A lenda do crocodilo Timor

A lenda do crocodilo Timor vem-nos, como não poderia deixar de ser, de uma terra distante, uma ilha que hoje é conhecida como Timor Leste. Quem olhar bem para ela poderá lembrar-se da história que une o nosso país ao deles, mas poderá igualmente aperceber-se de que esta tem uma forma muito singular. De onde vem ela?

Mapa de Timor Leste

Conta-nos a história que um dia existiu um pequeno crocodilo chamado Timor. E ele tinha um grande sonho – queria tornar-se grande, o maior de todos os da sua espécie, mas não sabia como o fazer. E assim foi vivendo, até que um dia, ao passar por uma praia, encontrou uma criança. Encetaram diálogo, e o menino depressa lhe confessou que também ele tinha um grande sonho – queria visitar muitas terras distantes e conhecer todo o mundo!

Face a esse pedido, o crocodilo depressa se apercebeu que até o podia ajudar, porque sabia nadar. Então, juntos, partiram à aventura e foram conhecer muitos locais distantes. A sua viagem continuou até que um dia, talvez demasiado cansado pelo peso dos anos, o crocodilo se apercebeu que não podia continuar a viagem por muito mais tempo. Informou o menino dessa sua dificuldade crescente, e contou-lhe como temia já não conseguir realizar o seu próprio sonho. A criança acalmou-o, mas à medida que se preparava para desfalecer, o crocodilo cresceu… e cresceu… e cresceu… e cresceu (!), acabando por se tornar numa enorme ilha!

 

Esta lenda tem o seu quê de charme, mas também uma certa tristeza. Sim, o crocodilo realizou o seu grande sonho, tornou-se no maior (e possivelmente até mais famoso?) da sua espécie, mas será que o preço que pagou para tal foi merecido? Essa resposta já fica para os leitores. Ainda assim, não deixa de ser uma bela lenda, criada para justificar o porquê da forma da ilha – que, como pode ser visto na imagem acima, se parece verdadeiramente com um crocodilo – e que o faz de uma forma digna de nota. E, nesse contexto lendário, não podemos deixar de acreditar que a ilha de Timor é, hoje e na verdade, mesmo a concretização do grande sonho do crocodilo Timor!

Delfos, o centro do mundo

Ao longo dos séculos, em quase todas as culturas do globo foram aparecendo mitos e lendas que as designam como as mais importantes de sempre. O Japão era a “terra dos deuses”,e  algumas culturas mexicanas acreditavam que seriam as primeiras a ser visitadas no regresso do seu maior deus, entre muitos outros exemplos aqui possíveis. Mas hoje focamo-nos, mais especificamente, na Grécia Antiga, onde existia um pequeno mito que dizia que a cidade de Delfos, ou mais precisamente o Templo de Apolo que existia por lá, era o centro do mundo. É um mito pequeno, mas nem por isso menos significativo – contava-se que Zeus tinha enviado duas águias para voarem por todo o mundo, em sentidos opostos, e que posteriormente elas se cruzaram precisamente neste local, que seria então uma espécie de umbigo do mundo.

Onfalo de Delfos

Diz-se que o Onfalo, representado acima, marcava o local preciso em que as duas águias se cruzaram, mas já não sabemos até que ponto esta escultura era a original. Porém, há algo de intrigante em vê-la no seu contexto actual, no Museu Arqueológico de Delfos:

Colocada assim, em vez de numa imagem muito estática, podemos ver o quão grande este proverbial umbigo era. E depois, se o imaginarmos no contexto das montanhas de Delfos, ficamos com uma ideia muito melhor de todo o espaço que este mito um dia ocupou:

Será Delfos o centro do mundo? Certamente que já não o é, o mito original já muito esquecido nas areias do tempo, mas parecia sê-lo no tempo da Grécia Antiga, e mesmo no tempo dos Romanos a sua fama ainda pode ser constatada pelo facto do deus de Delfos, Apolo, não ter obtido um novo nome, um que fosse puramente latino. Já não o é, admita-se, mas foi-o, e nos muitos mitos de outros tempos, de que o de Creso e Sólon é um bom exemplo,  ainda pode ser revisitado como tal…

A lenda de Martim Moniz

Podemos introduzir a lenda de Martim Moniz com uma pequena história – em Lisboa, quem apanhar o metro da cidade poderá, sem muita dificuldade, cruzar-se com a estação que vai pelo nome de Martim Moniz. Depois, no interior dessa estação, mesmo próximo da linha de transporte, quem prestar a devida atenção poderá encontrar uma plêiade de figuras cavaleirescas – desde dois bispos, até aos mais diversos guerreiros e ao próprio Dom Afonso Henriques – que representam diversos momentos emblemáticos da lenda da conquista de Lisboa aos Mouros, que teve lugar em 1147. Identificar cada uma das várias figuras ultrapassa os nossos objectivos de hoje, pelo que nos focamos especificamente num dos momentos mais emblemáticos, o relativo à lenda de Martim Moniz, a mesma figura que deu o seu nome à própria estação.

