Larouco, o deus e a serra

Falando de Larouco, hoje abordamos aqui aquele que será provavelmente um dos grandes mistérios pré-romanos de Portugal. Isto porque, se algumas pessoas poderão conhecer este nome apenas como o de um serra no norte do nosso país, quase em terras de Espanha, este possível deus celta também já foi o de uma divindade nativa das terras da Lusitânia.

Ara ao deus Larouco

Infelizmente não temos qualquer imagem 100% confirmada deste deus para apresentar aqui – acima, pode ser visto uma ara com uma versão do seu nome (ver a primeira linha e o início da segunda) – mas pelas provas epigráficas que foram sendo encontradas nestas mesmas terras pode inferir-se que, em tempos anteriores aos dos Romanos, foi venerada nestas terras uma figura divina cujo nome era Larouco (ou Larauco, como no caso acima). Já quase nada sabemos sobre ela – terá sido uma divindade da natureza, dos muitos penedos que compõem o local, ou de alguma outra coisa hoje esquecida? – mas a coincidência do nome, de uma mesma designação partilhada pela serra e pelo deus, é profundamente intrigante.

 

Qual dos dois terá vindo primeiro? O Larouco-deus ou o Larouco-serra? O primeiro tomou o seu nome do local em que vivia, ou a segunda obteve esse nome porque se cria que lá vivia esta figura divina, hoje já tão esquecida? Como no caso de muitas outras divindades pré-Romanas, de que EndovélicoAtégina são hoje os exemplos mais notáveis, as perguntas que poderíamos levantar são mais e maiores do que quaisquer respostas reais que tenhamos para oferecer. Nesse seguimento, a não ser que se venha a encontrar um livro completamente secreto da Antiguidade sobre as várias divindades ibéricas (nota importante – não temos qualquer prova de que tenha existido!), este é um mistério quase impossível de descerrar, ficando, portanto e aqui, pouco mais do que a breve nota da evidente – mas agora também muito obscura – relação entre este antigo deus lusitano e uma serra do norte de Portugal.

A lenda de Dom Dinis e o Urso (de Odivelas?)

A lenda de Dom Dinis e o Urso é interessante, já que permite explicar algo que de outra forma seria difícil de compreender. Basta pensar-se no seguinte – onde estão enterrados os reis de Portugal? Salvo algumas excepções pontuais – por exemplo, o caso de Pedro e Inês – eles parecem andar agrupados por grupos em diversos pontos do país. Quando estão sós, tende a existir uma razão para tal. Assim, se o marido de Santa Isabel está em Odivelas, enquanto que a sua esposa está em Coimbra, qual será a razão para tal? Porque mandou este rei construir o Mosteiro de Odivelas, onde está sepultado? Claro que poderão haver razões mais reais que outras – fala-se, por exemplo, do seu desejo de construir um túmulo para uma filha bastarda que morreu ainda adolescente – mas o que nos interessa aqui é a lenda mais do que uma possível realidade.

Dom Dinis e o Urso

Assim, quem olhar bem para o túmulo deste rei, no Mosteiro de Odivelas, poderá encontrar, num dos seus quatro apoios, um pormenor curioso, o mesmo que pode ser visto na imagem acima. Ele mostra um animal, possivelmente um urso, acima de um homem que o apunhala no pescoço. É invulgar, não é fácil compreender a sua presença no local, excepto talvez por relação com a lenda de que aqui falamos hoje.

 

Conta então esta lenda de Dom Dinis e o Urso que um dia o rei de Portugal andava numa qualquer caçada quando, estando então completamente sozinho, encontrou um urso. O monarca tentou fugir, mas o animal perseguiu-o, e com a sua rapidez depressa o apanhou. Então, num momento de enorme desespero, prestes a perder a sua própria vida, reduzido ao estatuto de mero homem, o marido de Isabel pediu ajuda a Deus e aos santos, prometendo, em troca, mandar construir um mosteiro. Inesperadamente, um santo apareceu ao rei e disse-lhe para este usar o punhal que tinha em sua posse; ele assim o fez, ferindo mortalmente o animal e escapando com a sua vida. E, depois, para comemorar esta ajuda divina, cumpriu a sua promessa…

 

