A freguesia de Fafe que mudou de nome – Passos VS Paços

“Como é que Pharmácia se tornou Farmácia?” É provável que já tenham sido muitos os que se interrogaram sobre questões sobre estas, mas o que trazemos cá hoje é um exemplo português bem real que demonstra a forma como os nomes das coisas se podem ir alterando ao longo dos tempos.

 

No concelho de Fafe, no norte de Portugal, existe uma pequena freguesia que tinha o nome de Passos, mas que recentemente o mudou para Paços.

O brasão de Passos, em Fafe

Os corvos mantêm-se na bandeira, as uvas também, e tudo o restante continua por lá, mas o nome da localidade foi então alterado de Passos para Paços. E porquê? Segundo a informação que nos foi prestada, em tempos antigos existiam nesta região um conjunto de residências que poderiam ser definidas como torres ou uma espécie de palácios. Depois, ao longo dos séculos, esses locais foram desaparecendo e as pessoas começaram a perder o verdadeiro significado por detrás do nome, confundindo, talvez por ignorância, paços com passos. Ás tantas, lá se descobriu que o nome certo era verdadeiramente Paços, pelo que se optou por corrigir o problema…

 

Queiramos ou não, este tipo de problema é muito frequente. De onde vem o nome de Campa do Preto, do Estoril, de Freixo de Espada à Cinta, de Pé de Cão, de Solteiras, de Terra da Gaga, e de tantas outras terras espalhadas por Portugal? Qual a verdadeira origem desses nomes? Normalmente quem lá vive até tem uma certa ideia da resposta, mas demasiadas vezes a razão do nome original acaba por se perder, ficando as terras órfãs de significado. E depois, com nomes que parecem já não fazer qualquer sentido, ou mudam de nome (recorde-se, por exemplo, a transformação da Porcalhota em Amadora, ou o caso de Cintra e Sintra…), ou são recriadas histórias, nem sempre verdadeiras, para os justificar. E assim, Passos lá voltou a Paços, agora com um nome que se pensa ter sido o original e mais verdadeiro…

A lenda de Jesus no Japão (e os Documentos Takenouchi)

Há já alguns anos que nos contaram uma estranha lenda de Jesus no Japão (já lá iremos). Na altura não pudemos deixar de estranhar a referência, pelo que quando inquirimos mais sobre a fonte dessa informação, falaram-nos de uns Documentos Takenouchi japoneses, supostamente muito antigos, que preservavam toda essa história. E, na verdade, quem procurar pela internet esta mesma lenda – que iremos contar mais abaixo – poderá encontrar, repetidamente, essa mesma informação, atribuída sempre à mesma fonte literária, pelo que convém introduzi-la.

Um Jesus Japonês ou um Jesus no Japão?!

 

O que são os Documentos Takenouchi?

Os Documentos Takenouchi são um conjunto de textos que, alegadamente, preservavam toda a pré-história e história secreta da humanidade, desde a criação do universo até há poucos séculos atrás. Foram escritos em “caracteres divinos”, há cerca de 1500 anos foram supostamente traduzidos para Japonês (como isso foi feito não é totalmente claro), passaram de mão em mão até meados do século XX, e depois os seus originais foram destruídos durante a Segunda Guerra Mundial, juntamente com um conjunto enorme de ítens lendários e mágicos. Isto é o que se alega, mas sem provas de maior, e há que ter isso em conta quando forem lidas as linhas seguintes.

 

De que falam os Documentos Takenouchi?

Entre as histórias que os Documentos Takenouchi continham estava relatado, por exemplo, que os nomes de Adão e Eva tinham provindo de um antigo rei chamado Adão-Eva; que Moisés tinha sido sepultado no Monte Hodatsu (onde escreveu outros Dez Mandamentos); que o Japão era o centro do mundo e o Japonês a língua primordial; que dados reis antigos tinham viajado por todo o mundo em máquinas voadoras; e outras coisas da mesma natureza. E é nesse mesmo contexto que surge, depois, uma lenda que diz que Jesus Cristo está sepultado no Japão, mais precisamente no local visto abaixo, próximo da cidade de Shingo:

 

O que diz a lenda de Jesus no Japão?

