A verdadeira origem do nome do Chiado

Qual é, na verdade, a origem do nome do Chiado lisboeta? “Ele veio de um poeta” – diriam alguns – “até existe uma estátua à saída da estação do metro!” Mas… e se vos dissermos que podem estar enganados? Numa cidade que até ao Terramoto de 1755 esteve tão pejada de nomes religiosos, porque haveria de existir uma zona com o nome de um poeta que, admita-se em toda a verdade, já quase ninguém leu? É a busca por esse significado que aqui iremos apresentar hoje, mas tenha-se em conta que as linhas que se seguem serão longas…

Qual a origem do nome do Chiado?

Portanto, pense-se no seguinte. Historicamente, a termos de dar o nome de um poeta nacional a uma zona de Lisboa, a escolha mais óbvia seria Luís de Camões (com ou sem pala no olho). E falamos até desse autor dos Lusíadas porque no prólogo do seu Auto do El-Rei Seleuco, de meados do século XVI, surge uma frase curiosa da boca de uma das personagens:

Ainda vossas mercês não ouviram uma trova. Faço-as tão bem como o Chiado.

Depreende-se, portanto, que no tempo de Camões, ou um pouco antes, existisse uma figura conhecida pelas suas trovas com este nome real ou alcunha. Visto que esse nome não abunda em Portugal, depreende-se, quase automaticamente, que também tenha sido ele a dar o nome à zona lisboeta – caso encerrado, nesta busca pela origem do nome do Chiado? Não, nem por isso, porque se se pensar mais no tema nota-se o estranho que toda essa possibilidade é, mesmo que se queira supor, como alguns já fizeram, que o poeta tenha vivido na zona – como explicar que um autor de segunda ou terceira linha tenha dado o seu nome a algo no século XVI, quando o grande autor dos Lusíadas não o fez?!

Assim, face a este problema, já outros dizem que o nome veio de um taberneiro lisboeta da época, um tal “Gaspar Dias”, que supostamente tinha a sua casa comercial na zona. O que, no entanto, levanta outra dúvida – como é que sabemos isso?! Quer dizer, se alguém associa o nome que buscamos seja ao poeta (que, na verdade, nasceu António Ribeiro), seja a este Gaspar Dias, de onde lhe vem mesmo essa informação? É uma questão verdadeiramente importante, mas que as muitas respostas encontradas na internet e em jornais tendem repetidamente a ignorar…

 

Em busca de uma resposta mais fiável traçámos a fonte dessas informações até finais do século XIX, inícios do XX, altura em que Alberto Pimentel decidiu editar algumas das obras do poeta, então já muito esquecidas. No seu livro Obras do Poeta Chiado, em jeito de prefácio este autor defende, recapitulando as diversas opiniões anteriores, que essa personagem veio para Lisboa em meados do século XVI, depois de abandonar uma vida religiosa, e se tornou tão famosa que acabou por dar nome ao local em que viveu.

Porém, anos mais tarde, no livro O Poeta Chiado, o mesmo autor acrescenta que encontrou um novo documento, que os seus antecessores não consultaram (i.e. foi ele o primeiro a trazer à luz essa informação, permitindo defini-lo como a fonte dessa informação), e que atesta que até circa 1567 tinha vivido em Lisboa, mais precisamente na Rua Direita da Porta de Santa Catarina*, um “Gaspar Diaz o chyado d’alcunha vynhateiro” (ou “Gaspar Diaz Chyado”). Como o autor admite igualmente, não se percebe se a alcunha deste homem era Chyado ou Vynhateiro, mas a presença do artigo “o” na primeira referência, bem como a referência habitual à profissão em documentos da época, pode dar a indicar a primeira hipótese. Infelizmente não conseguimos consultar o próprio documento – ele está na Torre do Tombo mas não se encontra digitalizado (não é caso único) – mas fazendo fé apenas na transcrição parcial de Alberto Pimentel, em lado nenhum é dito que este homem tinha uma taberna (ele parecia fazer ou vender vinho, o que não é bem o mesmo).

