A história da cobra que mama

Contar, hoje, esta pequeníssima história da cobra que mama implica dar-lhe algum contexto. Há algumas semanas, enquanto andávamos em busca de histórias pelo país fora, deparámos-nos com uma casa velhinha numa zona já bastante povoada. Não sabemos durante quanto mais tempo ainda lá ficará – até porque estava para venda – mas visto que tinha no seu quintal um potencial vestígio dos tempos romanos, tivemos a curiosidade de perguntar se alguém sabia alguma coisa sobre ela.

A lenda da cobra que mama

A maior parte das pessoas limitou-se a dizer-nos algo tão simples como “Ah, era a casa do Senhor X, ele já faleceu”. Porém, um homem, na casa dos seus 60 anos e que viveu na mesma rua em criança, disse-nos algo de muito mais curioso – “segundo a minha mãe, nessa casa havia uma cobra que mamava nas mulheres grávidas e nos animais. Não sei se era verdade ou não… [risos] se calhar era a minha mãe que não queria que eu me aproximasse, e então disse isso para me assustar?” Se, por um lado, não conseguimos atestar a veracidade de toda a história em associação a este local específico – já passaram décadas desses acontecimentos, e não conseguimos encontrar mais ninguém que aí vivesse na mesma época – é curioso constatar que desde os tempos da Antiguidade, e em diversas culturas pelo globo fora, são apontados casos como este, de cobras que mamam, entre outros animais que ou dão de mamar (e.g. veja-se o caso de Rómulo e Remo), ou mamam em seres humanos (e.g. o atribuído a Erictónio em algumas versões do seu mito). Mas a que se deve toda essa estranha ideia?

 

No seu geral, ela deriva de crenças mágicas. As razões para tal variam de cultura para cultura, mas de uma forma mais geral quem dá de mamar a uma cobra pode ser visto como uma feiticeira (ou uma pessoa diabólica, na cultura cristã), enquanto que quem recebe o “leite” do mesmo animal acaba por tomar uma associação ao poder, a um qualquer benefício trazido pelos deuses. Nesse contexto, será então verdade que, naquela casa ali da imagem, existiu mesmo uma cobra que mama? Ou será uma pura lenda e nada mais? Já não sabemos, mas o que podemos afirmar, sem margem para dúvidas, é que existem histórias como essas por todo o mundo, algumas delas até ainda nos nossos dias de hoje, que ainda se tomam por reais, sejam-no ou não…

Casa do Fauno, uma visita virtual

Vieram perguntar-vos sobre a chamada Casa do Fauno enquanto nos preparávamos para escrever sobre sátiros, faunos e outras criaturas que tais. O segundo é um tema que depois foi falado aqui, mas por agora podemos falar sobre uma famosa casa romana que existe em Pompeia, e que é conhecida por este nome em virtude de uma figura dançante que pode ser vista à sua entrada:

A mascote da Casa do Fauno

Dizem tratar-se de um fauno, mas dada a ausência de características dessa criatura mitológica (i.e. não tem cascos nos pés, cornos na cabeça ou cauda de cavalo), parece-nos que seria mais justo ver nela um dos muitos seguidores humanos do deus Baco, numa das suas clássicas deambulações bêbadas pelos campos. É discutível, até porque a representação destas criaturas, como a dos sátiros entre os Gregos, foi variando ao longo dos séculos…

Depois, uma das coisas mais interessantes que pode ser encontrada nesta Casa do Fauno é um mosaico gigante, hoje conhecido sob o nome de Mosaico de Alexandre, em que pode ser vista uma batalha entre Alexandre Magno e Dário III da Pérsia. Mesmo nos nossos dias esta representação é sobejamente conhecida, mas vista assim, neste seu contexto original, é que se pode perceber toda a magnitude da representação, que é muito maior do que tendemos a supor. Infelizmente, a actual é apenas uma reprodução – o original foi levado para o Museu Arqueológico Nacional de Nápoles – mas permite ao visitante ter uma visão geral e em contexto do que foi encontrado neste local.

Se esse mosaico é indubitavelmente o elemento mais famoso desta Casa do Fauno, existem igualmente outros recantos para visitar nas suas redondezas. Por exemplo, esta habitação, em que podem ser vistos mais alguns azulejos, que se supõe que também sejam reproduções.

Infelizmente, neste caso específico não é possível fazer uma visita mais completa, completamente à escolha do freguês, como a que aqui apresentámos na Conímbriga de Portugal, mas pelo menos a infraestrutura existente permite a um visitante virtual ter acesso a parte do espaço real, o que já é bom!