Mas afinal o que diz essa lenda de um Jesus Japonês, a que os nativos do país do sol nascente chamam イエス・キリスト? Podemos resumi-la, seguindo as linhas dos Documentos Takenouchi – por volta dos seus 20 anos, Jesus Cristo viajou por todo o mundo em busca de conhecimento, passando no Japão, onde estudou num mesmo santuário em que figuras tão ilustres como Buda e Maomé também estudaram. Depois, voltando ao Médio Oriente por volta dos 33 anos, não foi crucificado (um irmão dele, Isukiri, ofereceu-se para tomar o seu lugar nessa punição capital), e fugiu novamente para o País do Sol Nascente, onde viria a morrer aos 108 anos.

 

Dois vídeos sobre os Documentos Takenouchi

Histórias (apócrifas) como estas, de um Jesus no Japão, abundam na mesma fonte literária para outras figuras do Antigo e Novo Testamento, mas naturalmente que parecem muito menos credíveis quando são mostradas assim, no seu contexto original. Agora, se os textos originais não estão disponíveis – foram destruídos, como já foi dito acima – quem for ler… bem, hoje nem é preciso irem ler nada, vejam antes estes dois vídeos oficiais e tirem as vossas próprias conclusões:

 

Pense-se, para terminar, em toda esta estranha situação. Os Documentos Takenouchi não estão disponíveis para análise ou leitura directa (relembrando aquela intrigante Carta de Mar Saba); a informação que temos sobre eles chegou-nos numa obra literária de Wado Kosaka (que, pela mais mera coincidência, até se auto-proclama “Cosmo-arqueólogo”); e eles são a única fonte literária desta lenda de um túmulo de Jesus no Japão, que o turismo local de Shingo certamente agradece. Mas… parece-vos verdade, tudo isto? Mais que uma lenda, talvez fosse muito mais correcto é chamar puro mito à presença de Jesus, ou de um seu túmulo, nessas terras do oriente…

A lenda do Basilisco de Viena – e os outros basiliscos!

Um ataque ao basilisco de Viena

Quem for a Viena, capital da Áustria, poderá sem grande dificuldade encontrar um local a que os nativos chamam Basiliskenhaus, ou casa do basilisco. Situada em Schönlaterngasse nº 7, a fachada do edifício contém uma antiga estátua do monstro, uma pintura alusiva à lenda e um relato de toda a ocorrência (em alemão). Não valerá a pena traduzir as palavras precisas da lenda, mas podemos recapitulá-la, tal como nos foi contada há alguns anos.

Em 1212 existia uma padaria nesta mesma localização. Dado dia, quando um aprendiz de padeiro necessitou de ir buscar água a um poço próximo, pelo horrendo cheiro que vinha do interior apercebeu-se da presença de uma estranhíssima criatura. Por razões que não são totalmente claras conseguiu reconhecê-la como um basilisco, e sabendo que a criatura transformava em pedra todos aqueles para quem olhava, depressa formulou um plano para a destruir.

Voltando a sua casa, foi buscar um pequeno espelho e usando uma corda desceu ao interior do poço. Movendo-se rapidamente, apontou logo o espelho à criatura, que acabou por usar o seu enorme poder destruidor contra si mesma, explodindo. Depois, tal foi a fama de todo este episódio [histórico?] que os habitantes da cidade decidiram construir no local um memorial.

 

Mas, para nós, o que toda esta lenda do Basilisco de Viena tem de mais especial é o facto de nos preservar no tempo um momento muito concreto da crença nesta criatura. Quem a for procurar em fontes da Antiguidade saberá que se tratava de um animal metade-galo, metade-serpente, por vezes nascido da estranha paixão entre esses dois animais ovíparos, e que matava quem se cruzava com ele de alguma forma muito pouco comum.

