A lenda da Moura Salúquia

A lenda da Moura Salúquia é certamente bem conhecida em terras de Moura, no distrito português de Beja, mas para quem ainda não a conhecer achámos que a poderíamos recordar aqui hoje.

A lenda da Moura Salúquia

O brasão da vila de Moura – que hoje já é cidade – apresenta-nos essencialmente uma torre e uma figura feminina como que deitada em frente dessa fortificação. Reza então a história que esta mulher, uma moura de nome Salúquia (e filha do governador da cidade), viveu nesta terra em tempos da Reconquista Cristã, tendo-se apaixonado por um homem chamado Bráfama (ou Farbame?), da povoação de Aroche (a cerca de 50 Km de distância, para quem tiver essa curiosidade). Um dia os Cristãos mataram-no, tomaram as roupas deste amado e da sua comitiva, e dirigiram-se para a povoação que hoje é Moura. Salúquia, vendo-os à distância, pensou tratar-se de Bráfama e ordenou que se abrissem as portas da cidade. Face a essa inatenção, os combatentes cristãos entraram facilmente na povoação e conseguiram conquistá-la sem qualquer dificuldade. Então, notando o que tinha causado, em plena infelicidade esta moura subiu à torre do castelo e suicidou-se; a memória da bela moura, suicidária por amor, perdurou na cultura local, e então a povoação mudou o seu nome islâmico, que parece ter sido Al-Manijah, para o actual.

 

Mas então… porque recebeu a povoação o nome de “Moura”, e não Salúquia? Visto que, face ao contexto de toda esta lenda, se pode depreender que o nome foi alterado por Cristãos, é provável que o nome original se tenha perdido progressivamente ao longo do tempo, ou que o nomeador desconhecesse o nome da falecida, mas pretendesse homenageá-la pelo precioso “auxílio” que deu à conquista do local. Esta segunda hipótese é certamente possível, a acreditar-se nos eventos que comportam esta lenda da Moura Salúquia, que continua a viver nos nossos dias na memória dos habitantes da cidade!

Ao mesmo tempo, é curiosa a apresentação desta personagem principal como uma islâmica que também amou um praticante da mesma religião. Em muitas outras lendas de Mouros e Cristãos, é muito mais comum que se apaixonem por cavaleiros da outra religião, acabando até por trair a sua cidade por amor. Aqui, a povoação é traída, sim, mas de forma quase acidental por Salúquia, e ela depressa se prontifica a pagar o preço da sua acção (algumas versões até acrescentam que tudo isto teve lugar no dia em que ela pensava ir casar-se, o que ainda enfatiza mais o seu sofrimento). Recordando Fernando Pessa, quase que apetece brincar-se um pouco e dizer “E esta, hein?!”

 

[Adicionado posteriormente:] Muito curiosamente, nas suas “Antiguidades da Lusitânia” André de Resende dá uma versão muito diferente desta história, em que uma Moura era disputada por um homem que a queria roubar ao marido, mas nessa versão a trama parece estar um pouco incompleta.

Qual a cidade mais antiga de Portugal?

O tema da cidade mais antiga de Portugal é um de aqueles que se suporia que nos nossos dias de hoje seria fácil de resolver. É, pensará a maior parte das pessoas, somente questão de se abrir um qualquer motor de busca e digitar meia dúzia de palavras por lá. Depois, dependendo do resultado em que se carrega, poderão encontrar-se referências a ela como se tratando de Braga (i.e. Bracara Augusta), Évora (i.e. Ebora Cerealis) ou Lisboa, entre muitas outras. Ou seja, são nomeados diversos locais, todos eles anteriores à nacionalidade, mas nunca é dito concretamente qual delas corresponde ao que procuramos. Ao mesmo tempo, sabemos que existem povoações muito antigas em Portugal – bastará recordar-se a presença de um antigo santuário a Endovélico no Alentejo, para se presumir que também existiu uma qualquer povoação por perto – pelo que é provável que existissem povoações, ou até mesmo cidades da altura, que entretanto foram esquecidas – relembre-se que até já cá falámos de algumas delas, no contexto árabe. Mas, então, qual é mesmo essa cidade mais antiga de Portugal?

