A lenda de Deu-la-Deu Martins (e o brasão de Monção)

Falar do brasão de Monção e da lenda de Deu-la-Deu Martins é quase a mesma coisa, já que os dois elementos estão tão intimamente ligados que a heroína, bem como uma das suas mais famosas frases, podem ser vistas no símbolo atribuído a esta vila. Mas porquê? Explicá-lo implica, como é muito natural, contar a lenda escondida por detrás de toda esta situação.

A lenda de Deu-la-Deu Martins (e o brasão de Monção)

Conta-se que no tempo do rei Dom Fernando I, na segunda metade do século XIV, Castela tentou invadir Portugal. Algumas vilas e cidades foram sendo conquistadas, enquanto que outras – como o exemplo de Faria já aqui demonstrou – levantaram uma oposição notável a esse invasor. Monção tentou seguir o segundo desses caminhos, mas os Castelhanos cercaram a vila durante meses, até que a comida e a bebida começaram a escassear. Então, uma das habitantes locais, uma tal Deu-la-Deu Martins, teve a ideia de pegar na pouca farinha que ainda tinham, fazer pães com ela, e dá-los aos inimigos, para dar a entender que os locais ainda tinham tanta comida que até se podiam dar ao luxo de a oferecer aos inimigos. E, de facto, a ideia funcionou – pasmados com toda a ocorrência, depressa se retiraram do local, dando a vitória aos Portugueses!

 

Mas então, onde entra a frase “Deus o deu, Deus o há dado“, tão notória no brasão de Monção? Uma versão pouco satisfatória diz que é apenas uma mera versão corrompida do nome da heroína, a tal Deu-la-Deu, já de si muito pouco comum no nosso país (e já lá iremos…), mas uma explicação bem mais interessante diz que essa terá sido a frase proferida pela heroína aquando do instante em que mostrou os pães ao inimigo. O que faz sentido – se os Castelhanos sabiam da fome dos Portugueses, mas ouvissem que por milagre divino os combatentes nacionais andavam a receber comida, rapidamente entenderiam que a sua era uma luta ingrata, desleal, impossível, levando-os – como até informa a própria lenda – a retiraram-se de volta para os seus territórios.

 

Assim se explica a lenda de Deu-la-Deu Martins e a sua ligação ao brasão de Monção, mas uma última questão poderá estar na cabeça do leitor – afinal, de onde vem o estranho nome desta heroína? É provável que se trate de uma alcunha derivada da própria lenda, ou de algum evento real escondido por detrás da mesma, como mostra o caso de Geraldo Sem Pavor. A ter existido uma figura real a inspirar esta heroína, é provável que o seu apelido até tenha mesmo sido “Martins”, mas a sua verdadeira identidade perdeu-se à medida que ela foi tornada uma figura lendária, e hoje estão as duas tão intimamente ligadas que é já impossível separá-las nas suas componentes históricas e lendárias. Portanto, sobre o nome da heroína, será suficiente dizer que é uma alcunha e pouco mais…

O (outro) Jardim Zoológico de Lisboa

Quando, hoje, se fala de Jardim Zoológico de Lisboa, as pessoas tendem quase sempre a pensar num recinto lisboeta que está localizado na chamada Quinta das Laranjeiras. E é, de facto, aí que ele está, desde 1905 até aos nossos dias de hoje, mas o que já poucos parecem saber é que a capital de Portugal já teve, em outros tempos, um zoo num local muito diferente. Entre os anos de 1884 e aproximadamente 1905 da sua história – ou seja, durante quase 21 anos – ele esteve num local que ora chamam “Parque de São Sebastião da Pedreira”, ora chamam “Parque da Palhavã”, ou mesmo “Parque de Santa Gertrudes”, mas que na verdade são quase um e o mesmo sítio… e que, ainda menos pessoas parecem saber, ainda existe nos nossos dias de hoje!

Entrada do antigo Jardim Zoológico de Lisboa

Na imagem acima pode ser vista uma rua de Lisboa por onde passam milhares e milhares de pessoas todos os dias. Esta entrada acastelada foi outrora a do Jardim Zoológico de Lisboa – ou, como era chamado na altura, o “Jardim Zoológico e D’Acclimação”. O nome gravado nesta entrada desapareceu com os anos, mas a entrada ainda lá está, impávida e serena, como no primeiro dia de todo o espaço. Na altura a entrada custava “100 reis” (não fazemos ideia de quanto será em escudos ou euros), “50 reis para crianças até aos 12 anos e militares sem graduação”, com preços que dobravam às quintas-feiras.