Mas se tudo isto até parece relativamente simples, não o é, pelo facto de existirem três elementos que variam mediante a versão da lenda – o local em que tudo isto tomou lugar, o(s) santo(s) evocado(s) por D. Dinis, e o recinto religioso que resultou da sua promessa. Não iremos, hoje, aqui falar da versão mais antiga da lenda de Dom Dinis e o Urso, mas todo o problema pode facilmente ser resolvido fazendo do local Odivelas, dos santos São Bernardo e/ou São Dinis, e do recinto aquele que é agora chamado o Mosteiro de Odivelas. Nesse seguimento, tudo se alinharia para resolver o enigma original – o rei estaria, portanto, sepultando no mesmo sítio em que um dia a sua vida foi poupada por ajuda divina.

 

Mas será verdade? Será que D. Dinis encontrou este urso nas imediações de Odivelas? Uns dizem que sim, outros dizem que o confronto entre homem e animal tomou lugar em Beja, ainda outros acrescentam que a promessa foi cumprida com uma capela nessa cidade, mas… a verdade é que tudo isto são lendas. Como tal, o povo inventa-as e reinventa-as a cada geração. Contamo-la aqui como a ouvimos há umas semanas. Ao leitor, hoje, basta conhecer a história acima, e saber que Odivelas poderá, ou não, ter sido o campo de uma animalesca batalha que nos poderia ter levado a vida de um monarca nacional, e cuja lenda poderá estar aludida no túmulo mostrado acima…

A lenda da Zorra Berradeira

A Zorra Berradeira, também conhecida como Zorra de Odelouca (em virtude de um local em que se pensava que ela vivia), é uma espécie de criatura mitológica nacional famosa em terras do Algarve. Nem sempre é muito clara qual era a sua forma física, que parece divergir consideravelmente nas versões consultadas, mas considerando somente o seu nome podemos ser levados a acreditar que ela era uma espécie de raposa velha com poderes mágicos misteriosos e/ou capaz de adoptar diversas formas. Porém, o que torna esta lenda particularmente interessante é o facto de existirem várias versões da lenda que nos contam a sua origem!

A lenda da Zorra Berradeira ou de Odelouca

Nesse seguimento, uma primeira versão da origem desta Zorra Berradeira diz apenas que ela é um espírito demoníaco. Uma segunda, que a liga às Mouras Encantadas, diz que originalmente ela era uma jovem moura, mas acabando por ofender tanto Cristãos como Muçulmanos (de uma forma que não é totalmente clara), por punição divina foi transformada nesta criatura. Já uma terceira, e provavelmente a mais famosa de todas elas, diz que se tratou de um ser humano que fez muitos actos maus na sua vida, sem nunca mostrar qualquer espécie de arrependimento, entre eles o de mudar os limites dos terrenos (que em outros tempos eram assinalados com pedras especiais e, como tal, relativamente fáceis de alterar).

 

Mas qualquer que tenha sido a sua origem, a Zorra Berradeira era uma criatura temível, que no mínimo dos mínimos enloquecia quem tivesse ouvido os seus gritos, e em pior caso até lhes causava a própria morte. E, de facto, nem sequer encontrámos qualquer registo de alguém que a tenha defrontado com sucesso ou derrotado. Será que ainda habita por terras do Algarve, na região da Ribeira de Odelouca? Caso algum leitor seja da zona em questão e já a tiver ouvido, por favor deixe ali em baixo o seu testemunho – tentar vale sempre a pena!

 

Um último ponto… acreditando que esta Zorra de Odelouca já era, originalmente, uma espécie de raposa, ela tem diversos elementos em comum com criaturas como a Huli Jing chinesa. Seria intencional? Será que a história desta criatura veio de terras do Oriente para Portugal, algures no tempo dos Descobrimentos? Nunca vimos qualquer estudo sobre o tema, mas para quem tiver mais paciência seria interessante estudar-se a origem desta lenda; é, contudo, provável que se trate de uma história oral, com raízes já há muito perdidas, e portanto até poderá ser muitíssimo difícil concluir algo sobre a sua verdadeira génese, podendo esta espécie de obsessão com as raposas tratar-se apenas de uma coincidência derivada da forma quase mágica como tendem a desaparecer, de uma forma quase mágica, nos muitos locais onde vivem…

Ainda existe um Templo Romano em Sintra?

