A não-lenda da Arranca-Pregos

Esta não-lenda da Arranca-Pregos é, pelo menos para nós, um pouco triste. Quem viver em Alcabideche, no concelho português de Cascais, poderá já ter visto, próximo de um cruzamento em terra-batida, um pequeno poço que está hoje totalmente coberto com uma espécie de laje de pedra. Os locais dizem tratar-se do Poço da Arranca-Pregos, mas a que se deve um nome tão singular?

Poço da Arranca-Pregos

Infelizmente, já ninguém nos soube dizer a sua história. Informaram-nos, isso sim, que existia na zona uma mulher que era conhecida por “Arranca-Pregos”, e que este poço foi um dia parte da sua propriedade. Disseram-nos igualmente que, faz já cerca de 80 anos, ela podia ser vista, idosa e sozinha, na companhia dos seus cães e dos seus porcos. Uma pessoa até nos disse, com um misto de cepticismo e de estranha certeza, que alguns anos após a morte desta figura alguém foi a casa dela e no seu interior, apesar da pobreza aparente, encontrou grandes riquezas. Mas o porquê do nome, a razão pela qual esta senhora era chamada assim, já ninguém sabe. Insistimos, uma e outra vez. Dizem-nos então que não sabem, não sabem mesmo, sempre a ouviram a ser tratada por esse nome, mas ela nunca falava com ninguém – ou, para sermos mais precisos, já não conseguimos encontrar ninguém que nos dissesse que tinha mesmo falado com ela.

 

É um pouco triste que já ninguém pareça saber porque a Arranca-Pregos tinha esse nome. Já ninguém se recorda sequer do nome com que essa mulher nasceu. E já ninguém se lembra de mais do que o que contámos acima. E assim, o Poço da Arranca-Pregos lá continua, na sua pedra semi-eterna, com o mesmo nome que um dia teve, mas sem que já ninguém saiba as verdadeiras razões por detrás da designação que agora tem…

Em busca do Castelo de Cascais

Hoje, decidimos partir em busca do Castelo de Cascais. Quem olhar para o brasão dessa vila portuguesa poderá aí encontrar, sem qualquer espécie de dificuldade, águas douradas (como se acreditava serem as do Tejo, desde os tempos dos Romanos) e um castelo vermelho:

Brasão da Vila de Cascais

Porém, quem depois for visitar esta vila depressa se deparará com um problema – se as águas douradas são puramente metafóricas, onde está o castelo a que também faz alusão este brasão? Perto da marina até pode ser encontrada uma fortaleza moderna, onde está uma das residências oficiais do Presidente da República, mas certamente que o complexo não se trata de uma construção medieval. Além disso, o panorama da região, captado num desenho da segunda metade do século XVI, mostra dois grandes recintos fechados, um com uma enorme torre e outro que se assemelha, esse sim, a um castelo medieval com uma muralha bem característica:

Panorâmica de Cascais no século XVI

A torre, na secção inferior desta imagem, estava colocada no local em que hoje existe a parte mais a sul da fortaleza, como revelaram vestígios arqueológicos. Mas o que aconteceu ao castelo? Pela sua localização nesta imagem é possível perceber que o castelo estava localizado perto da costa, entre o local dessa fortaleza e a chamada Praia da Ribeira. Existe, hoje, uma avenida que liga esses dois locais, mas não se percebem quaisquer vestígios evidentes de um castelo. A resposta a todo o problema provém do facto de as várias casas nessa rua serem todas elas relativamente recentes, do século XX, em que se foi demolindo o (pouco) que então ainda existia das muralhas medievais. Existem até fotografias que mostram essa demolição a tomar lugar, mas não podemos mostrá-las por cá face a direitos de autor dessas imagens.

Mas a busca pelo castelo ainda não fica por aqui. Seguindo então essa avenida num sentido descendente, em direcção à praia, quem também decidir partir em busca deste misterioso Castelo de Cascais poderá virar à esquerda na Rua Marques Leal Pancada, onde depressa encontrará uma esquina muito pouco vulgar:

E depois, um pouco mais acima, pode ser encontrada uma porta muito antiga, em que uma pequena lápide atesta a presença do que se poderia pensar já totalmente perdido:

Quem olhar para estes dois locais com muito cuidado e atenção aos detalhes poderá ainda encontrar, aqui e ali, pequenos vestígios do verdadeiro castelo medieval, que agora se encontra quase apenas resumido a estes dois locais individuais. É provável que uma parte muito significativa das suas muralhas tenha sido destruída aquando do Terramoto de Lisboa, mas sabemos que em inícios do século XX ainda podiam ser encontradas mais restos das muralhas medievais nas ruas próximas, e que elas, como já foi afirmado acima, foram sendo demolidas para a construção de novas casas, sem qualquer respeito pelo património dos nossos antepassados.