Que forma era essa… depende da versão do mito! Em algumas é o cheiro do animal que é mortal; noutras, é o seu olhar, como se de uma nova Medusa se tratasse; uma terceira versão atribiu esses poderes ao próprio aspecto da criatura, que matava – por magia? – quem se atrevia a olhar para ela; ainda outras falavam do próprio toque do estranho animal. E assim por diante, com inconsistências que são fáceis de explicar pela notória impossibilidade de alguém ter visto (verdadeiramente) um basilisco, seja em Viena ou em algum outro local.

 

O Basilisco de Viena é, para quem prestar muita atenção, uma confluência de crenças sobre algumas das várias versões do basilisco. Por exemplo, ele cheira mal – mas já não mata pelo cheiro; ele tem um olhar mortal, mas que apenas afecta aqueles para quem olha – ou seja, o aprendiz de padeiro pode vê-lo sem se transformar em pedra; mais do que ser transformada em pedra pelo seu próprio poder, a criatura explodiu – impedindo que alguém a capturasse. É, por isso, um perfeito exemplo de como as crenças sobre determinadas criaturas lendárias foram evoluindo ao longo dos séculos, sendo em plena Idade Média já muito diferentes de como eram conhecidas na Antiguidade.

A lenda da Gruta da Moeda

A lenda da Gruta da Moeda remete-nos para um espaço muito próximo da cidade portuguesa de Fátima. É, como o respectivo site nos informa, uma gruta com extensão visitável de cerca de 350 metros, cuja beleza nos pode ser apresentada parcialmente nesta fotografia panorâmica tirada por um dos seus visitantes:

Porém, o que nos interessa particularmente é a sua lenda. O site já mencionado acima relata a seguinte:

Em tempos idos, um homem abastado destas redondezas ao passar por um bosque, em torno de um algar, foi assaltado por um bando de malfeitores que lhe tentaram saquear a bolsa de moedas que trazia à cintura. Com a confusão do assalto, o homem caiu para dentro do algar, levando consigo a bolsa de moedas tão cobiçada pelos assaltantes. Pelo precipício se espalharam e perderam irremediavelmente as moedas, dando ao algar o nome pelo qual ainda hoje é conhecido – Algar da Moeda.

 

Contudo, há já alguns anos contaram-nos uma versão popular significativamente diferente. Segundo ela, a “Gruta da Moeda” tinha esse nome porque quando Nossa Senhora apareceu em Fátima, numa das viagens para o seu encontro com os Três Pastorinhos deixou cair a sua carteira numa gruta próxima do local, onde viria a ser encontrada alguns anos mais tarde.

 

É possível que esta segunda versão se trate de um mero mito, ou de uma versão um tanto ou quanto satírica da outra lenda da Gruta da Moeda, mas o que ambas nos mostram é um aspecto das lendas e mitos que foi sendo repetido ao longo dos séculos – um local tem um determinado nome (ou característica), a razão original perdeu-se com o tempo, e então surgem tentativas de justificar o nome conhecido de diversas formas, algumas mais naturais do que outras.

Viagem (virtual) a dois Criptopórticos de Portugal – Lisboa e Coimbra

Galerias Romanas

Para os mais curiosos, ou apenas aqueles que não querem passar horas e horas numa fila para poderem visitar as Galerias Romanas da Rua da Prata, em Lisboa, podem fazer uma visita virtual ás mesmas neste link [entretanto removido].

 

Contudo, como já cá foi referido no passado, Portugal tem também um outro criptopórtico – muito maior e mais acessível – em Coimbra, por baixo do Museu Nacional Machado de Castro. Também esse pode ser visitado virtualmente (mas de uma forma incompleta, aparentemente com um único nível acessível no sistema), usando o sistema abaixo. A entrada seria normalmente feita pelas escadas do lado esquerdo, existindo um outro nível acima deste:

Como é fácil perceber através de uma exploração pessoal deste segundo espaço, é muito maior que o anterior e tem muito mais para se ver, não só pela curiosidade mas também porque contém diversos vestígios arqueológicos expostos no seu interior.

 

[Editado: Nas últimas horas o conteúdo do link para as Galerias da Rua da Prata foi removido. Apesar do link original ainda estar mencionado aqui, ele já não funciona…]