Há já algum tempo que nos vieram perguntar se existe algum Templo Romano em Sintra. E de facto, quando se pensa em vestígios arqueológicos do tempo dos Romanos em Sintra, a possível existência de um templo aos deuses de outrora nesta região, de algo semelhante ao Templo de Diana eborense, raramente cruza a mente do viajante comum. Se até existem vestígios vagos de um recinto dessa natureza na zona da Praia das Maçãs, mais precisamente no chamado “Sítio Arqueológico do Alto da Vigia” (a National Geographic até escreveu recentemente um artigo interessante sobre o local), em que foram encontradas agora-famosas inscrições latinas ao Soli et Lunae (as tais que fizeram da serra local o “Monte da Lua”), pouco mais na região levanta, hoje, a ideia de que ele ainda possa existir. Assim, hoje decidimos apresentar um dado local aos leitores e deixá-los julgar as provas por si mesmos.

 

Perto da aldeia de Janas, que fica a cerca de oito quilómetros do centro da vila de Sintra, em Portugal, pode ser encontrada, na beira da estrada, uma capela ou ermida que tem hoje o nome de São Mamede de Janas. A uma primeira vista, ou para aqueles que percebam pouco destes temas, o local actual pouco ou nada parecerá ter de romano, como tendemos a imaginar a arquitectura da altura, até que, com algum estudo, se notem três elementos dignos de nota:

Possível Templo Romano em Sintra, a Capela de São Mamede de Janas

Primeiro, esta capela tem uma planta circular, o que não é muito comum nos locais de culto do Cristianismo, que têm mais habitualmente uma planta rectangular ou em forma de cruz. Contudo, alguns templos romanos também tinham uma forma circular, muitas vezes para permitirem uma fácil circulação de animais no seu interior – e, se isso acontecia em alguns recintos de culto pagão, também sabemos que já aconteceu, no passado, neste espaço que tomou o nome de São Mamede de Janas (actualmente, parece que os animais apenas o circundam pelo exterior).

 

Depois, o local está localizado em “Janas”. Quando a deusa Diana era venerada juntamente com o deus Jano, ela tomava o nome de Jana e o par divino era, de um ponto de vista simbólico, considerado como a Lua e o Sol. Isto torna-se particularmente interessante em virtude do facto de já terem sido encontradas inscrições a esses dois astros na mesma região, o que prova que os Romanos veneravam, de facto, deuses como estes nas localidades próximas – o “Sítio Arqueológico do Alto da Vigia”, já referido acima, está a escassos de cinco quilómetros deste local.

 

Ainda, esta espécie de igreja toma hoje o nome de São Mamede [de Cesareia], que é venerado no calendário católico a 17 de Agosto, e nos locais que a circundam ainda toma lugar, entre os dias 15 e 17 desse mês (ou, mais recentemente, até entre 12 e 20), uma romaria. Ao mesmo tempo, o deus Jano tinha um festival a 17 de Agosto, enquanto que um dos festivais mais famosos consagrados à deusa Diana tomava lugar entre os dias 13 e 15 do mesmo mês.

A ser pura coincidência, tudo se torna ainda mais estranho se tivermos em conta que São Mamede é aqui visto como um “santo protector do gado”, mas esse atributo não lhe parece ser associado em outros locais, em que essa tarefa é frequentemente ocupada por Santo Antão (também conhecido como Santo António do Deserto, que não deve ser confundido com o “nosso” Santo António). Porém, a ligação da deusa romana com a caça, com os vários animais e até com a fertilidade é bem conhecida e está bem atestada de uma forma horizontal na literatura da Grécia Antiga e dos Romanos.

 

Se tudo isto parece indicar a existência de um antigo templo romano em Sintra, ainda devemos considerar as provas que indicam o contrário. E há uma que é preponderante – lemos que em finais do século XX foram feitas escavações arqueológicas no local e foram encontradas duas estruturas anteriores, uma do século IX e outra do século XII, o que parece refutar a possibilidade de que tenha existido aqui um templo romano.