Ao mesmo tempo, o autor também encontrou num manuscrito de título Diversas historias e ditos facetos a diversos propositos, que nos diz que “deve ser anterior ao ano de 1617”, um conjunto de histórias jocosas referentes a um homem astucioso deste nome. Não as cita directamente, parafraseia algumas delas, não sendo 100% claro pelo seu texto se se referem sempre ao poeta ou também a outra figura; o documento parece estar na Torre do Tombo**, mas entre as várias tramas aí apresentadas conta-se a seguinte, que aqui reproduzimos a puro título de curiosidade:

Passando o Chiado pela porta da Sé viu um grupo de muchachos e, dando-lhes atenção, ouviu-os dizer:
– Eu tomara ser bispo.
– Eu tomara ser papa.
– Eu tomara ser rei.
O “herói”, acercando-se deles, interpelou-os dizendo:
– E sabeis vós o que eu tomara ser?
– …?
– Tomara ser melão, para que me beijardes [no sítio onde se beijam os melões]***.

Essas descobertas levantam três grandes possibilidades… se o nome da zona de Lisboa ainda não parecia existir antes do século XV, quem lhe deu essa designação? O poeta, o vinhateiro, ou uma possível figura popular de identidade incerta? Alberto Pimentel parece resolver o problema identificando o terceiro com o poeta e dizendo que António Ribeiro veio para Lisboa e ficou em casa de Gaspar Diaz, possibilitando uma espécie de transferência de alcunhas… o que é estranho, porque não é por termos um amigo com uma dada alcunha que nos começam a chamar o mesmo! Então, se várias figuras partilhavam esse mesmo nome, de onde vinha ele? Conforme a mesma obra também esclarece, na altura a palavra significava nada mais, nada menos, que “astuto” – algo que tanto o comerciante de vinhos, como o poeta e a figura popular, poderiam ter sido!

 

Portanto, a acreditarmos que viveram mesmo na zona em questão, e que até o possam ter feito na mesma altura, poderá ser isso que contribuiu para a dificuldade em descobrir a identidade da figura por detrás da origem do nome actual. Hoje, quando dizemos “vamos ali a X”, depreende-se que esse X tenha lá algo de notável – mas seria uma loja de Gaspar Diaz, ou o local em que um poeta, potencialmente famoso na cultura popular da época por mais do que os seus versos, tinha vivido? Será que alguns poemas eram declamados sob o efeito do dom de Baco, como algumas historietas parecem indiciar vagamente? Será que as figuras até se conheciam? Ou, talvez até mais importante, qual delas tinha um maior potencial para não ser esquecida ao longo do tempo? De uma forma irónica deve notar-se que ambas foram (quase) esquecidas, daí até a dificuldade em saber-se qual delas a mais – e menos – importante… mas, a tratar-se mesmo do poeta, ele poderá ter sido famoso entre o povo não tanto pelos seus versos, hoje quase olvidados, mas por todo um conjunto de histórias populares brejeiras que lhe foram sendo associadas – conforme apontado por Alberto Pimentel, pelo menos uma delas aparece mais tarde também associada a Bocage, dando-nos a perceber que a sua verdadeira origem já estava esquecida na segunda metade do século XVIII.

 

Quando a estátua foi colocada no local, foi-o por se considerar horizontalmente o poeta, o autor de trovas, como a origem do nome popular do Chiado. Mas foi-o quase sem provas reais, porque se depreendeu que o incomum nome só poderia mesmo vir dele. Mas, acreditando então que existiu no local uma loja de vinhos proeminente (o documento já referido acima dá a entender que o seu proprietário e a respectiva esposa tinham posses significativas), será que ela não poderá ter sido, numa dada altura, tão popular que passou a dar o nome à rua em que estava localizada, e que o facto de António Ribeiro também ter vivido lá é pura coincidência? Poderá pensar-se em toda a questão da seguinte forma – quando alguém nos diz “vou ali ao Ronaldo”, se a casa do futebolista for em frente a um restaurante com mais de 50 anos que até partilha o mesmo nome, como sabemos nós a que local a pessoa se referia? Sabemo-lo porque a conhecemos, conhecemos os seus hábitos e o seu contexto pessoal… mas no caso aqui em questão, e desconhecendo-se hoje o contexto da época, é difícil conseguir tirar essa conclusão.

