As lendas do Castelo de Almourol

Sobre estas lendas do Castelo de Almourol, importa começar por esclarecer que Almourol é o nome do próprio castelo, como acontece em casos como o de Avalon ou Camelot, e não o da localidade em que ele se insere, como acontece no caso dos castelos de Sintra. Não existe e nunca existiu, tanto quanto foi possível averiguar, uma povoação com esse nome nas proximidades. E, por isso, afirme-se firmemente que é o próprio castelo que tem esse nome… e é sobre ele que contamos as lendas de hoje!

O Castelo de Almourol e suas lendas

Uma primeira diz-nos que, aquando da reconquista cristã, vivia em Almourol um rei mouro com um nome como Al-molrolan. Tinha uma filha lindíssima, que se apaixonou por um cavaleiro cristão. Esta, morrendo de amores por aquele que praticava uma religião diferente da sua, deixava-o entrar no castelo durante a noite. E assim viveram as suas muitas paixões, até que um dia o cavaleiro traiu a sua confiança, reabrindo as portas para os seus companheiros e possibilitando, assim, a fácil conquista de um local que à primeira vista poderia parecer inconquistável.

 

Mas não é a única. Outra lenda, cronologicamente mais recente, fala-nos de um tal Dom Ramiro, que viveu neste castelo de Almourol enquanto combatia os Mouros. Uma dia, regressando a casa, viu uma jovem moura, a quem pediu água; assustada, esta quebrou a sua cantarinha, irritando o fidalgo e levando-o a matar mãe e filha, antes de capturar um menino mouro que viu próximo do local – ainda o desconhecia, mas este era um irmão da jovem que matou, e que jurou tremenda vingança no seu coração.

Os tempos passaram e a esposa de Dom Ramiro acabou por falecer, vítima dos venenos do jovem mouro. Depois, a filha deste fidalgo apaixonou-se pelo jovem e ambos fugiram juntos, procurando escapar ao evidente ódio do monarca. Mas, ao longo do tempo, esse seu sentimento deu lugar a uma enorme tristeza… e, talvez por solidão, talvez por arrependimento, começou a ver um espectro da sua desaparecida filha e do seu amado mouro, sendo levado a um desespero tão grande que acabou por falecer ou por se suicidar, mediante a versão da lenda.

 

Para quem preferir versões mais literárias, alguns dos episódios do Palmeirim de Inglaterra, um dos mais famosos romances de cavalaria nacional (a par do grande Amadis de Gaula), também têm lugar neste mesmo Castelo de Almourol. Era aí, nesse castelo num margem do Tejo, que vivia um poderoso gigante de nome Almourol, mas também uma belíssima dama, Miraguarda, que suscitou uma infinidade de combates em virtude da sua linda figura – o (suposto) local ainda pode ser visto em redor do castelo, mas os escudos dos combatentes, famosos na história, já há muito que desapareceram… Mas esse já é um desenvolvimento que ficará para outra altura, até porque se trata de uma obra demasiado extensa para tratar de forma tão breve – por agora, resuma-se apenas que alguns dos seus episódios (ficcionais) tomam lugar neste belo local, e que quando lerem lendas associadas a este castelo que mencionem os nomes de Polinarda e Miraguarda, eles não se tratam de “lendas reais”, mas sim de episódios retirados desta obra de ficção, que já teve uma enorme fama, ao ponto de até o grande Dom Quixote a ter lido.

 

Deixando de lado essas histórias, hoje este local, agora conhecido sob o nome de Castelo de Almourol, é um belo recinto no meio do Tejo. É quase mágico, ainda mais se for visto numa manhã de nevoeiro, pelo que terá sido, provavelmente, essa magia perpétua que inspirou incontáveis histórias, de que recontámos acima as mais famosas. Talvez um dia as possamos voltar a contar com o próprio castelo à vista, e com os nossos pés nas margens do Tejo a ele próximas… até lá, fiquemo-nos por este vídeo sobre o local!

Freixo de Espada à Cinta, Peso da Régua – lenda e origem dos nomes

De entre as muitas povoações de Portugal, é provável que Freixo de Espada à Cinta e Peso da Régua sejam duas das que têm um nome mais estranho.

 

A primeira, Freixo de Espada à Cinta, conjura quase automaticamente a ideia de um freixo, um tipo de árvore, com uma espada, até que o leitor se aperceba de um “pequenino” problema, que é o facto de uma árvore não ter cinta/cintura e, como tal, não poder portar uma arma por lá. Ao mesmo tempo, quem quiser argumentar que o nome correcto era “Espada-cinta” mete-se num problema ainda maior, que é o facto de um tal conceito nem sequer existir. Assim, dada a dificuldade de compreender toda a origem do nome, parecem existir pelo menos duas lendas antigas que tentam explicá-lo.