 

É este o Castelo de Cascais, o mesmo que pode ser visto no brasão da vila. Ou, se pretendermos ser mais precisos, é o pouco que ainda nos resta de um castelo medieval, que possivelmente foi destruído pelo famoso terramoto de 1755 e depois foi pilhado e demolido até ao seu estado actual. Resta saber até quando se irão manter estes dois vestígios de uma construção da Idade Média, já que só nos chegaram por um mero acaso e sucessivo acidente dos séculos…

A lenda da Gruta de Camões

Quem for a Macau poderá, sem muita dificuldade, cruzar-se com um jardim que tomou o nome de Camões, onde existe um famoso espaço conhecido como a Gruta de Camões:

Se o espaço, que aqui pode ser visto quase ao centro da imagem, não é hoje uma verdadeira gruta, tem uma pequena lenda associada a ele – diz-se que, aquando da sua passagem por terras do oriente, o poeta Luís Vaz de Camões descansou nesta pequena gruta, onde até escreveu pelo menos um poema à sua amada Dinamene. Mas será isto verdade?

Camões num filme

Sabemos que Camões efectivamente viveu em Macau durante algum tempo, mas, como já apontado anteriormente, os eventos mais concretos da sua biografia são muito difíceis de discernir. É certamente possível que tenha encontrado este belo recanto e que tenha escrito algum poema por lá, mas já não podemos ter qualquer certeza real de que isso tenha tomado lugar.

E o que dizer de Dinamene? Naturalmente que se trata de um pseudónimo – Dinamene, ou Δυναμένη, era uma das Nereidas da Grécia Antiga – que a tradição oral associou a uma chinesa que, segundo um dos poemas que lhe foi dedicado, terá morrido entre as ondas do mar:

Ah! minha Dinamene! Assim deixaste
Quem não deixara nunca de querer-te!
Ah! Ninfa minha, já não posso ver-te,
Tão asinha esta vida desprezaste!

Como já pera sempre te apartaste
De quem tão longe estava de perder-te?
Puderam estas ondas defender-te
Que não visses quem tanto magoaste?

Nem falar-te somente a dura Morte
Me deixou, que tão cedo o negro manto
Em teus olhos deitado consentiste!

Oh mar! oh céu! oh minha escura sorte!
Que pena sentirei que valha tanto,
Que inda tenha por pouco viver triste?

Terá esta Dinamene existido? Terá mesmo falecido entre as ondas do mar? Terá até estado com Camões neste espaço da Gruta de Camões? Será que o amou tanto como ele parece tê-la amado nos seus versos? Por boas que sejam, estas são perguntas às quais a ausência mais concreta de uma biografia do poeta nos impedem respostas reais.

 

E é assim que nascem, ou que tendem a nascer, as lendas. Pegando-se num facto real – a presença de Luís de Camões em Macau – vão sendo acrescentados novos elementos à história, até que se torna difícil compreender onde acabam os factos históricos concretos e onde começa uma qualquer ficção menos credível. Mas, indiferente a tais problemas, lá continua em Macau a bela Gruta de Camões, no jardim que tomou o nome do poeta, a inspirar histórias como estas e muitas outras…

O mito de Trofónio e Agamedes (e a Caverna de Trofónio)

Se existem pequenas adições à história aqui e ali, o mito de Trofónio e Agamedes é relativamente simples. Conta-se que essas duas figuras, frequentemente associadas como uma só, foram os arquitectos de diversos edifícios famosos por toda a Grécia, entre eles o Oráculo de Apolo em Delfos.

O deus Apolo

Segundo o mito, este famoso oráculo em Delfos foi então a última das construções que Trofónio e Agamedes fizeram. E, na verdade, o deus Apolo – visto na imagem acima – parece ter ficado tão contente com a sua criação que lhes decidiu conceder um desejo. Podiam pedir ao deus tudo o que quisessem, mas o seu desejo, qualquer que fosse, apenas se concretizaria após um período de sete dias. E então, eles decidiram pedir a Apolo algo que lhes parecia muito natural – queriam receber aquilo que os deuses considerassem o melhor para todos os seres humanos. O deus concedeu-lhes então esse desejo, e após uma semana de interregno acabaram ambos por falecer. Depois, Trofónio foi sepultado no interior de uma caverna, que se tornou um dos mais famosos oráculos da Antiguidade*.

 

A ideia não é completamente nova e até surge em diversos outros mitos, sempre com a sugestão de que o melhor para todos os seres humanos é falecer no seu momento de maior glória. Sejam as personagens Trofónio e Agamedes, Cléobis e Bíton, ou até Creso e Sólon, a ideia geral é a mesma, que pode ser bem resumida nas próprias palavras que são atribuídas ao sábio Sólon – não contes nenhum homem como afortunado até ao dia da sua morte. Dá que pensar, que sucessivos mitos da Antiguidade nos transmitam essa mesma mensagem, mas que ela também esteja já muito esquecida nos nossos dias de hoje…

 

Será esta a Caverna de Trofónio?