 

Assim sendo, qual é a verdadeira origem do nome do Chiado? Numa dada altura do século XVI viveu numa determinada rua lisboeta um Gaspar Diaz, comerciante de vinhos, que tinha essa alcunha – isso é certo! Mas crê-se, agora com menos certezas, que António Ribeiro, poeta e potencial herói de histórias brejeiras, também aí tenha vivido e partilhado a mesma alcunha. É, na nossa opinião, possível que tenha sido a conjugação de todos estes factores que levou ao nome popular da rua, mas também à enorme dificuldade em traçar a sua verdadeira origem. Por isso, afirmar, sem quaisquer dúvidas, que o nome veio mesmo do trovador – hoje quase esquecido, mas um dia também conhecido por meio de algumas aventuras ordinárias – não é completamente certo… e essa é a melhor resposta que temos para dar, pelo menos neste momento!

 

 

*- Pelo contexto depreende-se que tenha sido uma perpendicular à Rua da Misericórdia. A porta em questão, que dava nome à antiga rua, foi demolida no início do século XVIII, mas um pedaço da muralha ainda pode ser visto no interior do número 12 da Rua da Misericórdia.

**- Um enorme agradecimento aos funcionários da Torre do Tombo, que nos permitiram localizar este documento – aparentemente ele é o número 1817 dos manuscritos da livraria, mas ainda não está disponível online. A informação interna apenas informa que a obra em questão inclui “poesias, anedotas e notícias várias”.

***- Essa censura partiu do próprio Alberto Pimentel, que admitiu que algumas das histórias presentes no documento eram de natureza “pornográfica”.

Sobre a estátua da Rotunda da Boavista

Agora falamos de uma curiosa estátua na Rotunda da Boavista, no Porto, para que ninguém diga, face à publicação sobre o Arco da Rua Augusta, que nos focamos sempre e demasiado na capital. Assim, para quem visita a cidade e gosta mais ou menos de futebol, é quase obrigatório comentar o que se vê no local, uma representação de um leão a matar uma águia.

Estátua da Rotunda da Boavista

Podem ser muitas as piadas que se fazem sobre isto, desde a rivalidade Sporting – Benfica (e, sobre o nome e símbolo de Benfica, já cá falámos antes), até à ausência notável de um dragão no conjunto escultório, passando pela “boa vista” que o local causa sempre aos sportinguistas, mas… afinal de contas, o que representa mesmo todo este monumento? Podemos explicá-lo, mas fazê-lo implica partir de uma história mais pessoal, que é provável que já muitos outros visitantes da cidade já tenham partilhado antes.

Se, como nós, não forem da zona do Porto, é muito provável que tenham passado por esta rotunda de carro. Assim, também tiveram uma certa facilidade em ver o que está no topo de todo o monumento, mas sem terem acesso à base desta estátua na Rotunda da Boavista. E esse é um elemento muito importante, porque dá um contexto à representação dos dois animais. Na verdade, este é o chamado “Monumento da Guerra Peninsular”, um conflito que teve lugar entre 1808 e 1814, e na sua base estão colocadas várias esculturas alusivas à mesma (elas podem ser vistas virtualmente aqui) e ao episódio histórico da Ponte das Barcas. Nesse seguimento, o que o capitel tem representado é mesmo uma águia e um leão, porque em inícios do século XIX esses eram respectivamente os símbolos da França e de Inglaterra; como esse segundo país ajudou Portugal a defrontar os seus opositores franceses, o seu símbolo é aqui representado em posição de destruir o grande adversário nacional.

 

Feliz ou infelizmente, esta estátua da Rotunda da Boavista nada tem a ver com futebol. O Benfica foi fundado em 1904, o Sporting em 1906, o Futebol Clube do Porto em 1893 (e o clube que partilha o nome desta rotunda é de 1903, para quem estiver com essa curiosidade), mas esta famosa estátua data logo da primeira metade do século XX, possivelmente de quando passaram cem anos daquele tal episódio da Ponte das Barcas, apesar de ter demorado quase meio século a ser concluída. Talvez assim se explique, ainda nos nossos dias de hoje, a ausência de um dragão portuense no local, que certamente muito agradaria à grande maioria dos habitantes da cidade…

A simbologia do Arco da Rua Augusta

Se se costuma chamar à Praça do Comércio a mais famosa de Portugal, seria justo dizer que o Arco da Rua Augusta, a muito escassos metros a pé, é obrigatoriamente o mais conhecido dos países lusófonos. Foi construído no século XIX, para celebrar a vitória da reconstrução da cidade face ao Terramoto de 1755, o seu arquitecto original foi Eugénio dos Santos, e… mais do que debitarmos aqui todo um conjunto de dados históricos e arquitectónicos, lançamos é uma pergunta – quantos de nós já olharam para ele? Olhar a sério, com os proverbiais olhos de ver? Por estranho que pareça, mesmo entre os lisboetas parecem ser muito poucas as pessoas que o fazem – de facto, fomos perguntar a várias pessoas que vivem nessa cidade e nenhuma delas o parece já ter feito. Assim, prestemos alguma atenção à simbologia do local:

O Arca da Rua Augusta, curiosidades

O Arco da Rua Augusta, também conhecido como Arco do Terreiro do Paço (um nome alternativo dado a todo este local), tem em si um total de 10 figuras. Nos dois lados – número 1 e 6 na imagem – estão representados os rios Tejo e Douro, como os limites tradicionais da Lusitânia; o Douro, do lado direito, pode ser reconhecido em virtude de um cacho de uvas que tem na sua mão. Quatro outras figuras são famosos heróis nacionais – Viriato (n. 2, como fundador), Vasco da Gama (n. 3, como expansor), o Marquês de Pombal (n. 4, como reconstrutor) e o Condestável, Nuno Álvares Pereira (n. 5, como defensor). No topo está a Glória personificada (n. 8) a coroar o Génio (n. 7) e o Valor (n. 8), que podem ser identificados pela coroa, lira e o leão. Ao centro, n. 10, está o brasão de Portugal, com os característicos sete castelos, cinco escudos e “30 moedas pelas quais Judas vendeu Cristo” (um outro tema fascinante, mas que terá de ficar para outro dia). O texto em Latim, que separa o brasão das figuras superiores, diz-nos então as seguintes palavras:

VIRTUTIBUS MAIORUM
UT. SIT. OMNIBUS. DOCUMENTO. P.P.D.

Que significa algo como “Que as virtudes dos maiores [dos Portugueses] sirvam de lição a todos”, seguido pela abreviatura latina Pecunia Publica Dicatum, i.e. “dedicado com dinheiro público”. Sinais dos tempos – hoje celebram-se os inauguradores com placas comemorativas, em outros tempos celebravam-se os heróis da pátria e que algo era construído com o dinheiro que é de todos nós…

Em suma, este é um monumento que celebra a resiliência de Portugal e a portugalidade, mas… na verdade, também não tem muito para se ver. É algo que, como o Panteão Nacional, se vê uma vez (se tanto…), e está visto. Se até existe um relógio na sua traseira e o famoso Miradouro do Arco da Rua Augusta no seu topo, que pode ser visitado pelo singelo preço de 3 euros (para quem nunca tiver ido ao local pode fazê-lo virtualmente aqui), o Arco da Rua Augusta não é algo de muito especial para o visitante, com excepção da simbologia nacional que aqui apresentámos hoje, e à qual já muitos poucos parecem prestar atenção.

O segredo da Anta de Adrenunes

Em plena serra de Sintra pode ser encontrado um local que é hoje conhecido como a Anta de Adrenunes. Ele encontra-se hoje quase como há 150 anos atrás, como pode ser visto nesta gravura dessa altura:

O segredo de Adrenunes, a sua anta ou dólmen

Agora, se é relativamente fácil encontrar informação sobre este espaço na internet, sabendo-se que ele foi identificado pela primeira vez como sítio arqueológico em 1867 por Joaquim Possidónio Narciso da Silva, que é hoje um local com conotações místicas, e outras coisas que tais, o que nunca conseguimos encontrar foi a razão para esse seu estranho nome. Sim, chama-se Adrenunes, mas a existir um qualquer mito ou lenda por detrás da sua designação, já ninguém parecia saber, ou sequer interessar-se em conhecer, a razão para tal. Face a isso, fomos pensando no tema e abandonando-o várias vezes ao longo dos anos, até que há uns dias, sentados bem perto do local, decidimos que já era hora de alguém saber de onde vem esse nome… o que foi mais fácil de dizer do que de fazer, admita-se.