A lenda e origem do nome de Freixo de Espada à Cinta

Uma diz que o nome deriva de um fidalgo que tinha por armas um freixo e uma espada, alguém de apelido Feijão, que era irmão de São Rosendo e faleceu no ano de 977. Ora bem, como ele tinha essas armas, elas foram associadas à vila que nos dizem que fundou. O que seria uma boa possibilidade, claro, não fosse o facto de se desconhecer o verdadeiro nome do fundador nem se saber onde entra a “cinta” em toda esta história.

Já a segunda refere um tal Espadacinta, de data convenientemente incerta, que se diz que numa dada altura descansou encostado a um freixo dessa vila. Por essa acção tão comum – relembre-se até a lenda da Palmeira de Cascais – foi dado todo o nome à vila, e até se diz que a famosa árvore ainda existia no século XVIII. O que, novamente, funcionaria para explicar o nome, não fosse o facto de não se saber absolutamente nada mais sobre uma figura com um nome tão invulgar quanto misteriosamente conveniente.

 

Portanto, se existem lendas que tentam explicar a origem do nome de Freixo de Espada à Cinta, elas são pura e simplesmente mitos, na medida em que não têm qualquer espécie de fidelidade digna de crédito por detrás delas. De onde veio este nome é hoje pura e simplesmente desconhecido, como evidenciam as várias versões que o brasão teve ao longo do tempo – ás vezes a espada está colocada na “cinta” do freio, outras vezes está ao lado da árvore, por vezes esse primeiro elemento até se multiplica, etc.

A lenda e origem do nome de Peso da Régua

Por contraste, podemos apontar a origem do nome de Peso da Régua. O seu brasão tem dois cachos de uvas e um rabelo, denotado evidentemente a sua ligação ao Douro e ao Vinho do Porto, mas nenhuma lenda se esconde por detrás desta iconografia ou do nome da cidade (os cachos, para quem tiver essa curiosidade, são comuns nos brasões de regiões em que existe muito vinho e vinha). Em vez disso, a sua designação actual resulta da fusão de duas localidades, “Peso” e “Régua”, que pelo desenvolvimento que sofreram no século XVIII acabaram por se tornar uma só – porquê Peso da Régua, e não Régua do Peso ou algum outro nome, parece ter-se devido apenas ao facto da mais significativa ou desenvolvida das duas povoações ter sido a Régua – ainda hoje muitas pessoas dizem “Vou à Régua”, mas nunca ouvimos, mesmo na região, alguém a dizer que vai “ao Peso”…

 

Assim, ficam aqui os exemplos da origem dos nomes de mais duas povoações de Portugal, e respectivas lendas. Escolhemos estas duas, e até as associámos aqui, porque para uma delas desconhecemos a origem do nome mas temos algumas das suas lendas, enquanto que para a outra até conhecemos muito bem a origem do nome mas não existe qualquer lenda real que lhe possa ser atribuída. Mistérios das muitas povoações de Portugal…

A lenda dos Paços de Leonor

A lenda dos Paços de Leonor remete-nos para um local perto de Peniche, das Berlengas e do Cabo Carvoeiro, cuja história recordamos aqui hoje.

Forte das Berlengas, onde Rodrigo viveu

Em finais do século XV viviam em Peniche duas famílias que nutriam um infinito ódio uma pela outra. Mas, por ironia do Destino – que mais podemos evocar em circunstâncias como essas? – um filho de uma delas, Rodrigo, apaixonou-se por uma filha da outra, Leonor. Naturalmente que as duas famílias desaprovavam completamente este romance, e então o pai de Rodrigo enviou-o para o mosteiro da Berlenga, para noviço da Ordem de São Jerónimo (no local que hoje é o famoso Forte das Berlengas). Mas o jovem não esqueceu a mulher que dizia amar, e então em dadas noites tomava um barco e visitava Leonor num caverna que, em virtude desta sua presença, ficou conhecida como Paços de Leonor. Estando aí e chegando sempre primeiro, a jovem, para indicar a sua presença e o local onde o amado devia atracar, acendia uma candeia.

 

Tudo corria bem, até que um dia Rodrigo se aproximou da costa e não viu qualquer candeia acesa, mas somente o manto da sua amada entre as ondas do oceano. O que lhe teria acontecido? A lenda diz-nos que Leonor, nessa noite, ao chegar à caverna encontrou a sua família no local, e procurando não ser descoberta caiu de um penhasco – o seu corpo foi encontrado no dia seguinte. E se Rodrigo até desconhecia tudo isto, não pôde deixar de temer o pior e atirou-se ao mar, procurando partilhar uma morte que já antevia. O seu corpo foi, também ele, encontrado no dia seguinte, num local que ficou então conhecido como Sítio de Frei Rodrigo.

