Casa do Preto – qual a origem do nome?

Em Sintra pode ainda hoje ser encontrada uma famosa pastelaria com o nome Casa do Preto. Mas qual a origem do nome, a sua história? Se ele foi o do espaço comercial desde a sua abertura, há já 90 anos atrás, e o recinto se manteve sempre famoso em virtude das suas queijadas*, de onde terá vindo um nome que poderá parecer tão incomum nos dias de agora? Porque se chama casa do preto?

A origem do nome da Casa do Preto

Essencialmente, a Casa do Preto sintrense obteve o seu nome de uma pequena estátua de madeira que até há uns poucos anos podia ser vista quase em frente da sua porta principal. Ela era retirada do local durante a noite e quando o espaço estava encerrado – não fosse o proverbial diabo tecê-las… – mas salvo essa ausência temporária, era o grande símbolo, uma espécie de mascote avant la lettre, de todo o local, representando uma espécie de rapaz de entregas de outros tempos. E ele era efectivamente preto, não se tratando de qualquer espécie de racismo.

Assim se explica a origem deste seu nome (o de Sintra, em vez de Cintra, já cá falámos antes), mas permanece uma pequeno mistério, o da origem da estátua. Fomos ouvindo essencialmente duas grandes histórias, que em comum nos dizem que ela precede a abertura da Casa do Preto, mas enquanto algumas opiniões nos dizem que ela foi adquirida numa casa de móveis, tendo originado de parte incerta, já outras repetem que ela foi criada pelas próprias mãos de um dos familiares do proprietário. A segunda destas opiniões parece-nos mais acertada que a primeira, já que permite explicar o porquê de não existirem muitas outras estátuas semelhantes pelo país fora.

 

Então, e hoje, que é feito desta Casa do Preto? Lá continua ela, no sítio do costume, localizada quase às portas da vila de Sintra, na Estrada de Chão de Meninos, mas a famosa estátua desapareceu do seu local original há alguns hoje. Dessa “mascote” original resta agora uma representação numa parede e as queijadas que em outras alturas eram colocadas, simbolicamente, no tabuleiro transportado pelo “preto”.

 

 

*- Isto pode levantar uma questão – quais são as melhores queijadas de Sintra? As da loja aqui em questão, as da Sapa, as do Gregório, ou as da Piriquita? Há já alguns anos tentámos descobri-lo, provando uma de cada loja, mas pareceram-nos muito semelhantes, sem que se consiga afirmar definitivamente que as do local X são melhores que as dos restantes – aceitam-se opiniões, podem deixá-las nos comentários se assim o desejarem. Contudo, este espaço tem um grande vantagem face aos outros, que é o facto de ter um parque de estacionamento gratuito para os seus clientes mesmo ao lado, o que dá muito jeito a quem vem de longe para comprar estes bolos…

A lenda de Guesto Ansures (e a Canção do Figueiral)

A acreditar-se nesta lenda de Guesto Ansures (ou Ansur), ele terá sido possivelmente um dos mais poderosos cavaleiros que já viveram em terras de Portugal. E confesse-se que não o dizemos de ânimo leve, mas como a sua história provará; já lá iremos, por agora aqui fica uma cantiga que dizem ter sido escrita pelo herói, mas que é quase certamente apócrifa (até podem ouvi-la carregando na imagem), e que costuma tomar o nome de Canção do Figueiral *:

A lenda de Guesto Ansures

Agora, relembre-se a lenda deste homem a quem também chamaram Guesto Ansur. Conta-se que nos século VIII e IX da nossa era um monarca árabe de Córdova instituiu o chamado “tributo das cem donzelas”, em que as cem jovens mais belas dos seus domínios lhe deveriam ser entregues todos os anos**. A estranha tradição continuou durante anos, até que calhou a vez de uma tal Sancha (ou Mécia, mediante a versão). Quando estava a ser levada para Córdova, juntamente com cinco outras donzelas das redondezas, pararam próximas de um figueiral. Tristes com o seu destino, todas as seis choraram, até que um cavaleiro misterioso se aproximou.