 

Agora, uma pessoa mais curiosa poderá perguntar o que aconteceu a todo o espaço… chegou aos nossos dias um pequeno guia literário deste primeiro zoo, datado de 1884, em que são explicadas as regras do local, onde são reveladas as 56 espécies que lá estavam, e em que é até apresentado um mapa de todo o espaço. Nesse mapa – já voltaremos a ele – é dito que o recinto tinha “14 hectares, oito de parque e seis de terreno arrendado”, e o que aconteceu foi que em poucos anos parte desse terreno – presume-se que o arrendado – deixou de estar disponível, o que levou os responsáveis a procurar um novo local para o seu Jardim Zoológico de Lisboa, acabando este por fixar-se, em 1905 e como já dito antes, na Quinta das Laranjeiras. Mas, então, onde está hoje esse espaço anterior?

Mapa do Jardim Zoológico de Lisboa, no espaço antigo

Na imagem acima pode ser vista uma comparação entre o espaço do antigo Jardim Zoológico de Lisboa e o mesmo local tal como ele está nos dias de hoje. A laranja e a vermelho assinalaram-se uma torre que existe no local e a entrada já mostrada acima. Postos assim, lado-a-lado, os dois espaços, é fácil notar a semelhança que ainda têm hoje, passado mais de um século, até na geometria das ruas que circundam o local, com a Fundação Calouste Gulbenkian a ocupar, agora, parte do jardim original. É difícil saber-se se, passado esta centena de anos, ainda algo resta do espaço zoológico de outros tempos, mas podemos tentar perceber isso…

 

No mapa acima, como já foi referido, encontravam-se oito hectares de parque próprio e seis de terreno arrendado. O primeiro desses dois talhões está na parte superior da imagem, enquanto que o espaço arrendado era onde se localizava a entrada, ou seja, na parte inferior. A existir ainda algo deste espaço antigo, teria de ser entre o que é agora o Museu Calouste Gulbenkian e a entrada do recinto zoológico (o remanescente, na parte superior da imagem, teve vários usos ao longo das décadas, incluíndo o de Feira Popular em 1943). Não abundam, imagens do espaço em questão, mas ele pode ser visto numa gravura de um jornal da época, aqui invertida para reter a perspectiva apresentada acima:

Interior do antigo Jardim Zoológico de Lisboa

Quase ao centro pode ser vista a entrada do recinto (o palácio ao fundo ainda existe, pertence hoje ao Exército), e do lado esquerdo está a torre a que já aludimos acima. Percebem-se aqui pelo menos duas estruturas interiores do jardim, uma ao lado esquerdo da entrada e outra quase na margem do lago… mas parecem ambas frágeis, temporárias, incapazes de sobreviver a um século do nosso tempo humano. Portanto, se algo ainda nos chegou do espaço deste antigo Jardim Zoológico de Lisboa, será apenas a própria entrada, a torre que flancava o recinto, e talvez algumas árvores do seu interior, todos eles num espaço privado a que não é fácil conseguir aceder nos nossos dias. Mas a referência a um espaço que em outros tempos até parece ter sido bonito, essa, poderá perdurar na memória de todos aqueles que se cruzem com a sua antiga entrada, hoje na Rua Marquês de Fronteira (antiga “Estrada da Circunvalação”), a menos de 200 metros do Corte Inglés…

Um Segredo da Ermida de São Saturnino

A Serra de Sintra esconde muitos segredos. Já cá falámos de alguns, como a Anta de Adrenunes ou o Rio da Mula, mas também a Ermida de São Saturnino, muito próxima do Santuário da Peninha, tem os seus. Hoje é quase só um espaço abandonado, como a fotografia interactiva abaixo nos permite constatar, mas a sua importância parece ter variado ao longo dos séculos.

Assim, quem procurar esta Ermida de São Saturnino na internet encontrará repetidamente dois grandes factos sobre ela – foi fundada por Dom Pedro Pais no tempo de Afonso Henriques, i.e. no século XII; e quando uma imagem misteriosa foi encontrada numa gruta próxima, foi levada para este local por um padre, mas depois voltou, miraculosamente, para a mesma gruta, até que foi construído um novo santuário acima da gruta, aquele que agora toma o nome de “Peninha”. Quem procurar mais, saberá depois que o local foi reconstruído algumas vezes, foi usado como estábulo, já teve um pequeno painel de azulejos no local, e outras coisas… Mas é de esse painel de azulejos que nasce o nosso tema de hoje!

