Nome e localização da aldeia do Astérix

Qual é o nome da aldeia do Astérix, e onde fica ela? Talvez esta seja uma pergunta de face dupla que já muitos se colocaram ao longo dos anos, enquanto lêem as aventuras fictícias do famoso gaulês. Assim, a melhor forma de responder a perguntas como essas é partir precisamente de um mapa constante nesses livros de banda desenhada, que reproduzimos abaixo:

Nome e localização da Aldeia do Astérix

Sobre o nome da aldeia do Astérix, que na imagem acima é pura e simplesmente denominada “Aldeia Gaulesa”, nunca nenhum autor parece ter sentido a necessidade de lhe dar um verdadeiro nome. Isto porque se presume, mesmo dentro do próprio universo da série, que não tenham existido muitas mais aldeias com poções mágicas e capazes de fazer face ao poderio dos Romanos. Até o prólogo das histórias nos afirma isso mesmo de uma forma muito directa, quando repete, uma e outra vez, a seguinte informação:

Estamos no ano 50 Antes de Cristo. Toda a Gália foi ocupada pelos Romanos… Toda? Não! Uma aldeia povoada por irredutíveis gauleses ainda resiste ao invasor. E a vida não é nada fácil para as guarnições de legionários romanos nos campos fortificados de Babaorum, Aquarium, Laudanum e Petibonum…

 

Assim sendo, se esta povoação não parece ter nome, onde fica mesmo a aldeia do Astérix? Pelo mapa acima depreende-se que ficasse na costa norte da Armórica, i.e. actual noroeste de França, mas que mais elementos podem ajudar a identificá-la? Os quatro campos romanos são, como é natural, puramente ficcionais, não ajudando na identificação do local da aldeia. Contudo, ao lado esquerdo do povoado gaulês podem ser vistas três pedras no meio do oceano… e, na verdade, na comuna francesa de Erquy, que fica mais ou menos na localização mostrada acima, até existe um cabo conhecido como Trois Pierres, i.e. “três pedras”, que pode ser mesmo a região mostrada na banda desenhada.

 

Nesse seguimento, há que frisar, para quem ainda não o saiba, que a aldeia do Astérix é um local puramente ficcional. Se Goscinny e Uderzo lhe deram a localização acima, não foi, presume-se, com uma intenção de lhe dar quaisquer contornos históricos, que possam levar o leitor a uma localização “real”, mas talvez por pouco mais do que uma mera coincidência. Ainda assim, nos nossos dias de hoje é possível visitar a própria aldeia destes famosos gauleses, como a fotografia interactiva abaixo comprova, em que pode ser vista a casa do chefe da aldeia (que nas versões portuguesas tem o nome de Abracurcix, Abraracourcix ou Matasétix).

Onde é esta aldeia do Astérix, poderão perguntar os mais curiosos? É no chamado Parc Astérix, a quarenta minutos da cidade de Paris, que entre as suas diversas atracções contém uma reprodução parcial da famosa aldeia gaulesa, quase como ela é apresentada nas bandas desenhadas. Infelizmente, não está rodeada por três campos romanos, nem contém todas as casas famosas da série, mas talvez seja o mais fiel que os fãs da série de Goscinny e Uderzo poderão encontrar hoje em dia… e se o nome da aldeia é desconhecido, e a sua localização uma pura ficção, é pelo menos provável que este local agrade aos fãs das BDs, mesmo que numa breve visita virtual como a acima!

 

P.S.- Há que deixar claro, como sempre, que não fomos pagos para escrever absolutamente nada disto…

A lenda da Peninha (em Sintra)

Se já cá aludimos anteriormente a esta lenda da Peninha, em Sintra, quando falámos de locais como a Ermida de São Saturnino ou a Anta de Adrenunes, entre outros temas, só hoje sentimos a necessidade de a contar por cá. Isto porque, fazendo recentemente um binge-watch dos antigos programas de José Hermano Saraiva, notámos que também ele já tinha falado de muitas das lendas nacionais que aqui abordámos anteriormente. Assim, poderíamos estar correr o erro de “chover no molhado”, de falar de coisas para as quais já existem uma infinidade de relatos. Portanto, se falamos aqui hoje desta lenda, não é apenas para a recordar, mas mais que tudo para lhe adicionar alguns elementos que, aparentemente, já quase ninguém parece saber.

A lenda da Peninha

Nas imagens acima pode ser visto o sintrense Santuário da Peninha em dois momentos da sua história. Do lado esquerdo, o local tal como era no século XIX, e do lado direito o mesmo espaço como pode ser visto hoje, no início da terceira década do século XXI. Quase que apetece jogar às diferenças com as duas imagens, tão repletas de elementos que as aproximam e as afastam, mas no cume deste pequena penha – ou “penhinha”, posteriormente “peninha”, o que deu nome ao local – ainda existe uma belíssima capela que data de inícios do século XVIII. E é também mais ou menos dessa altura – fazendo fé no Santuário Mariano de Frei Agostinho de Santa Maria – que nos chegou preservada a lenda por detrás deste recanto religioso.