Cavaleiro preso entre as portas

Como é fácil reconhecer, pode aqui ser visto um cavaleiro a tentar cruzar um espaço limitado, que – como indicam as duas setas brancas no topo da imagem – se movem com a intenção de fechar. A figura humana é, como já foi dito, o herói de toda esta história, que segundo a respectiva lenda possibilitou a conquista da cidade usando o seu próprio corpo para impedir que duas portas se fechassem; depois, os seus companheiros de batalha aproveitaram este sacrifício e utilizaram-no para entrar na cidade, eventualmente conquistando-a aos Mouros. Ou, pelo menos, é isto que diz esta famosa lenda de Portugal.

 

Mas terá ela um qualquer fundo de verdade? Não encontrámos qualquer referência a este episódio nas fontes da época, em particular na epístola De expugnatione Lyxbonensi (e apenas uma vaga referência à Porta de Martim Moniz, que podia já existir no castelo um século mais tarde), em que o castelo nem é conquistado mas apenas se rende, sendo muito provável que se trate de uma história puramente mítica, até porque nem se sabe muito bem quem terá sido este Martim Moniz. Se Afonso Henriques até tinha um aio chamado Egas Moniz, que se crê ter falecido em 1146, seria este Martim um seu familiar? Não sabemos – o que sabemos, isso sim, é que a ser uma figura completamente real, aparece somente neste único episódio da conquista da cidade e desaparece logo depois, supondo-se que tenha morrido nessa altura, pagando o preço da conquista (lendária) da cidade com a sua própria vida.

A lenda de Santos (em Lisboa)

Quem viver em Portugal, mais precisamente na zona de Lisboa, certamente que conhecerá uma antiga freguesia com o nome de Santos, que hoje já está associada à da Estrela. Já se chamou Santos-o-Velho, o que permite subentender uma existência de um outro local, Santos-o-Novo, mas de onde vêm estes incomuns nomes, e que lenda se esconde por detrás deles?

A lenda de Santos

Na imagem acima pode ser uma igreja que ainda hoje tem o nome de Santos-o-Velho. A paróquia em questão tem por oragos São Veríssimo, Santa Máxima e Santa Júlia. Diz então a breve lenda de Santos que estes três irmãos viveram nos inícios do século IV e que durante uma das perseguições de Diocleciano foram mártires naquela que é hoje a cidade de Lisboa. Os seus corpos, depois atirados ao rio Tejo, foram salvos por um barqueiro e levados, eventualmente, para um local que se viria a tornar esta igreja, que na sua forma original parecia ter apenas o nome de “Santos”, pela pluralidade de mártires que aí estavam alojados. No entanto, no século XV o rei D. João II ordenou que essas relíquias fossem levadas para outro local religioso, que então ficou conhecido como Santos-o-Novo. E depois, com o passar dos anos, os dois locais acabaram por se fundir num só, por já não fazer sentido a distinção original. E assim nasceu Santos, tal como é conhecido nos nossos dias de hoje…

Viagem (virtual) à Gruta Corícia

Nos mitos gregos existem um conjunto de cavernas muito significativas. Talvez a mais famosa de todas elas seja aquela em que Polifemo aprisionou Ulisses e os seus companheiros na Odisseia homérica, mas existem muitas outras. Por isso, para quem tiver uma certa curiosidade – mas não quiser ir fazer uma longa viagem somente para ver um antro – hoje iremos a uma delas, a chamada Gruta Corícia, que em outros tempos foi consagrada às ninfas e ao deus Pã.

O que tem esta gruta de especial? Hoje já muito pouco, até porque foram feitas escavações no local em meados do século XX, mas quem for ler as linhas de Pausânias sobre este local poderá aperceber-se de um momento sublime parado no tempo – o autor dizia que a maior parte dos dois espaços  desta caverna podiam ser vistos sem a necessidade de iluminação exterior (entenda-se archotes, tochas, etc.). Na imagem acima, quem decidir rodar a fotografia panorâmica poderá então aperceber-se de que a iluminação do local é completamente natural, propiciada quase somente pelo ângulo do sol, podendo este recinto ser visto, hoje, quase como nos tempos em que os Gregos conduziam rituais neste local. E, nesta Gruta Corícia que hoje aqui visitamos virtualmente, há uma certa magia na forma como essa constância ultrapassa os séculos…