 

Não obstante as muitas dificuldades, quando tentámos ler tudo o que sobre ele existia escrito no século XIX deparámo-nos com uma referência francesa intrigante, datada de 1868, que se referia ao local como Dolmen du Mont de Adrenunes. Ou seja, o nome que procurávamos não era o do monumento pré-histórico, em si próprio, mas do monte em que ele foi encontrado… o mesmo a que hoje não parece ser dado qualquer espécie de nome explícito! Porém, se considerarmos a designação de todo o local nesta forma mais completa, “… do monte de …”, podemos vê-lo como um nome que indica uma espécie de pertença. Ele está corrompido pelo peso dos séculos e do esquecimento humano (como parte da história de Pedra Amarela, também em Sintra), mas é possível que, originalmente, se tenha referido a André Nunes ou a um Padre Nunes, figuras que, a terem existido, já há muito foram esquecidas, até porque a sua potencial posse de um monte num local que era de difícil acesso dificilmente terá sido digno de nota. Contudo, sabemos que existia pastorícia no local, como pode ser inferido pela lenda da Peninha (a menos de 1Km deste local, em linha recta), o que atesta a presença humana nas redondezas pelo menos desde inícios do século XVIII, altura em que o Santuário Mariano nos relata a agora-famosa história; a Ermida de São Saturnino, por perto, é do século XII, levantando até a possibilidade de que o nome do local que procuramos date de tempos da Reconquista Cristã.

 

Será, portanto, esta a verdadeira origem do invulgar nome da Anta de Adrenunes? Não conseguimos encontrar qualquer prova real disso mesmo, mas a considerarmos que o nome se referia efectivamente a uma antiga, e entretanto quase totalmente esquecida, posse de um determinado monte, esta é uma sugestão que faz todo o sentido, e que, pelo menos para nós, nos permite dar a questão como parcialmente encerrada.

Em busca da lenda da Quinta do Anjo (Palmela)

Há alguns dias vieram-nos perguntar sobre uma possível lenda da Quinta do Anjo, em Palmela. A pessoa estava particularmente interessada nas grutas artificiais – ou hipogeus, se preferirem – existentes no local. Infelizmente não foi possível visitá-las em tempo útil, até em virtude do Covid-19, para escrevermos sobre as mesmas, mas uma outra questão subsistia – afinal, de onde vem o nome dessa tal Quinta do Anjo palmelense (i.e. existem outras em Portugal)? Normalmente não teríamos dificuldade em responder a uma questão como essa, mas a jovem tinha também um pedido adicional, pois queria que também se contassem as fontes precisas usadas para obter essa informação. Tendemos a evitar isso para prevenir roubos de conteúdos, mas a título de exemplo podemos fazê-lo hoje.

A lenda da Quinta do Anjo

Quem for ao site da Junta de Freguesia de Quinta do Anjo poderá encontrar por lá, sem muita dificuldade, dois dados preciosos para esta busca – é revelado que a freguesia apenas nasceu a 10 de Fevereiro de 1928, mas também é contada uma espécie de origem do seu nome:

Diz a lenda que a fonte existente nesta quinta foi protegida por “um anjo bom armado de espada, portanto S. Miguel” [sic], da tentativa de envenenamento pelas forças do mal salvando, assim, as populações que dela viviam. A imagem de pedra e cal que lá existia do anjo armado de espada pisando o dragão esboroou-se em 1985, estando a própria fonte quase seca devido ao abaixamento dos níveis freáticos.

Para a maior parte dos leitores é provável que esta informação fosse mais que suficiente para resolver a curiosidade – caso encerrado…?! Não tanto, porque algo nos parecia estranho em toda esta história – ela não era mais do que uma repetição de representações e lendas famosas, como a de São Jorge, possivelmente apenas com um herói diferente! Por isso, de onde vem essa lenda, tal como apresentada naquela página?

 

Começámos por procurar na obra Portugal Antigo e Moderno, primeiro volume datado de 1873, que refere a existência de uma “Quinta do Anjo” a 3 quilómetros de Palmela. Não lhe associa qualquer espécie de mito ou lenda, dizendo apenas que o local tinha pertencido a D. Luíza de Mello, casada com João de Mello Feo em fins do século XVII, e que o casal – ou assim parece… – erigiu no local uma ermida à Nossa Senhora da Redenção. Quase 2000 páginas depois é adicionado outro facto – por volta de 21 de Outubro de 1877 um tal “Carlos Ribeiro” estava a analisar instrumentos de pedra encontrados numas “furnas” presentes no local. Ou seja, a considerar-se que havia algo de importante na zona, era apenas uma ermida e umas “furnas”, sem referência a um qualquer anjo, poço ou fonte.

