelou que tinha o nome de Hor-em-akhet, e disse-lhe que quem a desenterrasse das areias do deserto obteria o trono do Egipto. Este jovem assim o fez, e apesar de não ser o primogénito acabou mesmo por tornar-se faraó, depois imortalizando toda a estranha ocorrência na estela, agora parcialmente destruída (não contém o final da história, mas pelo contexto depreende-se que o desafio proposto nesse sonho tenha sido aceite), que chegou aos nossos dias.

 

Enfim, como se pode ver são muitos os mitos e lendas da Esfinge do Egipto que chegaram aos nossos dias, provavelmente porque, como no também-famoso caso da Atlântida, teremos sempre mais questões do que respostas em relação a esta estranha e antiga estrutura, o que muito tende a aguçar a imaginação humana…