Será, por isso, que existiu um templo pagão próximo deste local, mas não necessariamente aqui, e que a forma deste espaço religioso é apenas uma vicissitude da arquitectura renascentista, que alguns até atribuem a Francisco de Holanda? Serão o nome da povoação, e os rituais aqui praticados, uma estranhíssima coincidência do acaso? Ou será que esta ermida ou capela de São Mamede de Janas foi construída para fomentar o abandono de um antigo culto local, de raízes pagãs mas já sem um templo físico, providenciando alternativas cristãs a um conjunto de rituais que as populações locais se recusavam continuamente a abandonar?

Não sabemos. Com excepção das provas arqueológicas, tudo levava a crer que existiu mesmo um templo romano em Sintra, neste preciso local, e que até poderia ter uma história notável. Sabe-se que Diana foi uma das deusas romanas cujo culto perdurou mais tempo (ver, por exemplo, a explicação por detrás do nome do Templo de Diana em Évora), e que ela foi venerada na zona de Sintra, possivelmente até na companhia do deus Jano. Isto é difícil de negar, que existiu nesta região um templo associado a pelo menos um dos dois deuses, mesmo que ele não tenha estado localizado aqui.

Depois, com o passar dos séculos, o local que lhe(s) esteve consagrado poderia ter sido transformado em local de culto cristão, mantendo-se a sua ligação original aos animais (que ainda eram abençados no local, por se acreditar que assim manteriam a sua saúde e vitalidade), e o nome da antiga figura divina teria sido substituído pelo de uma figura cristã bem conhecida em Portugal e venerada mais ou menos na mesma altura do ano. E esta seria uma boa possibilidade, sem qualquer dúvida, que até faria com que as diversas peças encaixassem quase na perfeição, mas as provas arqueológicas parecem afirmar que tudo isto é uma mera coincidência e nada mais…

 

Portanto, será que a capela ou ermida de São Mamede de Janas foi, em outros tempos, um templo romano em Sintra? Se grande parte das provas apresentadas acima parecem sugerir uma resposta afirmativa, as provas arqueológicas presentes no local parecem afirmar-nos o contrário. Contudo, é igualmente necessário ter algum cuidado com estas afirmações – isto não é o mesmo que afirmar que nunca existiu um recinto religioso dos Romanos no “Monte da Lua”, mas sim que ou ele não esteve localizado neste local preciso, como supúnhamos, ou todas as provas dessa antiga presença in situ se perderam por razões desconhecidas e muito difíceis de explicar.

Jacaré Bangão, uma lenda angolana

A história ou lenda do Jacaré Bangão não é muito longa, mas parece ter um significado importante para o povo de Angola, que até erigiu uma estátua a este episódio – naturalmente lendário, como a história abaixo muito facilmente provará – na província de Bengo.

A lenda do Jacaré Bangão

Então, quem é o Jacaré Bangão, tão desconhecido em terras de Portugal, mesmo para aqueles que têm ascendência angolana? Conta-se que em outros tempos Angola estava tão repleta de impostos que as pessoas começaram a ficar mais e mais insatisfeitas com toda a situação, ao ponto de um jacaré local ter sentido que também ele os devia pagar. Mas, depois, quando saiu do rio e se dirigiu ao local em que se pagavam os impostos nessa altura, o administrativo que tomava conta dessa tarefa, que até era um cidadão de Portugal, ficou tão intimidado com a presença do animal que fugiu logo do seu posto de trabalho, talvez até para nunca mais voltar.

 

Outras versões da lenda adicionam mais ou menos detalhes a esta trama basilar (uma das versões mais intrigantes que encontrámos refere que este animal era, na verdade, um cidadão angolano transformado pelo poder da magia), mas – e como a estátua acima parece demonstrar – o Jacaré Bangão ficou uma espécie de símbolo da luta angolana contra a gestão dos Portugueses, que se foi prolongando até 1975. Talvez seja até esse facto que melhor explica a representação acima, em que o povo parece levantar e aclamar o animal como um verdadeiro herói da pátria, pelo facto de este ter, de uma forma simbólica e lendária, afastado aquele que era visto como um ocupante colonial que tanto agrilhoava os cidadãos da região com um conjunto de impostos que lhes pareciam cada vez mais infindáveis e intoleráveis. Recordamo-lo hoje para que os seus “feitos” em outros tempos não sejam esquecidos…