 

Conta-nos ela que num data cujo tempo já esqueceu uma pastora andava por estes locais. Parece que era muda, no início, mas uma estranha ocorrência depressa a curou – ela encontrou uma misteriosa senhora neste penedos, que a instou a ir para casa e a pedir pão à sua mãe. A jovem sabia que, fruto da pobreza familiar, não havia qualquer pão em sua casa, mas quando seguiu o pedido da bela dama acabou por encontrar, miraculosamente, o alimento que foi instada a procurar. Posteriormente, ela levou mais gente ao local em que tinha encontrado esta enigmática dama; não a conseguiram reencontrar, mas viram, isso sim, foi uma imagem de Nossa Senhora dentro de um espaço que ora aparece definido como uma lapa, ora como uma caverna. Por três vezes levaram a estatueta para São Saturnino, a escassos metros de distância, por três vezes ela regressou à lapa/caverna, até que decidiram construir o chamado “Santuário da Peninha” no local de todo este milagre.

 

Assim se conta a lenda da Peninha, com mais ou menos detalhes. É provável que já a tenham lido ou ouvido em outros sítios, é uma famosa lenda da zona de Sintra, mas quem quiser prestar mais atenção à história encontrará um problema, que é a referência a uma lapa ou caverna como o local de origem de uma imagem miraculosa que recebeu o nome de Nossa Senhora da Peninha. Onde está esse local? Será que ele até existe, ou é mera ficção da lenda?

A lapa e caverna da Peninha

Fomos então procurá-lo e encontrámos tanto uma lapa como uma caverna na Peninha, o que poderá ter contribuído para a confusão presente nas versões do relato lendário. Em ambos os casos, por razões de segurança não achámos prudente explorar todo o seu interior, mas isto comprova que os locais mencionados na lenda existem mesmo, dando validade a toda a história e à ideia de que o santuário foi construído, de facto, neste local por aí existir pelo menos um espaço como o referido na narrativa, onde se dizia que outrora apareceu uma imagem miraculosa da mãe de Cristo.

 

Face ao perigo, ao difícil acesso e ao facto dos locais estarem hoje com algum de lixo, desaconselhamos veemente todos aqueles que queiram tentar entrar nesta lapa e na caverna, mas o próprio Santuário da Peninha, já esse, tem um panoramo belo e, se o encontrarem aberto – o que é raro – a capela local é verdadeiramente digna de ser visitada. Podem vê-la no vídeo abaixo:

Mas toda esta lenda da Peninha ainda não fica por aqui. Se esta Nossa Senhora da Peninha curou miraculosamente a pastora da sua mudez, e lhe deu pão, há aqui também um terceiro milagre que é muito menos conhecido. Conta-se, nesse seguimento, que quando o santuário original estava a ser construído ele era de muito difícil acesso aos trabalhadores. Então, a santa fez brotar uma fonte num sítio relativamente próximo deste – agora até chamada “Fonte da Peninha” – para que os construtores e os futuros fiéis tivessem ao menos alguma água para beber. Ela ainda existe hoje, foi renovada recentemente, tinha água quando a fomos reencontrar, mas é difícil de ver do topo da montanha; em alternativa, quem caminhar para este local vindo da Malveira da Serra poderá, sem muita dificuldade, encontrá-la pelo caminho pedregoso.

 

Falar da história e da arquitectura do próprio santuário já escapa aos nossos objectivos de hoje, mas neste relato da lenda da Peninha de Sintra deixamos ainda uma curiosidade final. Lembram-se das duas imagens que mostrámos acima? Se antes, no século XVIII, até pareciam viver pessoas nas casas próximas do santuário (como a gravura parece mostrar), elas estão hoje, como o próprio santuário, renovadas mas quase abandonadas. Quase nada têm no seu interior, porque estão, como o grande recinto quadrangular no cume, inacabadas desde a reconstrução que aqui teve lugar em inícios do século XX. Até quando…?

 

 

P.S.- Voltamos hoje às nossas publicações, com uma semana repleta de cinco temas de diferentes áreas!

Quem foi António Coimbra da Mota?

O estádio de futebol do Estoril-Praia tem, como os aficionados do chamado “desporto-rei” bem saberão, um nome de um homem um tanto ou quanto misterioso, sobre o qual a própria internet também revela muito pouco. Por isso, hoje decidimos que tínhamos de perguntar – Quem foi António Coimbra da Mota?