Quando Sancha/Mécia lhe contou o que se passava, ele prometeu defendê-las contra todos os males deste mundo – depois, combateu contra os muitos Mouros que as tentaram levar (na versão mais estranha que encontrámos o seu número era de 1000000!), vencendo-os com a sua espada, e quando esta se partiu, ele arrancou um ramo de uma figueira e continuou o seu combate, até que não restaram mais opositores. E então, cumprida a sua promessa, escoltou as seis damas de volta aos locais em que viviam antes, e o pai de Sancha/Mécia naturalmente que concedeu a honra do casamento com a filha ao salvador, cujo nome era Guesto Ansures!

 

Diz-se que o local em que Guesto Ansures encontrou as seis damas tomou depois o nome de Figueiredo das Donas – perto de Vouzela, em Portugal – em honra de toda esta ocorrência, mas pouco mais se sabe sobre a vida deste nobre cavaleiro, com excepção dos factos de (possivelmente) ter escrito aquela canção reproduzida ali em cima e ter tido um filho, que se poderá ter chamado Guestes Ansur[es?]. Contudo, e muito infelizmente, o chamado “tributo das cem donzelas” parece ter continuado por mais tempo (uma espécie de sequela desta lenda até teve a intervenção de Sant’Iago), pelo que se ele salvou seis mulheres com as suas acções honrosas, pelo menos as 94 restantes foram entregues em Córdova, como era habitual. Mas isso já são outras histórias, e o que nos interessa aqui hoje é mesmo a aventura deste poderoso cavaleiro e a forma como ele salvou algumas damas de um destino que lhes parecia muito assustador…

 

 

*- Para quem quiser uma tradução desta Canção do Figueiral, existe uma da autoria de Antero de Quental. Ela diz o seguinte:

No figueiral figueiredo,
Lá no figueiral entrei;
Seis donzelas encontrara,
Seis donzelas encontrei;
Para elas caminhara,
Para elas caminhei;
Chorando a todas achara,
A todas chorando achei;
Logo ali lhes perguntara,
Logo ali lhes perguntei;
Quem foi que ousou maltratá-las,
Tratá-las de tão má lei?

No figueiral figueiredo,
Lá no figueiral entrei;
Uma de elas respondera:
“Cavaleiro, não o sei…
Mal haja, mal haja a terra
Que tem mau e fraco rei,
Que se eu as armas vestira,
Por minha fé, que não sei,
Se homem ousara levar-me,
Levar-me de tão má lei…
Com Deus ide cavaleiro,
Ide com Deus, que não sei
Se onde me falais agora
Nunca mais vos falarei”.

No figueiral figueiredo,
Lá no figueiral entrei;
Eu então lhe replicara:
“Por minha fé, não irei;
Antes olhos de essa cara
Bem caros os comprarei;
A longas terras distantes
Só por seguir-vos me irei;
Por caminhos desvairados
Atrás de vós andarei;
Línguas moiras de aravias
Por vós eu as falarei;
Moiros se me aparecerem
A todos os matarei.”

No figueiral figueiredo,
Lá no figueiral entrei;
Nisto o mouro que as guardara,
Perto de ali encontrei;
Se ele bem me ameaçara,
Eu melhor o ameacei;
Um tronco seco esgalhara,
Um tronco seco esgalhei;
Com ele a todos matara,
A todos desbaratei;
As donzelas libertara,
Todas sim as libertei;
Aquela que me falara
Com ela me casarei.
No figueiral figueiredo,
Lá no figueiral entrei.

**- A lenda não preserva informação relativa ao porquê de ele as querer, ou mesmo como esse critério de beleza era determinado. Mistérios da vida…

 

P.S.- Uma pequena lenda nacional diz ainda que a esposa deste cavaleiro, após a sua morte, fundou o Convento de Arouca. Não conseguimos encontrar muito mais informação sobre essa espécie de “sequela” desta história, mas achámos que uma breve nota sobre ela também deveria ser dada aqui.

A lenda de Preste João das Índias

A termos de eleger apenas uma entre as histórias mais populares do tempo dos Descobrimentos, ela seria quase certamente a lenda de Preste João das Índias. Contudo, ela não é uma lenda puramente portuguesa, mas sim uma que nasceu em Roma e que ao longo dos séculos se foi propagando por toda a Europa e pelo mundo fora, sofrendo metamorfoses contínuas. Assim se compreende que ela tenha um cerne central, em redor do qual depois foram sendo adicionados novos elementos. Conte-se portanto essa lenda, até para que quem lê estas linhas possa julgar onde termina a realidade e começa a pura ficção.