Será esta a cidade mais antiga de Portugal?

Segundo a Monarchia Lusytana, uma curiosa obra escrita no Mosteiro de Alcobaça em finais do século XVI, a cidade mais antiga de Portugal – e até uma das mais antigas do mundo – era… Setúbal! E porquê essa? Segundo o autor, nessa obra que se propõe a contar a história do nosso país desde o início do mundo até ao século em que foi escrita, a cidade foi fundada por Túbal, neto de Noé, que em busca de um local em que viver, após aquele enorme e famoso dilúvio bíblico, atracou na região e a viu como um excelente local para se estabelecer. E, se prestarem atenção, o seu nome até aparece associado ao da própria povoação, Setúbal. De que mais provas precisam?

Bem, na verdade, certamente que uma questão se impõe – como é que um autor do século XVI sabia isto? A informação não aparece em textos da Antiguidade, nem na Bíblia… acreditando que não é mentira, uma mera invenção por parte do autor nacional, de onde vem ela? De facto, para nosso grande contentamento, o autor português, Frei Bernardo de Brito, diz-nos directamente a suas fontes literárias, e atribui esta informação a Beroso, autor do século III a.C. Contudo, quem a for procurar nas obras de Beroso que nos estão acessíveis não encontrará lá nada… “estranho”, certamente, até que se entenda um problema completamente inesperado.

 

Na mesma obra, Frei Bernardo de Brito também atribuiu muita informação a um tal “Viterbo”, i.e. João Ânio de Viterbo, autor do século XV, que um dia supostamente encontrou um conjunto enorme de autores históricos (perdidos) numa região do norte de Itália. E, curiosamente, entre eles contava-se a obra histórica de Beroso. Seria verdade? Posteriormente veio a apurar-se que não, que era tudo uma falsificação, possivelmente até pela mão do próprio Viterbo, mas ainda assim as suas supostas “descobertas” acabaram por marcar a História europeia durante pelo menos um século, como podemos aperceber-nos através das linhas presentes no autor nacional mencionado acima. Ou seja, se Setúbal era mesmo a cidade mais antiga de Portugal (e, relembre-se, até uma das mais antigas do mundo), era-o somente com base em informação inventada no século XV e que não encontramos atestadas em nenhuma obra histórica anterior à de João Ânio de Viterbo.

Lisboa, cidade mais antiga de Portugal?

Deixando então de lado essa estranha possibilidade, é provável que a cidade mais antiga de Portugal tenha sido Lisboa. Ou, pelo menos, é o que pareciam pensar os autores latinos da Antiguidade, como Estrabão. A acreditarmos no mito de que ela foi fundada por Ulisses, tratar-se-ia, muito provavelmente, de um local ainda datado da mítica Idade dos Heróis, de um tempo indefinido em que a grande memória de Tróia* ainda povoava o imaginário popular. E, a termos de escolher uma cidade a que atribuir essa espécie de galardão, seria portanto essa a melhor opção, ou pelo menos aquela que é a mais suportada em informações, supostamente credíveis, de tempos da Antiguidade Clássica. Se existiam cidades ainda mais antigas, como o Santuário de Endovélico nos poderá fazer crer, os seus verdadeiros nomes, localizações e grandes histórias foram sendo perdidos nas areias do tempo…

 

 

*- Sobre Tróia, a pequena povoação portuguesa próxima de Setúbal, é curioso que Frei Bernardo de Brito também se refira a ela, dizendo que foi fundada posteriormente e tomou este nome por terem existido na zona muralhas enormes, como as atribuídas nos mitos gregos e latinos à grande cidade dos Poemas Homéricos. Ninguém parece ter assumido que fosse “A” verdadeira cidade de Príamo, como é óbvio, mas pode ter recebido o seu nome por relação com o local que Heinrich Schliemann pensou ter redescoberto.