*- Inspirados por uma visita virtual à Gruta Corícia, decidimos então também tentar visitar a chamada Gruta ou Caverna de Trofónio. Não fomos capazes de o fazer, porque se até ainda existe um espaço que se pensa ser esse novo e famoso oráculo (e cuja entrada pode ser vista na imagem acima), não parece ter sido encontrado no local nada que permita afirmar, com absolutas certezas, que era mesmo este o local em questão. É, portanto, muito provável que o espaço original tenha sido esquecido ao longo dos séculos, até face à sua associação pagã, e ainda não tenha sido reencontrado nos nossos dias…

A lenda do Lagarto da Penha de França

Contar a lenda do Lagarto da Penha de França transporta-nos para um local muito singular da capital de Portugal. De entre as muitas freguesias lisboetas conta-se uma com este nome, que obteve o seu nome da respectiva padroeira, a (espanhola) Nossa Senhora da Penha de França. Agora, quem for ao local, muito próximo da igreja que tomou esse mesmo nome poderá encontrar nas paredes a referência a uma breve lenda:

Pode então aqui ser visto um enorme lagarto, o chamado “Lagarto da Penha de França”, e por baixo dele, a contornar toda a curva, está um resumo da respectiva história, numa curiosa iniciativa que seria certamente interessante repetir em muitos outros locais de Lisboa:

Reza a lenda que um devoto adormeceu na colina. Nesse momento, ao ser atacado por uma cobra, eis que um lagarto surgiu em seu auxílio por intercessão de Nossa Senhora da Penha de França.

Já poucos o saberão, mas esta lenda, cumulativamente com uma cobra e um lagarto, não é a original e nasceu da fusão de dois episódios diferentes agora associados ao mesmo local… e é aqui que toda esta história se torna muito mais interessante.

 

A verdadeira lenda do Lagarto da Penha de França!

 

A primeira parte da lenda tomou lugar numa altura agora demasiado incerta, mas antes do ano de 1743 (em que este animal já era famoso na cidade). Segundo ela, em dada altura um peregrino estava a descansar debaixo de uma árvore e adormeceu. Quando um enorme lagarto se preparava para o atacar, ele foi acordado por Nossa Senhora, que o instigou contra o animal, levando a que o homem depressa o matasse com um punhal. Depois, o bicho foi levado para a igreja local, onde permaneceu durante pelo menos alguns anos e se tornou famoso, sendo até representado em ligação com o local no ano de 1756, como visto nesta imagem da época, que só nos chegou por intermédio de uma devota do local:

O Lagarto da Penha de França e sua lenda

Pode aqui ser visto o peregrino e um pequeno lagarto, mas é importante é notar a ausência de qualquer cobra. Isto, porque nessa altura ela ainda não fazia parte da mesma história, contrariamente ao que a lenda actual faz acreditar, mas já era este o então-famoso Lagarto da Penha de França.

 

E de onde veio então a cobra? Explique-se – por volta do ano de 1743 chegou a Lisboa uma nau “chamada S. Pedro e S. João da Companhia de Macau”. Quando os navegadores estavam a descarregar o seu navio encontraram lá um viajante ilegal vindo de terras do Oriente, uma enorme cobra. Mataram-na, e depois, dada a fama do lagarto de que falámos acima, enviaram-no para a Igreja da Penha da França, para que este enorme animal fosse apresentado em conjunto com esse seu outro colega. E então, nesse ano eles eram exibidos como mostramos abaixo – com o lagarto e o peregrino no seu conjunto individual, mas com a cobra totalmente separada, porque não fazia (ainda) parte da mesma lenda.

O Lagarto e a Cobra de Penha de França

Portanto, durante pelo menos alguns anos estes dois animais foram apresentados em separado. Existia na mesma igreja o então famoso Lagarto da Penha de França, mas também uma grande cobra vinda de terras de Macau, sei que existisse uma verdadeira relação entre eles. Não sabemos quando é que os corpos dos dois animais desapareceram – talvez por volta do Terramoto de 1755? – mas depois foram substituídos por versões em madeira, potencialmente as mesmas que ainda hoje podem ser vistas – curiosamente separadas – no local religioso. Com a passagem do tempo, as suas histórias foram-se fundindo numa só, em que o vilão original passou a herói, provavelmente em virtude da sua grande fama… mas, necessitando-se de um novo vilão, ele nasceu da grande cobra também já presente no local. E isto levou à lenda tal como a temos hoje, como ela é apresentada naquela parede lisboeta, sem que alguma vez se explique o verdadeiro caminho que conduziu ao cruzamento destes dois animais… mas que esperamos que agora já possam conhecer por estas linhas de hoje!