A lenda de Preste João das Índias

Conta-se que em 1122 um misterioso “João”, que se identificou como “Patriarca das Índias”, foi a Roma e falou com o Papa Calisto II, contando-lhe as muitas maravilhas que existiam nas suas terras, num reino que disse ter sido fundada por São Tomé, o apóstolo enviado por Jesus Cristo para evangelizar a Índia, numa história então famosa dos (apócrifos) Actos de Tomé. Fosse só isto, estes eventos atestados em duas fontes literárias distintas, e a história depressa teria sido esquecida, mas em 1141 teve lugar a batalha de Qatwan, em que os Islâmicos sofreram pesadas derrotas, o que inspirou ainda mais a ideia de que existiria, algures em terras do Oriente, um local em que um poderoso monarca cristão tinha o seu reino – como ele ficou famoso como Preste João é algo sobre que existem muitas opiniões mas poucas certezas, até porque uma famosa carta latina associada a esta figura – aí já identificada especificamente como Presbiter Iohannes – depressa apareceu em terras europeias.

 

Depois, os anos foram passando e gerou-se uma nova ideia, de que “Preste João” não era, na verdade, um nome de um homem específico, mas sim uma espécie de título de nobreza, que era passado de homem para homem quando alguém ocupava o trono desse reino cristão. E isto foi gerando mais e mais lendas – algumas diziam que ele vivia algures em África, “na Etiópia”, enquanto que outras lhe atribuíam uma sede em terras da Ásia. Umas diziam que ele tinha sido vencido e desterrado do seu reino, enquanto que outras lhe atribuíam um império perpétuo algures num dos locais que foram sendo descobertos pelos Portugueses. E, talvez mais que tudo o resto, alguns acreditavam nesta história, enquanto que outros também pareciam acreditar nela, mas diziam que os muitos milagres desse reino tinham sido demasiado exagerados no passado – séculos se foram passando até que só em meados do século XVIII começaram a aparecer as primeiras vozes discordantes, aquelas que negavam até a mais pequena pinga de verdade por detrás da lenda de Preste João das Índias.

 

Hoje, acreditamos que a lenda é apenas e puramente isso mesmo, uma lenda e nada mais. Mas em outros tempos acreditou-se verdadeiramente nessa possibilidade, nessa quase-certeza de que existia um enorme reino cristão no Oriente. Foi até essa uma das razões que inspirou a expansão ultramarina nacional – se existia um tal reino em terras da Índia, estabelecer relações com ele seria de enorme proveito para as potências ocidentais. Isto levou-as em busca desse reino, até que acabaram por se aperceber de que ele não podia ser encontrado em lado nenhum – reza até a história de que os navegadores Portugueses inquiriram, uma e outra vez, em terras de África se algum monarca conhecia este famoso rei, apenas para lhes ser respondido um sempre contínuo “não”.

Um mapa das terras de Preste João?

Veja-se, por exemplo, este mapa do século XVI. Ele mostra parte da costa oriental de África – estão até uns elefantes na parte superior esquerda e a Arábia do lado direito – e todo o local é identificado como se tratando do império de um “Presbítero João”, outros dos nomes dados à figura hoje aqui em questão. Mesmo que ele nunca tenha sido encontrado, vestígios como este, puramente históricos, atestam bem a sua popularidade contínua ao longo dos séculos – de facto, até o padre Francisco Alvares, que viveu nos séculos XV e XVI, quando falhou a tarefa de encontrar o famoso monarca, ainda intitulou uma sua famosa obra como Verdadeira informação das Terras do Preste João das Índias, por ser essa figura o grande e mais famoso referencial que a cultura europeia então tinha para as misteriosas terras do Oriente (ou da África ainda desconhecida).