Porém, tratando-se esta de uma ermida mariana, decidimos consultar o Santuário Mariano, datado de 1707, cujo livro II, capítulo LVI, refere a imagem de Santa Maria presente no interior do recinto. E a informação que nos dá é tão preciosa que achámos que a deveríamos reproduzir parcialmente por aqui. O texto foi apenas adaptado para uma leitura mais fácil nos dias de hoje:

Nesta quinta, a que chamam a Quinta do Anjo, mandou edificar Francisco Coelho de Melo [pai de Luíza]  uma ermida – que é anexa à Paróquia de S. Pedro de Palmela, e são seus padroeiros os senhores do morgado Vila do Anjo, e é ao presente a referida D. Luíza (…) – para colocar nela uma devotíssima imagem de Nossa Senhora que tinha em seu oratório.

O texto continua explicando a origem da imagem que Francisco Coelho de Melo tinha em sua posse, mas nada mais nos diz sobre a própria quinta, alguma fonte de água ou algum anjo. O que é curioso, porque depois o autor acrescenta mais informação, dizendo que haviam três altares no recinto mandado construir por Francisco Coelho de Melo – o altar-mor tinha a representação mencionada acima, enquanto que os outros tinham “um Menino Jesus de grande perfeição” e o “Santo Esposo José”. Ou seja, quando foi construída esta ermida, ela não só não tinha qualquer anjo no seu interior (o que faria sentido se algum anjo tivesse anteriormente aparecido no local, e fosse foco de culto entre os seus habitantes), como quem a mandou construir parecia desconhecer por completo qualquer lenda que associasse a própria quinta a um anjo.

 

Portanto, como obteve ela o seu nome? Segundo nos é revelado no texto acima, certamente porque tinham sido padroeiros do local “os senhores do morgado Vila do Anjo”, o que contribuiu para explicar o nome da quinta – se lá tivesse mesmo aparecido São Miguel, porquê dar-lhe este nome genérico, em vez de um mais prestigiante “Quinta do Arcanjo” ou “Quinta de São Miguel”? Não faria muito sentido… Mas depois, à medida que as devoções a esta Nossa Senhora da Redenção foram aumentando, é provável que alguém se tenha interrogado sobre o nome do local e, o seu passado então progressivamente esquecido, lá foi adicionada uma imagem de São Miguel Arcanjo ao local. Quando é que isso aconteceu, já lá iremos.

A Quinta do Anjo e a lenda de São Miguel

E, porque São Miguel é frequentemente representado a combater um dragão (que toma as mais diversas formas, desde serpentes até figuras quase humanas), gerou-se entre o povo a ideia de que o evento até tinha acontecido naquele preciso local. Isto torna-se até particularmente mais interessante se tivermos em conta que a representação em questão era, originalmente, a de uma divindade pagã, como cá apresentámos de uma forma muito breve.

 

Agora, certamente que também se poderia perguntar como é que o “Morgado Vila do Anjo” tomou esse nome , mas é uma questão desnecessária, na medida em que quando foi construída a antiga ermida não existia no local qualquer devoção especial a um anjo. Por isso, se a igreja actual é de 1909, faz todo o sentido que a imagem de São Miguel, referida na página da junta de freguesia, tenha sido adicionado ao local nessa altura, até porque por volta de 1873 ainda não parecia existir qualquer lenda que explicasse o nome do local… ou, a existir numa forma puramente oral, só pode ter sido posterior à fundação da antiga Ermida de Nossa Senhora da Redenção, i.e. após inícios do século XVIII, como atestado pelas linhas do Santuário Mariano.

 

Assim sendo, qual é mesmo a lenda da Quinta do Anjo, em Palmela? Parece existir uma lenda associada a ela no século XX, aquela que recordámos ali em cima, mas há que ter em conta que ela é apenas uma história muito recente, com o nome da quinta a vir, na verdade, de uns padroeiros que tinham a sua posse numa data agora incerta, mas anterior a 1707. Nessa data de inícios do século XVIII não existia no local qualquer devoção associada a um anjo ou a um qualquer evento que aí possa ter tomado lugar. É talvez até por isso que o brasão da freguesia, que data de 1994 e que já reproduzimos acima, tem representado apenas dois elementos – a ideia muito vaga de um anjo (que não é identificado ou identificável como São Miguel), e um dos vasos campaniformes encontrados nas grutas do local, em vez de representar um qualquer episódio lendário bem atestado, como no caso da Vila de Moura. Nunca apareceu um anjo no local, muito menos aquele que é provavelmente um dos arcanjos mais famosos.