Azulejos que um dia estiveram nesta Ermida de São Saturnino

Estes azulejos datam de 1636, como é fácil ler na imagem, mas mostram o que parece ser um livro, um báculo e um chapéu bispal. Porquê esta iconografia? Se o local está associado a São Saturnino, outrora conhecido entre o povo como “São Sandorninho” ou “Sadurninho”, e existem pelo menos seis santos com esse nome, por estes elementos podemos constar que em inícios do século XVII se acreditava que o santo associado à ermida tinha sido bispo, e só parece existir um que corresponda a essa descrição – Saturnino de Tolosa, o primeiro bispo da cidade (francesa) de Toulouse, mártir em meados do século III, e provavelmente até a mais famosa de todas as figuras que partilham este nome.

 

Nesse seguimento, se as muitas lendas até dizem que esse santo pregou na Península Ibérica, desconhecemos qualquer história que o una à zona de Sintra. O que levanta uma questão – porquê dar este nome ao local fundado no século XII, o de Ermida de São Saturnino, quando muitos outros locais da mesma altura – por exemplo, o Mosteiro de São Vicente de Fora ou Santa Maria de Carquere   – têm (quase) sempre uma lenda associada? Será apenas porque o nome deste santo foi, durante séculos e por razões agora difíceis de explicar, popular na Península Ibérica? Ou será que em tempos mais antigos até existiu neste mesmo local um culto romano a Saturno, cujo nome veio, posteriormente, a confundir-se com o do santo?

Sabe-se hoje que os Romanos tendiam a honrar frequentemente esse deus no topo de montanhas; por isso, se foi encontrado, em outros tempos, algum antigo vestígio com o nome do deus no local – e, deixe-se claro, não temos agora qualquer prova real disso – este poderá ter sido confundido com o nome do então-famoso santo, levando à falsa ideia de que possa ter sido ele, e não o deus dos Romanos com um nome muito semelhante, a figura outrora honrada no local.

 

É só uma teoria, admita-se, esta por detrás de uma possível origem do nome da Ermida de São Saturnino, mas pode explicar o porquê da existência de um local dedicado ao santo numa área que, historicamente, não lhe tem qualquer tradição ou milagre associado.

A lenda de Gaia (ou do Rei Ramiro)

A existir um grande elemento que caracteriza as lendas portuguesas de Mouros e Cristãos é o de um amor que tende a surgir entre eles, terminando quase sempre com o casamento – e conversão – de uma bela princesa moura. A lenda de Gaia (a cidade ao pé do Porto), também conhecida como lenda do Rei Ramiro em virtude do seu herói, transporta-nos para esse mesmo imaginário popular, mas com algumas especificidades curiosas, como podemos ver através de um breve resumo:

A lenda de Gaia (ou do Rei Ramiro)

A lenda de Gaia diz então que Ramiro foi o segundo rei desse nome em Leão e viveu na primeira metade do século X. Apesar de já ser casado – algumas versões dizem que o nome da esposa era Aldora, outras chamam-lhe Gaia – apaixonou-se por um bela princesa moura, mas o irmão desta, um tal Alboazer, não a quis dar em casamento. Então Ramiro raptou-a, levou-a para Leão, converteu-a ao Cristianismo e deu-lhe o nome de Artiga.

Porém, face a este rapto Alboazer não se manteve impávido e sereno. Em vez disso, raptou Aldora e parte da sua corte, levando-os para o castelo de Gaia (hoje desaparecido). Ramiro foi ao local com o seu exército e pediu-lhes que aguardassem por um sinal. Depois introduziu-se no castelo, disfarçado de mendigo, e procurou a sua (primeira) esposa, mas esta denunciou-o ao rei mouro.

Capturado, o herói pediu ao monarca árabe um último favor, o de tocar a sua corneta. Quando o fez, o exército próximo entendeu o sinal, atacou a cidade e matou todos os inimigos da fé cristã. Voltando a casa, o rei Ramiro colocou uma mó no pescoço de Aldora e atirou-a ao mar (presume-se que pela sua traição, e não apenas para se livrar dela…), antes de ir viver muito feliz com a sua nova amada, Artiga.

 

Face a tantas outras lendas nacionais de amores de Cristãos por Mouras, de que já cá fomos falando antes, esta lenda de Gaia, ou do Rei Ramiro, é quase um pequeno épico novelesco em três actos. Como é possível, essa profundidade da trama tão incomum em lendas antigas? Na verdade, toda esta história, como é normalmente contada hoje e como a recontámos acima, resulta da fusão de duas lendas medievais com temas muito semelhantes, que se parecem ter confundido ao longo do tempo. Ao consultarem-se essas duas fontes literárias são reveladas algumas curiosas nuances da história. Por exemplo, originalmente a rainha foi atirada ao mar não por ter traído o marido, mas porque tinha tido relações sexuais com Alboazer e agora, sabendo-o morto, no navio chorou e sentiu a falta dele – por isso, nessa versão Ramiro acaba por casar com uma aia da rainha, estando a princesa moura totalmente ausente. Ela só aparece na outra versão, numa espécie de prólogo de toda a história, sendo raptada com o auxílio de um feiticeiro, e depois a história prossegue como acima.