 

E depois… ao longo do tempo, pela incapacidade contínua em se encontrar este seu reino, ele foi sendo esquecido, uma espécie de enigma que nunca foi completamente desvendado. Ainda hoje podem ser encontradas na internet muitas perguntas – em Inglês – como Where Did Prester John live? ou Was Prester John real? – foi ele real? E, em caso positivo, onde viveu? Se toda esta lenda começou em 1122, com um misterioso “João, Patriarca das Índias” que foi a Roma, procurar o reino do monarca é conseguir compreender quem foi esta misteriosa figura real, que acabou por gerar toda a grande lenda europeia. Mas ela, com excepção dessa passagem pela cidade eterna, parece ter sido esquecida. Seria um esquema maluco, uma falcatrua, como os falsos regressos atribuídos a Dom Sebastião? Em caso negativo, de onde vinha, afinal de contas, esse homem? Encontrar Preste João das Índias implicaria localizar a verdade por detrás do homem que gerou toda esta lenda, mas sobre o qual já quase nada sabemos…

A lenda da Cabeça da Velha (na Serra da Estrela)

A lenda da Cabeça da Velha é um bom exemplo de um problema significativo que há nos nossos dias de hoje. É demasiado fácil, quando se busca a origem de “algo”, pura e simplesmente abrir-se o Google, colocar-se meia dúzia de palavras por lá, e depressa nos contentarmos com o resultado, mesmo que ele possa até não estar correcto.

A Lenda da Cabeça da Velha

Por exemplo, na Serra da Estrela pode ser encontrado um local conhecido como a “Cabeça da Velha”. Tem esse nome porque, como é fácil notar na imagem acima, se assemelha à face enrugada de uma idosa. Mas será que tem alguma lenda por detrás dela? Quem decidir recorrer ao Google depressa encontrará, sem muitas dificuldades, alguma página como a do turismo da Covilhã. A lenda que apresenta é muito simples – dois amantes da Serra da Peneda andavam a encontrar-se às escondidas com a ajuda de uma velha aia. Por razões menos claras, prometeu até que se os traísse se transformaria em pedra. Um dia, o tio da jovem apaixonada, que não consentia o namoro, viu a velha com uma carta, que se apurou ser de conteúdo amoroso, e então forçou-a a trair os amantes, obrigando-a a divulgar o local do próximo encontro. Depois, quando os dois jovens se encontraram no local combinado, viram que a velha se tinha mesmo transformado em pedra e depressa compreenderam que tinham sido traídos. Fugiram para a Galiza para poderem viver o seu amor.

 

Esta lenda da Cabeça da Velha é, de facto, muito simples, mas quem prestar atenção à versão ali mencionada verá que ela se refere à “serra de Peneda”, ou seja, a um local que está a quase 200 Km de distância (em linha recta). A rápida fuga dos amantes para a Galiza, no noroeste de Espanha, ainda mais indica que toda a história não se refere à Serra de Estrela, mas sim a um local completamente distinto. Ou seja, para se escrever aquela pequena história “da Covilhã” (as aspas são intencionais e aqui bem justificadas), alguém foi pago para ir ao Google e, sem qualquer sentido crítico, copiar o que viu por lá, mesmo que não faça qualquer sentido no contexto covilhanense.

 

Mas então, se existe uma Cabeça da Velha também na Serra da Estrela, qual é mesmo a sua lenda? Existem muitos outros locais em Portugal com nomes semelhantes – o Calhau da Velha, o Penedo da Velha, o Cabeço da Velha, etc. – e as suas lendas podem, de um modo geral, ser resumidas em dois grandes polos:

  • Num deles, uma velha vivia perto de uma determinada rocha, e então o local tomou o nome por esta ter realizado alguma acção notável no local. Por exemplo, a Pedra Amarela, em Sintra, também poderia ter tomado um nome como “Penedo da Velha dos Ovos”;
  • No outro, “algo” aconteceu e fez com que uma velha se transformasse em pedra, como no exemplo já recontado acima. Nestes casos, a rocha em questão tem, naturalmente, a forma humana.

 

Face ao segundo polo, e porque o local em questão na Serra da Estrela tem mesmo a forma humana, como já vimos acima, a existir uma lenda associada a ele, teria de nos explicar o porquê da transformação. Não conseguimos encontrar nenhuma que o fizesse – é provável que, a ter existido no passado, se tivesse tratado de uma lenda oral que foi sendo progressivamente esquecida, como afiança o facto de existir também uma “Cabeça do Velho” a cerca de 13 Km de carro, também ela sem qualquer lenda hoje associada.