A lenda do Rio da Mula

Na Serra de Sintra existe um local que é hoje conhecido como a Barragem do Rio da Mula, a que se refere a lenda de hoje. Se esse curso de água vai adoptando diversas designações nos locais por onde vai passando até se juntar ao rio Tejo na zona de Cascais, de onde vem este seu nome? Quer dizer, como é que uma mera mula, um animal que à primeira vista nos pareceria bastante desinteressante, acabou por dar nome a um pequeno riacho da zona de Sintra?

Sintra, local desta lenda do Rio da Mula

Durante anos não conseguimos encontrar uma resposta. Poucos a parecem ter procurado, até porque o local não é propriamente muito famoso ou visitado excepto pelos habitantes locais. Até que na semana passada, enquanto almoçávamos numa pizzaria da Malveira da Serra (a cerca de 5 Km do local em questão), um idoso que nos escutava uma conversa sobre os mitos e lendas de Sintra acrescentou algo à nossa discussão – segundo ele, este ribeiro (a que muitos dão o nome de rio devido ao caudal que teve em outro tempos), tinha tomado essa designação em parte do seu curso porque, durante a noite, nessa zona a que hoje chamam Barragem do Rio da Mula podiam ser ouvidos os zurros de uma mula, mas nunca ninguém a conseguia ver com os seus próprios olhos, relembrando em parte a Zorra de Odelouca algarvia.

 

Seria um fantasma de alguma espécie, essa entidade misteriosa a que se poderá atribuir esta lenda do Rio da Mula? Não sabemos, já nem conseguimos ouvi-la no local (e sim, admita-se, fomos tentá-lo), mas é digno de nota que não tenhamos conseguido encontrar esta potencial lenda atestada em nenhum outro lado. Presume-se que ela seja relativamente recente, que tenha menos de uma centena de anos (a barragem parece ter sido construída em 1969), mas a verdadeira questão é… quão recente é a breve história que nos foi contada? Terá sido inventada pelo idoso que a reportou, ou por algum dos seus antecessores locais? Quando “o povo diz (…) não sei se é verdade ou não!” – para citar a expressão que nos foi usada – torna-se muito difícil encontrar potenciais fontes para a informação. Assim, esta potencial lenda deverá certamente ser tomada com alguma prudência, porque não sabemos até que ponto ela é digna de crédito. Poderá ser outra Teresa Fidalgo, uma pura ficção, mais do que uma lenda real que o povo foi fazendo passar entre si…

As principais povoações islâmicas de Portugal

Há alguns dias, enquanto procurávamos informação para a lenda de São Vicente, encontrámos um curioso mapa que data do século XII e mostra as povoações islâmicas de Portugal. Presume-se, naturalmente, que não mostre todas elas, mas o que contém é tão interessante que achámos que o deveríamos mostrar por cá. Ah, e para os menos atentos, este mapa está aqui com o Norte para baixo, apenas para facilitar a leitura dos nomes das povoações:

Povoações islâmicas de Portugal

Datado do século XII e da autoria de Muhammad al-Idrisi, mas reproduzido aqui numa cópia já do século XX (e com os nomes latinizados), este mapa mostra um Portugal que ainda quase não o era, delimitado a Norte por Sant Iakub (Santiago de Compostela) e outras duas povoações; e a Oeste por Salamanka, Al kantara, um rio (já lá iremos), e Cádis. Se a geografia aqui presente nem sempre é muito precisa, permite identificar várias localizações cujos nomes ainda são famosos nos nossos dias. Começando então pelo Norte, temos:

  • Minu, que possivelmente deu lugar ao nosso “Minho”, mas cuja localização actual não conseguimos descobrir;
  • Mont Maior, a cidade de Montemor (próxima de Coimbra);
  • Kalimria e Koria [/Kuzala], para as localidades de Coimbra e Curia;
  • Asbuna, a cidade de Lisboa;
  • Santarín, a cidade hoje conhecida como Santarém;
  • Alkasr, moderno Alcácer do Sal;
  • Silb, certamente Silves;
  • Sant Maria, provavelmente as actual cidade de Lagos;
  • Martala, i.e. Mértola, próxima do rio Guadiana, o limite de Portugal a Este.

