A lenda da Sala das Pegas

A lenda da Sala das Pegas refere-se a uma sala que existe no Palácio Nacional de Sintra, vulgo “o palácio com duas chaminés gigantes”. Poderia ser uma como tantas outras em tantos outros palácios, não fosse a estranha iconografia que nos propõe – no seu tecto podem ser vistas múltiplas pegas (um tipo de pássaro, conhecido ), tendo cada uma delas uma pequena frase a sair do seu bico, Por bem. Que segredos se escondem por detrás de toda esta estranha representação?

A lenda da Sala das Pegas

Diz a lenda da Sala das Pegas que um dado dia o rei D. João I estava por Sintra e deu um beijo a uma dama da corte. Não sabemos onde foi esse beijo, nem a quem o deu, mas a rainha supostamente ouviu-o a tomar lugar e, naturalmente, confrontou depois o monarca com a sua acção. Este respondeu-lhe que o beijo foi dado por bem, provavelmente querendo dizer que não existiu qualquer malícia na sua acção. Mas como levou isto à iconografia presente hoje na Sala das Pegas?

 

Na verdade, não sabemos. Existem opiniões que fomos lendo aqui e ali, a mais recente das quais numa obra do Conde de Sabugosa que data de inícios do século XX. As Pegas são pássaros muito faladores, mas a mesma palavra também pode ser usada, até ainda hoje, para se referir a uma mulher muito dada. Supõe-se que, nesse contexto geral, a representação possa ter sido uma metáfora para o facto de uma questão tão simples ter sido tão falada na altura. É uma hipótese. Mas também poderá ser vista como uma espécie de crítica à sociedade de então, ao facto de se crer que as mulheres falavam demasiado. Ou até pode ser uma alusão ao facto da rainha não se ter esquecido de um episódio que, embora simples, lhe foi ficando na memória, como quando nos namoros dos dias de hoje um dos intervenientes recorda constantemente um episódio negativo que já teve lugar há meses ou anos. Ou o rei poderia querer proclamar até à eternidade a culpa que não teve…

 

Será alguma destas a razão para a inclusão das pegas e do seu Por bem no Palácio Nacional de Sintra? Não sabemos, é uma espécie de mistério de Portugal, mas pelo menos recordámos assim a lenda da Sala das Pegas de Sintra.

 

P.S.- E, para quem também tiver alguma curiosidade sobre uma outra sala do mesmo palácio, também cá falámos sobre a Sala dos Cisnes.

Castelo de São Jorge, antes e depois

De entre os castelos mais famosos de Portugal conta-se o de Lisboa, mais conhecido sob o nome de Castelo de São Jorge, em honra do popular santo cuja lenda já cá contámos anteriormente. Mas sabiam que existe um muito significativo antes e depois nesse grande monumento nacional?

Castelo de São Jorge, antes e depois

As duas panorâmicas vistas na imagem acima, tiradas do Miradouro de São Pedro de Alcântara, permitem comparar facilmente a Baixa da cidade em dois momentos da sua história, através do elemento estável da Sé de Lisboa, aqui assinalado a verde.

Existem muitas diferenças nas duas imagens, mas as mais notórias no espaço que procuramos hoje são o facto da couraça exterior do castelo ser significativamente diferente, e do interior do castelo não existir de todo, sendo anteriormente ocupado por um edifício branco, bem diferente do que lá existe agora (lemos que se tratavam de casernas). A que se devem estas grandes diferenças, este antes e depois, no Castelo de São Jorge?

 

Parecem ser poucos os que ainda sabem isto – de facto, quase toda a gente com quem falámos recusou acreditar nesta pequena história, pelo menos até terem visto imagens de Lisboa no século XVIII e XIX – mas o Castelo de São Jorge, como o temos hoje em dia, foi construído na primeira metade do século XX, essencialmente transformando um espaço que era militar num recanto com contornos lúdicos e turísticos. Não foi caso único – algo de semelhante foi acontecendo na Cidade de Coimbra, em Almourol, em Évora, em Óbidos, em Leiria, e em muitos outros lugares pelo país fora – mas este exemplo é, sem qualquer dúvida, o mais famoso presente na nossa capital lisboeta.