O Estádio António Coimbra da Mota

Partindo da internet, não encontrámos quase nada sobre este homem, salvo a menção constante e muitíssimo repetida de que esse é o nome do actual estádio do Grupo Desportivo Estoril-Praia. O que é evidente, mas também nada nos ajuda, e infelizmente os dois sites do clube pouco mais informam sobre o tema, excepto que o estádio foi inaugurado a 1 de Janeiro 1939.

Com muita dificuldade, descobrimos depois uma figura, nascida em Cascais a 26 de Outubro de 1908 e falecida na mesma localidade a 26 de Junho de 1972, de seu nome António José Gonçalves Coimbra da Mota, que em data incerta casou com uma tal Joana da Piedade Canas (1911-1993), também ela nascida e falecida em Cascais, e eles tiveram um filho, Álvaro Raul Canas da Mota, nascido em 1931, que se tornou médico. Ainda encontrámos uma sucintíssima referência à primeira destas três figuras como “doutor” (terá sido, também ele, médico?), mas foi apenas isso… ponto final? Não, ou nem estaríamos a escrever estas linhas!

 

Fomos então ao Estoril e tentámos falar com ex-jogadores do clube e idosos que nasceram e cresceram na zona. Quando lhes perguntámos sobre a identidade deste misterioso António Coimbra da Mota, ou nos responderam que não sabiam, ou – e é esse o elemento mais importante que conseguimos encontrar – nos disseram que ele tinha sido, nada mais e nada menos, que o dono dos terrenos em que o estádio foi construído, com um desses idosos até a nos apontar, bem próximo do local, uma pequena casa que, segundo disse, terá pertencido à família dessa figura.

 

Será isto verdade? É digno de nota que toda a família parece ter uma ligação muito significativa ao concelho de Cascais, onde até existe, hoje, uma rotunda com o nome de Álvaro Raul Canas da Mota. Um pequeno ribeiro corre por baixo do estádio; a norte podem ser encontrados alguns terrenos de cultivo, hoje já quase abandonados; a sul, as “portas” do Monte Estoril, com o que poderíamos caracterizar como algumas mansões; a oeste e este, onde outrora existiam pinhais, existem agora quase só casas. Parece um local bastante estranho para se construir um estádio, excepto se se tiver em conta a possibilidade de este se ter tratado de um local cedido por alguém, uma pessoa já afastada das lides do campo, propositadamente para a construção de um espaço de recreio. Supondo que tanto o pai como o filho foram médicos, as diversas peças facilmente encaixam em toda esta ideia, confirmando a informação que nos foi prestada no local. E, face a tudo isto, parece-nos então correcto declarar que António Coimbra da Mota foi, de facto, o doador dos terrenos em que este estádio foi construído.

Duas lendas da Sertã

A Sertã é uma vila no norte de Portugal, mais precisamente no distrito de Castelo Branco. É face ao seu incomum brasão que hoje queríamos falar dela aqui, mas depois encontrámos, por mero acaso, uma outra lenda da mesma região que é digna de nota, e então decidimos concentrá-las às duas numa só publicação.

O Brasão da Sertã

Se não é tão complexo como o de Coimbra ou tão estranho como os de Beringel e de Monção, este brasão contém no topo uma sertã, que é uma espécie de frigideira de outros tempos, e também uma pequena frase em Latim, Sartago sternit sartagine hostes, que quer dizer algo como “A Sertã controla os [seus] inimigos com uma sertã”. Tudo isto se deve a uma lenda, de origem um tanto ou quanto incerta, que nos diz que quando, ainda no tempo dos Romanos, alguns inimigos tentaram conquistar esta povoação, uma mulher local – alguns dizem que o seu nome era Celinda – pegou na sua sertã e com ela derramou azeite quente sobre os opositores, atrasando a sua tentativa de conquista do local, até ao momento em que os homens a puderam defender como fariam habitualmente.

É, portanto, uma lenda simples, mas que também levanta uma questão – como é que a Sertã se chamava antes de todo este episódio de contornos lendários? Se até já era Sertã, Sartago na língua dos Romanos, o que dizer de toda esta estranha coincidência? Não sabemos, nem há forma conclusiva de o saber. Passemos, por isso, a uma segunda lenda da mesma povoação.

A Lenda do Santuário da Nossa Senhora dos Remédios da Sertã

Presente no Santuário de Nossa Senhora dos Remédios da Sertã, este painel de azulejos descreve, de uma forma bastante sucinta, uma lenda local, que podemos resumir nas próprias palavras aí presentes, até porque não são muito fáceis de ler na imagem:

Nesta capela existe, desde tempos imemoráveis, a queixada de uma serpente, que surpreendendo um fidalgo, grande senhor destas terras, se salvou por milagre da Santa Virgem, que lhe deu coragem para se defender de tão horrível monstro.