 

É provável que, originalmente, tenham existido duas lendas orais distintas associadas ao Rei Ramiro, e que pela passagem do tempo se tenham começado a confundir-se, gerando uma história como a que temos hoje, e que seria bem apropriada para um filme nacional. Não existe nenhum sobre o tema, tanto quanto conseguimos apurar, mas foi motivo de um filme animado em 1931, A Lenda de Miragaia, que se encontra perdido com excepção de algumas imagens. É pena, porque nos parece, verdadeiramente, uma história digna de nota entre as muitas lendas nacionais de Mouros e Cristãos!

O significado da Sala dos Cisnes no Palácio Nacional de Sintra

Há alguns dias perguntaram-nos sobre a Sala dos Cisnes, no Palácio Nacional de Sintra. Se já cá falámos sobre a lenda da Sala das 136 Pegas, no mesmo palácio, é apenas natural que também falemos deste outro local, até porque parece existir muito pouca informação sobre o porquê desta curiosa simbologia. E, de facto, o site oficial do palácio revela pura e simplesmente o seguinte:

[Esta sala] deve o seu nome à decoração dos painéis do teto, desconhecendo-se a data da sua execução, mas pensa-se que pode ter origem no século XIV, quando Sintra era administrada diretamente por D. Filipa de Lencastre, como parte das Terras das Rainhas. O cisne com coroa foi um emblema utilizado por Henrique IV de Inglaterra, irmão da rainha.

Infelizmente, esta informação revela muito pouco sobre a razão por detrás destes cisnes com uma coroa, ou o porquê exacto da sua representação neste local. Assim, vamos explicá-lo!

A Sala dos Cisnes, em Sintra, e a origem do símbolo

Na imagem acima pode ser visto, do lado esquerdo, um destes animais, tal como ele está representado na Sala dos Cisnes em Sintra. No lado direito está uma representação de um exemplo do chamado “Cisne de Bohun”, um símbolo que a família britânica Bohun utilizava por volta do século XIV. Quando, em 1381, Maria de Bohun casou com Henrique IV de Inglaterra, da casa de Lencastre, esta casa adoptou o mesmo cisne como um dos seus símbolos. E assim, quando Filipa de Lencastre veio para Portugal e casou com o monarca durante o reinado de D. João I, em 1387, o símbolo que era originalmente dos Bohun foi trazido para Portugal por via dessa família dos Lencastres.

Nesse seguimento, se os dois cisnes representados acima são ligeiramente diferentes – o mais antigo tem uma corrente em redor do pescoço, o mais recente uma coroa – o significado por detrás da sua simbologia é quase o mesmo e refere-se a uma famosa lenda medieval, a do Cavaleiro do Cisne, mais conhecido hoje sob o nome de Lohengrin.

O Cavaleiro do Cisne, inspirador da Sala no Palácio Nacional de Sintra

Se a tarefa de contar a complicada lenda do Cavaleiro do Cisne terá de ficar para outro dia – posteriormente, falámos dela nesta outra página – até porque ela tem muitas versões significativamente diferentes, o elemento mais relevante, neste momento, é o facto de nessa história aparecer pelo menos um cisne que corresponde a esta descrição geral, e que mediante a versão consultada um membro desta espécie animal poderá ter uma coroa ou uma corrente ao pescoço. E de facto, na imagem acima, provinda de um manuscrito do século XV e que ilustra uma francesa Lystoire du chevalier au Cygne, pode ser visto este animal quase precisamente como ele é representado no Palácio da Vila sintrense!

 

Em suma, a representação do interessante animal na Sala dos Cisnes, no Palácio Nacional de Sintra, deve-se a Filipa de Lencastre, que quando casou com o rei português Dom João I trouxe para Portugal um símbolo que era originalmente da família britânica Bohun, e que contém um momento famoso da lenda medieval do Cavaleiro do Cisne.

 

 

P.S.- Para quem ainda não conhecer o Palácio Nacional de Sintra, este pequeno vídeo do Youtube permite ver a sala em questão de uma forma virtual – notem as aves no tecto, que são o elemento que lhe deu o nome!