O mito de Pirene (e os Pirinéus)

Falar do mito de Pirene implica, quase automaticamente, desdobrar esse nome em pelo menos três figuras individuais, com muito pouca ligação directa entre elas. Com o nome de Peirene, i.e. Πειρήνη, conhece-se uma ninfa que teve um filho por Poseidon, e esse jovem teve o triste destino de ser morto por Artémis, levando a própria mãe, desgostosa, a chorar tanto que acabou por se tornar uma famosa fonte da região de Corinto. Mas Pirene, i.e. Πυρήνη, também é o nome partilhado pela mãe de Cicno, figura famosa do Escudo de Héracles, e pela figura a que hoje aqui emprestamos o palco principal.

Pirene e os Pirinéus

Sobre este terceiro mito de Pirene, conta-se então que Hércules, aquando do seu trabalho com o Gado de Gerião, passou pela Península Ibérica e por aqui teve muitas aventuras. Numa delas, ele engravidou uma jovem com este nome; não sabemos até que ponto essa relação sexual foi consentida, mas depois, e por razões que não estão muito bem explicadas no mito, ela acabou por dar à luz um estranho ser serpentino. Tremendamente assustada, fugiu sem cessar, acabando por falecer. Depois, o herói eregiu-lhe um túmulo imenso, empilhando repetidamente pedra sobre pedra, acabando assim por construir, com as suas próprias e poderosas mãos, toda a grande cordilheira dos Pirinéus.

 

Este mito de Pirene é, portanto, uma tentativa greco-latina de explicar a existência das muitas montanhas dos Pirinéus. Sem qualquer dúvida que a ideia não é nova – são incontáveis os mitos e lendas por todo o mundo que têm intenções semelhantes – mas o que torna este especial é o facto de se referir a um local tão próximo de nós. De facto, Jacint Verdaguer, na sua Atlântida, até inclui uma forma adaptada deste mito entre muitas outras histórias associáveis a Portugal e Espanha, tornando esta história dos Gregos e Romanos em uma das mais próximas do nosso país, tornando-a especialmente digna de nota nas linhas de hoje.

As lendas de Matacães

Na estrada que separa Torres Vedras de Alenquer pode ser encontrada, sem dificuldade de maior, um desvio para uma povoação de nome Matacães. É indubitavelmente um nome singular, mas quem desejar saber mais sobre ele, ou a origem do nome, depressa se deparará com uma pequena lenda associada a esta povação, segundo a qual a povoação tem esse nome porque, no tempo da Reconquista Cristã, supostamente existiu uma batalha nesse lugar, em que os combatentes gritaram “Matem esses cães!”, referindo-se não ao animal doméstico, mas à mesma palavra num sentido pejorativo. E seria uma lenda muito simples, pouco notável, pelo menos até olharmos para o brasão da antiga Freguesia de Matacães (hoje já foi fundida com outras duas):

Lenda de Matacães

Este é um brasão que, no contexto da lenda reproduzida acima, dificilmente poderia ser compreendido. Porque tem este brasão de Matacães um cacho de uvas, uma oliveira parcialmente despida e um sino vermelho?

A nosso ver, estes três símbolos estão intimamente ligados. Diz uma outra lenda da mesma povoação, ainda hoje muito ligada à agricultura, que existiu lá uma oliveira solitária, em que costumava aparecer uma imagem milagrosa de Nossa Senhora. Tentaram movê-la várias vezes do local (relembrando-nos até a lenda da Nossa Senhora da Piedade da Merceana, localidade que não fica muito longe desta), mas a imagem regressava sempre ao seu local original, no topo da oliveira, pelo que foi construída uma igreja no local (é hoje a Igreja de Nossa Senhora da Oliveira, na mesma povoação). Depois, os peregrinos ao local foram retirando folhas a essa famosa árvore, dando-lhe o aspecto singular que pode ser visto no brasão que reproduzimos acima.