Assim, essencialmente este fidalgo foi atacado por uma serpente assustadora, pediu a ajuda de Santa Maria (lembrando-nos lendas como as da Nossa Senhora da Nazaré), e a santa inspirou-o a derrotar o monstro; se versões recentes da lenda até dizem que ele o fez com uma espingarda, talvez os tais “tempos imemoráveis” não o sejam tanto como parecem… mas, fora essa discrepância, diz-se então que parte do corpo do monstro foi colocada na igreja local (mas não conseguimos obter confirmação se ainda existe nos dias de hoje).

 

Um local, duas lendas, como tantas outras que podem ser encontradas em povoações do nosso país – uma, que descreve como todo o local parece ter recebido o seu nome; e uma outra, de conteúdo religioso, que explica a razão de ser do santuário local. Ambas breves, mas plenas de significado para aqueles que residem nesses locais, e que demasiadas vezes são desconhecidas dos demais, razão pela qual decidimos recontá-las por cá…

A lenda de Benkei e a ponte

A lenda de Benkei e a ponte é muitíssimo conhecida no Japão… mas porquê contá-la em Portugal? Uma e outra vez, andámos para trás e para a frente com o tema, até que acabámos por reencontrá-la de diversas formas aquando das nossas pesquisas. Depois, um dia, na ponte em que se diz que tudo tomou lugar, em Quioto, acabámos por perceber que esta é uma história culturalmente significativa, pelo que tínhamos mesmo de a contar por cá. Mas fomos adiando e adiando… até hoje! Vamos a isso?

A lenda de Benkei e a ponte

São muitas as lendas que se associam a Benkei na cultura japonesa. O que elas têm sempre em comum é o facto de dizerem que se sabia desde tenra idade que ele era “diferente”, acabando ao longo dos anos até por atingir mais de dois metros de altura, algo extremamente invulgar no Japão.  Depois, ao longo dos anos, treinou as suas artes entre criaturas místicas, aprendeu a usar as sete armas mais famosas da sua época, tornou-se monge, viveu entre os ascetas da floresta, e tantas outras coisas muito impressionantes…

Um dia, por razões que variam mediante as versões da lenda, Benkei decidiu ocupar uma ponte e combater contra todos os samurais que se aproximassem, com o objectivo de vencer 1000 e conquistar as suas espadas*. Fê-lo uma vez. Duas. Três. Vinte. Cem. Duzentas. Quinhentas. Setecentas. 999 vezes… e depois, quando só lhe faltava uma única espada para conquistar o seu objectivo, deparou-se com um jovem no seu caminho. Depressa deu, na sua imaginação, a batalha como ganha, mas… acabou por perdê-la, como mostra este pequeno filme com pouco mais de 80 anos!

Se toda a situação que tomou lugar nesta lenda de Benkei e a ponte é até um pouco satirizada neste desenho animado, o que as várias versões da história a que tivémos acesso deixam claro é que o jovem – se quiserem saber o seu nome, ele era Ushiwaka, mais tarde conhecido como Minamoto no Yoshitsune – venceu o seu enorme opositor não pela força (como tantos outros tinham tentado), mas pela astúcia, ou pelo facto de ter treinado com um Tengu (uma criatura mitológica japonesa que vive nas florestas, e que pode ser vista no princípio do vídeo acima). Então, o enorme combatente, verdadeiramente impressionado, juntou-se ao jovem que o derrotou e serviu-o durante muitos anos. Muito anos mais tarde, este herói lendário viria até a falecer a proteger este seu mestre, cravado por dezenas de flechas, num outro episódio famoso da sua lenda… mas que já ultrapassa o tema de hoje!

 

O que esta lenda de Benkei e a ponte tem de especial, em termos da sua ligação à cultura ocidental, é o facto de ela aparecer, de forma adaptada, em diversas séries manga e anime, bem como em muitos videojogos de inspiração japonesa. Quando, por exemplo, se vê um combatente enorme, e quase sempre até muito musculado, a ser derrotado por alguém muito pequenino, numa espécie de reedição do episódio bíblico de David e Golias, esse momento é, na cultura japonesa, uma espécie de reedição desta lenda que aqui recordámos hoje, e que é tão bem conhecida que uma estátua do episódio lendário pode ser encontrada nas imediações da respectiva ponte de Quioto, no Japão. Por isso, se um dia passarem por lá, não se esqueçam de todo este encontro bem famoso entre os Japoneses…

 

 

*- Neste contexto, porque não recordar até o histórico Passo Honroso ocidental, de que já cá falámos há alguns anos e que até faz lembrar esta lenda nipónica?