 

Agora, quem lê estas linhas em Portugal poderá pôr-se uma questão adicional – “Mas não existe também uma Casa do Fauno em Sintra?” É verdade, sim, trata-se de um pequeno bar, com decoração ligeiramente “medieval”, e uma livraria de livros pseudo-místicos no segundo piso. Um dia até lá tentámos comprar uma cópia do livro de interpretação de sonhos de Artemídoro de Daldis, mas não faziam ideia do que era, apesar de venderem N outras obras, bem menos credíveis e muito mais fantasiosas, sobre esse mesmo tema…

Outra Casa do Fauno

Onde está o seu fauno, que supostamente emprestou o nome ao local? Não fazemos qualquer ideia, mas nunca conseguimos aí encontrar nenhum numa posição de relevo, seja no interior do espaço fechado ou nos seus jardins. Quem decidir buscá-lo depressa acabará frustrado, porque o nome deste bar engana bastante. Preferimos, sem qualquer dúvida, o espaço que partilha o seu nome na Pompeia dos Romanos…

A lenda de Santa Maria de Carquere

A lenda de Santa Maria de Carquere já foi, em outros tempos, uma das mais conhecidas de Portugal. Porém, foi caindo no esquecimento ao longo dos séculos, possivelmente em virtude de outras lendas associadas a Dom Afonso Henriques, como a da Batalha de Ourique, que se foram tornando progressivamente mais famosas e importantes.

Santa Maria de Carquere

Conta-nos esta lenda de Santa Maria de Carquere que Afonso Henriques nasceu com uma pequena deficiência que lhe dificultava o andar. Teve-a durante alguns anos, até que por volta dos cinco anos de idade um seu aio – se foi Soeiro Mendes, ou Egas Moniz, já depende da versão consultada – teve um sonho em que lhe apareceu a Virgem Maria. Esta revelou-lhe que o amo seria curado se fosse encontrado num dado local uma igreja inacabada e o menino fosse colocado no respectivo altar. Assim foi feito, o menino foi curado miraculosamente, e no local da igreja inacabada foi depois construído o Mosteiro de Santa Maria de Cárquere (que até pode ser visto na imagem acima, e visitado virtualmente carregando na mesma), destinado a memorializar todo o acontecimento e a agradecer à grande responsável por todo o milagre.

 

O que podemos adicionar a esta pequena lenda? Não sabemos onde termina o seu carácter lendário e onde começa o relato histórico propriamente dito (i.e. será que o futuro rei de Portugal nasceu verdadeiramente com uma pequena deficiência, ou terá sido um elemento adicionado à história para depois possibilitar este milagre? Um episódio com Dona Teresa, sua mãe, poderá indicar alguma verdade em toda esta história), mas é provavelmente o primeiro dos milagres que permitem constituir Afonso Henriques como um líder escolhido pelos céus para comandar os destinos de Portugal. Isso tornar-se-á mais evidente na Lenda de Ourique, mas já esta preservava parte de um conjunto lendário que, em tempos do Sebastianismo, acabará por se tornar muito importante, por permitir definir o nosso país como um local repetidamente escolhido por Deus.

A lenda de Pedro e Inês (e o seu poema secreto)

A lenda de Pedro e Inês é quase certamente a mais famosa história de amor de Portugal. De facto, é tão sobejamente conhecida no nosso país – até aparece nos Lusíadas! – que aqui decidimos apenas recordar as suas linhas muito gerais, em forma de introdução a um suposto poema secreto de Pedro e Inês, escrito – como é fácil entender com base nos seus versos – após a morte da sua amada.

A lenda de Pedro e Inês de Castro, fonte deste poema secreto

Conta-se então que estando Pedro casado com Constança Manuel, se apaixonou por uma aia desta, de seu nome Inês de Castro. Não sabemos se terão existido infidelidades, mas quando Constança faleceu em 1345, Pedro recusou toda e qualquer outra mulher, dizendo que só aceitava casar com a sua amada Inês. Diz-se até que casaram em segredo (assim o afirma Fernão Lopes, e um documento ainda presente na Torre do Tombo parece confirmá-lo), mas o rei Afonso IV, pai de Pedro, nunca aceitou essa união, pedindo em 1355 a alguns ministros para assassinarem Inês (os seus nomes até nos chegaram – Pêro Coelho, Álvaro Gonçalves, e Diogo Lopes Pacheco), tendo ela falecido em Coimbra, no local que é hoje a Quinta das Lágrimas, onde tantas vezes os dois amados se tinham encontrado secretamente. Depois, quando Pedro I ascendeu ao trono por falecimento do pai, diz-se que puniu com a morte os culpados e sentou o corpo da sua amada, então já falecida, no trono de Portugal, fazendo dela a única rainha póstuma. Hoje estão ambos enterrados em Alcobaça, sob o signo “Até ao fim do mundo”, momento em que esperavam tornar a ver-se e até reunir-se no seu amor eterno…

 

Toda esta lenda de Pedro e Inês é ainda hoje muito conhecida, até pela influência de tragédias tão belas como A Castro (de António Ferreira), mas o que provavelmente já menos saberão é que existe uma composição poética, cuja autoria se atribui ao então-futuro rei, dedicado à sua amada. É o seguinte poema secreto, que aqui reproduzimos com ligeiras adaptações, somente para facilitar a leitura nos nossos dias:

Senhora, quem vos matou
Seja de forte ventura,
Pois tanta dor e tristura [i.e. tristeza]
A vós e a mim causou.

E pois não vi mais asinha [i.e. depressa]
Tolher vosso triste fim,
Recebo-vos, vida minha,
Por Senhora, e por Rainha
De estes Reinos e de mim.