 

Esta lenda dos Paços de Leonor, que ainda parece ser conhecida entre os locais, é então uma espécie de Romeu e Julieta nacionais. Não sabemos até que ponto será verdade, mas pelo menos parte da sua história terá um fundamento real, que foi sendo preservado nos nomes dos principais locais apresentados em toda a trama.

A lenda da Torre de Dom Sapo

A história de hoje, esta lenda da Torre de Dom Sapo, também conhecida como Torre de Moure, vem-nos de Cardielos, na região de Viana do Castelo (Portugal). O seu local original ainda existe – é hoje chamado a “Quinta Dom Sapo” – mas a torre, essa, já foi demolida há mais de um século. O que até acaba por ser um pouco curioso, na medida em que o recinto tinha pouca ligação com a própria lenda, como iremos ver, que por isso também pode ser simplesmente conhecida como a Lenda de D. Sapo.

Uma torre antiga, não é a Torre de Dom Sapo

Existiu, então, em outros tempos da Idade Média uma torre que tomou o estranho nome de Dom Sapo. Quem tivesse a curiosidade de inquirir sobre esta designação viria a saber a história de um antigo nobre, de seu nome Florentim Barreto, alcunha “O Sapo”, que tinha vivido nessa antiga torre e cometido as maiores vilanias, entre as quais exigia o seu direito de prima nocte, ou seja, de dormir com todas as novas esposas antes do recém-casado marido o fazer. Ás tantas, certamente fartos dos constantes actos maldosos deste seu senhor, o povo foi pedir ao rei autorização para se matar “um sapo que violava muitas jovens mulheres”. O rei poderá até ter estranhado um tal pedido, mas não vendo qualquer impedimento real para o conceder, fê-lo, levando, por um acidente de pura ignorância, à morte de um nobre da sua corte (que até bem mereceu o seu castigo), que se veio a acreditar que viveu nesta Torre de Dom Sapo.

 

Será esta história verdade? Não podemos ter a certeza, mas é provável que, como em outras lendas semelhantes, também esta tenha pelo menos um fundo vago de verdade. Existia mesmo uma tal Torre de Dom Sapo, isso está atestado em documentos do século XVIII, ela foi demolida posteriormente, mas onde terminam estes factos e onde começa a verdade por detrás de Florentim Barreto, vulgo D. Sapo, parece ser algo que se perdeu nas areias do tempo… e mesmo esta sua lenda já parece ser pouco conhecida, talvez pelo desaparecimento do espaço a que um dia esteve associada. Que não se perca.

A lenda da Palmeira de Cascais

Falar desta invulgar lenda da Palmeira de Cascais implica contar uma história um tanto ou quanto triste, mas que também dará o mote para os primeiros cinco dias deste novo ano – iremos agora apresentar cinco histórias, hoje já quase esquecidas, mas que um dia estiveram bem fincadas na memória colectiva de cinco localidades portuguesas.

A lenda da Palmeira de Cascais na ficção

Há já muitos anos, ainda em tempos de escola, tivemos de ler um livro de Alice Vieira, Promontório da Lua, em que uma palmeira de Cascais conta a sua longa história. É, obviamente, um conto ficcional, direccionado para um público mais jovem, mas aqueles que, até a título de grande curiosidade, decidissem ir tentar visitar esta heroína acabariam muito desapontados – quem fosse, nessa mesma altura, visitar a Rua da Palmeira, em Cascais, onde ela vivia no conto desta autora portuguesa, já não a encontrava… Entretanto lá foi plantada uma no local, possivelmente para corrigir o absurdo de um topónimo agora incompleto, mas dada a sua altura é muito fácil perceber que não se trata da planta original.

 

Tudo isto teria pouco interesse para as nossas linhas de hoje, não fosse o facto da palmeira original ser uma figura lendária e famosa na história de Portugal. Segundo conta a pequena lenda, ela já estava no seu local aquando da reconquista cristã, e Dom Afonso Henriques terá até descansado e almoçado à sua sombra, em meados do século XII, quando fazia o caminho entre Sintra e Lisboa num sentido agora incerto.

É muito provável que tenha sido esse episódio, um notável misto de história e lenda, que inspirou Alice Vieira a escrever o seu conto, mas que também tornou essa antiga palmeira de Cascais a mais famosa da história do nosso país, até àquele fatídico dia, numa qualquer data hoje já muito incerta, em que desapareceu do seu lugar original – provavelmente até a bem do progresso, diriam alguns, mas pelo menos hoje a rua já tem uma nova palmeira no local da anterior, desapontando assim menos crianças que venham a ler este Promontório da Lua