 

Mas, ao mesmo tempo, os mitos e lendas não são entidades estáticas. Não existe ninguém que diga, legalmente, que não podemos criar as nossas próprias histórias. Assim sendo, porque não imaginar uma história de amor eterno entre o Velho e a Velha, nestas terras da Serra da Estrela, quando todas as noites eles fitam um mesmo céu e recordam as incontáveis pessoas que ao longo do tempo foram passando nestes locais e reconheceram as suas duas figuras gravadas na eterna pedra? E não precisam do Google para si – basta a imaginação…!

A lenda da Estátua da Ilha do Corvo

A lenda da Estátua da Ilha do Corvo, que também ficou conhecida como Estátua Equestre da Ilha do Corvo, é uma que dá muito que pensar, como uma espécie de estranho episódio de Ancient Aliens. E, tal como um episódio dessa série do Canal História (e não, não fomos pagos para lhes fazer publicidade), também deixa muito mais perguntas do que aquelas que responde. É verdadeiramente fascinante, reafirme-se isso, porque parece sugerir muita coisa mas, ao mesmo tempo, não oferecer qualquer espécie de respostas reais. Por isso, comece-se por apresentar toda esta estranha lenda.

 

A Ilha do Corvo, nos Açores, foi descoberta (ou potencialmente redescoberta), pelos Portugueses por volta do ano de 1452. Quando lá chegaram não encontraram vivalma na ilha, e supuseram, de uma forma muito natural, que nunca ninguém lá tivesse vivido. Até que, com o passar dos anos, foi encontrada uma estátua no local. Damião de Góis nunca a viu na primeira pessoa, mas dá-nos alguma informação sobre ela:

  • Representava um homem a cavalo, com o cabelo descoberto, e que com o indicador direito apontava para oeste;
  • Por baixo da estátua estava uma inscrição, já muito apagada, em caracteres que não eram latinos e que ninguém conseguiu compreender;
  • A estátua, e a respectiva base, estavam colocadas num local de muito difícil acesso, só acessível fazendo descer homens com cordas para o local;
  • O Rei Dom Manuel (monarca entre 1495 e 1521) mandou fazer uma imagem da estátua, da autoria de Duarte D’Armas, naquele que foi provavelmente o único evento digno de nota na vida desse pintor. Posteriormente, o mesmo rei mandou também removê-la do local, presumivelmente para a trazer para Portugal, mas ela já estava muito danificada – talvez pela influência contínua dos elementos durante séculos? – e partiu-se em muitos pedaços. Os seus restos foram trazidos para o país, entregues ao rei, e após esse momento desaparecem da história.

A lenda da Estátua da Ilha do Corvo

Agora, se pelos momentos finais da lenda é óbvio que esta Estátua da Ilha do Corvo já não pode ser encontrada no seu local original, talvez ainda fosse possível encontrar as letras a que Damião de Góis se referiu, que poderiam descortinar todo o mistério por detrás da sua origem. Partimos em busca do local e já ninguém parece saber muito bem onde era, mas existe um local nesta ilha que ainda é conhecido como a “Ponta do Marco” – possivelmente por aí ter existido a tal estátua, que em dada altura até deu ao local o nome de “Ilha do Marco”. É de difícil acesso, mas parece existir uma gruta no local (um pequeno vídeo pode ser visto aqui), sendo possivelmente mesmo este o local a que se refere a lenda. Resta saber é se algo de significativo ainda pode ser encontrado no local…

 

Mas, mesmo que já nada de físico aí possa ser encontrado, esta lenda da Estátua da Ilha do Corvo deixa uma questão enorme. A acreditar-se no que foi reportado no século XVI, já alguém teria pelo menos passado pela ilha antes da sua (re)descoberta pelos Portugueses e até sentido a necessidade de deixar um vestígio da sua presença no local. Teriam sido Gregos, Cartagineses, Vikings, Extraterrestres, …? E, mesmo em qualquer um desses casos, porquê deixar uma estátua num local de tão difícil acesso? Terá alguém apenas sentido a necessidade de a fazer desembarcar e deixar no local, por razões agora desconhecidas? Nada sabemos, nem temos quaisquer respostas para oferecer, excepto afirmando que poderá ter existido passagem humana pela Ilha do Corvo antes da sua redescoberta em 1452.