Duas oliveiras ainda hoje podem ser vistas próximas do local, em Matacães, mas desconhecemos se alguma delas é a original, aquela de que nos fala esta lenda. Certo é que a imagem já não se desloca miraculosamente para o local, impossibilitando a verificação do milagre outrora famoso. É pena (!), mas pelo menos assim se compreende a distinção entre a lenda que dá nome à povoação e uma outra, muito diferente, relativa aos três elementos que ainda estão presentes no seu brasão.

Porque se chama Templo de Diana ao de Évora?

Entre os monumentos romanos mais famosos de Portugal conta-se, além das Ruínas de Conímbriga, um templo em Évora que é conhecido sob o nome de Templo de Diana. Que é um templo do tempo dos Romanos, e que por isso estaria dedicado a uma qualquer figura divina da sua altura, é algo que dificilmente alguém duvidará, mas uma outra pergunta significativa acabará por restar, uma que aqui decidimos abordar no início destas publicações diárias até ao final do novo confinamento – porque se chama ele Templo de Diana, afinal de contas?

O Templo de Diana de Évora em dois momentos da sua história

O templo já teve um aspecto muito diferente (ver acima, respectivamente em gravuras do século XIV e XIX), mas as referências que fomos lendo a ele referem-se, quase exclusivamente, ou à sua localização na cidade de Évora (de no romano Ebora Liberalitas Julia), ou a uma associação a Diana, deusa romana da caça. Quem pesquisar um pouco sobre o tema irá encontrar informação de que, aparentemente, essa designação vem de uma obra de Manuel Fialho, autor jesuíta do século XVII, intitulada Évora Ilustrada. Não conseguimos encontrá-la para consulta, mas um epítome da mesma obra, compilado já alguns anos depois e de título Évora Gloriosa, diz essencialmente o seguinte em relação a este templo:

Entre todas [as divindades veneradas em Évora] a sua divindade tutelar, especialmente após o governo de Sertório, foi Diana, a quem levantaram aquele famoso templo, cujas presentes ruínas indicam hoje a soberba da sua fábrica.

Ou seja, este autor, a quem é dado grande crédito na origem do nome dos nossos dias, nunca parece explicar o porquê de considerar que neste templo tinha sido venerado a deusa Diana. Ponto final?

Não, nem por isso, na medida em que podemos aqui lançar uma sugestão… quem for ler a famosa obra de Martinho de Dume acabará por se aperceber de que mesmo após a instauração do Cristianismo algumas pessoas dos campos continuaram a venerar os deuses pagãos e a repetir alguns dos seus ritos, por acreditarem que ajudavam nas tarefas agrícolas. Entre esses deuses contava-se, naturalmente, aquela Diana que ficará ligada ao culto das bruxas, e que em Portugal também surge associada a um potencial templo romano hoje ocupado pela estranha Capela de São Mamede de Janas (em Cintra/Sintra), tal como em Espanha foi associada a um templo romano em Mérida. É, por isso, provável que esses templos apareçam todos associados a Diana por se tratar da grande deusa pagã cujo nome ao longo dos séculos mais perdurou na cultura popular – e somente por isso, visto que no local não foi encontrada, segundo sabemos, qualquer referência directa ao nome da divindade tutelar do espaço.

 

Em suma, porque se chama Templo de Diana ao de Évora? Muito provavelmente porque, tendo-se esquecido ao longo dos séculos o nome da divindade aí venerada, o então-famoso nome da deusa pagã Diana tenha surgido como mais que provável para o espaço. Ela até pode ter sido venerada no local, sim, mas é uma hipótese tão válida como qualquer outro culto romano da mesma época – e, hoje, este templo até é mais associado ao culto do Imperador Augusto.