Estas feridas mortais
Que pelo meu se causaram,
Não uma vida, e não mais,
Mas duas vidas mataram.

A vossa acaba já,
Pelo que não foi culpada,
E a minha, que fica cá,
Com saudade será
Para sempre magoada.

Oh crueldade tão forte
E injustiça tamanha!
Viu-se nunca em Espanha
Tão cruel e triste morte?

Contar-se-á por maravilha
Minha alma tão verdadeira,
Pois morreis desta maneira.
Eu serei a Torturilha
Que lhe morre a companheira.

Aí, Senhora, descansada,
Pois que vos eu fico cá,
Que vossa morte será
(Se eu viver) bem vingada!

Por isso quero viver,
Que, se por isso não fôra,
Melhor me fôra, Senhora,
Convosco logo morrer.

Que coisa há esta que vim
Ou onde me ensanguentei,
Senhora, eu vos matei,
E vós matasteis a mim!
Sangue do meu coração
Ferido coração meu,
Quem assim por esse chão
Vos espargueu sem razão,
Eu lhe tirarei o seu.

É um poema com alguma beleza, que nos remete para o sofrimento final da lenda de Pedro e Inês, para essa morte de Dona Inês de Castro e a promessa eterna deste seu amado. Não sabemos se ele terá sido verdadeiramente escrito pelo (então futuro) rei, mas aparece como tal em diversos documentos, e ao fazermos hoje esta publicação dedicada ao sentimento do amor, essa potencial sugestão dos documentos basta-nos, mesmo que possa até nem ser completamente verdadeira.

Quem foi Frankenstein?

Quem foi Frankenstein? Para alguns leitores, a resposta até poderá parecer mais que óbvia – é um monstro da ficção, ou o próprio doutor que o criou, numa história hoje conhecida em diversos filmes mas, originalmente, de um livro da autoria de Mary Shelley, autora inglesa de inícios do século XIX. Se fosse só esta a resposta nem estaríamos a perder tempo a escrever estas linhas, mas o que menos gente saberá é que existe uma história bem real por detrás de toda essa obra ficcional. Mas já lá iremos.

 

Quem for ler Frakenstein, ou Um Prometeu Moderno, da autoria de Mary Shelley, encontrará na obra uma história significativamente diferente da presente em tantos filmes do nosso dia. É, essencialmente, a história de um homem – o Dr. Frankenstein – que se tendo aplicado ao estudo intenso de autores como Paracelso e Cornélio Agrippa, foi capaz de criar vida – o processo não é retratado no livro (ele não a criou com pedaços de corpos, ou com electricidade, como vemos em tantos filmes), mas o mais significativo é que ele depressa começou a lamentar esse seu estudo e aquele que foi, sem qualquer dúvida, a sua grande criação. As razões para esse arrependimento são contadas na obra, para quem a quiser ler; por agora, voltemos no tempo um pouco mais.

 

Mary Shelley viajou pela Alemanha, e algum tempo antes de escrever este livro passou por um local perto da cidade de Gernsheim e que ainda hoje é conhecido como o Castelo de Frankenstein.

Quem foi Frankenstein?

Frankenstein, que significa algo como “a pedra dos Francos” (possivelmente em honra dos povos bárbaros que um dia aí viveram), acabou por dar o nome ao doutor que criou vida na agora-famosa obra inglesa. Mas toda a história ainda não fica por aqui. Reza uma lenda desse castelo que aí nasceu no século XVII um tal Johann Konrad Dippel, que mais tarde se dedicou ao estudo das artes da Alquimia, e entre as suas criações constava um suposto elixir da vida que era feito através da destilação de ossos. Não sabemos se funcionava mesmo – supõe-se que não… – mas é possível que ele até tenha tentado criar vida com as suas próprias mãos, um dos grandes desejos e objectivos da Alquimia.

Não sabemos se Mary Shelley conhecia toda esta lenda local, mas estando ela familiarizada com o nome alemão que viria a dar ao herói da sua história, é muito provável que sim… e que, depois, a trama da sua novela tenha surgido de uma questão implícita, i.e. o que aconteceria se Dippel tivesse verdadeiramente conseguido criar vida? Daí vem até o subtítulo da obra, com a referência a Prometeu a se dever ao facto de este titã ter criado a humanidade, segundo alguns mitos gregos.

 

Por isso, quem foi Frankenstein? O nome é alemão, mas não parece designar nenhum ser humano do passado em concreto; já a história escrita por Mary Shelley, que ainda hoje é muito conhecida sob esse mesmo nome, poderá ter-se baseado num caso bem real, o de Johann Konrad Dippel, que tal como o doutor da história terá tentado criar vida humana com as suas próprias mãos. A semelhança é demasiado próxima para ser ignorada, sendo por isso provável que a autora se tenha baseado no rumor de uma trama que alguns consideravam real; desconhecemos se o era, mas pelo menos havia uma lenda que apontava nesse sentido – e como qualquer boa lenda, oscila entre a verdade e a mentira…