Face a este mapa, e à geografia que ele nos comunica das povoações islâmicas de Portugal, é curioso poder perceber que algumas grandes cidades dos nossos dias ainda não existiam nessa altura, enquanto que outras foram perdendo progressivamente a importância que tiveram em outros tempos. Ainda assim, foi interessante podermos perceber quais as povoações mais notáveis no tempo da Reconquista Cristã, num conjunto de pequenas curiosidades que achámos que tínhamos mesmo de deixar por cá!

Três breves lendas – a Praia do Guincho, a Praia das Maçãs e a Praia do Tamariz

Com o tempo a melhorar recordamos hoje três breves lendas, associadas à Praia do Guincho, Praia das Maçãs e Praia do Tamariz – afinal, porque tem cada uma delas esse seu nome individual? E de onde vêm eles? Na verdade, confesse-se que nem todas as três têm lendas associadas, com uma trama real e bem definida, mas existem explicações que podemos oferecer e que estão por detrás de cada um dos seus nomes. Assim, decidimos recordá-las aqui hoje, num triplo conjunto, dada a sua grande fama e relativa proximidade.

A Lenda da Praia do Guincho

Em relação a uma lenda da Praia do Guincho, ela está intimamente ligada com a da Boca do Inferno, que já cá contámos anteriormente. Essencialmente, e a acreditar no que contámos nessa altura, quando o cavalo que transportava dois amantes caiu de forma inesperada – tenha sido para o Inferno, ou para um qualquer outro lugar desconhecido – soltou um derradeiro guincho de desespero, que até pôde ser ouvido à distância de sete quilómetros que separa os dois lugares. Terá sido verdade? Tendo em conta o vento – frequente e ruidoso – de toda a zona, isto parece-nos pouco verosímil, mas é essa a história que aparece quase sempre associada ao local.

A lenda da Praia das Maçãs

Sobre uma possível lenda da Praia das Maçãs, a razão do nome é relativamente simples e diz-nos que, há já muitos anos atrás, a Ribeira de Colares (que se junta ao Oceano Atlântico nesta mesma praia), trazia em algumas alturas do ano muitas maçãs na sua corrente, que depois acabavam impreterivelmente por dar à costa aqui. Nunca o vimos a acontecer, mas segundo um habitante local, na casa dos seus 80 anos, “eu ainda vi isso… mas entretanto as coisas mudaram”. Será mito ou será lenda? Não sabemos, mas a acreditar no que nos foi contado isto até faz algum sentido, tal como faz igualmente sentido que as maçãs, fruto do corte crescente das suas árvores, tenham deixado de aparecer por esta bela praia, tendo-se perdido parte da razão para o seu nome.

A lenda da Praia do Tamariz

Finalmente, sobre uma potencial lenda da Praia do Tamariz, não tem muito que se lhe diga – o nome tem pouco mais de um século e parece vir do facto de existirem tamarizes, também conhecidos como tamargueiras, no forte próximo do local, visto do lado esquerdo na imagem. Não sabemos se ainda lá estão, nestes dias de hoje, mas já lá estiveram e, na verdade, foi mesmo daí que toda esta praia da Costa do Estoril tomou o seu nome, alterando aquele que tinha anteriormente!

 

Estas três espécies de lendas, associáveis à Praia do Guincho, Praia das Maçãs e Praia do Tamariz, não têm muito que se lhe diga, salvo um certo grau de incerteza por detrás das origens dos seus nomes (e isto, apenas nos primeiros dois casos). Quando se falam deles, normalmente contam-se pequenas histórias como as que hoje aqui reproduzimos, e a ter existido alguma história mais complexa por detrás destas explicações, as actuais terão nascido ou por sua simplificação, ou por mero esquecimento das suas verdadeiras origens. A segunda destas possibilidades é particularmente notável num outro caso, o da chamada “Praia do Anjo”, na mesma região que as três anteriores, mas de que, hoje em dia, já quase não há memória, tanto ao nível da sua localização original como das razões que levaram ao seu singular nome…